terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Matters of Life and Death.





IVAN, O TERRÍVEL, SERGEI EISENSTEIN, 1944


sábado, 28 de janeiro de 2012

o olhos sem rosto.

"Nada lhe pertence mais do que os seus sonhos." Friedrich Nietzsche

Dr. Bill Harford: Are you sure of that? 
Alice Harford: Am I sure? Only as sure as I am that the reality of one night, let alone that of a whole lifetime, can ever be the whole truth. 
Dr. Bill Harford: And no dream is ever just a dream. 


"As figuras esfumadas do baile de máscaras tomavam conta da realidade e pairavam diante deles."
 "Exageraram levemente a atracção que os parceiros mascarados lhes despertavam..."


"O seu olhar não me procurou, mas eu brincava com a ideia de me juntar a ele na sua mesa e dizer-lhe: - Aqui estou, meu amor tão ansiado, meu querido. Leva-me contigo."

excertos de Traumnovelle, Arthur Schnitzler, 1926
stills de Eyes wide shut, Kubrick, 1999

I.
BILL: 
Deitada. A mão fechada sobre si guarda o Mistério. A vivacidade de olhos e gestos suspende-se;  Plena entrega às fronteiras do invisível. Do corpo, o mínimo. Uma mortificação, quase, não lhe fosse a respiração branda, o batimento lento. O sono dela, um meu não expresso tremor, como se... como se algum dia ela chegasse a... Pequena angústia pela ausência, a cada momento em que não te sei. Uma dor distante, descontrolada, fosse o teu sono um minúsculo ensaio para o vislumbre de qualquer outra falta... Ah soubesses tu... Como se o desejar-te não aceitasse menos do que a plenitude. Como se nem aqui, dormindo, a tua ausência me fosse suportável... Beleza. Desejo. Vida. O meu amor habita a vida que te anima. Quero estar vivo, quero viver no teu corpo. Quero estar tão no teu corpo, mapa seguro, tacto treinado, quero saber-te inteira. Quero abrir o teu corpo. Quero abrir o teu corpo e perceber o que te acende o brilho nos olhos. Quero abrir o teu corpo e conhecer o que compõe o teu espírito. Quero abrir o teu corpo e adiantar cada gesto teu, saber minuciosamente quanto me queres, dissecar a misteriosa fortaleza da tua alma, todas as linhas do teu encanto, as memórias preservadas, cada um dos teus sonhos. Quero que me ofereças o Mistério. ( Será sempre o mesmo, o Mistério, inominável dom que prende certos homens a certas mulheres, para lá dos confortos físicos? ) Pudesse eu ter-te, posse plena... minha mulher, minha casa, minha cama, let's fuck. Que a minha solidão seja sempre tua, esta é a minha privacidade: eu preciso de ti. Uma privacidade que se quer pública - o nosso casamento é a minha afirmação pública de que eu preciso de ti. Mas só eu e, espero, tu, sabemos o quanto, o como, eu preciso de ti.  Pudesse eu escolher não dormir, viver sem abdicar da vigília, nunca me entregar à inconsciência... Penso, recomeço a pensar, o coração bate, bate, bate, bate, o meu coração ainda bate, o teu coração ainda bate, o coração da pequena ainda bate, e a realidade é só isto -  ainda estamos, ainda nós, ainda o nosso tempo, ou o tempo dos nossos ritmos, por um momento, uníssonos. Como relaxar no meio deste momento? Ganhando sempre a consciência no combate com o cansaço, porque é limitado o corpo. Não falta o armário dos remédios e das ervas que me poderão enfim descansar. Sei tudo sobre a exaustão do corpo;  a minha profissão é ver de muito perto a morte. Vê-se a morte lentamente a espalhar-se no corpo, a adoecer à vez cada uma das partes; em tempo nenhum, os orgãos raquíticos quase no limite, e o contorcer-se dos minutos finais, e o pacificar-se na derradeira inércia. Depois, nada mais. - Eu que não suporto sequer que durmas meu amor. Como poderás duvidar? Se tu soubesses... Se soubesses em que dúvida se suspendem as horas até chegar - estará ela na nossa casa, com a nossa filha... não dormirá ainda, à espera que eu chegue... estará ainda viva...?  Se tu soubesses... O meu amor é a vida do teu corpo - para mim, és o único corpo da vida. É com este pessimismo que os curo da cura impossível. Todos eles, os outros, não passam das partes adoecidas de um corpo que carrega em si a morte, na calma do seu processo habitual de ir chegando... Vejo-a a levar a vida dos corpos todos os dias, mas a verdade é que nunca deixei de me surpreender.  Para o teu corpo, eu não prevejo nenhuma.

Victor Ziegler: Life goes on, until it doesn't. 
II.
ALICE : 
Não é tanto uma monotonia. Nem é uma descrença, nem uma dessas índoles que tendem para a insatisfação constante. Não é sequer um excesso de conforto material, a dar para o destrave dos delírios, sem um fundo de ligação à realidade, sem um apego ao passado do presente, à história que dá a vida a cada uma das coisas.  Não sei como se explicam os ímpetos. Como te explicar este meu apego aos sonhos. A fome de desconhecido. O corpo abandonado à novidade pura,  algo como uma reinvenção do existir, um recomeço breve... 
Percebe a necessidade da minha ausência - a minha imposição de mim. O sublinhado dos meus próprios contornos. Lembrando que no encaixe físico se encontram dois corpos. Eu sou o outro corpo.  Nascida de um outro ventre, crescida com o quer que seja que me fez reflectir. Uma personalidade a materializar-se durante os vinte e cinco anos em que nem me sabias na terra - vinte e cinco anos de distância até à hora em que nos conhecemos. Por mais fundo que seja o enlace dos corpos e dos espíritos, a soma dos nossos orgãos e membros é clara, não deixa dúvidas : são sempre dois corpos deitados nesta cama. A repetição dessa cena nocturna, o momento uníssono de descanso na nossa cama, no nosso quarto, na nossa casa, é a disposição física que a cada dia se repete, para acrescentar um presente à nossa história em comum. 
Mas... como não abandonar o sonho a um rosto diferente ...  ao desejo de outro corpo... de outra cama? Reflectir, à entrada da segunda metade da vida - voltar a escolher tudo o que se trouxe da primeira metade. Tudo porque esta cara, este corpo, estão a cair. Ao espelho, não há como não recordar a juventude das possibilidades não gastas - cada olhar que suspendeu um convite, cada proposta de sedução, cada vontade não consentida... Celebrar a memória que habita o corpo que não pára de cair. Celebrar o que permanece no corpo dessa juventude em fuga. Celebrar o corpo. Celebrar a sua acção, a vida - Celebrar a aparição de um brilho, um ânimo, um entusiasmo, nos olhos do outro rosto.  Uma máscara, uma alucinação de erva, ... o mesmo alívio do fardo da identidade.




Anemone, Philippe Garrel, 1967



domingo, 22 de janeiro de 2012

Only two things exist: Love and death, nothing more.

1
You dreamt of a beloved hand
That could break your chains.
A sudden murmur shatters
The silence of your joyless house.
You leave now, your heart
Overflowing with tenderness
Toward your beautiful dream of happiness.

A new lucidity in your heart
Has filled your life with warmth.
Troubled, you keep watch over your love
But your happiness is without peace.
Among all those people who ignore it.

Your dream is finished. Only the truth remains.
Hard as stone, To that you were always faithful.
Deep is your suffering, pure is your heart
While the night encircles you.

Spring and winter pass
Back in the town of your birth.
Here you are, alone and old
And far from your memories.
This one must know: To be able to grow old gracefully
Only two things exist: Love and death, nothing more.

GERTRUD, DREYER, 1964


LOS, James Benning, 2004


Fire & Rain - James Benning ( Viennale 2009 )

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

manutenção.



Milestones, Robert Kramer, 1975


"A morte continua a ser inacreditável. É uma espécie de milagre mau, milagre invertido ou milagre do avesso, que infelizmente insiste em repetir-se geração após geração. Mas é sempre uma surpresa, apesar deste elemento estatístico que nos dá a ilusão de normalidade; porém morrer não é normal, não pode ser! Quando aceitarmos que a morte pertence ao quotidiano é porque já deixámos cair do bolso da alma qualquer coisa de fundamental; uma espécie de indignação existencial, talvez. A morte vem aí, mas eu protesto, todos protestamos. Não nos indignamos por ter nascido, mas indignamo-nos por morrer. De facto, não é digno, não é honrado, dar e tirar. Sentimo-nos dentro de uma fraude. Como que enganados no negócio de existir. " 
Gonçalo M. Tavares

Lei.

Jonas Mekas

Não sou criminoso, mas gostava de plantar rosas nas folhas de direito.
Não sou criminoso.
Já disse que aceito as leis.
Se me prenderem, aceito.
Se não me prenderem, também aceito.
Todos nós somos culpados de alguma coisa
por isso não é de estranhar se formos presos.
E também somos inocentes em relação a alguma coisa, por
isso também não é de estranhar se não formos presos.
Estou preparado para tudo.
A minha mão direita é inocente
a minha mão esquerda é culpada.
Há dias, no entanto, em que é ao contrário.
Porém, como não se pode prender só a mão direita ou a
esquerda, quando a lei actua, actua sobre o corpo todo.
Por isso, há sempre partes inocentes do corpo que estão na cadeia.
Se a mão direita cometeu um crime, a mão esquerda, essa,
não fez nada.
Prender as duas mãos é uma injustiça, mas seria ainda mais
cruel deixar em liberdade apenas a mão esquerda.
A lei e a sua aplicação divide-se, assim, entre a injustiça de
prender partes do corpo inocentes, e a crueldade de cortar
apenas as partes inocentes ou culpadas pare lhes dar o que
merecem.
(...)
Gonçalo M. Tavares, in "O homem ou é tonto ou é mulher"

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Purifica o teu pensamento / Liberta-o das coisas inúteis.


MOSES UND ARON, STRAUB & HUILLET (1975)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Vishnevetsky sobre Tree of Life.






" ...Looking at just this first reel of the film, it becomes obvious that if The Tree of Life is set anywhere, it isn’t in Waco or in Penn’s memory, but in a constructed collective dream-state, in a sub-conscious with no conscious, where the disparate memories of individuals, animals and the landscape itself are repurposed like B-roll footage. Repurposed, it should be said, by Terrence Malick, the film’s invisible protagonist, a reclusive Old Testament God who molds characters in His own image so that they can suffer and then marvel at the beauty of His creation.
(...) For all of its pretensions of fleeting-moment intuitiveness, Malick’s style is thoroughly artificial. The camera trains itself on stray rays of light passing over costumed actors while carefully-picked and rehearsed extras (The Tree of Life has got to have the most finely-choreographed background action of any film made in the last decade) and vintage cars go about their business. Malick has never directed a film that wasn’t a period piece, and even in The Tree of Life’s modern episodes, he seems to be constructing a facsimile of modern life—choked up with cellphones, elevators, glass and steel—more than filming the reality around him. He is a realist in the old Bazinian sense, in that he constructs an unbroken, heightened reality within the frame; as much as his style prizes chance and the uncontrollable forces of nature—clouds, water, sunlight—it relies even more heavily on careful production design and research.
The Tree of Life is arranged into movements, the significance of which is only occasionally obvious (as in the "birth of the universe" movement), but for the most part is so obscure that it borders on arbitrariness. And yet the one thing that is always clear is that these parts are definitely arranged according to some logic; the film resembles an ancient artifact whose purpose can never be fully understood.



(...) Malick's intersubjective epic—set in inner, not outer, space—is a creation myth in the guise of a crypto-autobiography. It toes pop Brakhage territory, explores Finnegans Wake, Jr. territory and—most importantly—travels further into Malick territory than any other film, and in the process becomes an odd objet d'art: inscrutable, composed of enigmatic variations, full of suggestive themes that probably only its director fully understands.
Instead of looking for the universal in the specific (which Malick's supporters tend to portray him as doing), it hoists its specifics up on supports of old-fashioned universality (which is what Malick—a romantic, a man of the 19th century—really does).
(...) With The Tree of Life, it becomes clear that when Malick has sought to express human smallness—placing his characters within landscapes and historical periods that operate independently of them—it's always been his own, an overpowering smallness that he imposes on to his characters and sets.
(...) It's an apocalypse. Malick has constructed a universe of his own from memory; he even goes as far as to show its creation, giving all of the animals the capacity to do violence and imbuing all of the humans with remorse. And since this universe exists only for the purposes of The Tree of Life, as the movie ends, it must too. "
IGNATIY VISHNEVETSKY in The Tree of Life- A Malickiad, Mubi Notebook, 26 Maio 2011

bene vixit qui bene latuit*

* eu vivi bem porque o meu esconderijo era bem escolhido.


LE RÉVÉLATEUR, PHILIPPE GARREL, 1968
Os Dois Soldados, João César Monteiro, 1979