Monteirismos.

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nunca senão sábios.



"... Olhe o Jean-Marie Straub. Não o admiro por passar fome. Admiro-o porque faz cinema e porque para fazer o cinema que faz tem de suportar a guerra que a Alemanha lhe declarou. O público alemão que, aliás, ele considera o melhor da Europa, vinga-se na quotidiana côdea do cineasta que, imperturbável (até quando?), continua a massacrá-lo com os seus filmes. O mais extraordinário é que a firmeza moral de Straub não se aparenta em nada com um romântico suicídio aos pés da barriguda Besta bávara! O menos que se pode aventar é que o conflito, que exclui todas as possibilidades de reconciliação (nicht versohnt), é de prognóstico assaz duvidoso. Uma coisa, porém, é certa: cada filme que o Straub consegue fazer, rompendo a barreira económica que o sistema lhe impõe, é uma vitória do chamado bloco aliado do cinema, e se eu não acreditasse que a Alemanha vai perder a guerra, refugiava-me num país onde nunca ninguém tivesse ouvido falar do flagelo cinematográfico.
A par disto, como sei que não chego a netos, vou tentar reconciliar-me com a morte. O cinema não é mais do que um itinerário que instaura o reencontro do homem consigo mesmo. Ou Ulisses de novo em Ítaca. Você consegue levar a sério um senhor que tem vinte e cinco tostões no bolso? "
In "O Tempo e o Modo", nº 69/70 Março/Abril 1969


"... Antes do mais, é conveniente esclarecer que este plano foi, a meu pedido, filmado pelo sr. António-Pedro Vasconcelos, atendendo a que, farto do filme, me deslocara, no entretanto, para Itália em viagem nupcial. Ao sr.Vasconcelos foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou muito grato. Bem feita acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é. Então eu tenho que gramar aquelas verticais todas abauladas sem ficar roxo de cólera? E quem é que o mandou, seu fantasista, pôr o senhor da senhora que está na cama a ler os Cahiers du Cinéma? Não vê que isso desvia a atenção do movimento obsessivo do plano? Era preferível ter posto o homem a brincar com a pila!....."
Planificação de "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço" (1970), in "Os que vão morrer saúdam-te" (1974)

4 comentários:

Pedro Treno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sabrina D. Marques disse...

Credo, também não é preciso tanto.
Eu aluguei-o na biblioteca e fotocopiei.
;P

Pedro Treno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
This is the movie disse...

"É preciso começar por algum lado".
http://www.youtube.com/watch?v=x9-QGmkXYzw.

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