quinta-feira, 29 de março de 2012

crónica de um subir



Serra da Estrela, 11.3.2012

A radiância da luz enaltece as figuras e os lugares. Lá, onde a natureza domina, onde as montanhas se reproduzem para fora dos olhos. Cada lance desta subida guarda o quadro vivo adiante.  Quanta paisagem por ser vista. Por um momento, pareci crer que todo o cinema mora ali, do sopé ao cume, e daí até aos raios de sol. Oh, a divindade da matéria em cada um dos grãos de luz! Como não haveriam de brotar cowboys dos peitos dos jovens rapazes que correram com o horizonte por meta! Germinados na medida do excesso. Ser mais, ser de ontem e de amanhã, ser de sempre. Como não haveriam de brotar nos olhos as certezas de ali tudo querer ! Fantasias de altitude. Alucinações. O frio aquecido pelos copos. A força do fundo dos fados, arrebatados à melodia de uma voz de mulher. Ternura, a simplicidade das gentes deste vale de cobras. Os ferros torcidos à medida do homem louco, em forma de armaduras. Artesão amigo, tu que previste exércitos para as causas que a mais ninguém comovem. Batalhas de guerreiros desencarnados! Fantasmas de pátrias extintas! Junta-se o músico, adivinho, a cantar as errâncias. Suprema crença de caminhante, no seu peito de destino desacertado. Mãos de guitarra, olhos de riso. Acerca-te, aquece-te, bebe connosco. Ainda dura o whisky. Vem ver de perto como se revela o comum. Vi amizade de força, vi puro amor-cinema. Prossegue com a gente, romeiro. Estes são montes para música, são palcos para guerra, são terras de gerar cinema. São ditirambos, são delírios, são memorandos. São a nostalgia de uma harmónica de Dylan... E eu que em tempos ali estiquei os textos, tentando descrever a eternidade das rochas... Nunca como hoje assim soube da solidez, e foi pela companhia destes corações puros que a cheguei a ver...! Oh, o eterno que é da realidade ainda virgem ! Ali respirar de dentro cheio! A juventude de ser sobre as altas montanhas! Erguer pulmões plenos à brisa, travar no fôlego o ciclo dos ares sem fim, pertencer ao infinito num sopro... Como não contagiar esta arena com os tons épicos... Como não reagir com solenidade às matérias, como não admirar às rochas a presença, contornar cada vulto do que mais intimamente ali existe, do que tão nobre assim aparece... E eu sempre feliz, ali, entre a natureza e vós, meus Amigos...



Mário, José, Marta, Pedro, Maria, Rui, Jerónimo, Carlitos, Hugo, Pai Fernandes.

segunda-feira, 26 de março de 2012

''These are the days that must happen to you''

Bad Burns, Paul Scharits, 1982

Sangue.

 Le Sang d'un Poète, Jean Cocteau (1932)

Le Sang Des Bêtes, Georges Franju (1949)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Romeu e Julieta


Romeo, Julia a tma - Romeo, Julia and Darkness 

Jirí Weiss (1960)


GREVE GERAL


2012-03-22

lisboa


" Mas há alguma coisa que não seja real? Tudo é real. O problema é que há muitas realidades. O sonho é tão real como estar acordado.” De facto, nós sentimos efeitos físicos dos sonhos, dos desejos, dos medos, das esperanças. É tudo real. Digo-lhe mais, os mitos – e não estou a falar dos mitos gregos, que são arquétipos da realidade humana – são forças reais: não há nada mais mobilizador que um mito. O mito da greve geral dos trabalhadores é mobilizador. O mito de uma sociedade sem classes também mobilizou milhões de pessoas ao longo da história."
MANUEL ANTÓNIO PINA


Greve do ensino superior, 20 Março, Lisboa


- SUSPEITA DE QUE INFILTRADOS INDICIAM CONFRONTOS
Texto e fotos de ANONYMOUS LEGION PORTUGAL

(Rua Garrett)
Um fellow Anonymous deu a dica: "Aquele gajo tem petardos" , então foi-se tirar a foto. Quando se dá conta...
... Eles vinham com escolta! ...
Aqui, ficam três para trás, guardados pela polícia que ficou à espera um pouco atrás.
Nesta altura ouve-se um som de petardos vindos desta rua e a polícia bloqueou automaticamente a passagem.
Do lado esquerdo está um individuo no chão. Enquanto outros indíviduos (gostavamos de fotos) atiraram garrafas para a polícia.
ver 1.02

E aqui conversam em amena cavaqueira. É preciso dizer mais?



domingo, 18 de março de 2012

They live, we sleep.


this is your god.




THEY LIVE, John Carpenter (1988)

sábado, 17 de março de 2012

Há sucesso, há fracasso e vice-versa até ao fim.


Urashima Taro No Koei (A Descendent of Taro Urashima), Mikio Naruse, 1946


...
In the dime stores and bus stations
People talk of situations
Read books, repeat quotations
Draw conclusions on the wall
Some speak of the future
My love she speaks softly
She knows there’s no success like failure
And that failure’s no success at all


...




Love Minus Zero, No Limit by Bob Dylan (1965)

sexta-feira, 16 de março de 2012

STEREODOX - The Kiss is the direction

Hiroshima Mon Amour, Alain Resnais, 1959
Funny Face, Stanley Donen, 1957
Odetta - Waterboy 
(em "Bob Dylan - No Direction Home", Martin Scorsese, 2005)

terça-feira, 6 de março de 2012

Mudar de vida.

Mudar de Vida, Paulo Rocha (1966)

segunda-feira, 5 de março de 2012

''o que pode fazer um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos?'', Pedro Oom


Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luis José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego… Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma…) também já por cá passaram…) Viram? É horrível!… A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho… Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:

Peço uma esmola.

(...) Luiz Pacheco, A Vida e o Texto