HESTNES

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Pedro Hestnes
1962-2011

"Foi com o rosto de Pedro Hestnes que o cinema português entrou nos anos 90."

"... Mas quem nos mostrou o caminho, quem nos conduziu por ele fitando-nos olhos nos olhos, foi Pedro Hestnes." Luis Miguel Oliveira


Guardados para sempre nas nossas melhores memórias, os eternos rostos de Hestnes povoarão o cinema enquanto este durar. Com as transfigurações do mais emblemático dos actores portugueses da sua geração, selam-se alguns dos mais belos momentos do nosso cinema. Para sempre a memória desse plano semi-iluminado n'A Casa de Lava, enviesado, cortado pela nudez do seu corpo esguio, curvado sobre si. Ali fumava solenemente as pequenas ou as grandes angústias, e em silêncio, planeava os seus ímpetos. Um vulto acabava de chegar. Companheiro calado das nossas próprias obsessões secretas. Rosto de uma jornada uníssona que deambula através do cinema. Que, de obra a obra, lhe faz migra uma aura até nós. Para sempre o sussurro rasgado de Vicente, último esconderijo do sonho, vida d'O Sangue. Planos eternos de uma juventude a preto e branco, de uma camisola de lã pequena demais. O baile à beira rio, a música pop, o jovem amor. Vicente, desprotegido no seu mínimo ciúme, inteiro na sua determinação, rebelde numa animalidade que tanto destrói como protege. Aquele Vicente, que fomos todos. Pedro-Xavier : Xavier-Pedro. Perto da lente, e ainda tão longe de lhe sabermos o que quer que seja. Um estado permanente de inquietude comprime-lhe os maxilares. O olhar vagueia. Furioso e frágil. O mesmo rosto sofrido e impenetrável atrás dos planos. O mais raro dos sorrisos. A voz memorável, seca e doce. A força carregada nas expressões. A rapidez das frases ripostadas. Uma presença que toma as rédeas do quadro. Um sufoco que se deixa sentir. O mistério suspenso. As cicatrizes de uma emoção viva. A certeza de que antes de vermos o Vicente ou o Xavier ou outro fantasma seu, vimos o Pedro. Vimos planos unos, feitos a corpo e a espírito. Vimo-lo protagonizar imagens que adquirem eternidade. Vimos as pulsões e as vibrações sem par. E adivinhamos uma afinidade real a este que se resguardou sempre atrás de um ecrã de cinema.Hoje, com o coração em Hestnes. Encontrar-nos-emos todos num lugar melhor...



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