sábado, 7 de abril de 2012

paralisado rosto.

Desenho anatómico
Vieira da Silva, 1926

Paolo Gioli, 2002


XIX
Tive muito frio na manhã do meio fevereiro.
Levantei a gola do casaco ao entrar no claustro. Quando 
passou por mim riu-se
ao modo mansinho e sacana de guardador de mortos:
"Chegaram dois
esta madrugada, de frio morreram
vão ter corpos bem frescos para cortar."


Os braços rígidos ao longo das ancas, pés enormes,
alto e imponente "belo animal" o homem.
Pernas redondas, tornozelos carnudos, os olhos à flor
do rosto, a língua parecia lamber os lábios gretados, a mulher.
Punhos cerrados, era a estátua de um pugilista caído sobre o
ringue - pedra de mármore, um veio rosado.
Lado a lado, cruamente iluminados pelos focos de uma
ribalta.


Pequena cabeça de pássaro. Paralisado rosto. Quisera vesti-la
com
um trapo recamado de ouro, pregas profundas, estrias de uma
pilastra. A testa
encimada por um loiro acobreado. Ele, uma casaca de côrte, calça
de fantasia
as pernas um pouco separadas   a porção do sexo desenhada
com cuidado
e vagar.   O longo abdutor do polegar - Grosse Fugue, eu
escutava.
Por isso lhe vesti casaca de côrte berlinense.
O grande dorsal ouvi-o por abertura; o grande peitoral distendeu-se
em mosso
moderato, o grande palmar     allegro
manchado de neve e de lama; e todo o braço, a fuga


um azul tão misterioso que lembrava o mar.


João Miguel Fernandes Jorge
in "Jardim das Amoreiras - vinte e cinco poemas para vinte e cinco estudos
anatómicos de Vieira da Silva", 2003

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