terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

TODOS OS CAMINHOS A GODARD

MARÇO, MÊS JLG :
estreia de FILM SOCIALISME
Lisboa, 5 de Março, Culturgest, 18H30 e 21H30 /
Porto, Fund. Serralves, 6 e 7 de Março, 21H30.






São migalhas, senhores!

José Neves, IPSILON


" Interrogo-me: celebrar o quê? Que o mais recente filme de Godard fique confinado à miséria de 3 sessões únicas, com o atributo de acontecimento especial e de excepção?

Nas edições de 4 e 5 de Fevereiro dos suplementos Ípsilon e Atual dos jornais Público e Expresso, respectivamente, anunciavam-se para Março sessões especiais ligadas ao cinema de Jean-Luc Godard, a propósito do seu último filme a estrear entre nós, "Film Socialisme". Serão sessões de projecção de outros filmes do realizador na Cinemateca e sessões únicas de "Film Socialisme" na Culturgest, dia 5 de Março, e em Serralves, dias 6 e 7.Lendo-se "ao de leve" (termo que encontro como paralelo ao que preferiria escrever, "en passant") parece que se trata de uma acontecimento cultural da maior importância, chegando-se a apelidar Março como "um mês sob o signo de Jean-Luc Godard", como se faz no Público ou de "operação Godard", no Expresso. E quem é este Godard que parece que regressa em grandes parangonas e por um período breve mas triunfante? Apenas e só o cineasta que mais inventou (n)as formas cinematográficas e que mais fez avançar o cinema depois dos pioneiros do mudo (os russos, os alemães, os suecos...) e de Orson Welles. Cineasta que progrediu de um cinema de montagem, ficcional e romanesco, para uma fase de irrisão (alguns chamam-lhe erosão) política e ideológica, onde começou a experimentar o vídeo e nesse suporte fez alguns dos mais densos filmes de reflexão sobre as imagens jamais feitos ("Ici et Ailleurs", "Numéro Deux", séries televisivas como "France Tour Detour Deux Enfants") e que regressou aos filmes de longa duração no final dos anos 1970 com um fulgurante "Sauve Qui Peut (la vie)", entre nós estreado no Quarteto com o título de "Salve-se Quem Puder". Ao longo dos anos 80 e 90 os seus filmes foram estreando, em Lisboa, ou no Quarteto ou nos King e não foi a característica de serem ensaios cinematográficos sobre o mundo, filmes-pensamento, que evitou ou impediu as suas estreias. Agora que o escrevo, relembro-me que o meu primeiro contacto com Godard não foi feito na Cinemateca nem na televisão (quando havia televisão e o cinema, como o teatro e a ópera, nela tinham horário e possibilidade de serem programados), mas sim nas salas de circuito comercial, mais exactamente na sala Estúdio (anexo do cinema Império), com "Une Femme est une Femme", onde também vi o "Jules et Jim" de Truffaut, ambas as sessões esgotadas. Estaria a terminar a minha adolescência, ainda andava no secundário e a Lisboa de então, não sendo Paris, era uma bela cidade para um movimento inaugural de cinefilia. Nas suas diversas salas de estreias, a diversidade era regra, quer em termos de filmes, quer em termos topográficos, pois foi pela deslocação ao cinema que fui conhecendo a cidade. Veja-se: Jacques Tati no Caleidoscópio, ao jardim do Campo Grande; Robert Van Ackeren e o "Amor entre Mulheres", no Avis, no Arco Cego; o "India Song" de Duras ou o "Silvestre" de César Monteiro no Cinebloco ao Saldanha; Fellini, Lina Wertmuller, Liliana Cavani, Claude Sautet, no Estúdio ou no Satélite, sala anexa ao glorioso e destruído Monumental, onde vi várias vezes "Música no Coração", "Guerra das Estrelas" ou os "10 Mandamentos", versão dos anos 50, de De Mille; sessões especiais do CNC no Estúdio 444 na Avenida Defensores de Chaves; o Nimas na 5 de Outubro e o Star na Guerra Junqueiro; o City Cine, em Picoas, com sessões às meias-noites, onde vi Oshima, Resnais, Scorsese, Bogdanovich... e Godard e, claro, o imprescindível Quarteto, cujas 4 salas foram as que mais frequentei com excepção das da Cinemateca. Com umas salas e outras, os filmes estreavam e nunca Godard ficaria por estrear e de repente, lendo estas notícias com pendor celebratório, interrogo-me: celebrar o quê? Que o seu mais recente filme fique confinado à miséria de 3 sessões únicas, com o atributo de acontecimento especial e de excepção? Excepção a toda a porcaria que desenfreadamente estreia semana após semana, independentemente do número de espectadores e das semanas de exibição? Celebrar a morte da excepção ou o confinamento à sua regra segregacionista? Que para ver o filme se tenha de fazer todo o tipo de ginástica de disponibilizar tempo e oportunidade para os dias e horas agendados? Que depois a sua revisão seja impossível? A não ser, claro, em dvd ou no ecrã de computador, no ciclo vicioso de sujeição a que nos sujeitámos. Que isto tem vindo a acontecer amiúde com as cinematografias de países que não falam inglês é um triste facto e que o francês é cada vez mais uma língua em estertor é outro infeliz facto, mas que aconteça com um cineasta da dimensão de Godard é uma injustiça, senão um escândalo, se houvesse espaço para escândalos que não os da plebe audiovisual e política. Não há salas onde se possa estrear "Film Socialisme"? Não há público? Façam-se excursões! Qualquer coisa que não esta pobreza franciscana e as migalhas com que intentam aliciar-nos. Ou será que o cinema se resume apenas ao docudrama sobre o criador do facebook e às dezenas de comédias românticas sonsas e tansas com que enchem os calendários de estreias? "


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