terça-feira, 31 de maio de 2011

: EYES WIDE OPEN!


Paralisia do Serviço Público da Cinemateca
: Quando deixar de conseguir dizer NÃO se revela absolutamente catastrófico!

Numa das sessões de hoje, a Cinemateca Portuguesa, cansada de gritar, em vão, o tão necessário NÃO, face aos enlaces burocráticos que continuamente têm impedido que assegure um mínimo indispensável de autonomia, para que possa dar continuidade ao seu trabalho de programação, assume as consequências de um SIM explícito!
Parece que NÃO foi suficiente ter reduzido o seu horário de 5 sessões diárias a apenas 3. NÃO foi suficiente distribuir, desde Abril, um folheto de programação que parece uma bula, a acusar o estado de doença que hoje a assola. NÃO foi suficiente forrar as paredes interiores de cartazes onde se lêem dezenas de NÃOs. NÃO foi suficiente fazer um ciclo denominado NÃO. NÃO foi suficiente receber encontros organizados de um movimento de espectadores da cinemateca, que depressa se agrupou para lutar por esta causa. NÃO foi suficiente que o assunto saísse em diversas publicações de imprensa. NÃO foi suficiente distribuir folhetins, criar blogues e facebooks, reunir publicamente, ocupar paredes, marcar presença em ocupações regulares no espaço... Tanto NÃO foi suficiente, que nada parece a caminho de mudar...! Nada, senão a motivação dos que assim se vêm paralisados, que já acusa a mais compreensível das exaustões, face à continuidade de uma situação que se arrasta.
Assim, longe dos filmes de autor, do cinema experimental e alternativo, dos clássicos da história do cinema e das estreias de novos valores nacionais, com que a Cinemateca sempre soube manter um espaço de vocação pedagógica, dedicado à aprendizagem e divulgação do cinema (que a torna num caso sem par em Portugal, e num ponto de referência entre a comunidade internacional de cinematecas), apresenta hoje, pelas 19 horas, o seu primeiro SIM. O que significa que age, assumindo a necessidade de evocar o ridículo da situação: à semelhança de uma qualquer estação de tv sem critérios de programação, exibe "Yes Man", uma comédia recente com Jim Carrey.

Este é o revelador texto com que divulgou a sessão na sua página de Facebook :


"YES MAN de Peyton Reed - Vagamente baseado numa história verídica e no livro do humorista britânico Danny Wallace, YES MAN é uma comédia à medida de Jim Carrey. O ponto de partida promete o delírio que se segue: Carrey interpreta a personagem de um tipo que atravessa uma crise pessoal e decide participar num seminário de auto-ajuda para aprender a dizer “sim” a tudo e encontrar a felicidade (!). O problema é que deixa de conseguir dizer “não”, o que se revela absolutamente catastrófico. Primeira exibição na Cinemateca às 19:00 de terca-feira, 31 de Maio."


Que país é este e o que é que anda a fazer a si próprio, sabotando a própria oferta cultural, que já por si é escassa e centralizada? Porque é que não se ouve falar mais de uma situação com esta gravidade, que se se passasse na cinemateca francesa, estaria em todas as bocas da indignação da comunidade cinéfila internacional ...? A quem de responsabilidade: abram-se bem os olhos!

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