"Crítica da Crítica Crítica."

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"... Nunca me diverti realmente a escrever para os Cahiers amarelos. (...) O prazer chegou no Libé, porque prazer implicava tomar consciência de que, se eu começasse a dizer "eu" e deixasse de dizer "nós", se eu largasse a "cena" dos Cahiers, era capaz - coisa que ninguém me tinha dito, que eu próprio não tinha adivinhado, que tinha reprimido, etc - de entreter pessoas, isto é, de fazer textos bastante complicados, com o exacto conteúdo dos textos dos Cahiers, uma vez que nunca comprometi isso. (...) Tive a sensação de um enorme adiantar de textos não escritos, de emoções não comunicadas, de pequenas histórias, que tinham ficado pendentes, que nunca tinham sido escritas... Por isso eu descobri - eu tive a ousadia, pela primeira vez na minha vida, de dizer que eu existo, e que a prova disso é que escrevo."
Serge Daney, in Itinéraire d'un ciné-fils, 1992


Pequena nota, em comentário a isto:
http://raging-b.blogspot.pt/2012/04/oi-ze-depois-de-censurarem-folha-sobre.html

Em tempos como este, vamos falar do valor da Cinemateca Portuguesa. Como instituição pública que é, não será tão diferente de nenhuma outra : agrupará pessoas com menor ou maior apego à causa que a sustém, desde o momento em que é fundada até hoje. Independentemente dos graus observáveis desta variação, e das fraquezas e mazelas mais pronunciadas, observáveis ao olho exterior, julgo eu que não há como lhe diagnosticar já a decadência : relativamente ao cenário rarefeito do cinema, em todo o território além Lisboa, o trabalho da Cinemateca tem permanecido excelente. E cada vez mais importante, porque cada vez mais isolado e mais resistente. E este feito é, em primeiro lugar, consequência de um compromisso interno (mesmo que não coeso), erguido diariamente por determinadas pessoas, que admiravelmente se parece manter, impermeável às mudanças por nomeação política de mérito questionável. E é, em segundo lugar, com certeza, fruto de um hercúleo espírito de sacrifício, um treino no engolir de sapos, no ignorar de certos caprichos de hierarquia, ou de certas idiotias da falta de espírito, somente para que se continue a alimentar o máximo que possa restar da tarefa em que se acredita, em vez de mais facilmente se bater com a porta, e assim entregar de uma vez o valoroso projecto aos lobos... É necessário renovar as camadas com sangue jovem. É necessário dar à energia dos que lá trabalham os meios para o exercício pleno do projecto maravilhoso que pode ser uma cinemateca. Espaço a incluir a liberdade de opiniões, a profusão crítica, a discussão aberta - o prosseguir de um espírito de construção, com o muito que haja a destruir pelo caminho. A assinalar os trinta e oito anos passados sobre o histórico Abril, se é francamente excessiva a facilidade do termo "fascismo" em relação à polémica que aqui se comenta, vem no entanto a propósito assinalar o quanto pode hoje fraquejar o exercício da liberdade que uma luta passada procurou atingir, e se não haverá necessidade de continuar essa luta hoje. A propósito deste caso de Mário Fernandes, que se demitia à mesma hora em que era despedido por ocasião de um estágio, várias questões se levantam; O seu gesto exterioriza a consciência das faltas ao espírito contestatário. Reflecte a necessidade da prevalência de uma identidade própria atrás do que critica o objecto artístico. Mas talvez valha a pena reflectir que fronteira  descura a vertente de projecto formativo que distingue a cinemateca; Que particular formato deve, por consequência, ser o da sua folha de sala; e que posicionamento deve ser essencial ao gesto de criticar, de modo a que melhor se exercite o colocar sob exame, ao invés de um mais estéril enumerar de defeitos. Curto estágio varrido pela firmeza visível dos ideais de quem crê num cinema diferente, e em particular, numa crítica diferente. Do outro lado, uma reacção de um incompreensível exagero.
Por aqui, guardo a data para uns pensamentos acerca da tolerância, e de outras faltas...


2 comentários:

Luís Mendonça disse...

A Cinemateca é uma instituição pública, sempre foi e se comportou como tal, sem com isso sacrificar na qualidade do seu serviço, um serviço de divulgação - mais do que de "crítica" - do cinema. (Ao contrário do que possa pensar, quem tem trabalhado mais nessa crítica, é alguma academia, mais até do que a mais comummente denominada crítica jornalística de cinema.)

A Cinemateca não é, também, uma instituição que deva estar imune à crítica -- já me acusaram de denegrir instituições por falar de factos, sem sequer ter recorrido a grandes qualificativos...

Uma revista, um blogue ou um site poderá funcionar com outra liberdade, dentro de um espírito mais contestatário e provocador. Não creio que se possa MUDAR a cinemateca por dentro, com "dinamite". Talvez possam mudar a Cinemateca, aí sim, através de uma acção externa, nomeadamente, através da proposta, tornada pública num blogue, revista... num filme!, de um novo olhar sobre o cinema e a escrita sobre cinema.

(A questão relativamente ao "estilo" do Mário é, contudo, um problema "institucional", já que, por muito que a Cinemateca se possa vir a mostrar "ofendida" ou "agredida" por ele, a verdade é que também foi ela, perfeitamente consciente da sua opção, que o quis integrar - ou integraram-no para o "domar"? Se sim, isso seria ainda mais grave... Ou seja, a crítica que fiz atrás não é dirigida, sequer em primeiro lugar, ao Mário, mas antes, à própria Cinemateca. Acredito, aliás, que se ganha muito com a crítica às instituições... Ganham elas e nós.)

De resto, bom 25 de Abril a todos! http://www.youtube.com/watch?v=xyN1A2IOtbA

Ricardo disse...

Trabalhei na cinemateca quase dois anos. Pensar que os textos do Mário seriam aceites é de uma ingenuidade enorme, pois fogem completamente ao habitual da instituição.

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