Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra
blocos lisos e certos
que o desenho possa cobrir;
com usura
nenhum homem tem um paraíso
pintado na parede de sua igreja
harpes et luthes
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo se irradie do entalhe;
com usura
ninguém vê Gonzaga, seus herdeiros e concubinas
nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas para vender, vender depressa;
com usura, pecado contra a natureza,
teu pão é mais e mais feito de panos podres
teu pão é um papel seco,
sem trigo do monte, sem farinha pura.
Com usura o traço se torna espesso
com usura não há clara demarcação
e ninguém acha lugar para sua casa.
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear.
COM USURA
a lã não chega ao mercado
a ovelha não dá lucro com a usura
A usura é uma praga, a usura
embota a agulha nos dedos da donzela
tolhe a perícia da fiandeira. Pietro Lombardo
não veio da usura
Duccio não veio da usura
nem Pier della Francesca, nem Zuan Bellini veio
nem usura pintou La Callunia.
Angelico não veio da usura; Ambrogio Praedis não veio,
Nenhuma igreja de pedra lavrada, com a inscrição:
Adamo me fecit.
Nenhuma St. Trophime
Nenhuma Saint Hilaire.
A usura enferruja o cinzel
Enferruja a arte e o artesão
Rói o fio no tear.
Mulher alguma aprende a urdir o ouro em sua trama;
A usura é um câncer no azul; o carmesim não é bordado,
A esmeralda não encontra um Memling.
A usura mata a criança no ventre
Detém o galanteio do moço
Ela
trouxe paralisia ao leito, jaz
entre noivo e noiva
CONTRA NATURAM
Putas para Elêusis
cadáveres no banquete
a comando da usura.

EZRA POUND

Woman Drying Her Hair (ca. 1899) by Joseph DeCamp
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( o nascimento de uma nação.)




















A CICATRIZ INTERIOR, Philippe Garrel, 1972


A carta escreveu-se da terra, ascendida do ventre do solo ao primeiro rochedo onde o nevoeiro poisou, à hora da sua aparição. Mãe, que aura esta se levanta aqui, que me anima entre as areias e as brumas? Não se sabe bem quando, é como se ela dissesse em segredo: Encontra-te comigo na minha casa, o deserto. Sou da aridez desta terra branca. A minha criança cresce da pureza. Mãe, a perfeição plantou-se, sem misericórdia, no sopé destes penedos. O meu desejo demora-me. Pareço perceber. Não há cura para a mente humana. Continuam-se os braços históricos da reza até aos confins dos céus. Os rebanhos passeiam a carne temporária deste sacrifício. Todos são corpo da necessidade. Só a voz da Deusa se sobrepõe aos hábitos mortais. Nico, desceu aos rostos mais puros da perturbação. Fez-se mulher na suprema forma da fantasmagoria. Doce poder invencível, e o destino das suas sentenças deslocará o seu corpo e os restantes, sob o eixo que só é possível à mais admirável das rainhas.
Mãe, talvez não haja por aqui coisa mais bonita do que um filme do Garrel. Juro que deus, se existir, morará nas variações do ritmo deste ecrã. A cicatriz interior enrola a electricidade destes cabos na verdade da luz majestosa - a suprema tintura que espectra todas as cores que compõem, perante a avidez secreta dos meus olhos, as imagens mais bonitas do universo... Há que agradecer os milagres com as palavras incessantes, porque se sabe o tanto que se há-de ficar sempre em falta. Nico nasceu de mim, na voz das frases que eu nunca disse. Calcou caminho na esperança que não planeei, planou alucinação nos olhos que jamais poderei imaginar, destinou uma meta à purificação que, ainda hoje, espero que chegue. Oh céus de tempestade humana, ela reza, nem a brancura do manto que me cobre, esconde a vergonha de ser corpo. Não se afogam as mágoas entre a pele e o linho. Há vida possível a brotar deste deserto, onde todos os gritos guardados, de uma só vez se soltam da garganta sem resguardo? Será que a deusa se cansou da vida? O que acontece à imortalidade de uma deusa que se cansou da vida? Mãe, como sou livre na minha finitude. São estes filmes possíveis, o grande amor que carrego no ventre, o que terminará em paixão junto dos tempos da respiração derradeira. Como não endeusar o que me expia a fome insaciável de belezas novas? A esperança em ser ecoa para longe a canção insatisfeita. Mas sempre consenti a tragédia no meu peito, se me chegou com as grandes formas.  A humanidade soberana destes corpos parece envergonhar os fenómenos, como se presenteasse a paisagem com a sua necessidade de ordem. Graça, tu que me lançaste para a linhagem da geração, alucina comigo um pouco de harmonia para o mundo! Livra o caos do meu corpo, lambe de orgulho as minhas feridas. Tenho dentro de mim esta grande guerra. Bato-me pelo que não sei se existe.  Escolhe para mim, entre os nomes comuns, um deus que me case com a eternidade que me desejas. Despede-te do meu corpo com as lágrimas do consentimento, e aguarda no regaço dos teus bordados as notícias da vida nova. Reconhecerás a luz dos traços na brancura recém-disposta, a candura totalizante do contágio ao parto. Nesse dia, vou ser tu. Oh, o meu amor por chegar, dor das águas do meu colo, memória dos felizes ares onde se ouvirá o grito que inaugura a primeira existência. Música da delicadeza suprema do ser, sonho nosso. Matéria da oferenda dos corpos ao encontro da unidade, soberania criadora dos caminhos viris, no embalo de cá continuar a raça. O repetitivo ritual das formas mágicas! Que me dirás tu, mãe, que me trouxeste por dentro, sobre os pedregulhos cavernosos onde os espíritos se fazem nas formas? O verde dos teus olhos, a finura nacarada dos teus lábios, a tua voz do sempre, deixaram rasgar a hipótese de uma regra sobre mim, sobre as fronteiras de uma mulher de onde cresce um corpo. E onde estás tu agora, que adoeci de grande? São dias de dez mil anos de alma já, são cem, mil, sóis sobre a pele ! Os passos são a balada das lembranças para amanhã, destinados ao medo dos cabelos cinza, da deformidade das peles sob a idade. É sintoma de cinema, a movimentação dos meus traços? O rodopio de acontecer não cessa nenhum rosto, a velhice é um entusiasmo sem fôlego. Oh, a ficção em que se revela uma vida, os paraísos esperados, o amor, o cinema de ser! À hora da minha génese, desenterram-me destas terras, longe das batidas de um século de cavaleiros, e do vermelho-lava das verdades vulcânicas. Que propriedade deve o meu corpo aos vestígios desta outra História? Quero voltar a duvidar das sombras, quero dançar com o absoluto a minha nudez, quero abismar-me nos vislumbres com os fogos ateados na fricção dos seixos. Condenada ao desejo, passeio o corpo na revisitação de um anterior prometido. Para sempre, hei-de saudar as paisagens da alma aberta por dentro, solidões dispostas em dádiva. O cinema ensinar-nos-á na verdade. Ainda hoje sei pouco. Mas sei que o rosto da poesia é cada quadro de Garrel.


6
- Sim?
- Acreditas no amor que ataca de repente mas que dura para sempre?




Mauvais Sang, Carax, 1986

3
Nocturne in Black and Gold: The Falling Rocket, James Whistler

A NOITE ABRE MEUS OLHOS


No sangue do filho do homem
uma parcela trémula
um silêncio demasiado precioso
para a listagem das grandes transformações


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado


Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquens


A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta


o amor é uma noite a que se chega só.


José Tolentino Mendonça



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A Separation, Ashgar Farhadi (2011)



Its awfully considerate of you to think of me here
And Im much obliged to you for making it clear
That I'm not here.
And I never knew we could be so thick
And I never knew we could be so blue
And Im grateful that you threw away my old shoes
And brought me here instead dressed in red
And Im wondering who could be writing this song. I dont care if the sun dont
Shine
And I dont care if nothing is mine
And I dont care if Im nervous with you
Ill do my loving in the winter. and the sea isnt green
And I love the queen
And what exactly is a dream
And what exactly is a joke.

Pink Floyd, Jugband Blues

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People are only as good as the deals they make and keep. 

The Unbelievable Truth, 1989, Hal Hartley 
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NY FILM FESTIVAL 2011 - Willem Dafoe, Jim Jarmusch, Abel Ferrara, Amos Poe 
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(...)
A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.
Afonso Lopes Vieira












 





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