segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A minha maior qualidade é ter sobrevivido até aqui.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LISE SARFATI

sábado, 22 de janeiro de 2011

a importância dos filmes do Rohmer.

É verdade que nunca Rohmer foi tão importante para mim. Até muito tarde e por desatenção, desprezava as personagens sentadas nas suas vidas burguesas, sem nunca perceber que aquilo que eu tomava como um cinema de classe se tratava de um movimento microscópico, celular, decifrador: Rohmer tipifica personagens para as analisar com definição e detalhe. 
O que a um primeiro lance pareciam vacuidades existenciais, posturas sem préstimo nem posição crítica sobre a própria inserção eram, afinal, as partes de uma obra imensa de reflexão da sociedade através dos seus agentes. Deixei de ver os seres que gastavam o seu tempo em sobre-discursos acerca de sentimentos e relações para ver um elogio à beleza até ao osso - e à ''potência salvífica''. O meu erro é-me fácil de deslindar e decorre das pré-formatações do esquerdismo, que tantas vezes falha em ver que, para todos os efeitos, aquilo que é a base da sociedade não é, de todo, a ''estrutura colectiva''. Em boa verdade, a reconhecer como primordial, nem que seja em reduzir o ponto de vista ao da mais basilar  continuidade da espécie e da civilização, está o par, o casal, o feminino com e contra  o masculino (um dia, em conversa, Philippe Garrel concordaria com esta redução a uma dupla unidade-constituinte). 
Esta grande base deve ser reflectida com seriedade já que depende, como Rohmer nos lembra, de uma educação moral: encontra-se exclusivamante no domínio da legalidade interior, é regulada entre os 'participantes', baseada na palavra e na confiança - essa ''fé'' que vai de um  a outro. Se a minha opinião em relação aos filmes de Rohmer mudou foi porque a minha consciência mudou - reconhecendo em mim uma atitude que percebe como a estrutura colectiva é em primeiro lugar, irredutivelmente, o par. Ainda sou de esquerda mas agora a achar que o culto do romance, em prol da beleza, é a única forma necessária de conservadorismo.



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Recuos da Civilização.


via blog cinemasparagus

: Encerramento do MEGAUPLOAD, site de downloads

Estou zangada. Não é só isto, é tudo. Vê-se um recuo do mundo. Uma civilização a ruir velozmente. Capitalismos amorais. O altar do dinheiro, oração ininterrupta nas bocas da ladainha dos reais ignorantes. Assim se levanta um país, assim se avança. Amputa-se drasticamente o nível de vida às pessoas. Deixa-se a maioria sem rendimentos para poder aceder à arte e à cultura, a espectáculos, a museus, ao cinema, à aquisição de livros e de filmes e de discos, e até a educação superior. Acaba-se com as bolsas escolares, com os subsídios à criação. As artes são inviabilizadas porque não equivalem a produtos competitivos. Porque não obedecem às necessidades actuais do mercado. Restringe-se o acesso de certas obras a certas elites endinheiradas e a certas localizações centralizadas. ( E ainda assim, é contar pelos dedos o que resiste...)
Direitos de autor, eles argumentam? O autor defenderá, em primeiro lugar, que o seu trabalho seja conhecido. Visto. Ouvido. Lido. Contemplado. Experienciado. Dêem então a palavra aos autores respectivos, e determine-se a vontade da maioria.... Lembre-se o exemplo de Jean-Luc Godard, em 2010, que apoiou a causa do fotógrafo James Clement, condenado por descarregar músicas da internet. Foram as palavras de JLG ao Les Inrockuptibles : “não existe essa coisa que chamam de propriedade intelectual”; “um autor não tem direitos. Eu não tenho nenhum, apenas deveres”.
Sai da pressão das entidades maestras disto, as com real poder económico, as que fazem lei do lucro, este controlo restrito pela suposta salvação das obras de arte e de cultura. Querem assim, que se pague o acesso a todas as obras, porque o direito ao conhecimento deve ser, imperativamente, regulado por uma estrutura similar à de uma aquisição de bens e serviços? Ora, fechem as bibliotecas públicas, vá, resguardem tudo muito bem de todas as cabeças que não tragam uma nota no bolso, não vá o pobre querer cultivar-se... Acabem com os canais de televisão públicos, e com qualquer compromisso mínimo de exibição de conteúdos culturais. Entretenham as massas, repliquem objectos multimédia acríticos, vãos, inofensivos. E se ainda não estiverem satisfeitos, já agora acabem com o ensino público. (Se não tem dinheiro para aprender, tivesse, ora. E toda a gente sabe que quanto menos culta a massa, melhor. Não há nada que segure melhor um regime do que não haver pio, chegado "de baixo".)
Não se moldou para valer como uma contra-força, este novo ecrã? Não era suposto fazer-se dessa imensa invenção, a internet, o grande passo possível para essa necessidade de democratização do acesso...? Se consta que o Mega Upload é o 13º site mais popular do mundo, é óbvio que as consequências da sua existência ultrapassam largamente a responsabilidade dos seus criadores, e decorrem essencialmente do proveito de uma larga fatia de utilizadores ( Porque é que o estado não paga aos autores pelos utilizadores - são autênticas bolsas de estudo.) Não há, realmente, como não ridicularizar tudo isto, assumindo profundo despeito pelo funcionamento deste sistema. Ao tipo que inventou o Mega Upload - assim como aos demais que têm vindo a possibilitar plataformas similares - eu dava uma sincera condecoração pelo tanto que contribuiu para a disseminação alternativa de informação, arte e cultura à escala mundial.

: notícias relacionadas


UPDATE :
Parece que há um novo endereço para o MEGAUPLOAD em http://www.megavideo.bz/

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Educação Artística ((''College is the same academic bullshit than before.'' Nicholas Ray))





“A inteligência humana vê-se impotente e desnorteada diante da sua própria criação. (…) A própria caça à riqueza não é a finalidade, o destino da humanidade, a menos que o progresso deixe de ser a lei no futuro, como tem sido no passado. A dissolução da sociedade ergue-se, diante de nós, como uma ameaça; é o fim de um período histórico – cuja meta tem sido a propriedade da riqueza (…). A democracia (…), a igualdade (…) farão despontar a próxima etapa superior da sociedade (…) Será uma revivescência da liberdade, igualdade e fraternidade das antigas gens, mas sob uma forma superior.” (Morgan, in "Ancient Society")


A diferença entre espíritos livres e vassalos: os primeiros passam pelas academias; os segundos permanecem nelas. Bruno Andrade

"When people ask me if I went to film school I tell them, 'no, I went to films.'' Quentin Tarantino


“film school is for chumps”; Paul Thomas Anderson



“As pessoas mais jovens não vêm à Cinemateca; se estão na escola de cinema aprendem a expor filme, a fazer uns sons, mas também não se interessam muito.Pedro Costa


“Não se vai para a Escola de Cinema aprender isto. Fui para a Escola de Cinema para aprender umas coisas de química, para ver filmes, porque não tinha hipótese; O João Bénard da Costa mostrou-me muitos filmes, o João Miguel Fernandes Jorge mostrou-me muitos filmes, alguns professores assim…” Pedro Costa


"...Ainda falta falar dos professores assistentes, acaba-se o curso, dá-se logo aulas, záz, zás, sempre a andar como diria o Straub….e eles lá estão todos contentes a ganhar o deles, a mostrar o king kong ou o trailer do novo filme dos Wachowski …Por isso, aos jovens que gostam mesmo de cinema, não vão para a escola, vão á cinemateca, saquem os filmes que gostam especialmente, façam coisas originais e livres, atirem imagens contra sons, vão trabalhar para o clube de vídeo na rua ao lado, como o Tarantino. Escolas são o pior que há, para mim foi…é que nem aprendi umas coisas de química, o máximo foi o tal professor que me salvou um pouco a vida, e ter conhecido umas raparigas jeitosas." José Oliveira in Porque é que as escolas de cinema são uma merda



Prof. Dr. João Mário Grilo (via blog raging b)


''Nada poderia ter sido pior para o desenvolvimento da minha mente do que o liceu do Dr. Butler, dado que era estritamente clássico, não ensinando mais nada além de alguma geografia e história da antiguidade. O liceu como meio de educação foi para mim simplesmente um zero. Durante toda a minha vida fui completamente incapaz de dominar qualquer língua. Dava-se grande atenção à composição de versos, uma coisa que nunca consegui fazer bem. (...) Decorar as lições do dia anterior era algo a que era dedicada muita atenção; podia fazer isso com facilidade, aprendendo 40 ou 50 versos de Virgílio ou Homero quando estava na capela de manhã;mas este exercício era completamente inútil, visto que tudo era esquecido em 48 horas. (...) Quando acabei o liceu não era, para a minha idade, nem o melhor nem o pior; e creio que todos os professores e o meu Pai me consideravam um rapaz medíocre, bastante abaixo da média do ponto de vista intelectual. Para grande mortificação minha, o meu pai disse-me uma vez, «Não pensas em nada a não ser em cães, andar aos tiros, e caçar ratos, e hás-de ser uma vergonha para ti e para toda a tua família.» Mas o meu pai, que era o homem mais bondoso que eu alguma vez conheci, e cuja memória amo de todo o coração, devia estar zangado e foi algo injusto quando usou tais palavras. (...) Como eu não estava a ter sucesso no liceu, o meu pai tirou-me de lá mais cedo do que o costume e mandou-me (em Outubro de 1825) para a Universidade de Edimburgo com o meu irmão e lá fiquei dois anos. O meu irmão estava a acabar os seus estudos em medicina, embora pense que nunca teve a intenção de exercer, e eu fui enviado para os iniciar. Mas pouco depois convenci-me, a partir de várias pequenas circunstâncias, de que o meu pai me deixaria posses suficientes para que vivesse com algum conforto (...); mas esta convicção foi suficiente para impedir qualquer esforço tenaz para aprender medicina. O ensino em Edimburgo era exclusivamente por meio de Aulas Teóricas, e estas eram intoleravelmente maçadoras, exceptuando as de química por Hope; mas para mim as aulas teóricas não têm vantagens, antes várias desvantagens, quando comparadas com a leitura. As aulas do Dr. Duncan sobre Matéria Médica às 8 horas numa manhã de Inverno são uma lembrança assustadora. As aulas do Dr. Munro sobre anatomia humana eram tão maçadoras como ele próprio, e o assunto causou-me repugnância. (...) Durante o meu segundo ano em Edimburgo frequentei as aulas de Jameson sobre Geologia e Zoologia, mas estas eram inacreditavelmente maçadoras. O único efeito que produziram em mim foi a determinação de nunca, enquanto vivesse, ler qualquer livro de Geologia ou estudar de algum modo esta ciência. (...) Depois de ter estado dois anos lectivos em Edimburgo, o meu pai deu-se conta, ou soube pelas minhas irmãs, que eu não gostava da ideia de ser médico, e assim sugeriu que eu me tornasse um padre anglicano. Ele opunha-se, com razão e veementemente, a que eu viesse a ser um desportista ocioso, o que parecia ser o meu destino mais provável. (...) Na Universidade [de Cambridge] havia aulas abertas ao público sobre vários assuntos, e a frequência era totalmente voluntária; mas eu estava tão enjoado de aulas em Edimburgo que nem fui às aulas eloquentes e interessantes de Sedgwick. Se o tivesse feito ter-me-ia certamente tornado geólogo mais cedo. No entanto, frequentei as aulas de Henslow sobre Botânica, e gostei imenso delas devido à sua grande clareza e às admiráveis ilustrações; mas não estudei botânica. Henslow costumava levar os alunos, incluindo vários membros mais antigos da Universidade, a saídas de campo, a pé ou de carruagem se fosse a sítios distantes, ou num barco pelo rio abaixo, e leccionava sobre os animais ou plantas raros que se observavam. Essas excursões eram encantadoras. Embora, como veremos em breve, houvesse alguns factores atenuantes na minha vida em Cambridge, perdi tristemente o meu tempo, ou mesmo pior. Devido à minha paixão por caçar ou, se isso falhasse, por andar a cavalo a corta-mato, juntei-me a um grupo de desportistas folgazões, incluindo alguns jovens estróinas e de pouca confiança. Muitas vezes passávamos os serões juntos, embora esses jantares incluíssem frequentemente pessoas de maior calibre, e às vezes bebíamos demais, com cantorias alegres e jogos de cartas a seguir. Sei que me deveria sentir envergonhado de dias e serões passados assim, mas como alguns dos meus amigos eram muito agradáveis e estávamos todos muito animados, não posso deixar de me lembrar desses tempo com prazer. (...) Ainda não mencionei uma circunstância que influenciou a minha carreira mais do que qualquer outra: a minha amizade com o Prof. Henslow. Antes de ir para Cambridge ouvira falar dele pelo meu irmão, como um homem que conhecia todos os ramos da ciência, e estava por consequência disposto a venerá-lo. Uma vez por semana recebia todos os que quisessem ir a sua casa, e todos os estudantes e vários membros mais velhos da Universidade que se dedicavam à ciência costumavam passar aí o serão. Cedo recebi um convite, através de Fox, e comecei a lá ir regularmente. Depressa me tornei íntimo de Henslow, e durante a segunda metade da minha estada em Cambridge dei longos passeios a pé com ele quase todos os dias; de modo que alguns dos professores me chamavam «o homem que passeia com Henslow»; e ao serão era muitas vezes convidado para o jantar em família. Os seus conhecimentos em botânica, entomologia, química, mineralogia, e geologia eram extensos. O seu gosto mais forte era tirar conclusões a partir de observações prolongadas e minuciosas. O seu discernimento era excelente e toda a sua mente era equilibrada; mas não creio que alguém possa dizer que tivesse um talento muito original. Era profundamente religioso (...). As suas qualidades morais eram admiráveis sob todos os pontos de vista. Não tinha o mais leve laivo de vaidade ou qualquer sentimento mesquinho; e nunca vi um homem que se preocupasse tão pouco com ele próprio ou com os seus problemas. Estava sempre sereno, e os seus modos eram afáveis e cheios de cortesia; e no entanto, como testemunhei, podia chegar à mais viva indignação e rápida tomada de acção se presenciasse alguma vileza.

Darwin na sua autobiografia. 


Yo fui educado en el cine por Skorecki, su pensamiento contó más para mí. Si bien él era también bastante duro, su pensamiento no era el de la política de los autores, y eso me ha inspirado mucho. Ya en su momento vi que la idea de política de los autores podía ser contraproducente a un momento dado, pues no puede aplicarse de la misma forma que cuando se inventó. Ya no funcionaba, había que cambiarla. Él había comprendido, y fue uno de los primeros, una cosa que los Cahiers no comprendieron realmente: veían el cine en todas partes. Y no es verdad, el cine no está en todas partes.
La crítica de la vida - Entrevista con Pierre Léon a propósito de L'Idiot, por Fernando Ganzo. (via signo do dragão)



"....A inteligência é mais freqüente do que no geral se imagina; já o gosto é muito provavelmente uma espécie em extinção. Tenho alunos bastante dotados intelectualmente, capazes de redigir muito bem em francês e de fazer close readings de Mallarmé e de perceber princípios de composição em À La Recheche du temps perdu, mas sem qualquer aptidão para estabelecer uma diferença de valor entre uma página de Proust e outra de uma mera Marguerite Duras, por exemplo. Quanto àqueles que conseguem, nos raros casos em que também não são os mais brilhantes, uma inteligência média lhes basta.
Essa constatação serviu para deixar mais ou menos claros para mim os efeitos de uma formação universitária na educação daquilo que realmente importa, a do indivíduo. E hoje esses efeitos tendem ao nulo. Primeiro, porque, para que a educação universitária funcione com relação ao indivíduo, é preciso que haja um. E, para que um indivíduo exista, são necessárias condições de cultura muito especiais. É necessário que haja uma hierarquia de valores, e que no alto dessa hierarquia constem o interesse pelo passado, o desejo de excelência moral, a busca por conhecimento sem vistas à aplicação. É necessário que ela não tolha uma curiosidade por vontade de bom-mocismo ou por necessidades práticas imediatas. É necessário, em suma, que uma cultura seja civilização. O leitor saberá julgar se vivemos em uma e o quanto ele mesmo se aproxima desse ideal, caso conclua que não.
Quando existem essas condições de cultura, o gosto e a educação individual vão de par. Fala-se muito em faculdades de humanas do quanto a cultura determina o gosto, mas muito pouco do contrário, de quanto o gosto informa o indivíduo, de como livros e peças, de como pinturas e filmes são um reservatório de modelos de comportamento e de testemunhos de experiências humanas muito mais diversas e mais intensas do que um indivíduo possa sozinho jamais conhecer, mas que por isso mesmo são fundamentais para a sua formação, para torná-lo menos ignorante do que é e mais consciente do que deve ser.
É mais do que duvidoso que isso exista hoje. A idéia de que há uma great conversation e de que ela está ligada ao sentido da nossa existência individual e de que, portanto, o estudo de religiões e de artes e de línguas antigas não se justifica somente para a Plataforma Lattes, essa idéia é totalmente alheia à maioria dos estudantes, quando não dos professores. Nos estudos literários, o resultado da falta de civilização é a separação entre o gosto e o exercício escolar. A análise literária deveria contribuir para melhorar a capacidade de julgamento; como os critérios para o julgamento são quase inexistentes, a análise literária serve só por ela mesma. Daí os meus alunos inteligentes (quer dizer, capazes de fazer bons exercícios escolares), mas soberanamente indiferentes às belezas de um Corneille ou de um Bossuet.
Se existe universidade e não há civilização; se há uma instituição que se justifica pelo conhecimento, mas não existe lastro na cultura para ele, em que a academia pode contribuir para a formação individual? Ela pode declarar solenemente que indivíduos são ficções burguesas e abdicar da função – é a universidade entre utilitários e resentniks, de que já falei antes. Mas ela também pode continuar a fazer aquilo para o que foi criada e esperar um ambiente menos desfavorável, uma mudança – ainda que longínqua e improvável – nas condições de cultura. O mot d’ordre dos anos 90 de “quebrar os muros da universidade” só podia ser, então, equivocado. Quando se rompe com os muros da universidade, não é o conhecimento de dentro que inunda o mundo lá fora; é o mundo de fora que turva o que deveria ser claro lá dentro. Os muros da universidade têm de continuar de pé, e de preferência ser reforçados, exatamente como os muros de um mosteiro em meio a uma invasão viking, para preservar farrapos do passado até a chegada de um momento menos hostil.
Ainda que esse objetivo pareça modesto, mesmo ele está distante. Porque as pessoas que compõem a universidade vêm da mesma cultura à qual a universidade, como instituição, deveria se opor. Nem os burocratas, nem dos alunos, nem alguns dos professores têm a mais mínima noção, por teórica que seja, da great conversation na qual academia poderia introduzi-los. Talvez, na falta de uma solução coletiva, a única saída por enquanto seja individual: dedicar-se à educação dos alunos que porventura sejam uma exceção à regra e, como professor, esforçar-se para ser uma."


Entrevistadora: O senhor se referiu aos "muros da academia" como um obstáculo para o pensamento livre. Há alguma esperança para as universidades?

Zigmunt Bauman: O que quer que as universidades façam, elas não conseguirão jamais pôr um fim à curiosidade humana, que talvez tenha de sair da academia para se satisfazer.Ainda tenho o meu escritório na Universidade de Leeds, mas mal posso reconhecer a universidade da qual saí há poucos anos, tal a velocidade da mudança. Os nomes aparecem e desaparecem das portas, as pessoas são classificadas de acordo com o projecto em que estão engajadas no momento, mas tudo é tão a curto prazo! Cambridge provavelmente ainda é diferente. Se se pensa nas limitações que a organização universitária hoje impõe ao desenvolvimento do pensamento livre, basta olhar para o que acontece com a filosofia e a sociologia tal como são praticadas nos departamentos universitários e em outros "locais de autoridade" (...) Cada uma dessas disciplinas académicas se pretende de posse de grupos distintos de "dados primários", e os processa, interpreta, verifica e refuta de maneiras diferentes. Dominar o cânone tanto da sociologia como da filosofia e adquirir credenciais oficialmente reconhecidas e confirmadas em cada uma delas toma todo o tempo dos estudantes universitários - e a competência em uma dessas disciplinas académicas raramente é exigida para se adquirir o grau na outra. Posso entender a preocupação dos sociólogos académicos com a circunscrição, as barreiras e a defesa de suas possessões contra os competidores na obtenção do dinheiro das fundações e do governo, mas o que não podemos esquecer é que essa preocupação se origina na realidade da vida académica e não na lógica da experiência humana que a sociologia é chamada a servir.

entrevista a
Zigmunt Bauman, sociólogo humanista e pensador pós-modernista




Maria Elisa - (...) Ontem, quando eu estava a trabalhar nesta entrevista, o meu filho que tem quinze anos e a quem eu tento desesperadamente convencer que se não for um bom aluno não entra para a Universidade, e portanto tem muito menos hipóteses de vir a arranjar um trabalho interessante, olhou para os meus papéis e leu a seguinte frase sua: «Hoje, a maior parte dos desgraçados dos alunos têm de aguentar professores a quem não pediram coisa nenhuma.» “Estás a ver?”, disse-me ele, triunfante, “esse tipo é que tem razão!”. E eu fiquei perplexa, porque eu também acho que “esse tipo”, que é o senhor Professor, tem razão. Mas como é que nós havemos de ajudar os nossos filhos a viver num mundo altamente competitivo se eles começarem por contestar completamente a escola e tiverem más notas?

Agostinho da Silva - O problema está no mundo competitivo e não nos meninos. Nós o que temos é que pensar se o mundo competitivo tem que continuar assim, ou se tem jeito de ser de outro modo. É evidente de que além de competição, e acima de competição, nós estamos por exemplo, quanto à economia, numa guerra perfeita: a guerra contra a carência. Se houvesse como havia no princípio fruta, e raízes, e comida à vontade para toda a gente, não haveria nenhum problema no mundo. Simplesmente o que aconteceu foi que pelo desenvolvimento dessa primeira gente apareceram mais consumidores do que havia mercadoria para consumir, e imediatamente entrámos na competição – que era a única maneira que havia de conseguir para toda a gente aquilo de que essa gente precisava. De maneira que, de facto, as pessoas por exemplo julgam que estão em paz no mundo, que são civis, quando não são nem uma coisa nem outra. Nós estamos todos envolvidos numa guerra: a guerra contra a carência; e então isso só poderá acabar quando, como nas outras guerras, nós abatermos completamente o inimigo; e parece que não há outra forma de economia, por enquanto, (...) que consiga levar a esse fim senão essa economia competitiva em que

estamos.
M.E. - Bom, mas é nesse mundo que estamos. Portanto, qual é que tem que ser a atitude dos meninos?
A.S. - A atitude tem que ser, ao mesmo tempo, a de sonhar, a de desejar que essa competição acabe; e estamos cada vez mais perto do fim dela. E os meninos, melhor que nós, porque já vêm a crescer para um terceiro milénio, (...) já sa- bem que estamos perto desse fim e que muitas das coisas que ensinamos nas nossas escolas são desnecessárias para eles; o que acontece é que grande parte dessa geração já nasce reformada, e nós ainda não tomámos a consciência plena disso...
M.E. - O que é que o senhor Professor quer dizer
com isso, “já nasce reformada”?...
A.S. - Quero dizer que vai haver tanta máquina,
fazendo tanta coisa, que (...) não vai haver emprego para eles (...)
M.E. - E acha que isso é um bem ou é um mal?
A.S. - Evidente que é um bem! O que acontece no mundo é que toda a gente que nasce, nasce de alguma maneira poeta, inventor de qualquer coisa que não havia no mundo ainda antes de eles nascerem, e inteiramente individual: cada umopoetaqueé!Eoqueaconteceé que nós, por causa da questão económica que temos pela frente, os metemos não a fazer poesia à solta – que era o que eles desejariam – , mas a seguir alguma coisa que é na realidade uma espécie de vida militar...
M.E. - Ó senhor Professor, alguns não querem nada fazer poesia, querem fazer coisas muito menos poéticas, se me permite a redundância: querem fazer surf, querem andar de skate, querem ir para as boîtes1... também acha isso interessante?
A.S. - Claro!, eu costumo dizer que uma das formas de poesia é a vadiagem... e por isso exactamente é que um amigo resolveu que estas conversas se chamassem “conversas vadias”. Não só porque eram errantes, no sentido de que podiam andar por aqui ou por acolá, mas sobretudo porque eram uma forma de ver a imaginação sobretudo da pessoa que pergunta! Nessa coisa de perguntas e respostas a imaginação está fun- damentalmente do lado da pessoa que pergunta; a resposta vem auto- maticamente logo que a pergunta aparece. A pessoa precisa de ver muito bem aquilo que sabe ou não sabe, e depois perguntar o que vai saciar a sua imaginação e a sua vontade de saber.

excerto de "Conversas Vadias" - Agostinho da Silva com Maria Elisa



Maria Montessori (1959)Os estudantes universitários continuam a assistir a lições, a escutar os professores, a efectuar exames, dos quais depende o êxito da sua carreira...
Na universidade, os homens vivem como crianças, apesar de já serem homens. É aí que deveriam tomar consciência das suas responsabilidades (...). Em vez disso, dão provas, em geral, de falta de consciência; têm uma ideia falsa da vida. Não se pode esperar que tais homens contribuam para melhorar a sociedade...

Nos nossos dias, a civilização e a cultura transmitem-se por meios cada vez mais vastos e mais fáceis. A cultura é divulgada pela imprensa e por meios de comunicação rápidos que estabelecem uma espécie de nivelamento universal.
Assim, as universidades tornaram-se a pouco e pouco simples escolas profissionais, em que só o grau de cultura é superior ao das outras escolas. Mas perderam o sentido da sua dignidade e da sua grandeza que fazia delas (na Idade Média) um instrumento central para o progresso e a civilização.

Os estudantes universitários cujo objectivo é apenas obter um obscuro emprego pessoal já não podem ter consciência desta missão que criava outrora o «espírito da universidade». O simples desejo de trabalhar o menos possível, de passar custe o que custar nos exames e de obter o diploma que servirá o interesse pessoal de cada um tornou-se o móbile essencial, comum aos estudantes. De tal modo que ao progresso da cultura que transformou a existência correspondeu a decadência das instituições universitárias. Os verdadeiros centros de progresso estabeleceram-se nos laboratórios dos investigadores científicos, que são lugares fechados, estranhos à cultura comum.

Agostinho da Silva (actualidade)Todas as universidades deviam empurrar o sujeito a ser autodidacta. Deviam ter um ambiente tal que aquele que não se instruísse por ele próprio estava mal. Mas o que acontece é que os sujeitos vão para ouvir o professor, decorar o mais possível, portar-se bem na aula, fazer uma tese, se for caso disso, e pronto, está o caso arrumado…



College is the same academic bullshit than before.
Nicholas Ray (We can't go home again, 1976)

"...O que nunca hei-de aceitar, ainda ontem falámos nisso, é que cineastas de corpo inteiro, Victor Gonçalves ou Joaquim Pinto, Jorge Silva Melo ou tantos outros jovens, rapazes e raparigas sozinhos contra o universo, que em cada filme fazem a sua biografia e a do mundo ou do seu lugar ou não lugar, que olham e que ardentemente captam e juntam poros e carne e sangue, continuem a ser impedidos de filmar pelos fascistas e medíocres e pela máfia dos que atribuem subsídios, dos produtores, dos festivais que recebem cópias em DVD de filmes digitais sem produtora, sem "nomes do meio", considerados por eles "amadores", possivelmente com falhas técnicas e não higienizados pelos "profissionais" mas com o fogo de furiosos vulcões em irrupções imparáveis. Amadores que amam muito, que é o oposto dos que nada amam e só se querem promover, realizadores vedetas, mundo bafiento e orquestrado do meio e da critica que é a mesma coisa. Costas protegidas contra os desnudados que tudo expõem. Dinheiro e maquinaria e publicidade que tentam apagar o desejo de cinema dos pobres e dos selvagens. ..."
José Oliveira, Marta Ramos, Mário Fernandes (in blogue Raging B)



A Educação Humana.


pela sobrevivência de um fundo mínimo de sociedade.


“A inteligência humana vê-se impotente e desnorteada diante da sua própria criação. (…) A própria caça à riqueza não é a finalidade, o destino da humanidade, a menos que o progresso deixe de ser a lei no futuro, como tem sido no passado. A dissolução da sociedade ergue-se, diante de nós, como uma ameaça; é o fim de um período histórico – cuja meta tem sido a propriedade da riqueza (…). A democracia (…), a igualdade (…) farão despontar a próxima etapa superior da sociedade (…) Será uma revivescência da liberdade, igualdade e fraternidade das antigas gens, mas sob uma forma superior.” (Morgan, in "Ancient Society")


A diferença entre espíritos livres e vassalos: os primeiros passam pelas academias; os segundos permanecem nelas. Bruno Andrade


"When people ask me if I went to film school I tell them, 'no, I went to films.'" Quentin Tarantino



“film school is for chumps”; Paul Thomas Anderson


“As pessoas mais jovens não vêem à Cinemateca; se estão na escola de cinema aprendam a expor filme, a fazer uns sons, mas também não se interessam muito.” Pedro Costa


“Não se vai para a Escola de Cinema aprender isto. Fui para a Escola de Cinema para aprender umas coisas de química, para ver filmes, porque não tinha hipótese; O João Bénard da Costa mostrou-me muitos filmes, o João Miguel Fernandes Jorge mostrou-me muitos filmes, alguns professores assim…” Pedro Costa


"...Ainda falta falar dos professores assistentes, acaba-se o curso, dá-se logo aulas, záz, zás, sempre a andar como diria o Straub….e eles lá estão todos contentes a ganhar o deles, a mostrar o king kong ou o trailer do novo filme dos Wachowski …Por isso, aos jovens que gostam mesmo de cinema, não vão para a escola, vão á cinemateca, saquem os filmes que gostam especialmente, façam coisas originais e livres, atirem imagens contra sons, vão trabalhar para o clube de vídeo na rua ao lado, como o Tarantino. Escolas são o pior que há, para mim foi…é que nem aprendi umas coisas de química, o máximo foi o tal professor que me salvou um pouco a vida, e ter conhecido umas raparigas jeitosas." José Oliveira in Porque é que as escolas de cinema são uma merda







Prof. Dr. João Mário Grilo (via blog raging b)



Nada poderia ter sido pior para o desenvolvimento da minha mente do que o liceu do Dr. Butler, dado que era estritamente clássico, não ensinando mais nada além de alguma geografia e história da antiguidade. O liceu como meio de educação foi para mim simplesmente um zero. Durante toda a minha vida fui completamente incapaz de dominar qualquer língua. Dava-se grande atenção à composição de versos, uma coisa que nunca consegui fazer bem. (...) Decorar as lições do dia anterior era algo a que era dedicada muita atenção; podia fazer isso com facilidade, aprendendo 40 ou 50 versos de Virgílio ou Homero quando estava na capela de manhã;mas este exercício era completamente inútil, visto que tudo era esquecido em 48 horas. (...) Quando acabei o liceu não era, para a minha idade, nem o melhor nem o pior; e creio que todos os professores e o meu Pai me consideravam um rapaz medíocre, bastante abaixo da média do ponto de vista intelectual. Para grande mortificação minha, o meu pai disse-me uma vez, «Não pensas em nada a não ser em cães, andar aos tiros, e caçar ratos, e hás-de ser uma vergonha para ti e para toda a tua família.» Mas o meu pai, que era o homem mais bondoso que eu alguma vez conheci, e cuja memória amo de todo o coração, devia estar zangado e foi algo injusto quando usou tais palavras. (...) Como eu não estava a ter sucesso no liceu, o meu pai tirou-me de lá mais cedo do que o costume e mandou-me (em Outubro de 1825) para a Universidade de Edimburgo com o meu irmão e lá fiquei dois anos. O meu irmão estava a acabar os seus estudos em medicina, embora pense que nunca teve a intenção de exercer, e eu fui enviado para os iniciar. Mas pouco depois convenci-me, a partir de várias pequenas circunstâncias, de que o meu pai me deixaria posses suficientes para que vivesse com algum conforto (...); mas esta convicção foi suficiente para impedir qualquer esforço tenaz para aprender medicina. O ensino em Edimburgo era exclusivamente por meio de Aulas Teóricas, e estas eram intoleravelmente maçadoras, exceptuando as de química por Hope; mas para mim as aulas teóricas não têm vantagens, antes várias desvantagens, quando comparadas com a leitura. As aulas do Dr. Duncan sobre Matéria Médica às 8 horas numa manhã de Inverno são uma lembrança assustadora. As aulas do Dr. Munro sobre anatomia humana eram tão maçadoras como ele próprio, e o assunto causou-me repugnância. (...) Durante o meu segundo ano em Edimburgo frequentei as aulas de Jameson sobre Geologia e Zoologia, mas estas eram inacreditavelmente maçadoras. O único efeito que produziram em mim foi a determinação de nunca, enquanto vivesse, ler qualquer livro de Geologia ou estudar de algum modo esta ciência. (...) Depois de ter estado dois anos lectivos em Edimburgo, o meu pai deu-se conta, ou soube pelas minhas irmãs, que eu não gostava da ideia de ser médico, e assim sugeriu que eu me tornasse um padre anglicano. Ele opunha-se, com razão e veementemente, a que eu viesse a ser um desportista ocioso, o que parecia ser o meu destino mais provável. (...) Na Universidade [de Cambridge] havia aulas abertas ao público sobre vários assuntos, e a frequência era totalmente voluntária; mas eu estava tão enjoado de aulas em Edimburgo que nem fui às aulas eloquentes e interessantes de Sedgwick. Se o tivesse feito ter-me-ia certamente tornado geólogo mais cedo. No entanto, frequentei as aulas de Henslow sobre Botânica, e gostei imenso delas devido à sua grande clareza e às admiráveis ilustrações; mas não estudei botânica. Henslow costumava levar os alunos, incluindo vários membros mais antigos da Universidade, a saídas de campo, a pé ou de carruagem se fosse a sítios distantes, ou num barco pelo rio abaixo, e leccionava sobre os animais ou plantas raros que se observavam. Essas excursões eram encantadoras. Embora, como veremos em breve, houvesse alguns factores atenuantes na minha vida em Cambridge, perdi tristemente o meu tempo, ou mesmo pior. Devido à minha paixão por caçar ou, se isso falhasse, por andar a cavalo a corta-mato, juntei-me a um grupo de desportistas folgazões, incluindo alguns jovens estróinas e de pouca confiança. Muitas vezes passávamos os serões juntos, embora esses jantares incluíssem frequentemente pessoas de maior calibre, e às vezes bebíamos demais, com cantorias alegres e jogos de cartas a seguir. Sei que me deveria sentir envergonhado de dias e serões passados assim, mas como alguns dos meus amigos eram muito agradáveis e estávamos todos muito animados, não posso deixar de me lembrar desses tempo com prazer. (...) Ainda não mencionei uma circunstância que influenciou a minha carreira mais do que qualquer outra: a minha amizade com o Prof. Henslow. Antes de ir para Cambridge ouvira falar dele pelo meu irmão, como um homem que conhecia todos os ramos da ciência, e estava por consequência disposto a venerá-lo. Uma vez por semana recebia todos os que quisessem ir a sua casa, e todos os estudantes e vários membros mais velhos da Universidade que se dedicavam à ciência costumavam passar aí o serão. Cedo recebi um convite, através de Fox, e comecei a lá ir regularmente. Depressa me tornei íntimo de Henslow, e durante a segunda metade da minha estada em Cambridge dei longos passeios a pé com ele quase todos os dias; de modo que alguns dos professores me chamavam «o homem que passeia com Henslow»; e ao serão era muitas vezes convidado para o jantar em família. Os seus conhecimentos em botânica, entomologia, química, mineralogia, e geologia eram extensos. O seu gosto mais forte era tirar conclusões a partir de observações prolongadas e minuciosas. O seu discernimento era excelente e toda a sua mente era equilibrada; mas não creio que alguém possa dizer que tivesse um talento muito original. Era profundamente religioso (...). As suas qualidades morais eram admiráveis sob todos os pontos de vista. Não tinha o mais leve laivo de vaidade ou qualquer sentimento mesquinho; e nunca vi um homem que se preocupasse tão pouco com ele próprio ou com os seus problemas. Estava sempre sereno, e os seus modos eram afáveis e cheios de cortesia; e no entanto, como testemunhei, podia chegar à mais viva indignação e rápida tomada de acção se presenciasse alguma vileza.

Darwin na sua autobiografia. (via blog Fim do Mundo)



Yo fui educado en el cine por Skorecki, su pensamiento contó más para mí. Si bien él era también bastante duro, su pensamiento no era el de la política de los autores, y eso me ha inspirado mucho. Ya en su momento vi que la idea de política de los autores podía ser contraproducente a un momento dado, pues no puede aplicarse de la misma forma que cuando se inventó. Ya no funcionaba, había que cambiarla. Él había comprendido, y fue uno de los primeros, una cosa que los Cahiers no comprendieron realmente: veían el cine en todas partes. Y no es verdad, el cine no está en todas partes.
La crítica de la vida - Entrevista con Pierre Léon a propósito de L'Idiot, por Fernando Ganzo. (via signo do dragão)



"....A inteligência é mais freqüente do que no geral se imagina; já o gosto é muito provavelmente uma espécie em extinção. Tenho alunos bastante dotados intelectualmente, capazes de redigir muito bem em francês e de fazer close readings de Mallarmé e de perceber princípios de composição em À La Recheche du temps perdu, mas sem qualquer aptidão para estabelecer uma diferença de valor entre uma página de Proust e outra de uma mera Marguerite Duras, por exemplo. Quanto àqueles que conseguem, nos raros casos em que também não são os mais brilhantes, uma inteligência média lhes basta.
Essa constatação serviu para deixar mais ou menos claros para mim os efeitos de uma formação universitária na educação daquilo que realmente importa, a do indivíduo. E hoje esses efeitos tendem ao nulo. Primeiro, porque, para que a educação universitária funcione com relação ao indivíduo, é preciso que haja um. E, para que um indivíduo exista, são necessárias condições de cultura muito especiais. É necessário que haja uma hierarquia de valores, e que no alto dessa hierarquia constem o interesse pelo passado, o desejo de excelência moral, a busca por conhecimento sem vistas à aplicação. É necessário que ela não tolha uma curiosidade por vontade de bom-mocismo ou por necessidades práticas imediatas. É necessário, em suma, que uma cultura seja civilização. O leitor saberá julgar se vivemos em uma e o quanto ele mesmo se aproxima desse ideal, caso conclua que não.
Quando existem essas condições de cultura, o gosto e a educação individual vão de par. Fala-se muito em faculdades de humanas do quanto a cultura determina o gosto, mas muito pouco do contrário, de quanto o gosto informa o indivíduo, de como livros e peças, de como pinturas e filmes são um reservatório de modelos de comportamento e de testemunhos de experiências humanas muito mais diversas e mais intensas do que um indivíduo possa sozinho jamais conhecer, mas que por isso mesmo são fundamentais para a sua formação, para torná-lo menos ignorante do que é e mais consciente do que deve ser.
É mais do que duvidoso que isso exista hoje. A idéia de que há uma great conversation e de que ela está ligada ao sentido da nossa existência individual e de que, portanto, o estudo de religiões e de artes e de línguas antigas não se justifica somente para a Plataforma Lattes, essa idéia é totalmente alheia à maioria dos estudantes, quando não dos professores. Nos estudos literários, o resultado da falta de civilização é a separação entre o gosto e o exercício escolar. A análise literária deveria contribuir para melhorar a capacidade de julgamento; como os critérios para o julgamento são quase inexistentes, a análise literária serve só por ela mesma. Daí os meus alunos inteligentes (quer dizer, capazes de fazer bons exercícios escolares), mas soberanamente indiferentes às belezas de um Corneille ou de um Bossuet.
Se existe universidade e não há civilização; se há uma instituição que se justifica pelo conhecimento, mas não existe lastro na cultura para ele, em que a academia pode contribuir para a formação individual? Ela pode declarar solenemente que indivíduos são ficções burguesas e abdicar da função – é a universidade entre utilitários e resentniks, de que já falei antes. Mas ela também pode continuar a fazer aquilo para o que foi criada e esperar um ambiente menos desfavorável, uma mudança – ainda que longínqua e improvável – nas condições de cultura. O mot d’ordre dos anos 90 de “quebrar os muros da universidade” só podia ser, então, equivocado. Quando se rompe com os muros da universidade, não é o conhecimento de dentro que inunda o mundo lá fora; é o mundo de fora que turva o que deveria ser claro lá dentro. Os muros da universidade têm de continuar de pé, e de preferência ser reforçados, exatamente como os muros de um mosteiro em meio a uma invasão viking, para preservar farrapos do passado até a chegada de um momento menos hostil.
Ainda que esse objetivo pareça modesto, mesmo ele está distante. Porque as pessoas que compõem a universidade vêm da mesma cultura à qual a universidade, como instituição, deveria se opor. Nem os burocratas, nem dos alunos, nem alguns dos professores têm a mais mínima noção, por teórica que seja, da great conversation na qual academia poderia introduzi-los. Talvez, na falta de uma solução coletiva, a única saída por enquanto seja individual: dedicar-se à educação dos alunos que porventura sejam uma exceção à regra e, como professor, esforçar-se para ser uma."


Entrevistadora: O senhor se referiu aos "muros da academia" como um obstáculo para o pensamento livre. Há alguma esperança para as universidades?

Zigmunt Bauman: O que quer que as universidades façam, elas não conseguirão jamais pôr um fim à curiosidade humana, que talvez tenha de sair da academia para se satisfazer.Ainda tenho o meu escritório na Universidade de Leeds, mas mal posso reconhecer a universidade da qual saí há poucos anos, tal a velocidade da mudança. Os nomes aparecem e desaparecem das portas, as pessoas são classificadas de acordo com o projecto em que estão engajadas no momento, mas tudo é tão a curto prazo! Cambridge provavelmente ainda é diferente. Se se pensa nas limitações que a organização universitária hoje impõe ao desenvolvimento do pensamento livre, basta olhar para o que acontece com a filosofia e a sociologia tal como são praticadas nos departamentos universitários e em outros "locais de autoridade" (...) Cada uma dessas disciplinas académicas se pretende de posse de grupos distintos de "dados primários", e os processa, interpreta, verifica e refuta de maneiras diferentes. Dominar o cânone tanto da sociologia como da filosofia e adquirir credenciais oficialmente reconhecidas e confirmadas em cada uma delas toma todo o tempo dos estudantes universitários - e a competência em uma dessas disciplinas académicas raramente é exigida para se adquirir o grau na outra. Posso entender a preocupação dos sociólogos académicos com a circunscrição, as barreiras e a defesa de suas possessões contra os competidores na obtenção do dinheiro das fundações e do governo, mas o que não podemos esquecer é que essa preocupação se origina na realidade da vida académica e não na lógica da experiência humana que a sociologia é chamada a servir.

entrevista a
Zigmunt Bauman, sociólogo humanista e pensador pós-modernista




Maria Elisa - (...) Ontem, quando eu estava a trabalhar nesta entrevista, o meu filho que tem quinze anos e a quem eu tento desesperadamente convencer que se não for um bom aluno não entra para a Universidade, e portanto tem muito menos hipóteses de vir a arranjar um trabalho interessante, olhou para os meus papéis e leu a seguinte frase sua: «Hoje, a maior parte dos desgraçados dos alunos têm de aguentar professores a quem não pediram coisa nenhuma.» “Estás a ver?”, disse-me ele, triunfante, “esse tipo é que tem razão!”. E eu fiquei perplexa, porque eu também acho que “esse tipo”, que é o senhor Professor, tem razão. Mas como é que nós havemos de ajudar os nossos filhos a viver num mundo altamente competitivo se eles começarem por contestar completamente a escola e tiverem más notas?
Agostinho da Silva - O problema está no mundo competitivo e não nos meninos. Nós o que temos é que pensar se o mundo competitivo tem que continuar assim, ou se tem jeito de ser de outro modo. É evidente de que além de competição, e acima de competição, nós estamos por exemplo, quanto à economia, numa guerra perfeita: a guerra contra a carência. Se houvesse como havia no princípio fruta, e raízes, e comida à vontade para toda a gente, não haveria nenhum problema no mundo. Simplesmente o que aconteceu foi que pelo desenvolvimento dessa primeira gente apareceram mais consumidores do que havia mercadoria para consumir, e imediatamente entrámos na competição – que era a única maneira que havia de conseguir para toda a gente aquilo de que essa gente precisava. De maneira que, de facto, as pessoas por exemplo julgam que estão em paz no mundo, que são civis, quando não são nem uma coisa nem outra. Nós estamos todos envolvidos numa guerra: a guerra contra a carência; e então isso só poderá acabar quando, como nas outras guerras, nós abatermos completamente o inimigo; e parece que não há outra forma de economia, por enquanto, (...) que consiga levar a esse fim senão essa economia competitiva em que
estamos.
M.E. - Bom, mas é nesse mundo que estamos. Portanto, qual é que tem que ser a atitude dos meninos?
A.S. - A atitude tem que ser, ao mesmo tempo, a de sonhar, a de desejar que essa competição acabe; e estamos cada vez mais perto do fim dela. E os meninos, melhor que nós, porque já vêm a crescer para um terceiro milénio, (...) já sa- bem que estamos perto desse fim e que muitas das coisas que ensinamos nas nossas escolas são desnecessárias para eles; o que acontece é que grande parte dessa geração já nasce reformada, e nós ainda não tomámos a consciência plena disso...
M.E. - O que é que o senhor Professor quer dizer
com isso, “já nasce reformada”?...
A.S. - Quero dizer que vai haver tanta máquina,
fazendo tanta coisa, que (...) não vai haver emprego para eles (...)
M.E. - E acha que isso é um bem ou é um mal?
A.S. - Evidente que é um bem! O que acontece no mundo é que toda a gente que nasce, nasce de alguma maneira poeta, inventor de qualquer coisa que não havia no mundo ainda antes de eles nascerem, e inteiramente individual: cada umopoetaqueé!Eoqueaconteceé que nós, por causa da questão económica que temos pela frente, os metemos não a fazer poesia à solta – que era o que eles desejariam – , mas a seguir alguma coisa que é na realidade uma espécie de vida militar...
M.E. - Ó senhor Professor, alguns não querem nada fazer poesia, querem fazer coisas muito menos poéticas, se me permite a redundância: querem fazer surf, querem andar de skate, querem ir para as boîtes1... também acha isso interessante?
A.S. - Claro!, eu costumo dizer que uma das formas de poesia é a vadiagem... e por isso exactamente é que um amigo resolveu que estas conversas se chamassem “conversas vadias”. Não só porque eram errantes, no sentido de que podiam andar por aqui ou por acolá, mas sobretudo porque eram uma forma de ver a imaginação sobretudo da pessoa que pergunta! Nessa coisa de perguntas e respostas a imaginação está fun- damentalmente do lado da pessoa que pergunta; a resposta vem auto- maticamente logo que a pergunta aparece. A pessoa precisa de ver muito bem aquilo que sabe ou não sabe, e depois perguntar o que vai saciar a sua imaginação e a sua vontade de saber.

excerto de "Conversas Vadias" - Agostinho da Silva com Maria Elisa



Maria Montessori (1959)
Os estudantes universitários continuam a assistir a lições, a escutar os professores, a efectuar exames, dos quais depende o êxito da sua carreira...
Na universidade, os homens vivem como crianças, apesar de já serem homens. É aí que deveriam tomar consciência das suas responsabilidades (...). Em vez disso, dão provas, em geral, de falta de consciência; têm uma ideia falsa da vida. Não se pode esperar que tais homens contribuam para melhorar a sociedade...

Nos nossos dias, a civilização e a cultura transmitem-se por meios cada vez mais vastos e mais fáceis. A cultura é divulgada pela imprensa e por meios de comunicação rápidos que estabelecem uma espécie de nivelamento universal.
Assim, as universidades tornaram-se a pouco e pouco simples escolas profissionais, em que só o grau de cultura é superior ao das outras escolas. Mas perderam o sentido da sua dignidade e da sua grandeza que fazia delas (na Idade Média) um instrumento central para o progresso e a civilização.

Os estudantes universitários cujo objectivo é apenas obter um obscuro emprego pessoal já não podem ter consciência desta missão que criava outrora o «espírito da universidade». O simples desejo de trabalhar o menos possível, de passar custe o que custar nos exames e de obter o diploma que servirá o interesse pessoal de cada um tornou-se o móbile essencial, comum aos estudantes. De tal modo que ao progresso da cultura que transformou a existência correspondeu a decadência das instituições universitárias. Os verdadeiros centros de progresso estabeleceram-se nos laboratórios dos investigadores científicos, que são lugares fechados, estranhos à cultura comum.



Agostinho da Silva (actualidade)
Todas as universidades deviam empurrar o sujeito a ser autodidacta. Deviam ter um ambiente tal que aquele que não se instruísse por ele próprio estava mal. Mas o que acontece é que os sujeitos vão para ouvir o professor, decorar o mais possível, portar-se bem na aula, fazer uma tese, se for caso disso, e pronto, está o caso arrumado…

(via blog Fim do Mundo)



College is the same academic bullshit than before.
Nicholas Ray (We can't go home again, 1976)



"...O que nunca hei-de aceitar, ainda ontem falámos nisso, é que cineastas de corpo inteiro, Victor Gonçalves ou Joaquim Pinto, Jorge Silva Melo ou tantos outros jovens, rapazes e raparigas sozinhos contra o universo, que em cada filme fazem a sua biografia e a do mundo ou do seu lugar ou não lugar, que olham e que ardentemente captam e juntam poros e carne e sangue, continuem a ser impedidos de filmar pelos fascistas e medíocres e pela máfia dos que atribuem subsídios, dos produtores, dos festivais que recebem cópias em DVD de filmes digitais sem produtora, sem "nomes do meio", considerados por eles "amadores", possivelmente com falhas técnicas e não higienizados pelos "profissionais" mas com o fogo de furiosos vulcões em irrupções imparáveis. Amadores que amam muito, que é o oposto dos que nada amam e só se querem promover, realizadores vedetas, mundo bafiento e orquestrado do meio e da critica que é a mesma coisa. Costas protegidas contra os desnudados que tudo expõem. Dinheiro e maquinaria e publicidade que tentam apagar o desejo de cinema dos pobres e dos selvagens. ..."

José Oliveira, Marta Ramos, Mário Fernandes (in blogue Raging B)