quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Lei.

Jonas Mekas

Não sou criminoso, mas gostava de plantar rosas nas folhas de direito.
Não sou criminoso.
Já disse que aceito as leis.
Se me prenderem, aceito.
Se não me prenderem, também aceito.
Todos nós somos culpados de alguma coisa
por isso não é de estranhar se formos presos.
E também somos inocentes em relação a alguma coisa, por
isso também não é de estranhar se não formos presos.
Estou preparado para tudo.
A minha mão direita é inocente
a minha mão esquerda é culpada.
Há dias, no entanto, em que é ao contrário.
Porém, como não se pode prender só a mão direita ou a
esquerda, quando a lei actua, actua sobre o corpo todo.
Por isso, há sempre partes inocentes do corpo que estão na cadeia.
Se a mão direita cometeu um crime, a mão esquerda, essa,
não fez nada.
Prender as duas mãos é uma injustiça, mas seria ainda mais
cruel deixar em liberdade apenas a mão esquerda.
A lei e a sua aplicação divide-se, assim, entre a injustiça de
prender partes do corpo inocentes, e a crueldade de cortar
apenas as partes inocentes ou culpadas pare lhes dar o que
merecem.
(...)
Gonçalo M. Tavares, in "O homem ou é tonto ou é mulher"

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