quarta-feira, 9 de março de 2011

Cães.



JCM



Os cães dormem finissimamente. Vejo-os resumidos em torno do chão, peneirando serenos as dunas do sono. Já eu, reproduzo a insónia de uma forma quase fabril: de hora em hora, de noite em noite. É a metalurgia de algo que não funde, eu e a fornalha das minhas burlas, dos meus prejuízos. Entendo que cada homem, superando o receio da excomunhão, devolverá o seu corpo à indiscrição. Corpo no mundo como rusga. Revirar tudo, farejar como os cães a flor absurda do prazer.

Vasco Gato


Falou-nos dos cães.
Cães lindíssimos, de língua negra – contou. Tinha-os visto. A rasgarem; a despedaçarem as vestes daqueles homens vindos de outros planetas. São de outros planetas mas lindos, lindos, lindos! A Rússia é bonita. Lá existe o nazismo. Como na Hungria. Quem manda são os ditadores e é terrível terrível terrível! Todo o mundo obedece. Todo o mundo! Eu estive na Rússia. Muitos crimes! O meu marido veio da Rússia. Trazia planos da Hungria. As línguas dos cães do mar negro são negras negríssimas! Os homens cheiram a sangue, somos todos felizes, meu Deus!, acredito em Deus!, somos todos felizes! «O Senhor é português?» - Não! Pois claro que não! O senhor é russo. O senhor é lindo! Lindo! Muito lindo!
Não receies, Glöcker. É inofensiva. Vê como sorri. Deve ter sessenta mas parece quarenta. Como sorri não obstante; apesar de tudo. Como nos volta as costas. Nada lhe interessa. Não lhe interessa. E, contudo, eis que de novo se anima; resplandece. Lado a lado do rosto, duas orelhas crescem, crescem, crescem. Uma estrela escorre-lhe da baba.
Ladra.
Ciumento, arfante, hipnotizado, o cão… repara: «Já tinhas visto uma palavra de quatro patas a abanar a cauda?»


Eduarda Chiote
A Décima Terceira Ilha
Edições Afrontamento, 1983


No silêncio com que o mundo te envolve,
poderias sonhar com o tempo em que corrias,
mordendo a erva, dando voltas sobre ti próprio
como no dia em que nasceste. No entanto,
limitas-te a gemer; e ninguém sabe
a que mãos te entregas, nem que obscuro fim
adias com a tua ausência na vida.

Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996



É ainda assim completamente insuportável!
Estou rabugento como tudo.
A minha rabugice não é conforme poderia ser a vossa:
apanharia qual um cão o rosto de testa lisa
da lua
e cobrindo-a de latidos.

Deve ser dos nervos…
Vou sair,
dar uma volta.
Mas na rua ninguém consegue acalmar-me.
Uma mulher grita-me qualquer coisa a propósito de uma boa tarde.
Há que responder:
eu conheço-a.
Quero fazê-lo,
mas sinto
que é impossível à maneira dos homens.

Que escândalo!
Estarei a dormir?
Apalpo-me:
sou tal como era,
o rosto a que estou habituado.
Toco no lábio,
por baixo desponta
um canino.

Escondo rapidamente a cara, como para me assoar,
corri para casa dobrando o passo.
Contorno prudente a esquadra mas de repente um grito ensurdecedor:
«Ó da guarda!
Ele tem uma cauda!»

Passei a mão e fiquei hirto!
Isto era mais claro
que todos os caninos,
na minha pressa furiosa não tinha reparado
que sob o casaco
uma enorme cauda tinha estendido o seu leque
e abanava atrás de mim,
uma enorme cauda de cão.

Que irá acontecer?
Um pôs-se a berrar, amotinando a multidão,
ao segundo juntou-se um terceiro, depois um quarto.
Derrubaram uma pobre velha
que benzendo-se gritou qualquer coisa a propósito do diabo.
E quando, a cara eriçada pelas vassouras de enormes bigodes
a multidão se aproximou,
imensa,
maldosa,
eu pus-me a quatro patas
e ladrei:
Au! Au! Au!

Vladimir Maiakovski, in "33 Poesias" quasi, 2008
trad. Adolfo Luxúria Canibal



No passado verão agora tantamente tão passado
verão coisa que na verdade vocês verão
leitores meus autores que verdade verdadinha não existe
no passado verão se o estive estive aqui
Que não sabia então que a solidão
das plantas no Inverno a solidão
do cão de francis bacon foragido
a solidão do cão de francis bacon
num quadrado encerrado e mesmo até geometrizado
acossado talvez pela delimitada dimensão
dum quadro exposto no museu de arte moderna
em nova york e visto agora numa má reprodução
na casa sobre o mar do meu amigo joão miguel
a companhia só possível fora dessa implacável simetria da
pintura que na vida tem cruel caricatura
desse cão fustigado a farejar a fuga
desta diária saga que nos suga
cão de antemão sozinho e só senhor da solidão
que não sabia então que a solidão
que a chuva a solidão a solidão a chuva
cheia na uva mas vazia ou só cheia de vazio aqui
que o não sabia sei-o eu sentado aqui agora
sentado aqui aonde vi senti perto de mim
a jacqueline que distante agora mais queria aqui
que quando no verão cegávamos os olhos do limão
no fundo desses copos desse péssimo gin tónico
ó meu amigo cão mais só que as devastadas plantas
mais acossado mesmo que os cuidados cactos
limitados capados nos regados vasos
cão que tens por contorno a companhia
que tens precisamente fora quanto dentro tanta falta te fazia
ó meu amigo cão dás-me tu pelo menos
a mim que não sei bem como sair de tudo isto
melhor que coisa alguma a tua mão?

Ruy Belo
Toda a Terra
1976


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