trilogia Vengeance

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programação serralves

ARTE, POLITICA, GLOBALIZAÇÃO - CINEMA


18 JAN - 17 MAR 2011 - AUDITÓRIO
Activismo, cidadania, revolução, utopia, democracia, comunidade, são alguns dos conceitos subjacentes a este programa, estruturado de modo a incluir diferentes formatos – conferências, seminários, conversas, sessões de cinema e projectos performativos – na perspectiva de constituir uma plataforma de pensamento e de acção que cruza fronteiras disciplinares, geográficas e teóricas, sublinhando a relevância do político nas práticas artísticas na actualidade.

"Arte, Política, Globalização" é um programa integrado na Exposição "Às Artes, Cidadãos!", com programação de Cinema, Conferências, Mesas-redondas, Música, Performance, Seminários e Teatro. Para consultar a programação de Música, Teatro e Performance, por favor clique aqui. Para consultar a programação de Conferências, Mesas-Redondas e Seminários, por favor clique aqui.



"LA COMMUNE (PARIS, 1871)", Peter Watkins, 345’, 1999
18 JAN 2011(Ter),18h30 e 21h30 - 1ª e 2ª sessões e 19 JAN 2011(Qua), 18h30 e 21h30 - 3ª e 4ª sessões

Filme-laboratório, orquestrado por Peter Watkins com mais de 200 actores (a maioria nãoprofissionais), "A Comuna" explora os acontecimentos históricos da Primavera de 1871 em Paris, não numa perspectiva comemorativa, mas sim para levantar questões acerca do tempo presente, com particular incidência no papel dos mass media na nossa sociedade.
Para mais informações por favor consulte http://pwatkins.mnsi.net/commune.htm. Esta sessão contará com a presença de Patrick Watkins e Jean-Pierre Le Nestour (Associação Rebond Pour La Commune). O filme é apresentado em 4 sessões, legendado em inglês.

"DISOBBEDIENTI", Oliver Ressler & Dario Azzellini, 54’, 2002.27 JAN 2011 (Qui.), 18h30

"WHAT IS DEMOCRACY?", Oliver Ressler, 118’, 200927 JAN 2011 (Qui.), 21h30

Oliver Ressler é um artista sediado em Viena, Austria, cujo trabalho foca diversos temas sociopolíticos, tais como o racismo, as migrações, a engenharia genética, a economia, as formas de resistência e as alternativas sociais. Vários dos trabalhos resultam de colaborações, tais como Disobbedienti e Comuna Under Construction, com Dario Azzellini ou What Would It Mean to Win?, com Zanny Begg. Para mais informações por favor consultehttp://www.ressler.at/ . Estas sessões contarão com a presença do artista Oliver Ressler.


"COMUNA UNDER CONSTRUCTION", Oliver Ressler & Dario Azzellini, 94’, 2010
"SOCIALISM FAILED, CAPITALISM IS BANKRUPT. WHAT COMES NEXT?" Oliver Ressler, 19’, 2010
28 JAN 2011 (Sex.), 18h30

Estas sessões contarão com a presença do artista Oliver Ressler.


"QU’ILS REPOSENT EN RÉVOLTE (DES FIGURES DE GUERRES)", Sylvain George, 150’, 2010
29 JAN 2011 (Sáb.), 16h00

As condições de vida dos imigrantes em Calais, no norte de França. Uma população em trânsito, filmada ao longo de um período de três anos(2007-2010). O filme revela como a polícia se excede para além da lei. Refugiados, excluídos, imigrantes ilegais e também desempregados são tratados como criminosos, despidos e violentados nos seus mais elementares direitos, reduzidos ao estado de “meros corpos”.

Esta sessão contará com a presença do realizador.


"THIS DAY (AL YAOUM)", Akram Zaatari, 90’, 200330 JAN 2011 (Dom), 18h30

Akram Zaatari explora a condição do Líbano do pós-guerra, recolhendo testemunhos e documentos, focando em particular a mediação dos conflitos pela televisão, e a lógica de Resistência no contexto da actual divisão territorial do Médio Oriente.
"ALL IS WELL ON THE BORDER", Akram Zaatari, 43’, 1997
"IN THIS HOUSE", Akram Zaatari, 30’, 2005
"NATURE MORTE", 11’, 2007
30 JAN 2011 (Dom.), 21h30

Estas sessões decorrerão com a presença da artista.

"THE CROWD", King Vidor, 98’, 19281 FEV 2011 (Ter.), 18h30

Pedro Costa foi convidado a apresentar uma escolha pessoal de filmes no âmbito deste programa. "A Multidão", de King Vidor, retrato do fracasso do sonho americano através da vida de um cidadão anónimo da classe média, e a "Nova Babilónia" de Kozintsev e Trauberg, reconstituição da Comuna de Paris vivida por modestos empregados de um grand magasin de Paris, ambos filmes de finais da década de 1930, a (re)descobrir absolutamente. "Número Zero", de Jean Eustache, é possivelmente o seu filme mais radical: o relato por Odette Robert, a avó cega do cineasta, das suas memórias da vida na aldeia, perturbante pela dura realidade das relações humanas evocadas mas também pela ascética realização. com a presença de Pedro Costa.

"NOVYY VAVILON", Grigori Kozintsev & Leonid Trauberg, 93’, 19291 FEV 2011 (Ter.), 21h30

"NUMÉRO ZÉRO", Jean Eustache, 107’, 19712 FEV 2011 (Qua.), 21h30

Estas sessões contarão com a presença de Pedro Costa.

"MANNMUSWAK", Patrick Bernier e Olive Martin, 2005, 16’
"LA NOUVELLE KAHNAWAKÉ", Patrick Bernier e Olive Martin, 2010, 42’
6 FEV 2011 (Dom.), 16h00

Os filmes de Patrick Bernier e Olive Martin despertam inquietantes interrogações em torno das noções de identidade e de fronteira, agudizadas no seio das populações minoritárias em luta pela sobrevivência, quer se trate de um imigrante africano em Mannmuswak ou de Índios nativos de uma reserva Canadiana em La Nouvelle Kahnawaké.

Esta sessão decorrerá com a presença dos artistas.


"ENQUÊTE SUR LE /NOTRE DEHORS (espaces de friction avec une normalité inquiétante)", Alejandra Riera, 160’, 2003-200711 FEV 2011 (Sex.), 16h00

Alejandra Riera levou a cabo entre 2003 e 2007 uma pesquisa sobra a normalidade, em parceria com a Companhia teatral UEINZZ, sediada em São Paulo, composta por doentes mentais, terapeutas, filósofos e actores. "Enquête Sur Le/Notre Dehors" foi apresentado na Documenta 12 de Kassel. A experiência prossegue em São Paulo, no Brasil, em 2009, numa residência da UEINZZ, documentada em "Histoire(s) Du Présent". 11 FEV, 21h30

"HISTOIRE(S) DU PRÉSENT", Alejandra Riera, 110’, 2007-200911 FEV 2011 (Sex.), 16h00

Estas sessões decorrerão com a presença da artista.


"EAST OF PARADISE", Lech Kowalski, 105‘, 200513 FEV 2011 (Dom.), 16h00

A atenção dada em toda a obra de Lech Kowalski aos pobres, aos oprimidos e aos marginais nasce de uma profunda desconfiança em relação a toda e qualquer forma de poder. Em "East of Paradise", último filme da trilogia “A Arte da Sobrevivência”, Kowalski junta o testemunho da mãe, deportada num campo de trabalho Soviético no princípio da 2ª Guerra Mundial e imagens dos seus filmes anteriores, situados na Nova Iorque underground e contestatária dos anos 1970 e 80. Para mais informações por favor consulte http://www.extinkt.com/

"D’AMORE SI VIVE", Silvano Agosti, 90’, 198213 FEV 2011 (Dom.), 18h30

Uma pesquisa acerca da ternura, da sexualidade e do amor. A ternura sem sexualidade e amor produz hipocrisia. A sexualidade sem ternura e amor produz pornografia. O amor sem ternura e sexualidade produz misticismo. Rodado na cidade de Parma, este documentário de Silvano Agosti (inicialmente uma série de cerca de 9 horas para a televisão) examina nos seus ínfimos pormenores os modos do amor, em particular entre os mais frágeis, os excluídos, os mal-amados. Para mais informações por favor consulte http://www.silvanoagosti.com/

"FACS OF LIFE", Silvia Maglioni e Graeme Thomson, 116’, 200915 FEV 2011 (Ter.), 21h30

20 horas de registos das aulas de Gilles Deleuze em Vincennes (1975-76) difundidas no programa "fuori orario" na Televisão Italiana deram o mote Silvia Maglioni e Graeme Thomson para "Facs of Life" e "Through the Letterbox". Em "Facs of Life" cruzam-se encontros com alguns dos seus alunos de então, imagens do local onde outrora se erguia a universidade e as novas instalações, e os fantasmas de revolução, sido apresentado na Europa e nos Estados Unidos, na Bienal de Whitney Biennial, na Bienal de Liverpool, no Stedelijk Museum (Amesterdão), na Tate Modern, e em festivais como o Ultima (Oslo), Donaueschingen Musiktage, Ars Electronica (Linz), Wien Modern, Maerz Musik (Berlim) ou Mutek (Montreal), entre outros. Colaborou com a Merce Cunningham Dance Company e editou discos com as chancelas Charhizma, Softl, Room 40 e Innova. Em Abril irá apresentar um trabalho paralelo a "rainbow gathering" no MoMa, em Nova Iorque.

"HANDSWORTH SONGS", John Akomfrah, 61’, 1986
"MNEMOSYNE", John Akomfrah, 45’, 2010
24 FEV 2011 (Qui.), 21h30

John Akomfrah co-fundou o "Black Audio Film Collective" em 1982, cujo trabalho foca as questões ligadas à identidade Negra na Grã- Bretanha, procurando formas novas para tratar o tema. O "Black Audio Film Collective" dissolve-se em 1998, tendo Akomfrah prosseguido a sua obra individual desde então, até ao recente "Mnemosyne". Os seus filmes trabalham as questões da memória e do arquivo.

Esta sessão contará com a presença de David Lawson, produtor.

"IN PLACE OF CAPITAL", Zachary Formwalt, 2009, 24’30’’
"AT FACE VALUE", Zachary Formwalt, 2008, 22’30’’
"THE WITNESS", Zachary Formwalt, 2006, 15’35’’
25 FEV 2011 (Sex.), 18h30

As imagens do poder são o motivo central do trabalho de Zachary Formwalt, quer quando examina as fotografias da Bolsa de Londres, por Talbot, ponto de partida para uma reflexão sobre a história paralela da fotografia e do capitalismo em "In Place of Capital"; ou estuda o valor dos selos postais nos anos 1920, signos da instabilidade económica que levaria à Grande Depressão, em "At Face Value"; ou ainda quando perscruta as imagens e o guião dos interrogatórios de Guantánamo disponibilizados no site do Departamento de Defesa Norte-americano, em "The Witness".

Esta sessão decorrerá com a presença do artista.

Black Panthers (programa a anunciar)1 MAR 2011 (Ter.), 18h30

Uma selecção de filmes em torno da história dos Black Panthers, incluindo documentos dos primeiros anos do Partido fundado por Bobby Seale e Huey P. Newton, assim como o recente "In the Land of the Free". Emory Douglas e Robert King, membros destacados do Partido, assim com Billy X Jennings, historiador dos Black Panthers, e Rigo 23, artista presente na Exposição "Às Artes, Cidadãos!" estarão presentes para revisitar aquele que foi sem dúvida um dos mais radicais e importantes grupos activistas americanos do século XX. Programa apresentado em colaboração com a exposição “all power to the people”, ZDB.

"IN THE LAND OF THE FREE", Vadim Jean 84’, 20101 MAR 2011 (Ter.), 21H30

Esta sessão contará com a presença de Emory Douglas, Robert King, Billy X Jennings e Rigo 23.


Black Panthers (programa a anunciar)
2 MAR 2011 (Qua.), 18h30 e 21h30


"FACE A, FACE B", Rabih Mroué, 10’, 2002
"WITH SOUL, WITH BLOOD", Rabih Mroué, 10´, 2003
"I, THE UNDERSIGNED", Rabih Mroué, 7’, 2003
"ON THREE POSTERS", Rabih Mroué, 18’, 2004
"OLD HOUSE", Rabih Mroué, 2’, 2006
"I HAD A DREAM, MOM", Lina Saneh, 45’, 2006
6 MAR 2011 (Dom.), 16h00

Os filmes de Rabih Mroué e Lina Saneh, em continuidade com o seu trabalho performativo, reflectem sobre as marcas dos conflitos no Líbano, inscritas nas narrativas e nos corpos filmados. Recorrendo a todo o tipo de materiais, testemunhos de combatentes suicidas em "The Three Posters", o relato pormenorizado de um sonho, em "I Had a Dream", "Mom" ou a viagem de uma canção, de Cuba até à URSS.

Esta sessão contará com a presença dos artistas.


"FILM SOCIALISME", Jean-Luc Godard, 101’, 20106 MAR 2011 (Dom.), 21h30

Uma sinfonia em três movimentos. Um navio no mediterrâneo e algumas conversas, em diversas línguas, entre passageiros, quase todos em férias. Um velho criminoso de guerra (alemão, francês ou americano?) acompanhado de sua neta. Um jovem filósofo francês (Alain Badiou). Um representante da polícia de Moscovo. Uma cantora americana (Patti Smith). Um velho policial francês. Uma ex-funcionária da ONU. Um agente aposentado. Um embaixador palestino. No fundo, discutem a falência das ideologias de esquerda no início de século 21.

"FILM SOCIALISME", Jean-Luc Godard, 101’, 2010
7 MAR 2011 (Seg.), 21h30 (repetição)

TODAS AS SESSÕES TERÃO LUGAR NO AUDITÓRIO DE SERRALVES.
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DESTINO > ORDEM
"O homem enfeita-se com a sua sorte". 
Paul Valéry







Das Nuvens à Resistência, Straub/Huillet, 1979


"A  heroicidade do poeta está em dissolver a ordem do mundo sem entrar nas suas guerras, conduzir ao recolhimento, pelo poder do canto, os homens semelhantes aos deuses, raça solitária, os próprios deuses e o coro dos príncipes."
"Ao poeta, tomam-no pelos cabelos os senhores dos céus (...) A passagem do poeta ao canto - o acto alquímico da transmutação dos vivos em destino poético..."
MARIA FILOMENA MOLDER in "DIA ALEGRE, DIA PENSANTE, DIAS FATAIS", 
Lógica Poética - Friedrich Holderlin




PREVISÃO > RECORDAÇÃO
| "figura única" | 

... No poema não pode ele viver e permanecer;
Ele vive e permanece no mundo.
Holderlin, final do poema "Buonaparte"


Como começaste, assim hás-de ficar,
Por mais forte que seja a necessidade
E a disciplina; é que o que mais pode
É o nascimento
E o raio de luz
Que atinge o recém-nascido.
Holderlin


"A natureza ama ocultar-se" | "o nascimento gosta de esconder-se."
traduções do fragmento 14 de Heráclito













Tarnation, Jonathan Caouette, 2003




VIR A MUNDO > SER ESPERADO POR > VOCAÇÃO DE >
(...) Qual é o lugar do poeta - neste caso, Baudelaire - para Benjamin? É aquele que na sua obra pode dar a ver a imagem da vida? Porque a sua função não é nem a do comentário nem a da crítica.
O poeta não entra na relação entre o químico e o alquimista. Essa relação é a do leitor. Por isso o subtítulo do livro é "Benjamin, leitor de Baudelaire". Benjamin diz que as obras de arte, os poemas, são como pessoas muito atraentes e secretas. Para as conhecermos teríamos de exercer violência sobre elas; mas abstemo-nos de o fazer e perguntamo-nos se essas pessoas não têm familiares (irmãos e irmãs) a quem fosse possível fazer perguntas. Ele diz que esses irmãos e irmãs se encontram nos problemas filosóficos. Considera que os poemas da filosofia estão relacionados uns com os outros e podem constituir uma unidade, mas que não podemos chegar a exprimi-la. A essa falta de possibilidade chama ele ideal do problema.



A pergunta sobre a unidade não pode ser feita ou não tem resposta?
Não pode ser feita porque não tem resposta. Mas o facto de não poder ser respondida não invalida que ela ocorra e tenha a sua fertilidade. Qual será o acesso a essa pergunta inexistente? O acesso é-nos dado pela obra de arte. Não é que a obra de arte concretize o ideal do problema. A obra tem nela própria o ideal do problema enterrado, daí o comentário poder ser visto como um desenterrar. O que implica, no pensamento de Benjamin, uma relação muito profunda entre arte, poesia e filosofia. No fundo, a actividade filosófica exercita-se no reconhecimento das obras de arte e da poesia. A poesia de Baudelaire representa para Benjamin um modo de tocar a raias da vida, o que passa por cima do conceito, da argumentação. O poeta do século XIX canta a cidade, mas já não é ouvido. Há um desajustamento entre a actividade poética e o modo como as forças sociais e económicas se desenvolveram, em particular cristalizadas na teoria do progresso. A criatividade humana, se não contribuir para a utilidade da existência, no que concerne à sua sobrevivência, não é considerada, ou é mesmo rejeitada.
Porque a pergunta que se impõe é: para que serve?
A partir de certa altura, poético começou a querer dizer inexacto, irreal, desnecessário, absurdo, inconsistente. Isto diz qualquer coisa sobre a compreensão do que é a poesia por parte daqueles que, em geral, não a lêem. Pensemos num poeta do século XVI, Tasso. Foi muito lido, reconhecido pelos poderes estabelecidos que lhe pagavam a existência (o duque de Ferrara em particular), mas recusou a coroa de louros. Petrarca, poucas dezenas de anos antes, tinha aceitado. Rilke considera que com Tasso começa, em termos de poesia, a época moderna. A coroa de louros era a aceitação por parte do poeta desse reconhecimento exterior. Tasso teve consciência de que esse reconhecimento não acertava com a intimidade do poeta. Temos uma equivalência disto em Baudelaire, cheia de humor, na auréola do poeta que cai na lama. E que ele não apanha.
"A arte não salva a nossa noite, a arte ilumina a nossa noite como as estrelas, as ideias. Iluminar, porém, não só não é despiciendo, como é indispensável". O lugar da poesia é este?
É impressionante essa carta de Benjamin a Florens Christian Rang, em que faz uma distinção entre a arte e a vida a partir dessas imagens da noite e do dia. As obras de arte pertencem à nossa noite, como estrelas. Não nos salvam. Para nos salvar da noite só o nascer do dia. É aí que se insere a acção histórica. Benjamin tem a este respeito uma posição paradoxal. A noite retorna. E tudo o que ela arrasta - o nosso lado sombrio. É a nossa natureza que escapa à história. Estar diante do abismo é ser moderno em sentido excêntrico (como ele diz). Essas imagens de abismo e noite são qualquer coisa que pertence ao ser humano e que está para além da redenção. A arte não redime.
Mas é indispensável que ilumine. Se não, seria o breu total.
Exacto. Esse brilho não é equivalente à salvação. O coração da arte não é salvar a vida humana. Há quem sofra por causa disso. Hermann Broch, Jorge de Sena também. Sabe que a arte não redime a angústia de viver. Em Benjamin não vemos essas graves perturbações. Só vemos o paradoxo.
A poesia pode ser vista como uma tradução da vida?
Benjamin nunca usa essa expressão para especificar a passagem da vida à poesia. Pensa na tradução como a passagem de uma língua para outra numa relação de vida, redentora. Em texto anterior (que ele desenvolve a partir do Génesis), a linguagem humana da nomeação é já uma forma de tradução. É interessante que não volte a retomar esse conceito de tradução. Talvez porque ela, à luz desse texto, só se possa fazer de uma linguagem inferior para uma superior, da linguagem das coisas para a linguagem humana. Antes da expulsão do Paraíso, é difícil conceber Adão como humano, porque não nasceu. O nascimento é um acontecimento pós-paradisíaco. Nietzsche retoma em "O Nascimento da Tragédia" uma ideia que está presente em textos muito antigos (védicos e gregos) da separação do todo, da individuação. É uma concepção de justiça mítica, de culpa natural, que Benjamin recusa liminarmente. Ele tem a tese de que fomos esperados na Terra.
Que entronca numa expressão que se usa: a mãe está a espera de bebé.
Sermos esperados na Terra implica um dever de rememoração em relação aos que nos esperaram. Os nossos pais e todos os outros. Isso significa que todo o sentido da vida humana tem a ver com a transmissão. Por isso é que a linguagem é sempre a que passa de pais para filhos. É a linguagem em que nos banhamos desde que nascemos, e não uma linguagem construída.   
(...) O fogo-de-artifício de Maria Filomena Molder, Ipsilon 18.05.2011, entrevista de Anabela Mota Ribeiro
... Cada um de vós é um mundo, como estrelas do céu
Vós víveis, um deus cada qual, juntos em livre união.
Pudesse eu tolerar a servidão,  já não invejava
Este bosque e bem me amoldava à vida em comum.
Não me prendesse já à vida em comum o coração
Que não deixa de amar,
Como eu gostava de morrer entre vós!
excerto de "Os Carvalhos" in "Poemas", Holderlin




India Song, Marguerite Duras

aguarela de DALI sobre La Divina Commedia de Dante




autor desconhecido




CORAÇÃO > VERDADE EM VIDA


"O coração não é só uma víscera tenra. Há um sistema moral algures na parte mole do corpo." Gonçalo M.Tavares in "Um Homem: Klaus Klump" 


"I said I love. That is the promise. Now, I have to sacrifice myself so that through me the word 'love' means something. As a reward, at the end of of this long undertaking, I will end up being he who loves. That is, I will merit the name I gave myself. A man, nothing but a man, no better than any other, but no other better than he." Godard


CAOS SAGRADO. 
"Quando era menino | Salvou-me um deus muita vez."
HOLDERLIN


"... pura hybris, o poeta oferece o corpo, as suas mãos - é tudo, é muito e apenas o que tem - e ainda a ajuda que lhe vem da ausência de deus..."
MARIA FILOMENA MOLDER in "DIA ALEGRE, DIA PENSANTE, DIAS FATAIS", Lógica Poética - Friedrich Holderlin



"O "estilo de velhice" não é sempre um efeito dos anos. É um dom implantado no artista conjuntamente com os outros seus dons, amadurecendo talvez com o tempo, florescendo muitas vezes antes de tempo, sob os signos premonitórios da morte, ou desdobrando-se por si próprio antes da chegada da idade ou da morte..." 
Broch, "The style of the mythical Age. Einlung zu Rachel Bespaloff Iliade"


May you build a ladder to the stars
And climb on every rung.
May you stay forever young
BOB DYLAN
Jehson Baak
Desiree Doiron







autor desconhecido


NOMINARE. TERRA. 
PERTENÇA > VIDA, HERANÇA, TRABALHO, PÁTRIA.
"O cadáver está condenado à terra. 
A terra está condenada ao cadáver."
Gonçalo M. Tavares in "Um Homem: Klaus Klump"


"No princípio, Eurínome, Deusa de Todas as Coisas, brotou nua do Caos, mas não vendo substância em redor onde firmar os pés, apartou do céu o mar, dançando solitária por sobre as suas ondas. Ao dançar para sul, descobriu no vento, que se soltava por trás de si e a cada passo seu, qualquer coisa de novo e distinto com que iniciar um acto de criação."
excerto de "O Mito Pelásgico da Criação", in Os Mitos Gregos, de Robert Graves 



















  





Das Nuvens à Resistência, Straub/Huillet, 1979


LUCIDEZ > RESISTÊNCIA

"Não há nada de mais admirável do que um lúcido vivo."
Mariana Gonçalves Pereira

"Demoremo-nos junto do dia pensante que não abandona Holderlin, e citando Pão e Vinho / Brot und Wein: Tu amas mais do que ela o dia lúcido (der bersonnene Tag). Quem é ela? A noite, a misteriosa, a sonhada, a admirável, a estrangeira, a sublime, noite, triste e faustosa." MARIA FILOMENA MOLDER IN "DIA ALEGRE, DIA PENSANTE, DIAS FATAIS",  Lógica Poética - Friedrich Holderlin


Eucharist, Nicolas Poussin






"L'alcool a été fait pour supporter le vide de l'univers, le balancement des planètes, leur rotation imperturbable dans l'espace, leur silencieuse indifférence à l'endroit de votre douleur; l'homme qui boit est un homme interplanétaire. C'est dans un espace interplanétaire qu'il se meut. C'est là qu'il guette. L'alcool ne console en rien, il ne meuble pas les espaces psychologiques de l'individu, il ne remplace que le manque de Dieu. Il ne console pas l'homme. C'est le contraire, l'alcool conforte l'homme dans sa folie, il le transporte dans les regions souveraines où il est le maître de sa destinée..." Marguerite Duras, La Vie matérielle


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La Grande Illusion, Jean Renoir (1937)


SHELTER FROM THE STORM.
BOB DYLAN

I was in another lifetime one of toil and blood
When blackness was a virtue and the road was full of mud
I came in from the wilderness a creature void of form
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

And if I pass this way again you can rest assured
I'll always do my best for her on that I give my word
In a world of steel-eyed death and men who are fighting to be warm
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

Not a word was spoke between us there was little risk involved
Everything up to that point had been left unresolved
Try imagining a place where it's always safe and warm
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

I was burned out from exhaustion buried in the hail
Poisoned in the bushes and blown out on the trail
Hunted like a crocodile ravaged in the corn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

Suddenly I turned around and she was standing there
With silver bracelets on her wrists and flowers in her hair
She walked up to me so gracefully and took my crown of thorns
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

Now there's a wall between us something there's been lost
I took too much for granted got my signals crossed
Just to think that it all began on a long-forgotten morn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

Well the deputy walks on hard nails and the preacher rides a mount
But nothing really matters much it's doom alone that counts
And the one-eyed undertaker he blows a flugelhorn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".
I've heard newborn babies wailing like a mourning dove
And old men with broken teeth stranded without love
Do I understand your question man is it hopeless and forlorn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

In a little hilltop village they gambled for my clothes
I bargained for salvation and they gave me a lethal dose
I offered up my innocence and got repaid with scorn
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".

Well I'm living in a foreign country but I'm bound to cross the line
Beauty walks a razor's edge someday I'll make it mine
If I could only turn back the clock to when God and her were born
"Come in" she said
"I'll give you shelter from the storm".




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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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