terça-feira, 29 de março de 2011

60%.


60% de Cinemateca, à medida de um país

por FRANCISCO VALENTE in blog Da Casa Amarela, 29.3.11

O anúncio da programação do mês de Abril da Cinemateca Portuguesa veio confirmar a pior das situações: com "recentes medidas administrativas que afectam a actividade dos organismos dependentes da Administração Central do Estado", a institução vê-se obrigada a fechar uma das suas duas salas de projecção e a reduzir a sua exibição diária de 5 para 3 filmes.

Sobre estes cortes, já tive a oportunidade de escrever uma opinião sobre o fundo da questão. Não estamos apenas a falar de "mostrar filmes". Para isso, temos uma indústria popular que já não cumpre essa função (e que mostram cópias de filmes que não viram filmes para quem não os deseja ver). Mostra que, para quem decide incapacitar a Cinemateca a 60% da sua função (falando por algoritmos, linguagem a que se reduziu o funcionamento diário de um país), não precisa, de facto, de uma Cinemateca que funcione nas suas plenas capacidades. Essas, pelos vistos, já são demais para quem não as possui na gestão do momento presente.

O melhor gesto — e derradeiro sinal do funcionamento inteligente e elegante da instituição — é contrariar a censura que lhe é imposta e reprogramar o seu ciclo para o presente, com o espaço que lhe resta, para um mês à volta do tema do dinheiro. Olhando para a escolha de filmes, vemos política, prostituição, jogos sujos e escondidos, olhares duplos e conscientes do seu belo mal, uma instituição que sabe falar a sua revolta pelas imagens. Mas essa, como sempre, passará ao lado da compreensão (passe a expressão) dos agentes públicos. A sua forma de ver e pensar o seu país ficou sempre, como hoje quis, pelos outros 40%.

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