IGREJA ADVENTISTA DE SÃO DYLAN

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WALK A MILE IN HIS SHOES.
IT'S MR TAMBOURINE
"...But it's alright, Ma, it's life and life only."



OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE (Esmir Filho, 2009)


Chaos is a friend of mine. 
Bob Dylan, Newsweek (9 December 1985)

IGREJA ADVENTISTA DE SÃO DYLAN


  • O ÍDOLO
Rapidamente ultrapassada a estranheza imediata do título (que chega do livro homónimo, de Ismael Caneppele), e cá estamos dentro de um filme que se tornará, decerto, num fenómeno de culto. É sobre idolatria que tratamos, de viagem na companhia do jovem Julian, nicknamed "Mr Tambourine", fervoroso de Bob Dylan. Do legado desta figura lendária, inspirador de gerações, decalca-se o espírito deambulador em que a dúvida adolescente sempre vagueia. A palavra solta-se. As frases aspiram a ser partilhadas. O outro é o destino das pequenas aprendizagens, para melhor luz do compartilhado tempo presente.


  • LOOKALIKES
Os mesmos olhos rasgados e a mesma figura frágil. O idolatra parece-se com o ídolo. Como na postura deste jovem Dylan, neste filme sente-se essa frescura vital das obras inaugurais. A prima longa de Esmir Filho é o filme que não podia ser senão de hoje.


  • ESTRELA-GUIA
Envolvidos no encantanento, entre os enublados de efeito onírico e os  recorrentes flares, cada ambiente é o cenário surreal onde a dúvida adolescente recorrentemente vai procurando uma definição. Naquela pequena cidade vai-se crescendo. As jovens figuras perdem-se dentro dos nevoeiros campestres, das noites ao relento, das alucinações de erva. A suspensão das estrelas decora os plano.  Constantemente se relembra a necessidade de uma luz-guia para a protecção contra o que não se sabe. Difuso, sopra um mistério que evoca a possibilidade desses duendes e dessas fadas. Talvez Bob Dylan apareça hoje...


  • A NECESSIDADE DO ÍDOLO
Está erguido o pedestal, a mitificação está legitimada. Seja por Dylan ou por qualquer outro ícone pop, afinal endeusa-se sempre onde, por alguma vestígio de identificação, se ajuda a entender a própria identidade.


  • A SEMPRE-ADOLESCÊNCIA
Jogos de totais desfocados, granulados de handycam caseira, macros em vídeo de alta definição: a expressividade resulta da justaposição dos vários dispositivos de captação. Na abstracção de certos quadros pixelizados, os contornos difusos lançam à imaginação uns mesclados de cor e movimento, a contrastar maravilhosamente com os aproximados de um pormenor quase microscópico. Os controlos sobre o enquadramento quebram-se e há navegações da câmara doméstica entre as mãos. O rigor da composição do quadro liberta-se pelos ritmos da vida - a energia é mais viva.


  • GASTAMOS CADA VEZ MAIS TEMPO COM A MEMÓRIA
As facilidades de acesso a todos os géneros de dispositivos de captação, quase garantem hoje que qualquer espaço há uma qualquer câmara à mão. Estes novos moldes de arquivo pessoal exaustivo, operam alterações na máquina da memória. A rememoração decorre da preservação, mas no meio de tantos documentos do passado trazidos para o presente, é fácil gastar cada vez mais demasiado tempo com a memória (mesmo quando na pulsão da energia adolescente).


  • SER ADOLESCENTE ONLINE
A internet é o palco pronunciado de umas portas demasiado abertas, demasiado cedo. O problema é que o online quase para sempre permanecerá online. Como se de um arquivo criminoso se tratasse, os registos da internet pela recorrência ao seu acesso, persistem, perturbadores, a mostrar infinitamente uma dor de ontem. Vê-se nascer uma nova melancolia, que se abate sobre círculos das personagens que  alternam entre ser reais e virtuais. (O virtual é o real ou o seu contrário?) Naquela pequena cidade com pouco para oferecer, perante a recusa constante do mundo físico o tempo é gasto na internet, esse infinito cosmos para a variedade das viagens, para o encontro com quem é mais igual a nós próprios.

  • O QUE É SER ADOLESCENTE HOJE?
A vida virtual deste jovem fala do voyeurismo cibernauta, tendência em que a curiosidade adolescente avidamente participa. Vincando a cisão deste jovem com as gerações que o precedem, demonstra-se como os hábitos da época, no virtual, têm consequências na formulação da auto-imagem, na diluição das fronteiras entre o público e o privado, nas infindáveis possibilidades de mascarar o eu, na dissolução da presença corpórea, na selecção personalizada de mundos e companheiros mais convenientes ao eu.


  • UNIDOS CONTRA OS ‘‘DUENDES DA MORTE’’
(How many deaths will it take till he knows that too many people have died? ) Mal tinham eles chegado à idade da consciência da vida em si próprios, e já tantos lhes tinham morrido. Sem verbalizações, estão de dias unidos contra os “duendes da morte”, essas criaturas insondáveis, que empestam em bandos invisíveis as cidades moribundas….  essas que atraem para o abismo, que vão afastando o corpo para fora do seu préstimo físico, que vão levar um corpo para dentro da ficção "… Ela não tinha pernas. Não precisava de ninguém para ir embora." Lia-se no seu blogue, lembrando essa jovem amiga que decidiu abdicar de vez.


  • A INTERNET É GLACIAR
Por glaciação histórica, faço entender a justaposição de ilimitados blocos de informações contemporâneas e passadas na simultaneidade da mesma plataforma. A internet justapõe tanto do passado como do presente. Quando a contemporaneidade tudo disponibiliza, ser contemporâneo de, é fazer-se contemporâneo de.


  • SER CONTEMPORÂNEO É FAZER-SE CONTEMPORÂNEO DE
Sendo um filme intrínsecamente contemporâneo, ainda assim nos mostra precisamente como idolatrar é escolher os ídolos que melhor nos servirem para nos construirmos e não os ídolos da ‘‘nossa geração’’. Assim, nas paisagens sonoras encontramos a música de Dylan junto das memoráveis composições originais do talentoso Nelo Johann, que também traz em si um travo dos sixties.


  • EXISTIR SOB NICKNAME
A internet é um exímio palco de substituições, terreno ideal para a timidez. As palavras escritas, sob o nickname, saem cada vez mais facilmente.


  • O AMOR
O virtual trouxe novos rituais. Apreciamos aquela travessia do rato do computador sobre os traços guardados nas fotos dela. Poesias da banalidade, ou faltas à presença que se desejaria. Os sonhos vestem-se com o desconhecido. A narrativa compõe-se mais facilmente a partir da distância do que não se pode tocar, conhecer, ter. É na ausência de concreto, que a musa toma forma. A sua presença espectral, deixa crer que está mesmo ali, quando talvez a forma com que se dilui entre os píxeis do vídeo de webcam facilmente suspenda a hipótese de uma outra vida, de um outro tempo, de um não-tempo.




"Estar perto não é físico." Lê-se na descontracção de uma janela de chat a frase que sintetiza todas estas idolatrias, todas estes pedestais, todas estas ficções.


  • PLAY A SONG FOR ME
A evasão juvenil continua fora portas. De phones nos ouvidos, a transfiguração do ambiente é entregue à música de Dylan no leitor portátil. Como tão bem descreve afinal o seu tema de mote, “Mr. Tambourine Man”. Como uma utopia em suspenso, a possibilidade de que Julian se aventure para longe, com a ambição de ir ver um concerto de Dylan é recorrente. Mas, porque seria o derradeiro destino, o último refúgio, não vemos esforços reais para a sua materialização. Porque depois disso não haveria mais nada.



HEY MR TAMBOURINE MAN
BOB DYLAN

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.

Though I know that evenin's empire has returned into sand,
Vanished from my hand,
Left me blindly here to stand but still not sleeping.
My weariness amazes me, I'm branded on my feet,
I have no one to meet
And the ancient empty street's too dead for dreaming.

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.

Take me on a trip upon your magic swirlin' ship,
My senses have been stripped, my hands can't feel to grip,
My toes too numb to step, wait only for my boot heels
To be wanderin'.
I'm ready to go anywhere, I'm ready for to fade
Into my own parade, cast your dancing spell my way,
I promise to go under it.

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.

Though you might hear laughin', spinnin', swingin' madly across the sun,
It's not aimed at anyone, it's just escapin' on the run
And but for the sky there are no fences facin'.
And if you hear vague traces of skippin' reels of rhyme
To your tambourine in time, it's just a ragged clown behind,
I wouldn't pay it any mind, it's just a shadow you're
Seein' that he's chasing.

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.

Then take me disappearin' through the smoke rings of my mind,
Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves,
The haunted, frightened trees, out to the windy beach,
Far from the twisted reach of crazy sorrow.
Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free,
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands,
With all memory and fate driven deep beneath the waves,
Let me forget about today until tomorrow.

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.



* Como é óbvio, este post é dedicado ao Gonçalo Soares.
** Este filme está presentemente em exibição no Cinema City Classic Alvalade, em sessão dupla com a interessante curta VOODOO de Sandro Aguilar.

2 comentários:

Sabrina D. Marques disse...

: Interessante encontrar o olhar de Carlos Natálio: http://ordet1.blogspot.com/2011/09/desejo-e-pos-desejo.html

Luís Mendonça disse...

Tenho de ver isto!

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