quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Intramundaneidade"


"... A intuição de uma obra de arte puramente estética cumpre-se mediante uma rigorosa suspensão de todas as posições intelectuais frente à existência e daquelas ligadas às emoções e à vontade pressupostas num tal posição. Ou melhor: a obra de arte nos transfere (e quase que nos obriga) a um estado de intuição puramente estética que exclui todas as demais posições. Quanto mais o mundo do que se toma por existente ressoa e vivamente nos envolve, quanto mais a obra de arte exige por ela mesma uma posição de existência (algo como uma aparência sensivelmente naturalista: a verdade natural da fotografia), tanto menos a obra de arte é esteticamente pura. (E isso diz respeito a todo tipo de “tendência”). A postura natural do espírito, da vida em sua atualidade, é toda ela “existencial”. Coisas que se colocam sensivelmente diante de nós, as coisas de que fala o discurso científico atual, são por nós postas como realidades e é sobre esse pôr-como-existente que se baseiam os atos (...) Tão logo a esfinge do conhecimento coloca a sua questão, tão logo olhamos para os problemas profundamente abissais da possibilidade de um conhecimento que, não obstante alcançado pelas vivências subjetivas, possa ainda assim vislumbrar e apreender uma objetividade existente nela mesma, a nossa postura relativa a todo conhecimento e a todo ser previamente dado – a toda ciência e a toda presumida realidade – altera-se radicalmente. Tudo se torna questionável, incompreensível, enigmático! O enigma só se resolve quando caímos por terra, quando todo o conhecimento é tratado como algo questionável, quando não se aceita nenhuma existência como simplesmente dada. Isso significa que toda ciência e toda realidade (incluindo a realidade do próprio eu) tornam-se mero “fenômeno”. "


Carta a Hugo von Hofmannsthal
Edmund Husserl, 1907








Sem comentários: