quarta-feira, 16 de março de 2011

A Juventude marcha. III


8. 14 de Março
MASSA CRÍTICA. GERAÇÃO À RASCA!
No dia 12 de Março, comovi-me sinceramente entre esse colossal banho de multidão que, na raridade de uma força viva, gritou e marchou e cantou e dançou e suou o mesmo descontentamento. Não se via fim do Rossio à Avenida da liberdade, entre as cerca de trezentas mil pessoas que saíram à rua. A chamada “manifestação da geração à rasca”, não foi, ao contrário das legendas informativas erróneas que então se propagaram pela comunicação social, nem uma resposta a uma convocatória conseguida pelos Deolinda com uma canção, nem ecos inspirados pelos acontecimentos no Egipto e na Líbia, nem um fenómeno de adesão proporcionado pelas redes sociais, nem um evento de massas liderado pelo mediatismo contextualizado dos Homens da luta. Superando todas as expectativas, a união pacífica das várias camadas etárias e profissionais numa marcha apartidária provou a comunhão da vontade de mudança, ilustrou a veracidade das dificuldades que atingem a população em geral e clamou irreversivelmente a necessidade de uma reviravolta no máximo sentido da palavra, na qual a intervenção popular já se mostrou disponível para contribuir.
Já começara a dispersão dos manifestantes quando se deu aquela chuva que acabou com o resto da iniciativa. No resguardo do recanto, ouvi de um desconhecido algumas palavras sábias. Apesar da adesão relativa à manifestação, lamentava-se de como era um gesto de uma energia fugaz, um processo que se inflectia volvidas duas horas, para cada qual regressar à sua casa. Apelava a que a luta se apropriasse das possibilidades de conforto desta primavera, e que tudo cessasse verídicamente e em simultâneo, para que se agrupassem as pessoas e juntos, acampassem por ali os parques, ocupando em massa até à garantia de demissão da classe política, até à organização da estrutura possível à mudança.



Eles não querem isto In Diário de Notícias , porTrezentas mil pessoas a manifestar-se nas ruas do País devia suscitar alguma apreensão. O protesto dirigia-se, bem entendido, a quem nos governa. Mas, também, a quem nos vai governar e a quem nos tem governado. A noção de que algo está a dissolver--se, nos laços sociais que sedimentaram as nossas sociedades, emerge, aqui e além, com maior ou menor expressão de violência. Os por- tugueses que desfilaram, representando muitos mais outros, não querem "isto"; e "isto" é o sistema político-económico que se opõe à diferenciação, numa lógica que asfixia o pensamento progressista e permite as mais cruéis arbitrariedades. A construção deste modelo de sociedade foi alegremente coadjuvada pelos partidos "de poder". E os partidos de "poder" são apoiados socialmente e sustentados financeiramente pelas forças que defendem interesses não muito claros. No século XIX, o "rotativismo" foi a expressão de um entendimento de classe que exercia o seu próprio império. Acabou com o regime. No nosso tempo, a "alternância" é o mimetismo, frequentemente arrogante, dessa política. Dá em desastre sem remissão, como está já a ver-se. O protesto de sábado demonstrou que esta gente da "alternância" não serve, além de ser destinatária do maior dos desprezos e da mais pesada das execrações. E expressou, também, a positividade da afirmação de uma prática invulgar, que põe em causa os partidos e impõe uma "contraconduta". Numa sociedade onde as coisas estão organizadas para a partilha ser cuidadosamente dividida entre o PS e o PSD, os outros partidos não servirão, somente, como comparsas (cúmplices?) de uma atroz indignidade? O movimento de sábado introduziu, no contexto histórico, uma singularidade que interpela as relações de poder e exige novas formas de cidadania. A situação portuguesa não pode continuar no violento constrangimento imposto pelo PS e pelo PSD, na complexa teia de estruturas sociais e políticas que desfiguram a democracia e delimitam os laços sociais. Os dois últimos discursos de José Sócrates e Pedro Passos Coelho constituem versões da mesma banalidade, como se a insatisfação permanente e impressionantemente exposta pela sociedade que criaram não exigisse novas formas de actuação. Mas ambos são notoriamente incapazes de provocar outras experiências democráticas. E vivem na estranha coincidência de desconfiar um do outro, o que seria bom se essa desconfiança conduzisse ao confronto de ideias. Impossível: eles não as têm, e agem consoante a paradoxal conjunção das incertezas do "mercado". O problema do poder coloca-se, no caso português, como um jogo de interesses obscuros e não como uma disputa ética e política entre gente com elevado espírito de missão.
















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