domingo, 27 de março de 2011

Algures.




( ROAD TO ) SOMEWHERE
ou o filme em duas cenas


Sofia Coppola fez um filme, Somewhere (2010), em apenas duas cenas. Correspondem exactamente à primeira e à última sequência do filme, os mais mudos e mais expressivos momentos do todo, e parecem condensar todo o propósito narrativo que o motiva. O resto é paisagem.

I. Começamos. Um só plano fixo. Um ferrari preto que cansa a curva daquela pista, demasiado lento para ser um racer em treino, mas à velocidade suficiente para que do som da máquina se lhe adivinhe a potência possível.
II. Daí para a frente, é o crescendo da angústia a promover a velocidade no carro. A aceleração bruta testa o corpo nos limites da máquina. Risco indizível. A gravidade das notas (entre "Lost Highway" e "Crash") a pesar a atmosfera. É o sufoco que progride. Da paisagem ao campo, o trajecto interrompe-se. É um alterado Stephen Dorff que surge pela porta, e abandona o negro da viatura para, sob o sol, continuar a pé pela estrada fora.

Pelo meio ficou um desinteressante relato de pitada novelesca sobre um actor de Hollywood sucedido que se confronta com o tédio da sua vida, e no lance reflexo sobre a questão existencial, dedica outra atenção à filha de onze anos. Sofia Coppola é incapaz de filmar mal, mas Somewhere é um filme entupido de nada. A evolução narrativa acompanha a bocejante superficialidade do objecto em cena : a continuidade da vida facilitada de uma estrela, esticada até ao máximo da mordomia contemporânea ocidental. Existência vivida com o aborrecimento promovido pelo hábito que, perante a actualidade do estado do mundo, se dispensaria veementemente à atenção pelo cinema. Um objecto absolutamente desnecessário em toda a sua banalidade, e a sobrevalorização mediática do nome de S. Coppola.



6 comentários:

Pedro Treno disse...

Ámen para este texto.
Somewhere in the future, a miss Coppola vai fazer um filme que consiga superar os telediscos indie e que consiga o balanço que o Virgens Suicidas ainda tem. ou tinha.

a acompanhar o Ámen- http://www.youtube.com/watch?v=SPluE34pkGg

Sabrina D. Marques disse...

Maravilhosa banda-sonora, para recostar, relaxar, fumar esse tal cigarro que nos leva a memória até aquela doçura loira de Kirsten Dunst, secreta entre as paredes, liberta entre as flores e as relvas.....
Agora apetece-me rever o filme!!

Pedro Treno disse...

não seja por isso :) eu revi há pouco tempo o Lost in Translation. só veio confirmar a admiração que tenho pelo sr Bill Murray, um dos tipos mais cool de Hollywood.

caso não tenhas o filme, get it now
http://www.megaupload.com/?d=K65FD7UH

Sabrina D. Marques disse...

get it now, oh yeah, o elogio da velocidade! Francamente, viva este tempo em que é possível que se fale e praticamente logo aconteça!!
:)
é magia das magias! - e há essa nostalgia disseminada que às vezes nos induz a pensar o quando se venceu a incubadora do desejo cinéfilo de ontem, habituado a esse ruminar vagaroso, que quanto mais lembrava mais se aguçava em saudade e quanto mais exaltava, mais poetizava e mais lia e mais conversava e ainda melhor amava, no aperto da falta...! - Naaaah, viva o progresso!! Viva o download e o upload, viva o dvd e a cópia pirata, vivam as seeds e os torrents e os rapidsharings e as dropboxes e o que ninguém nos ensina e logo se aprende e vivam os amigos virtuais que são comparsas sem nunca os termos visto à frente....!!! ;)

Sabrina D. Marques disse...

É definitivamente um filme para ver e viver em horas condizentes de "playground love"...
O que perde quando se avança em idade (consciência das fraquezas da estética demasiado próxima dessa voga do video-clip; umas bases cómicas através de clichés; uns excesso nas bandas sonoras ... ),
ganha com essa mesma distância (uma história que é maravilhosa e cativante, em todo o seu mistério; as capacidades de um storytelling veloz e eficaz, à boa moda do saber clássico; a construção sólida dos ambientes, segundo essa hábil estranheza que de um certo modo, torna plausível tudo o resto; alguma sabedoria em escolher os enquadramentos, nomeadamente nas cenas de morte...; e particularmente, a justiça de enfatizar sem ridículo a importância consequente desses dramas relacionais adolescentes, verídicos e que tanto se desvalorizam.. são retratos da inocência e da simplicidade destas raparigas angelicais, exemplos da força de uma imensa autonomia, capaz de escolher assertivamente entre a vida e a morte ....)

Tenho a agradecer-te o facto de ter surgido o contexto para a revisão, cinco ou seis anos depois. Dificilmente lhe pegaria.

Pedro Treno disse...

my pleasure, comparsa Sabrina. agora lembraste-me o Almada e os seus manifestos... este progresso do download é perigoso nas mãos erradas. fora isso, é bastante vantajoso para o "desejo cinéfilo", como muito bem descreves ;)

de facto, o storytelling clássico do filme e o modo como os actores são usados (a Kathleen Turner, um ícone anos 80, é quase uma aparição desses tempos) fazem do filme uma primeira tentativa mais que bem sucedida enquanto realizadora. a partir daí, tenho sempre "mixed feelings" sobre os filmes dela.

poderia ter sido uma Barbara Loden com o seu Wanda, mas isso já é abusar da sorte ;)