sábado, 22 de janeiro de 2011

a importância dos filmes do Rohmer.

É verdade que nunca Rohmer foi tão importante para mim. Até muito tarde e por desatenção, desprezava as personagens sentadas nas suas vidas a que chamava burguesas, sem nunca perceber que aquilo que eu tomava como um cinema de classe se tratava de um movimento microscópico, celular, analítico: Rohmer tipifica personagens para as explorar com definição e detalhe. 
O que a um primeiro lance pareciam vacuidades existenciais, posturas sem préstimo nem posição crítica sobre a sua própria sociedade, seres que gastavam o seu tempo em sobre-discursos acerca de sentimentos e relações - o meu primeiro erro - eram, afinal, as partes de uma obra imensa de reflexão da sociedade através dos seus agentes. O meu erro é-me fácil de deslindar, e decorre das pré-formatações do esquerdismo, que tantas vezes falha em ver que, para todos os efeitos, aquilo que é a base da sociedade não é, de todo, a ''estrutura colectiva''. Em boa verdade, a reconhecer como primordial, nem que seja em reduzir o ponto de vista ao da mais basilar  continuidade da espécie e da civilização, está o par, o casal, o feminino com e contra  o masculino (um dia, em conversa, Philippe Garrel concordaria com esta redução a uma dupla unidade-constituinte). 
Esta grande base deve ser reflectida com seriedade já que depende, como Rohmer nos lembra, de uma educação moral: encontra-se exclusivamante no domínio da legalidade interior, é regulada entre os 'participantes', baseada na palavra, na confiança - nessa ''fé'' que vai de um  a outro. 
Se a minha opinião em relação aos filmes de Rohmer mudou foi porque a minha consciência mudou - reconhecendo em mim uma atitude que percebe como a estrutura colectiva é em primeiro lugar, irredutivelmente, o par. O culto do romance é uma forma (necessária) de conservadorismo.



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