domingo, 27 de março de 2011

À BEIRA DO MAR AZUL.


“Art could be said to be a symbol of the universe, being linked with that absolute spiritual truth which is hidden from us in our positivistic, pragmatic activities.” TARKOVSKY





By the Bluest of Seas
Boris Barnet (1935)























* "Nunca o cinema tinha estado tão perto de nos dar a ver o que é a alegria."
JOÃO BÉNARD DA COSTA

Em 1987 a Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, deu a ver em Portugal, pela primeira vez, filmes de Boris Barnet: A Rapariga do Chapéu de 1927 e Okraina de 1933. Em 1994 e 1995, respectivamente, vimos a obra genial que hoje voltamos a exibir e vimos Miss Mend (1926), primeiro dos trabalhos que assinou em colaboração com Fedor Ozep. Nessa altura, formulávamos votos para um Ciclo Barnet, uma "integral".
Os votos cumpriram-se em 1996 e essa Retrospectiva permitiu descobrir o mais intimista e o mais requintado dos cineastas soviéticos e, em certo sentido, o mais marginal também.
Só nos anos 80, a descoberta da obra de Barnet deu clamor no ocidente europeu. Em 1980, o National Film Theatre organizou-lhe uma integral em Londres. Em 1982, o acontecimento repetiu-se em La Rochelle. Em 1983, foi a vez de Locarno, que editou, também nesse ano, o primeiro livro em língua ocidental consagrado ao cineasta, com notáveis colaborações de Ian Christie, Noel Burch, Barthélemy Amengual e Bernard Eisenschitz (livro que em 1996 traduzimos em português como catálogo do Ciclo Barnet). Generalizou-se então a convicção de que Barnet era "um cineasta da família de Vigo, de Renoir e de Rossellini, nem mais nem menos moderno do que os grandes construtores, como Lang e Hitchcock" (Michel Ciment). E foi também por esses anos que à paixão de alguns por "A Rapariga do Chapéu" (onde Barnet descobriu a grande Anna Sten que Hollywood dez anos depois trucidou) se veio juntar a paixão de outros por "À beira do mar azul". Entre esses outros, lugar de relevo para Serge Danet que, nos seus últimos textos, voltou obsessivamente a este filme, sobretudo por causa da "morte" e da "ressurreição" da fabulosa Elena Kuzmina (a Macha do filme), que na vida real foi mulher de Mikhail Romm e já tinha sido a protagonista da "Nova Babilónia" e de "Okraina".
A propósito de "À beira do mar azul", muitos falam de comédia. Confesso a minha surpresa. Este melodrama jamais me fez rir e, desde o início, sinto que o que está em causa é algo que torna esta obra muito mais próxima de alguns filmes de amor da nouvelle vague (Adieu Philippine, Jules et Jim, Une Femme est une Femme, Lola) de que qualquer dos exemplos menos sofisticados da comédia americana.
Vamos mesmo ao princípio e a esse fabuloso plano do mar e das ondas (dos mais belos planos de mar e de ondas que já vi) donde emergem, brevemente, as cabeças dos dois náufragos. Um intertítulo (e este filme que tão sábio uso faz da música ainda está muito ligado à estética do cinema mudo) diz-nos que "eles lutaram dois dias contra a morte". Ainda nada sabemos deles, para que essa luta de uma cabeça loura ou de uma cabeça morena nos possa apaixonar. Mas aquele mar é tão desmedidamente sensual, são tão desmedidamente sensuais os numerosíssimos planos de nuvens, sol, crepúsculos, auroras, noites e dias, que nos fixamos naqueles vultos como imagens transfiguradas por uma inexplicável irrealidade e o sol do Cáspio no Azerbeijão começa a invadir-nos e a contaminar-nos.
Se é prodigiosa a fotografia de Kirilov, ela é também dos melhores exemplos que se pode dar de uma fotografia rigorosamente submetida a uma visão que a ultrapassa. Um só plano "bilhete postal" e tudo estaria perdido. É porque a ordem da beleza nunca é essa, mas a do abraço telúrico de elementos e homens, que esses planos iniciais nos perturbam tanto, como se aqueles vultos (apenas duas vezes vistos) viessem de um fundo mítico semelhante ao de mares e céus, náufragos eternos, de quem fossemos seguir - agora- uma outra e particular história.
E, depois desses minutos inebriantes de cinema, novo intertítulo nos prepara para a "história": "Era uma vez, uma ilha". E os dois homens - um louro e outro moreno - já estão a salvo, dormindo um contra o outro, de tronco nu, no fundo de uma barcaça. Vão ser conduzidos a novas formas ("as mulheres") mas, antes de as vermos, já se selu a aliança entre os dois protagonistas, aliança que nada nem ninguém - nem uma mulher como Macha - poderá destruir. E o que se segue é a fabulosa história de amor dos dois amigos um pelo outro e dos dois por Macha, que nos surge no primeiro grande plano do filme como se fosse a personificação do espírito do lugar. Vemo-la, depois vemos os dois rapazes, depois há um sorriso dela, depois um sorriso deles. Uma série de campo-contra-campos perfeitos e depois a canção belíssima que fala da gaivota que ela também é, sinal de dias claros e de turbações escuras.
A partir daí - e depois de se falar do medo das mulheres - a narrativa avança suspensa das mais belas elipses. O colar oferecido a Macha e o plano - misteriosíssimo e secretíssimo - em que as pérolas se desfiam, uma a uma, apagando-se no chão o seu brilho, como se fossem estrelas cadentes, tilintando contra o solo. Depois, a sequência que Daney tanto amou. E era Daney quem dizia que só queria falar dela contando-a, como se a oralidade se juntasse à única beleza das imagens. "Lembras-te como é tão bonito quando o mar enche a tela; lembras-te quando ela ainda não percebeu que estão todos a chorar porque julgam que ela morreu, e quando ela começa a rir com os dois rapazes, lembras-te quando eles começam a dançar?" Lembras-te? é a pergunta que apetece fazer a propósito do milagre único dessa sequência, desde que os dois amigos a vêem ao longe, nas ondas, e percebem que ela ainda vive, até à chegada dos três -como se viessem da morte, mas plenos de vida, de juventude e de inocência - ao velório onde os velhos choram. E não há maior milagre como quando ela pergunta "quem morreu?" e a resposta é a mais bela dança que me lembro de ter visto em cinema. Nunca, talvez, como nessa fabulosa sequência, o cinema tenha estado tão perto de nos dar a ver o que é a alegria. E nunca, a não ser em Ordet de Dreyer, o triunfo dos corpos ressuscitados foi tão físico e tão anímico, tão carne e tão espírito.
Depois, é a invenção de uma fotografia para que os corpos não entristeçam e para que todos possam sorrir melhor uns para os outros. Depois, é o pedido permanente do amigo "escuro" para que não lhe façam cócegas. Depois, é de novo, e sempre, o mar, as ondas, o vento sossegado. Como se viéssemos de um sonho ou a um sonho regressássemos.
Este é um dos filmes mais bonitos que jamais se fizeram.





"É engraçado pensar que dançar não é estar parado, mas também não é mudar de sítio, é uma terceira hipótese que é uma mistura da utilidade do movimento e da inutilidade da imobilidade. É interessante que fale em dança da vida com a morte: é um par antigo, sem dúvida, um velhíssimo par de noivos. Morte e vida não estão parados, frente a frente, nem estão a andar cada um no seu caminho, de modo independente, estão, isso mesmo: a dançar. Cada vivo dança com a sua noiva respectiva, com a sua morte individual. Não a vemos e podemos até fingir que ela não existe, mas é o nosso par. É com ela – com a morte com o nosso nome - que ficaremos no fim. Há então quem acredite que depois de mortos a dança continua, agora do outro lado, e a nossa noiva aí seria a vida, uma outra vida. Mas sobre isto, claro, sabemos pouco. Nem sequer conhecemos a música, quanto mais. Aliás, nem sequer conhecemos o músico. Quem está a tocar?"
GONÇALO M. TAVARES






Sem comentários: