POBRES INUMANOS RICOS.

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Nas fraquezas de inventividade de uma época saturada de informação em todas as frontes, a letargia humana atinge os seus pontos culminantes. Engole a mente para fora das regras, e o corpo dormente atinge o patamar da patologia psíquica. Exprime-se sem pensamento prévio, articula-se num primitivismo amputado de razão. Distante do pragmatismo, devido às facilidades materiais do contexto espacio-temporal, a vida decorre segundo uma ordem sem perguntar causal, uma ordem desordenada, que foge sem se dar por ela a todas as lógicas de uma organização em sociedade. Há esta globalização que tudo vê. Este panóptico policial de que nenhum recanto do globo está excluído, e que acompanha na mesma linha expositiva a tribo Nuer do Sudão e a bolsa de valores de Wall Street. Sem a contextualização antropológica que seria necessária para que o mero espectador oriente a categorização, com os respectivos instrumentos intelectuais que lhe permitem remontar as abordagens à respectiva divisão evolutiva, ambas as "notícias" são difundidas com uma velocidade sem critério na agenda televisiva.
Nesta falta de sociedade, o distúrbio cerebral encaixa-se na pseudo-rebeldia da lógica do jogo sem regra, onde é particularmente flagrante a evolução do panorama da arte. A arte onde tudo é arte, onde o nada é arte, e onde ser artista é facilmente uma classe promulgada da auto-ascensão umbilical. No contexto da arte, a falta de regra é o mandamento imperativo e a desregulação joga-se sem contenção nem lei. Por consequência, de tal modo se dissemina a autorização global para esta desordem, que os valores mais nucleares do estabelecimento da humanidade em sociedade são desrespeitados, e a comunidade humana recebe, com a pompa cerimoniosa da vernissage, a barbárie legendada de arte.
É vital denunciar estes bárbaros contemporâneos, recebidos entre aplausos, e renunciar à desregulação absurda que rege a recepção artística de uma actualidade tão reles em espírito, tão fraca em gosto, tão baixa em moral.

Matá-los foi pouco. Tiveram de fazer "arte" com a sua morte.
(E, sem vergonha, assinar a seguir : fui eu. Atenção: Eu! )


Há vários exemplos nesta entropia escandalosa, continuada por uma febre inconsequente de clamar uma individualidade a todo o custo, a autoria (a autoridade de legitimação não-questionável..?) que assola a era . Facilmente destaco aqui três nomes que me revoltam especialmente as entranhas. Mas tantos mais haveria a apontar. Matar os animais era pouco. Estes "artistas" aproveitam-se ainda da própria morte, explorando-a enquanto matéria-prima, expondo-a enquanto arte, para estrategicamente se inserirem numa categorização social de classe, ascendendo em génio perante a verborreia desinspirada da crítica e do seu fastio burguês. A morte dos seres enquanto experiência derradeira, estado último do tédio de existir. Nem artistas, nem seres humanos. A impunidade de que usufruiem estas criaturas - superstars globais da arte - é absolutamente desprezível. Envergonha a história da arte, e envergonha-me a mim, enquanto ser humano.



Rodrigo Braga
http://www.rodrigobraga.com.br/



Damien Hirst
http://www.damienhirst.com/



Polly Morgan
http://pollymorgan.co.uk/

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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