Fatale Beauté.

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"Calmos blocos aqui em baixo, caídos
de um desastre obscuro", talvez,
mas sem nunca o dizer. Dizendo apenas
os calmos blocos e a sua permanência."
Francis Ponge, Proêmes


"(...)  Violação da natureza, perda do mundo: errância do homem abafado pelo seu saber e pela sua arrogância, surdo à palavra silenciosa das coisas, cego à sua presença. No meio da enorme vastidão e quantidade de conhecimentos adquiridos por cada ciência, do número cada vez maior de ciências, estamos perdidos. A melhor coisa a fazer é, pois, considerar todas as coisas como desconhecidas e ir passear pelos bosques ou estender-se na erva e recomeçar tudo desde o princípio. Pollet aprendeu a lição de Ponge: desde Méditerrannée esforça-se por mostrar as coisas como nunca foram vistas, por arrancá-las à visão vulgar para reaprender a vê-las tais como em si mesmas, fora de qualquer significado, repousam e, mudas, nos falam. Os objectos que povoam Dieu Sait Quoi são libertados pela câmara de Pollet. Coisas "fora de uso" erguidas no centro do plano como estátuas que enrolam o mundo à sua volta, irradiando uma presença que impõe respeito e silêncio."
Cyril Neyrat, in"Uma Casca de Caracol Como Um Templo Grego", sobre "Dieu Sait Quoi", de Jean-Daniel Pollet (1993)

(imagem)
O talento de cada um vem da terra : é algo sagrado, tal como a peste que também vem da terra. 
Mitologia, linguística, psicologia, ideologia não esclarecem o poema. O poema é que, acidentalmente, pode esclarecê-las a elas. Mas não me parece ser este o seu propósito. O propósito do poema é esclarecer-se a si mesmo e nesse esclarecimento tornar viva a experiência de que é o apuramento e a intensificação. 
O poema inventa a natureza, as criaturas, as coisas, as formas, as vozes, a corrente magnética unificando tudo num símbolo: a existência.
A poesia não é feita de sentimentos e pensamentos mas de energia e do sentido dos seus ritmos. A energia é a essência do mundo e os ritmos em que se manifesta constituem as formas do mundo. 
Assim: 
a forma é ritmo
o ritmo é a manifestação da energia 





Em certo sentido prezável nunca há evolução. Esse sentido é o da fidelidade aos fundamentos da experiência - a aquisição de uma imagem do mundo. A experiência ulterior poderá ser considerada como apenas desenvolvimento "em linguagem". A poesia procura sempre exercer-se sobre essa massa central e sensível. Mas a experiência é somente um ponto de partida, núcleo sólido e contínuo onde assenta a experiência posterior da criação. A criação é assim o encaminhamento, até consequências simbólicas extremas, de uma experiência em si própria não organizada. O que se chama "descoberta do mundo" não possui, intimamente, coerência ou finalidade. É preciso constituir um corpo orgânico em que a experiência: um cosmos explícito, "objectural". A superação do caos exprime-se pelo encontro de uma linguagem. É na linguagem que a experiência se vai tornando real. Sem ela não há uma efectiva imagem do mundo.
O mundo repõe-se na qualidade de enigma jamais decifrado.
O mundo é a linguagem como invenção.
A escrita é a aventura de conduzir a realidade até ao enigma, e propor-lhe decifrações problemáticas (enigmáticas).
Helberto Helder, Photomaton & Vox

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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