domingo, 28 de agosto de 2011

Ela / trouxe paralisia ao leito


Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra
blocos lisos e certos
que o desenho possa cobrir;
com usura
nenhum homem tem um paraíso
pintado na parede de sua igreja
harpes et luthes
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo se irradie do entalhe;
com usura
ninguém vê Gonzaga, seus herdeiros e concubinas
nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas para vender, vender depressa;
com usura, pecado contra a natureza,
teu pão é mais e mais feito de panos podres
teu pão é um papel seco,
sem trigo do monte, sem farinha pura.
Com usura o traço se torna espesso
com usura não há clara demarcação
e ninguém acha lugar para sua casa.
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear.
COM USURA
a lã não chega ao mercado
a ovelha não dá lucro com a usura
A usura é uma praga, a usura
embota a agulha nos dedos da donzela
tolhe a perícia da fiandeira. Pietro Lombardo
não veio da usura
Duccio não veio da usura
nem Pier della Francesca, nem Zuan Bellini veio
nem usura pintou La Callunia.
Angelico não veio da usura; Ambrogio Praedis não veio,
Nenhuma igreja de pedra lavrada, com a inscrição:
Adamo me fecit.
Nenhuma St. Trophime
Nenhuma Saint Hilaire.
A usura enferruja o cinzel
Enferruja a arte e o artesão
Rói o fio no tear.
Mulher alguma aprende a urdir o ouro em sua trama;
A usura é um câncer no azul; o carmesim não é bordado,
A esmeralda não encontra um Memling.
A usura mata a criança no ventre
Detém o galanteio do moço
Ela
trouxe paralisia ao leito, jaz
entre noivo e noiva
CONTRA NATURAM
Putas para Elêusis
cadáveres no banquete
a comando da usura.

EZRA POUND

Woman Drying Her Hair (ca. 1899) by Joseph DeCamp

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

: GÉNESE GARREL

( o nascimento de uma nação.)




















A CICATRIZ INTERIOR, Philippe Garrel, 1972


a carta escreveu-se da terra
ascendida do ventre do solo 
até                                              ao primeiro rochedo onde o nevoeiro poisou 
à hora da sua aparição

Mãe
que aura esta se levanta
e me anima entre as areias e as brumas? 
(não sei bem quando, 
foi como se ela dissesse em segredo: 
- encontra-te comigo na minha casa
o deserto
: sou da aridez desta terra branca
: a minha criança cresce da pureza)
Mãe
a perfeição plantou-se
no sopé destes penedos
- o meu desejo demora-me
(pareço perceber)
: não há cura para a mente humana
continuam-se os braços históricos da reza 
os rebanhos passeiam 
a carne temporária 
deste sacrifício
: todos são corpos da necessidade
só a voz da Deusa se sobrepõe 
aos hábitos mortais
Nico 
desceu aos rostos puros da perturbação
fez-se mulher nas formas da fantasmagoria
doce poder invencível
 a sua sentença é o nosso centro
 eixo da mais admirável das rainhas
Mãe 
talvez não haja por aqui 
coisa mais bonita do que um filme do Garrel
juro que deus  se existir
morará 
nas variações do ritmo deste ecrã 
a cicatriz interior 
debita em electricidade 
a luz majestosa 
a tintura suprema 
o espectro total 
: as cores que respondem com universos
à avidez secreta dos olhos 
há que agradecer 
os milagres com as palavras incessantes
(se sabe o tanto que se há-de ficar sempre em falta)
Nico nasceu de mim
na voz das frases que eu nunca disse
: calcou caminho 
na esperança que não planeei
: plantou alucinação 
nos olhos que nunca imaginei
: destinou meta 
à purificação (que ainda hoje espero que chegue)
oh céus da tempestade humana
- ela reza -
nem a brancura do manto que me cobre
esconde a vergonha de ser corpo

(não se afogam mágoas entre a pele e o linho)

- há vida possível a brotar deste deserto
onde todos os gritos guardados
de uma só vez se soltam da garganta?
- será que a deusa se cansou da vida? 
- o que acontece à imortalidade da deusa que se cansou da vida? 

Mãe
como sou livre na minha finitude
são todos estes filmes possíveis
o grande amor que carrego no ventre
(que terminará em paixão e
na respiração derradeira)
mas
como não endeusar o que 
assim expia a fome? 
a esperança de ainda vir a ser 
ecoa para longe 
a sua canção insatisfeita
MAS 
sempre consenti a tragédia no meu peito
se me chegou com as grandes formas

a humanidade soberana 
destes corpos envergonha os fenómenos
 como se presenteasse a paisagem 
com uma necessidade de ordem

GRAÇA
tu que me lançaste para a linha da geração
 alucina comigo 
um pouco de harmonia para o mundo 
livra do caos o meu corpo
lambe de orgulho as minhas feridas
: tenho dentro de mim esta grande guerra
bato-me pelo que não sei se existe

Mãe 
(escolhe para mim
entre os comuns
um deus que me case 
com a eternidade que me desejas) 
despede-te do meu corpo 
com as lágrimas do consentimento 
e aguarda 
no teu regaço bordado
as notícias da vida nova
: reconhecerás a luz dos traços 
na brancura recém-disposta 
essa candura do contágio pelo parto
(nesse dia, vou ser tu)
oh
o meu amor por chegar
dor das águas e das pressas 
do meu colo 
memória mulher dos felizes ares 
onde se ouvirá o grito que 
inaugura a primeira existência
: música da 
delicadeza suprema do ser
(sonho nosso)

: matéria da oferenda de corpos 
: soberania criadora das rotas viris
: embalo de cá continuar a raça
oh
o repetitivo ritual das formas mágicas! 

que me dirás tu
Mãe
que me trouxeste por dentro
sobre os maciços cavernosos 
onde os espíritos se fazem nas formas? 
o verde dos teus olhos
a finura nacarada dos teus lábios
a tua voz de tempo
rasgam regra sobre mim
: fronteiras de uma mulher de onde cresce um corpo
e onde estás tu agora
que adoeci de grande? 
- são dias de dez mil anos de alma já
são cem, mil, sóis sobre a pele 
os passos são 
baladas
são lembranças para amanhã
são destinos do medo 
são cabelos cinza
são peles debaixo da idade
: é sintoma de cinema
a movimentação dos meus traços? 
o rodopio de acontecer não cessa 
a velhice é um entusiasmo sem fôlego
Oh
a ficção em que se revela a vida
os paraísos esperados 
                      o amor
o cinema de ser!
à hora da minha génese
desenterram-me destas terras
 longe das batidas de cavaleiros e 
do vermelho-lava das verdades 
Mãe
o que deve o meu corpo 
à outra História que eu não fui? 
- quero voltar a duvidar das sombras
- quero dançar com os absolutos 
- quero abismar-me nos vislumbres
- quero atear os fogos na fricção dos seixos
- quero ser mais Nico do que a Nico
condenada ao desejo
passeio o corpo no anterior prometido e 
para sempre
hei-de saudar 
as paisagens da alma aberta por dentro 
salas escuras
solidões dispostas em dádiva
o cinema ensinar-nos-á na verdade
ainda hoje sei pouco 
mas sei que 
o rosto da poesia é um quadro de Garrel.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

STEREODOX: I'm a lot like you.



sábado, 20 de agosto de 2011

ænə ..?

- Sim?
- Acreditas no amor que ataca de repente mas que dura para sempre?




Mauvais Sang, Carax, 1986

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

#ontheroad by both hands // Daniel on earth, Nick in heaven


/
give me strength 
for my burden is great
and I'm afraid
my soul is weary 
and I feel
AND I FEAR
for my life is short 
and I'm afraid

Lord, make me whole
Won't you welcome me back again?

(LORD GIVE ME HOPE)

DANIEL JOHNSTON

You can take a road that takes you to the stars now
I can take a road that'll see me through
I can take a road that'll see me through
I can take a road that'll see me through.
(THE ROAD)

NICK DRAKE


Ferrugens cintilam no mundo.

Nocturne in Black and Gold: The Falling Rocket, James Whistler

A NOITE ABRE MEUS OLHOS


No sangue do filho do homem
uma parcela trémula
um silêncio demasiado precioso
para a listagem das grandes transformações


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado


Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquens


A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta


o amor é uma noite a que se chega só.


José Tolentino Mendonça



quarta-feira, 17 de agosto de 2011

I AM NOT HERE


A Separation, Ashgar Farhadi (2011)



Its awfully considerate of you to think of me here
And Im much obliged to you for making it clear
That I'm not here.
And I never knew we could be so thick
And I never knew we could be so blue
And Im grateful that you threw away my old shoes
And brought me here instead dressed in red
And Im wondering who could be writing this song. I dont care if the sun dont
Shine
And I dont care if nothing is mine
And I dont care if Im nervous with you
Ill do my loving in the winter. and the sea isnt green
And I love the queen
And what exactly is a dream
And what exactly is a joke.

Pink Floyd, Jugband Blues

domingo, 14 de agosto de 2011

People are only as good as the deals they make and keep.



People are only as good as the deals they make and keep. 

The Unbelievable Truth, 1989, Hal Hartley 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

STEREODOX : Num quarto de motel barato


Para estas festas é que não me convidam.

NY FILM FESTIVAL 2011 - Willem Dafoe, Jim Jarmusch, Abel Ferrara, Amos Poe 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

faz Sol faz Lua

(...)
A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.
Afonso Lopes Vieira