Paralisia do Serviço Público da Cinemateca
: Quando deixar de conseguir dizer NÃO se revela absolutamente catastrófico!

Numa das sessões de hoje, a Cinemateca Portuguesa, cansada de gritar, em vão, o tão necessário NÃO, face aos enlaces burocráticos que continuamente têm impedido que assegure um mínimo indispensável de autonomia, para que possa dar continuidade ao seu trabalho de programação, assume as consequências de um SIM explícito!
Parece que NÃO foi suficiente ter reduzido o seu horário de 5 sessões diárias a apenas 3. NÃO foi suficiente distribuir, desde Abril, um folheto de programação que parece uma bula, a acusar o estado de doença que hoje a assola. NÃO foi suficiente forrar as paredes interiores de cartazes onde se lêem dezenas de NÃOs. NÃO foi suficiente fazer um ciclo denominado NÃO. NÃO foi suficiente receber encontros organizados de um movimento de espectadores da cinemateca, que depressa se agrupou para lutar por esta causa. NÃO foi suficiente que o assunto saísse em diversas publicações de imprensa. NÃO foi suficiente distribuir folhetins, criar blogues e facebooks, reunir publicamente, ocupar paredes, marcar presença em ocupações regulares no espaço... Tanto NÃO foi suficiente, que nada parece a caminho de mudar...! Nada, senão a motivação dos que assim se vêm paralisados, que já acusa a mais compreensível das exaustões, face à continuidade de uma situação que se arrasta.
Assim, longe dos filmes de autor, do cinema experimental e alternativo, dos clássicos da história do cinema e das estreias de novos valores nacionais, com que a Cinemateca sempre soube manter um espaço de vocação pedagógica, dedicado à aprendizagem e divulgação do cinema (que a torna num caso sem par em Portugal, e num ponto de referência entre a comunidade internacional de cinematecas), apresenta hoje, pelas 19 horas, o seu primeiro SIM. O que significa que age, assumindo a necessidade de evocar o ridículo da situação: à semelhança de uma qualquer estação de tv sem critérios de programação, exibe "Yes Man", uma comédia recente com Jim Carrey.

Este é o revelador texto com que divulgou a sessão na sua página de Facebook :


"YES MAN de Peyton Reed - Vagamente baseado numa história verídica e no livro do humorista britânico Danny Wallace, YES MAN é uma comédia à medida de Jim Carrey. O ponto de partida promete o delírio que se segue: Carrey interpreta a personagem de um tipo que atravessa uma crise pessoal e decide participar num seminário de auto-ajuda para aprender a dizer “sim” a tudo e encontrar a felicidade (!). O problema é que deixa de conseguir dizer “não”, o que se revela absolutamente catastrófico. Primeira exibição na Cinemateca às 19:00 de terca-feira, 31 de Maio."


Que país é este e o que é que anda a fazer a si próprio, sabotando a própria oferta cultural, que já por si é escassa e centralizada? Porque é que não se ouve falar mais de uma situação com esta gravidade, que se se passasse na cinemateca francesa, estaria em todas as bocas da indignação da comunidade cinéfila internacional ...? A quem de responsabilidade: abram-se bem os olhos!

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David Drebin


...Between us, there was, as I have already said, the bond of the sea. Besides holding our hearts together through long periods of separation, it had the effect of making us tolerant of each other's yarns - or even convictions.
(...)
For some reason or other we did not begin that game of dominoes. We felt meditative, and fit for nothing but placid staring. The day was ending in a serenity of still and exquisite brilliance. The water shone pacifically; the sky, without a speck, was benign immensity of unstained light..."

Heart of Darkness, Joseph Conrad
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Parabéns Menina Varda
por 83 luminosos anos!



L'OPERA MOUFFE, AGNÈS VARDA (1958)
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2. Estar perto.


Lembro-me de te ver aqui. Como que um reduto de outro tempo que deixei fugir.
Recordo sempre a tua cara no chão. Ver de perto com a dor de quem está longe.

Ver de Perto, Linda Martini





conversa entre Victor Erice e Antonio López
Programa "Versión Española" TVE 2 16/11/1999


3. Times are a-changing.

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'
.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

Bob Dylan



4. Atentados.



Subterranean Homesick Blues, Bob Dylan, 1965




Modern Times, Chaplin, 1936



THX , George Lucas, 1971


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1. Procurar a luz.


...Especie de diario elaborado a partir de la captatión directa de los hechos (todas las personas que aparecen en las imágenes se representan a si mismas, y lo que dicen les pertenece), El sol del membrillo trata, más bien, de buscar una relación menos evidente entre la pintura y el cine, observados ambos en lo que tienen de instrumento de capturar lo real; es decir, como formas distintas de llegar al conocimiento de una posible verdad.
A lo largo de este siglo, los pintores y los cineastas no han dejado de observarse, quizás porque han tenido, y siguen teniendo, más de un sueño en común - entre otros, capturar la luz -, pero, sobre todo, porque su trabajo obedece, como señaló André Bazin, a un mismo impulso mítico: la necesidad original de superar el tiempo mediante la perennidad de la forma; el deseo, totalmente psicológico, de reemplazar el mundo exterior por su doble...
Victor Erice


El sol del membrillo, Victor Erice, 1992



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" Uma escritora utiliza esta expressão : ficar individual. Uma pessoa que numa conversa, de repente, fica individual, é alguém que entra em si próprio, como se cada um fosse dois e pudesse o seu segundo mergulhar no primeiro e fechar-se.
(...)
Depois, um corpo que se atira contra a massa escura a grande velocidade é já corpo interior completo, lama toda ligada até ao cérebro e alguma coisa de Deus (ou pó)."


Gonçalo M. Tavares, em Água, cão, cavalo, cabeça






Outside, Sérgio Cruz, 2008




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Yumeji, Seijun Suzuki, 1991


The Desiderata of Happiness
Max Ehrmann

Go placidly amid the noise and haste,
and remember what peace there may be in silence.

As far as possible without surrender
be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly;
and listen to others,
even the dull and the ignorant;
they too have their story.
Avoid loud and aggressive persons,
they are vexations to the spirit.

If you compare yourself with others,
you may become vain or bitter;
for always there will be greater and lesser persons than yourself.

Enjoy your achievements as well as your plans.
Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.
Exercise caution in your business affairs;
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals;
and everywhere life is full of heroism.

Be yourself.
Especially, do not feign affection.
Neither be cynical about love;
for in the face of all aridity and disenchantment
it is as perennial as the grass.

Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.

Beyond a wholesome discipline,
be gentle with yourself.
You are a child of the universe,
no less than the trees and the stars;
you have a right to be here.
And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.

Therefore be at peace with God,
whatever you conceive Him to be,
and whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life keep peace with your soul.

With all its sham, drudgery, and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful.
Strive to be happy.
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Des Hommes et des Dieux
Xavier Beauvois, 2010


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La grotte aux femmes, Nicolas Kalmakoff - 1940

Lung Boonmee raluek chat, Apichatpong Weerasethakul, 2010


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Véronique, acontabilista. Série Jêrome X, para o filme L'Une Chante l'Autre Pas

"...«Fotos de família. Olhando-as bem, vêem-se pessoas, um grupo de pessoas, à roda da mesa, debaixo de uma árvore. Levantam os copos e sorriem a olhar para a objectiva. Vemos a fotografia e dizemos com os nossos botões: é a felicidade. Só uma impressão. Olhamos melhor, e começamos a sentir-nos perturbados. Tanta gente. Não é possível. Há quinze pessoas na foto, velhos, mulheres,crianças. Não é possível que todos estivessem felizes ao mesmo tempo. Mas então o que é a felicidade, se todos parecem tão felizes? A aparência de felicidade já é a felicidade.»
Agnès Varda, sobre Le Bonheur, 1965















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Je danse, tu danses, elle danse …


* E amanhã estreia Pina, de Wenders nas salas portuguesas.








Fragmentos de um Filme-Esmola: A Sagrada Família 

João César Monteiro (1972)






"É engraçado pensar que dançar não é estar parado, mas também não é mudar de sítio, é uma terceira hipótese que é uma mistura da utilidade do movimento e da inutilidade da imobilidade. É interessante que fale em dança da vida com a morte: é um par antigo, sem dúvida, um velhíssimo par de noivos. Morte e vida não estão parados, frente a frente, nem estão a andar cada um no seu caminho, de modo independente, estão, isso mesmo: a dançar. Cada vivo dança com a sua noiva respectiva, com a sua morte individual. Não a vemos e podemos até fingir que ela não existe, mas é o nosso par. É com ela – com a morte com o nosso nome - que ficaremos no fim. Há então quem acredite que depois de mortos a dança continua, agora do outro lado, e a nossa noiva aí seria a vida, uma outra vida. Mas sobre isto, claro, sabemos pouco. Nem sequer conhecemos a música, quanto mais. Aliás, nem sequer conhecemos o músico. Quem está a tocar?"
GONÇALO M. TAVARES


for A.



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Sala Multiusos n. 3, 4º piso do Edifício ID | FCSH-UNL (Av. de Berna, 26 C, Lisboa). 
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Ciclo de Cinema 
JOHN WATERS

6 de Maio a 24 de Junho @ Berlin, Bairro Alto



Local
Rua Diário de Notícias, 122


Criado por

Mais informação
O Núcleo de Programação Cinematográfica, em conjunto com a Void Creations, vem oferecer à cidade de Lisboa um ciclo dedicado a John Waters (1946), aclamado rei da cinematografia trash. As obras deste realizador de Baltimore caracterizam-se pela animada coexistência de escândalo, personagens histriónicas, o choque, a quebra de tabus, a escatologia, o absurdo e kitsch.

Waters manteve um grupo fiel de actores, os Dreamlanders (compostos por Divine, Mink Stole, Cookie Mueller, Edith Massey, David Lochary, Mary Vivian Pearce, Susan Walsh e alguns outros) mesmo quando – no início dos anos 80 – enveredou por produções mais mainstream, com as quais conseguiu conquistar o grande público e onde colaborou com estrelas como Johnny Depp ou Kathleen Turner.














Sexta-feira, 6 de Maio (22h)
►Mondo Trasho (1969)


Mondo Trasho foi uma das primeiras produções de John Waters – realizado logo aos 24 anos e com um curto orçamento de 2 mil dólares emprestados pelo – e que deixou logo a sua inconfundível estilística e elenco habitual de Dreamlanders (Divine, Mary Vivian Pearce, David Lochary, Mink Stole etc). No papel principal, não podia deixar de ser, está a exuberante Divine. A trama envolve fetichistas de pés, alguma maldade e amputados. Jovem, a preto e branco e um com toque de ingenuidade é uma película a não perder, em especial para os fãs de Waters.

Sexta-feira, 20 de Maio (22h)
►Female Trouble (1974)


Divine – sempre no papel principal – encarna Dawn em Female Trouble, uma jovem delinquente que foge de caça numa birra, engravida dum tipo a quem pediu boleia, e termina como modelo de um casal que nutria especial prazer em fotografar mulheres e crimes, embora tenha o rosto queimado por ácido. Mais uma obra-prima Trash de Mr. Waters.

Sexta-feira, 3 de Junho (22h)
►Desperate Living (1977)


Das poucas produções de Waters sem Divine no papel principal, Desperate Living conta a história da neurótica Peggy e da sua criada obesa, Grizelda, que acabam presas por tentar matar o marido da primeira, Bosley. Ao invés de serem encarceradas na prisão, são exiladas para o estranho reino da Rainha Carlota, povoado por toda a espécie de marginais e pervertidos.

Sexta-feira, 10 de Junho (22h)
►Pink Flamingos (1972)

Pink Flamingos é, à semelhança de grande parte dos filmes do conhecido realizador John Waters (considerado o mestre do Trash), uma comédia com contornos de horror série B e momentos grotescos, representados pelo habitual grupo Dreamlanders, que quase sempre acompanham Waters. Na película, Divine – que vive com a mãe Eddie e o filho delinquente - é considerada a «Pessoa mais Nojenta do Mundo» por um tablóide e faz gala disso. Os seus vizinhos não menos estranhos, Connie e Raymond Marbles, movidos pela inveja, criam então um plano para retirar-lhe o título o que dá azo a uma série de situações bastante trash, onde se desenrolam momentos bizarros.

Sexta-feira, 17 Junho (22h)
►Polyester (1972)


Polyester foi uma das primeiras incursões de John Waters ao mainstream que, por sinal, foi muito bem conseguida. Com a sumptuosa Divine a representar o papel da dona de casa suburbana a quem o marido admite ter traído diversas vezes, a película acompanha o breakdown mental da personagem à medida que a sua filha engravida e que o seu filho se torna o principal suspeito de ser o fetichista de pés que tem aterrorizado a região.

Sexta-feira, 24 de Junho (22h)
►Dirty Shame (2004)


A mais recente produção de Waters conta-nos a história de Sylvia Stickles, uma mulher reprimida de Harford Road - cidade cuja população se divide entre 'puritanos' e 'pervertidos' - e da sua libertação sexual pelas mãos de Ray Ray Perkins. Através da procura do acto sexual mais intenso de sempre, toda a cidade acaba por se tornar viciada em sexo.



►Local: Berlin Bar
►Hora: 22h.
►Entrada: 3€
►Morada: Rua Diário de Noticias 122, Bairro Alto, LISBOA
►Metro: Baixa-Chiado
►Autocarros: 58



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: A luta
: A arma
: A imagem
Experimental conversations with Nicole Brenez





Ici et Ailleurs, Godard, 1976


(
 vã-guarda
avant-garde
avant-godard
)




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