quarta-feira, 24 de agosto de 2011

: GÉNESE GARREL

( o nascimento de uma nação.)




















A CICATRIZ INTERIOR, Philippe Garrel, 1972


a carta escreveu-se da terra
ascendida do ventre do solo 
até                                              ao primeiro rochedo onde o nevoeiro poisou 
à hora da sua aparição

Mãe
que aura esta se levanta
e me anima entre as areias e as brumas? 
(não sei bem quando, 
foi como se ela dissesse em segredo: 
- encontra-te comigo na minha casa
o deserto
: sou da aridez desta terra branca
: a minha criança cresce da pureza)
Mãe
a perfeição plantou-se
no sopé destes penedos
- o meu desejo demora-me
(pareço perceber)
: não há cura para a mente humana
continuam-se os braços históricos da reza 
os rebanhos passeiam 
a carne temporária 
deste sacrifício
: todos são corpos da necessidade
só a voz da Deusa se sobrepõe 
aos hábitos mortais
Nico 
desceu aos rostos puros da perturbação
fez-se mulher nas formas da fantasmagoria
doce poder invencível
 a sua sentença é o nosso centro
 eixo da mais admirável das rainhas
Mãe 
talvez não haja por aqui 
coisa mais bonita do que um filme do Garrel
juro que deus  se existir
morará 
nas variações do ritmo deste ecrã 
a cicatriz interior 
debita em electricidade 
a luz majestosa 
a tintura suprema 
o espectro total 
: as cores que respondem com universos
à avidez secreta dos olhos 
há que agradecer 
os milagres com as palavras incessantes
(se sabe o tanto que se há-de ficar sempre em falta)
Nico nasceu de mim
na voz das frases que eu nunca disse
: calcou caminho 
na esperança que não planeei
: plantou alucinação 
nos olhos que nunca imaginei
: destinou meta 
à purificação (que ainda hoje espero que chegue)
oh céus da tempestade humana
- ela reza -
nem a brancura do manto que me cobre
esconde a vergonha de ser corpo

(não se afogam mágoas entre a pele e o linho)

- há vida possível a brotar deste deserto
onde todos os gritos guardados
de uma só vez se soltam da garganta?
- será que a deusa se cansou da vida? 
- o que acontece à imortalidade da deusa que se cansou da vida? 

Mãe
como sou livre na minha finitude
são todos estes filmes possíveis
o grande amor que carrego no ventre
(que terminará em paixão e
na respiração derradeira)
mas
como não endeusar o que 
assim expia a fome? 
a esperança de ainda vir a ser 
ecoa para longe 
a sua canção insatisfeita
MAS 
sempre consenti a tragédia no meu peito
se me chegou com as grandes formas

a humanidade soberana 
destes corpos envergonha os fenómenos
 como se presenteasse a paisagem 
com uma necessidade de ordem

GRAÇA
tu que me lançaste para a linha da geração
 alucina comigo 
um pouco de harmonia para o mundo 
livra do caos o meu corpo
lambe de orgulho as minhas feridas
: tenho dentro de mim esta grande guerra
bato-me pelo que não sei se existe

Mãe 
(escolhe para mim
entre os comuns
um deus que me case 
com a eternidade que me desejas) 
despede-te do meu corpo 
com as lágrimas do consentimento 
e aguarda 
no teu regaço bordado
as notícias da vida nova
: reconhecerás a luz dos traços 
na brancura recém-disposta 
essa candura do contágio pelo parto
(nesse dia, vou ser tu)
oh
o meu amor por chegar
dor das águas e das pressas 
do meu colo 
memória mulher dos felizes ares 
onde se ouvirá o grito que 
inaugura a primeira existência
: música da 
delicadeza suprema do ser
(sonho nosso)

: matéria da oferenda de corpos 
: soberania criadora das rotas viris
: embalo de cá continuar a raça
oh
o repetitivo ritual das formas mágicas! 

que me dirás tu
Mãe
que me trouxeste por dentro
sobre os maciços cavernosos 
onde os espíritos se fazem nas formas? 
o verde dos teus olhos
a finura nacarada dos teus lábios
a tua voz de tempo
rasgam regra sobre mim
: fronteiras de uma mulher de onde cresce um corpo
e onde estás tu agora
que adoeci de grande? 
- são dias de dez mil anos de alma já
são cem, mil, sóis sobre a pele 
os passos são 
baladas
são lembranças para amanhã
são destinos do medo 
são cabelos cinza
são peles debaixo da idade
: é sintoma de cinema
a movimentação dos meus traços? 
o rodopio de acontecer não cessa 
a velhice é um entusiasmo sem fôlego
Oh
a ficção em que se revela a vida
os paraísos esperados 
                      o amor
o cinema de ser!
à hora da minha génese
desenterram-me destas terras
 longe das batidas de cavaleiros e 
do vermelho-lava das verdades 
Mãe
o que deve o meu corpo 
à outra História que eu não fui? 
- quero voltar a duvidar das sombras
- quero dançar com os absolutos 
- quero abismar-me nos vislumbres
- quero atear os fogos na fricção dos seixos
- quero ser mais Nico do que a Nico
condenada ao desejo
passeio o corpo no anterior prometido e 
para sempre
hei-de saudar 
as paisagens da alma aberta por dentro 
salas escuras
solidões dispostas em dádiva
o cinema ensinar-nos-á na verdade
ainda hoje sei pouco 
mas sei que 
o rosto da poesia é um quadro de Garrel.


6 comentários:

  1. (uma vez, talvez cedo demais, vi este filme e precisei esquecê-lo e reencontrá-lo para perceber a que profundidade desce e a que beleza se eleva. há pouco tempo deixei um excerto no blog a propósito de um pretexto errado - uma música - mas era do vídeo que vinha a hipnose. isto não interessa nada, mas o texto, que é (...) interessa muito.)

    o texto é teu?

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  2. Fui eu que escrevi o texto, certo, num tom mais íntimo do que o habitual por aqui, inseminado pela poesia destas imagens que hão-de persistir para sempre. De tal modo, que não me é sequer possível conceber a possibilidade de serem renegadas...

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  3. ( Certamente, a revisão tinha de chegar.)
    Interessam-te outros trabalhos do Garrel?

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  4. muito. não precisei de muito para o ter como uma das minhas adorações, porque a verdade é que até vi muito pouco dele. para além dos três deste século, incluindo o sauvage innocence, só conheço o l'enfant sécret e o cicatrice intérieure. mas o modo como filma, o seu silêncio e as suas sombras, o modo como olha para os olhares a cruzarem-se, é-me demasiado próximo e é-lhe demasiado próprio. ou seja, não deve ser ignorado e não, não se concebe que possa ser renegado.

    (agora que me lembro, também deixei há pouco tempo um excerto d'os amantes regulares, a cena de dança que irrompe do silêncio, que é um dos momentos mais bonitos que conheço no cinema.)

    o texto é mesmo (...)

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  5. :)

    (e nem tinha reparado no subtítulo apropriado do post)

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