Amor eterno.

10 comments

Sonhos destes, nunca acabam.






(eu, que não sei nada sobre nada, quando sinto, acredito.)








Ode a Inês de Medeiros


Não é possível descrever o estado de graça em que a câmara de Costa soube filmar "O Sangue"... Mas há esse absoluto no amor que se suspende, permanente, e que, através de toda a eternidade em que "O Sangue" se legitimará como obra prima, será argumento da verdade de que é dos sentimentos mais altos que a obra-prima nasce para nunca morrer. E a generosidade de um olhar dedicado é irremediável em convocar a mesma paixão em cada um que vê, na hipnótica certeza de que havemos de amar este filme para sempre, e, para sempre, amar esta Inês. Quis a história, a crença e a necessidade de um país que se alimentassem séculos desse eterno romantismo da lenda de Pedro e Inês. E se em dias de hoje, é ainda possível que se gravem juras de amor eterno, é na imortalidade possível à obra de arte. A película, essa afinal também morre da vida, à mercê de uma pele de celulóide que se desintegra à passagem do tempo, ao respirar, ao ser mostrada... E no fim, a sua imortalidade será possível à memória de um povo, até à morte do último dos românticos.
No meio de um sufoco negro, entre contos de morte, de segredos, de rebelião, é essa luz de Clara, Inês de vinte e um anos, que cativa e enfeitiça, protagonizando toda a evasão possível no mais real dos convites à vida. Para sempre se hão-de celebrar as memórias de uma pele tão branca e de uns olhos tão vivos, a doçura sussurrada da voz, a pequenez do corpo, os cabelos tão escuros e tão lisos, a juvenilidade desembaraçada das posturas, e essa dedicação disponível de uma feminilidade em espera, onde Costa esculpe um elogio ao desejo. A enunciação suprema em que se insinuam as vontades da jovem mulher em estado de graça, assume a maturação de um corpo disponível para o amor. E se nos envolvemos das sensações assumidas, são inesgotáveis os olhos para que a beleza se subtraia, absoluta, para lá de todas as circunstâncias em redor.
Aqui se inicia a ode, linda Inês, pela mestria com que só Costa sabe filmar a nobreza das circunstâncias mais íntimas em que se glorifica esta passagem pela terra. Sinto a eternidade deste amor na força que já não existe mas que em todos habita as expectativas mais secretas. Força que é a juventude com que se insufla a marcha da validade de um corpo até que lhe chegue destinado fim... Não sei se é Inês ou Clara quem sorri, sob aquela noite que ecoa The The , numa festa que a flutua e que deixa o corpo mole, dormente... Mas a memória da entrega ("Pede-me, pede-me coisas..."), ecoa com o mesmo poder que destaca o seu fulgor no vestido vermelho de Mariana em "A Casa de Lava". O exotismo de uma mulher entre várias, numa dedicação plural de elogio ao feminino. Retrato cativante da celebração dos corpos nas danças, que vem desde esse parque popular debaixo de uma noite chuvosa, à resolução plena na memorável aridez das cores na imponência de uma ilha vulcânica. Com a persistência condutora da música, pronuncia-se esse império indomável que arde a juventude nestes fogos do amor secreto, ainda tão mágico, ainda tão perfeito. Tão próximo da origem....
A Inês de Medeiros é a única "star" que Portugal algum dia teve. A Inês de Medeiros é a única "star" que Portugal terá. Não se viu antes igual fortuna em que a raridade de uma beleza de mulher assim desse, por uns momentos, a mão ao carácter de um realizador que, por cá, também não teve outro equivalente. E é bela a "star" e é "star" a bela, na insuperável dignidade de um par eterno que, reciprocamente, se alimenta do ecrã e do fora-de-campo, numa rima dupla que nasce da sintonia de uma mutualidade inexprimível. E que assumo sem insinuações de detalhe biográfico, nem interesse nisso. Da Inês de Medeiros que devidamente cristalizo na função de diva do cinema português, não importam - para lá de Clara e de Mariana (esta última que, em "Ossos", encontra somente um prolongamento de "Casa de Lava", por consequência do desencanto...) - os outros papéis que desempenhou entre os anos 80 e 90. Não é por mal ; obviamente que é sempre um prazer contemplar o encanto supremo de Inês de Medeiros num ecrã, mas acho francamente que a transcendência é plena em cada uma dessas personagens, que hoje ainda acho que são a mesma, e que me trazem cativa...
Se é afinal no derradeiro mistério que se envolvem as grandes obras e as grandes pessoas, O Sangue habita em mim nos confins desse lugar soterrado, onde o verbo é tão mais fraco quanto mais se abrir o peito ao reconhecer de um cinema maior do que a vida. Para lá do tempo e dos homens, é meu, é nosso e jamais precisará de pronunciação exterior para ser absoluto, ser sublime.

Os filmes de Pedro Costa nunca acabam.


10 comentários:

Luís Mendonça disse...

A Inês de Medeiros era tão bela...

Álvaro Martins disse...

É o meu filme português preferido.

Sabrina D. Marques disse...

Também é o meu. Infelizmente, não tenho o dom para o descrever como acho que merece.

Pedro Treno disse...
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Sabrina D. Marques disse...

Que gentileza, Pedro, é demasiado. Mas obrigada.
Tem toda a razão.
Diria até que, no cinema português, há um filme que é O SANGUE e depois há o resto.

;P

Pedro Treno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sabrina D. Marques disse...

http://pedrocosta-heroi.blogspot.com/

Por sorte, o último texto é essa maravilhosa tese sobre o negro do eterno João Bénard da Costa.....
: O NEGRO É UMA COR ou
O CINEMA DE PEDRO COSTA

Pedro Treno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Álvaro Martins disse...

Só li agora o texto e uff, subscrevo o que o Pedro disse no primeiro comentário, grande texto.

Sabrina D. Marques disse...

Pedro, na Undercurrent dizes. Não se voltou a proporcionar.

Álvaro, acho que não é bem assim, mas obrigada. Ainda bem que gostaram...

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