quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Recuos da Civilização.


via blog cinemasparagus

: Encerramento do MEGAUPLOAD, site de downloads

Estou zangada. Não é só isto, é tudo. Vê-se um recuo do mundo. Uma civilização a ruir velozmente. Capitalismos amorais. O altar do dinheiro, oração ininterrupta nas bocas da ladainha dos reais ignorantes. Assim se levanta um país, assim se avança. Amputa-se drasticamente o nível de vida às pessoas. Deixa-se a maioria sem rendimentos para poder aceder à arte e à cultura, a espectáculos, a museus, ao cinema, à aquisição de livros e de filmes e de discos, e até a educação superior. Acaba-se com as bolsas escolares, com os subsídios à criação. As artes são inviabilizadas porque não equivalem a produtos competitivos. Porque não obedecem às necessidades actuais do mercado. Restringe-se o acesso de certas obras a certas elites endinheiradas e a certas localizações centralizadas. ( E ainda assim, é contar pelos dedos o que resiste...)
Direitos de autor, eles argumentam? O autor defenderá, em primeiro lugar, que o seu trabalho seja conhecido. Visto. Ouvido. Lido. Contemplado. Experienciado. Dêem então a palavra aos autores respectivos, e determine-se a vontade da maioria.... Lembre-se o exemplo de Jean-Luc Godard, em 2010, que apoiou a causa do fotógrafo James Clement, condenado por descarregar músicas da internet. Foram as palavras de JLG ao Les Inrockuptibles : “não existe essa coisa que chamam de propriedade intelectual”; “um autor não tem direitos. Eu não tenho nenhum, apenas deveres”.
Sai da pressão das entidades maestras disto, as com real poder económico, as que fazem lei do lucro, este controlo restrito pela suposta salvação das obras de arte e de cultura. Querem assim, que se pague o acesso a todas as obras, porque o direito ao conhecimento deve ser, imperativamente, regulado por uma estrutura similar à de uma aquisição de bens e serviços? Ora, fechem as bibliotecas públicas, vá, resguardem tudo muito bem de todas as cabeças que não tragam uma nota no bolso, não vá o pobre querer cultivar-se... Acabem com os canais de televisão públicos, e com qualquer compromisso mínimo de exibição de conteúdos culturais. Entretenham as massas, repliquem objectos multimédia acríticos, vãos, inofensivos. E se ainda não estiverem satisfeitos, já agora acabem com o ensino público. (Se não tem dinheiro para aprender, tivesse, ora. E toda a gente sabe que quanto menos culta a massa, melhor. Não há nada que segure melhor um regime do que não haver pio, chegado "de baixo".)
Não se moldou para valer como uma contra-força, este novo ecrã? Não era suposto fazer-se dessa imensa invenção, a internet, o grande passo possível para essa necessidade de democratização do acesso...? Se consta que o Mega Upload é o 13º site mais popular do mundo, é óbvio que as consequências da sua existência ultrapassam largamente a responsabilidade dos seus criadores, e decorrem essencialmente do proveito de uma larga fatia de utilizadores ( Porque é que o estado não paga aos autores pelos utilizadores - são autênticas bolsas de estudo.) Não há, realmente, como não ridicularizar tudo isto, assumindo profundo despeito pelo funcionamento deste sistema. Ao tipo que inventou o Mega Upload - assim como aos demais que têm vindo a possibilitar plataformas similares - eu dava uma sincera condecoração pelo tanto que contribuiu para a disseminação alternativa de informação, arte e cultura à escala mundial.

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UPDATE :
Parece que há um novo endereço para o MEGAUPLOAD em http://www.megavideo.bz/

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