Om.

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... E Siddhartha disse baixo, como se falasse sozinho:
- O que significa a meditação? O que significa deixar o corpo? O que significa jejuar? O que significa suspender a respiração? É escapar ao Eu, é uma breve fuga ao sentimento do ser, é um breve alheamento da dor e da falta de sentido da vida. Esta fuga, este breve alheamento, encontra-o o boieiro nos albergues, quando bebe umas taças de vinho de arroz, ou leite de coco fermentado. Nessa altura, já não sente o seu Eu, já não sente o sofrimento da vida, encontra um breve alheamento...












 (...) 
Embora estivesse mais perto da perfeição e suportasse a sua última ferida, parecia-lhe que os membros desse povo de crianças eram seus irmãos; a sua vaidade, a sua avidez e as suas características ridículas deixaram de lhe parecer risíveis, tornaram-se inteligíveis, tornaram-se válidas, tornaram-se respeitáveis. O amor cego de uma mãe pelo seu filho, o orgulho cego e tolo de um pai vaidoso em relação ao seu filho único, a ambição cega e louca de uma jovem vaidosa de ter jóias e de impressionar os olhos dos homens, todos estes impulsos, estas infantilidades, estes desejos simples, loucos mas muitíssimo fortes, muito vivos, muito influentes, já não eram para Siddhartha apenas infantilidades, via as pessoas viverem por elas, via-as a fazer inúmeras coisas por elas, a viajarem, a combaterem, a sofrerem mil tormentos, e ele  conseguia amá-las por isso, ele via a vida, o imperecível...
 (...)




Lentamente, floresceu e amadureceu em Siddhartha a compreensão, o conhecimento do que era a verdadeira sabedoria, de qual era o objectivo da sua longa demanda. Não era senão uma prontidão de alma, uma capacidade, a arte oculta de ter, em todos os instantes da vida, o pensamento da unidade, de sentir essa unidade e de a conseguir respirar...




stills de O Mundo de Apu, de Satyajit Ray, 1959
excertos de Siddhartha, de Hermann Hesse, 1922



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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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