quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ContemplActividade.



: ( À ) l'Aventure

"le récit de la métamorphose d'un site géologique en lieu poétique."



via Lisa Berndl


“Something in me was born before the stars

And saw the sun begin from far away.

Our yellow, local day on its wont jars,

For it hath communed with an absolute day.

Through my Thought’s night, as a worn robe’s heard trail

That I have never seen, I drag this past

That saw the Possible like a dawn grow pale

On the lost night before it, mute and vast.

It dates remoter than God’s birth can reach,

That had no birth but the world’s coming after.

So the world’s to me as, after whispered speech,

The cause-ignored sudden echoing of laughter.

That’t has a meaning my conjecture knows,

But that’t has meaning’s all its meaning shows”


Fernando Pessoa, “35 Sonnets”, XXIV, in Poesia Inglesa, I,

edition and translation by Luísa Freire, Lisboa, Assírio & Alvim, 200, p. 56.





: FUSÃO

Karl Blossfeld

"...o corpo individual como microcosmos onde estão contidos e acessíveis todos os níveis da realidade macrocósmica, incluindo os divinos e o próprio absoluto (...) Enquanto no ocidente só algumas tradições esotéricas, com destaque para a Cabala judaica, assumiram e assumem na união sexual um sacramento e um modo privilegiado de comunhão com Deus, ou uma via para o poder mágico, as vertentes mais profundas das sabedorias orientais sempre colocaram a sexualidade no centro da relação do homem com o cosmos, o divino e o absoluto. (...) É assim que outro texto, o Sarngadharapaddhati, assimila muito significativamente o acto sexual e a meditação, na medida em que têm o mesmo fim de realizar a absorção transcensora da cisão sujeito-objecto e da decorrente errância do pensamento conceptual: “Quando o pensamento não é reabsorvido no acto amoroso e na concentração yógica – samadhi - , de que serve o recolhimento – dhyana ? De que serve o acto amoroso ?”. Nos antípodas das raízes das concepções ocidentais do amor, seja a grega, com a instrumentalização da mulher como reprodutora, a romana, em que é fonte do prazer masculino, ou a do amor cortês, com a sua valorização da relação psicológica inter-pessoal , esta assunção da experiência erótica e sexual como a menos mundana das experiências, ícone vivo, como veremos, da união divina, e que se pode abrir a uma transcensão da própria condição humana e cósmica, explica a sua sacralização em quase toda a Índia, desde a omnipresença da conjunção do linga (falo) e da yoni (vagina) nos lugares de culto, sobretudo nas regiões shivaítas, como a cidade santa de Varanasi, até à sua tradução arquitectónica e escultórica nas magníficas figuras de pedra dos templos de Khajuraho, onde homens e mulheres, deuses e deusas, se amam em todas as posições e amplexos da profunda beatitude extática.
Paulo Borges in "Experiência sexual e iluminação na tradição tântrica"


VIDRO COMUM
fusão em torno de 1.250 ºC
de dióxido de silício + (SiO2), carbonato de sódio (Na2CO3) + carbonato de cálcio (CaCO3).


VINHO
(do grego antigo οἶνος, transl.oínos, através do latim vīnum,
que tanto podem significar "vinho" como "videira")









Dieu Sait Quoi, Jean-Daniel Pollet, 1994








(by Spencer Tunick, via blog Cotonetes Van Gogh)


“Então o escravo é um homem livre, porque se quebram todas as barreiras rígidas e hostis que a miséria, a arbitrariedade, ou o „modo insolente‟ haviam estabelecido entre os homens. Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qual se sente, ao lado do próximo, não somente reunido, reconciliado, fundido, mas idêntico a si próprio, como se o véu de Maia tivesse sido rasgado, desfeito em farrapos que desaparecem perante o misterioso Uno primordial. Cantando e dançando, mainfesta-se (sic) o homem como membro de uma comunidade superior: desaprendeu de andar e de falar, mas vai-se preparando para a ascenção”. (Nietzsche in "A Origem da Tragédia")







O Livro dos Amantes  I  
Glorifiquei-te no eterno. 
Eterno dentro de mim fora de mim perecível. 
Para que desses um sentido a uma sede indefinível.  
Para que desses um nome à
  exactidão do instante do fruto que cai na terra 
sempre perpendicular à humidade onde fica.  
E o que acontece durante
 na rapidez da descida 
é a explicação da vida.  
Natália Correia 





" “female” and “male” are cultural events – products of what they term the “gender attributes process” – rather than some collection of traits, behaviours, or even physical attributes. (Morris)





: LUMIÈRE
299.792.458 m/s.

A luz é uma "modalidade de energia radiante" que se "propaga" através de ondas electromagnéticas. ( Maxwell )



" 1er LEÇON : LE JOUR ET LA NUIT. "















: KÉNOSIS












‎"A natureza aproxima, o costume separa" - Confúcio, "Analectos", XVII, 2.


: DZOGCHEN | INFINITO | TOTALIDADE

Fundamentando espiritual e ontologicamente a destinação essencial da nação portuguesa, como "viagem" de desvendamento do divino no mundo, e a sua própria representação lusocêntrica - de modo distinto mas convergente com a epopeia camoniana da "Ilha dos Amores", onde é a fecundação dos novos argonautas pelo Eros divino, pelo conúbio com a anima celeste (a nymphé, a ninfa, ou seja, a noiva ou a esposa) e tendente a gerar uma raça semi-divina de vigilantes do estabelecimento universal da ordem do Amor - , Vieira assume-se, inédito historiador do futuro, não só como exegeta-profeta da iminência da plenitude terrena do Reino divino-humano, mas também da mediação priveligiada de Portugal, investido não só de atributos eclesiástico-pontificais mas figura ainda da universalidade da condição humana, na consumação iminente do estado quinto imperial. PAULO BORGES in "A Pedra, a Estátua e a Montanha"


Plano de imanência ( a partir de Deleuze) "(...) O plano de imanência é correlativo aos conceitos mas não se confundem. Ele nem é o conceito nem o conceitos de todos os conceitos; O plano de imanência é a vaga única que enrola e desenrola os conceitos ; O plano de imanência é sempre único, mas é ao mesmo tempo variação pura; O plano de imanência envolve movimentos infinitos que o percorrem e retornam ; O plano de imanência é um meio que se move em si mesmo infinitamente e que permite a fluidez das velocidades infinitas – os conceitos; O plano de imanência é fluido; O plano de imanência é o absoluto ilimitado, informe, sem superfície nem volume, de natureza fractal; O plano de imanência é uma máquina abstrata cujo os conceitos são as peças; O plano de imanência é o horizonte absoluto dos acontecimentos; (Horizonte relativo ou horizonte terrestre: Funciona como um limite, muda com um observador, e engloba estados de coisas observáveis. Ele se distancia quando o observador avança. Horizonte absoluto ou horizonte dos acontecimentos: independente de todo observador, que torna o acontecimento como conceito independente de um estado de coisa visível em que ele se efetuaria. Nós sempre estamos nele e já, no plano de imanência) ; O plano de imanência é o reservatório de acontecimentos puramente conceituais; O plano de imanência é o meio indivisível em que os conceitos se distribuem sem romper-lhe a integridade, a continuidade; O plano de imanência é um deserto que os conceitos povoam sem partilhar; O plano de imanência é a única salvaguarda dos conceitos; O plano de imanência assegura o ajuste dos conceitos; O plano de imanência é a imagem do pensamento, que é construído pelo movimento infinito, ou seja, a imagem do pensamento e retém somente o que se pode reivindicar de direito, ou seja, somente o movimento que pode ser levado ao infinito e nunca o que é de fato, ou seja, os acidentes como por exemplo a perda da memória ou a loucura.; O plano de imanência é uma imagem do Pensamento-Ser (numeno); O plano de imanência tem duas faces, sobre os quais movimentos ilimitados não cessam de percorrer: Nous, enquanto da imagem ao pensamento e Phisis enquanto da matéria do ser ; O plano de imanência tem por natureza última o Uno-Todo, mas somente em cada caso especificado pela seleção do movimento, pois ele não é o mesmo em diferentes momentos da história, pois em diferentes períodos também se diferem a imagem do pensamento e a matéria do ser; O plano de imanência tem como elementos os traços diagramáticos, que são os movimentos do infinito; O plano de imanência não se confunde com os conceitos que o ocupam; O plano de imanência deve ser considerado pré-filosófico pois é da criação de conceitos que se inicia a filosofia. Porém é significado como algo que não existe fora da filosofia; O plano de imanência é nomeado pré-filosófico não porque existe antes de ser traçado, mas porque se é traçado como pressuposto; O plano de imanência já pressupõe a filosofia ou a criação de conceitos ; O plano de imanência é um deserto movente que os conceitos vêem povoar; O plano de imanência é a instauração da filosofia; O plano de imanência é o solo absoluto da filosofia, sua Terra, ou sua desterritorialização, sua fundação, sobre os quais ela cria seu conceito; O plano de imanência possui traçados que recorre a meios pouco confessáveis, pouco racionais ou razoáveis ; O plano de imanência é como um corte no caos e age como um crivo, fazendo apelo a criação de conceitos ; O plano de imanência recorta o caos e como um crivo seleciona movimentos infinitos do pensamento e se mobilia com conceitos formados como partículas consistentes, que se movimentam tão rápido quanto o pensamento; O plano de imanência é envolvido de ilusões que são miragens do pensamento e essas ilusões são infinitas: ilusão de transcendência, ilusão dos universais, ilusão do eterno, etc. ...; O plano de imanência toma do caos determinações, com os quais faz seus movimentos infinitos ou seus traços diagramáticos; Há uma multiplicidade de planos de imanência já que nenhum abraça todo o caos sem nele recair ; Os distintos planos de imanência que aparecem ao longo da história da filosofia não são somente causados pelas ilusões mas também pela maneira de se fazer imanência ; O plano de imanência é folhado, esburacado, deixado passar as ilusões que o envolvem ; O plano de imanência seleciona o que cabe de direito ao pensamento para fazer dele seus traços, intuições, direções ou movimentos diagramáticos remetendo outras determinações aos estados de simples fatos, caráteres de estado de coisas, conteúdos vívidos ; Os planos de imanência são inumeráveis, cada um com curvatura variável ; Aos planos traçados dá-se o nome de Razão; Há famílias de planos, caso os movimentos infinitos de dobrem uns nos outros e acompanham variações de curvatura ou ao contrário, selecionem variáveis não componíveis ; O plano de imanência sede ás condições do problema filosófico ; O plano de imanência opera por abalos ; O plano de imanência possui curvaturas variáveis que conservam os movimentos infinitos que retornam sobre si na troca incessante mas que também não cessam de liberar outras que se conservam ; (...)"



Malevich, Black Square, 1913


: TUDO PARA ADMIRAR | UM PARAÍSO PRÓPRIO | COMO SE

"Des choses se découvraient semblables par la beauté." (Jean-Claude Rousseau)

"...L'image est limpide : le cinéaste est Lucifer, le «porteur de lumière» tombé du ciel sur terre. «Cinéma du diable», disait Epstein. Quelle est la malédiction du cinéma? D'être condamné à reproduire mécaniquement le visible, d'être prisonnier des apparences sensibles." (Cyril Neyrat, no ensaio "Tout est à admirer")








"C'est l'idée q'il n'y a pas d'art sans matière.
(...) Dans l'intellectualisation de la parole,
on le perd de vue.
La parole ne peut s'entendre que dans son chant"

JEAN-CLAUDE ROUSSEAU





















: ORDEM | EROS | PERTENÇA



A Palavra, Carl Dreyer (1955)


IX


O rosto de Inger. Peço para esse rosto uma pragmática da
fisionomia, quando
com arte o encosta à ombreira de uma porta. Não é mais que
fogo e sede

e a imagem dos seus dias extingue-se na brevidade
da película do desejo. Uma estrela cadente cai em abismo
no tempo do seu destino. Violento,Mikkel, diz «A
alma, sim, está bem
mas amava o seu corpo. Arde o corpo morto de Inger
abundante de vida
em todo o meu corpo.»

O rosto de Inger, amante de Mikkel. Os olhos, os lábios -
areia - o vento ergue sobre a erva nas dunas
ninguém os vai colher.

As coisas que morreram resplandecem ressuscitam

João Miguel Fernandes Jorge
in João Miguel Fernandes Jorge, José Loureiro e Rita Azevedo, A Palavra, Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, 2007



Transcendente de todas as discriminações do intelecto, mas imanente às entranhas do eros iluminado, é a inocência da Grande Perfeição, a infinita pureza de todas as coisas.
Paulo Borges

In our quest to find the laws that govern the universe we have formulated a number of theories or models, such as the four-element theory, the Ptolemaic model, the phlogiston theory, the big bang theory, and so on. Regarding the laws that govern the universe, what we can say is this: There seems to be no single mathematical model or theory that can describe every aspect of the universe. Instead, there seems to be the network of theories, With each theory or model, our concepts of reality and of the fundamental constituents of the universe have changed.
Excerpted from the book The Grand Design, by Stephen Hawking and Leonard Mlodinow, 2010






Jean-Daniel Pollet, L'Ordre, 1976




: TREVAS DO CORAÇÃO | CÉU | CORO



CORO
(Seguido por toda a assembleia,
rodeada pelos diabos que à sua volta giram,
expectantes)

Inspirar a dor do mundo
Na gruta do coração
Transmutar trevas em luz
Expirar redenção

Morrer e renascer
Morrer e renascer

Coração vasto abrir
Treva funda respirar
Dor de tudo morrer
Toda a vida renovar

Morrer e renascer
Morrer e renascer


"Folia : Mistério De Uma Noite De Pentecostes", Paulo Borges






The Devil's Circus, 1926, Benjamin Christensen





Häxan: Witchcraft Throught The Ages, Benjamin Christensen (1922)





: PUROS | TOTALIDADE | AS PEDRAS E AS ÁRVORES

“Para os puros, todas as coisas são puras” (Tito, 1, 15)

"O Deus ser tudo em todas as coisas" (sobre Padre António Vieira, "Defesa Perante O Tribunal Do Santo Ofício em "A Pedra, a Estátua e a Montanha, de Paulo Borges)

"Para mim, o cinema despertava a interrogação-chave de toda a filosofia e de toda a antropologia (...) Qual é a sua relação com a realidade exterior, dado que o que caracteriza o homo não é tanto que ele seja faber, fabricador de instrumentos, sapiens, racional e ‘realista’, mas que seja também demens, produtor de fantasmas, mitos ideologias, magias?” (Edgar Morin in "O cinema ou o homem imaginário")


The Cavern of the Enchanted Trees, in THE THIEF OF BAGDAD, Raoul Walsh (still via blog shadowplay)


: AFINAL | PISTAS DO REAL | HÁ FOME DE

"Tal com os filósofos da tradição platónica, Espinosa pretende situar a máxima sabedoria e felicidade dos humanos no amor intelectual a Deus (o amor que informa as almas abençoadas do Paraíso de Dante), (...) À medida que vamos compreendendo alguma coisa, vamos obtendo prazer e, na medida em que este prazer é puro - não misturado com ideias confusas, - ele é amor. Ora, a compreensão do universo na sua totalidade não pode produzir ideias confusas, pois a ideia do universo na sua totalidade é a ideia de Deus, que, na medida em que podemos captar, é em nós adequada. A tentativa de compreender a realidade por intermédio dessa ideia leva-nos a amar a realidade, ou seja, a amar a Deus. Porém, este amor é activo e intelectual e não passivo e emocional. Ao adquiri-lo, participamos da natureza divina. Vemos o mundo na sua plenitude, sob a ideia de Deus, (...) como diz Espinosa, "sob o ponto de vista da eternidade". Eternidade significa não o tempo infinito, mas atemporalidade." ( Roger Scrutton in "Breve História da Filosofia Moderna" )








Photos by Stephen Sarrazin




1 comentário:

Sabrina D. Marques disse...

Stills não identificados, pertencentes a "La Vallée Close", de Jean-Claude Rousseau.