sábado, 20 de novembro de 2010

Apresentando os maravilhosos


CFT&CM*
*lê-se cuftandcum






A RACE OF SEVENS
(ep)

A Race of Sevens by CFT&CM



CFT&CM, viagem musical na auto-estrada.
Porta aberta para o imaginário da recente banda portuguesa CFT&CM, em entrevista à Rua de Baixo. (Dezembro 2010)


CFT&CM, lê-se: cuftandcum. A música desta fresquíssima experiência portuguesa é da voz de Manuel Robim, 24, e dos sintetizadores de Diogo Correia, 21, dois estudantes de Design Gráfico das Caldas da Rainha. Conheceram-se em 2006, no primeiro concerto de sunnO))) em Portugal, e ao gosto comum pela música conjugou-se a sintonia de influências que recentemente nos trazem o EP de estreia “A Race of Sevens”, integralmente disponível para download gratuito. Num compromisso próprio que experimenta entre sonoridades e estilos distintos, os CFT&CM afirmam que são a banda sonora ideal para atravessar a auto-estrada pela noite adentro.


SABRINA MARQUES : Houve contacto com a criação musical, prévio a CFT&CM?

MANUEL ROBIM: Sempre gostei de música e agora estou a fazer aquilo de que gosto. Estudei música entre os 9 e os 15 anos, parei e agora estou a recomeçar.

DIOGO CORREIA: Eu já faço música desde cerca de 2004/2005. Estive envolvido nalgumas bandas, mas este foi o projecto mais sério em que me envolvi.


SM : Os teus projectos anteriores aproximavam-se deste registo?

DC: Eu já tive imensos projectos anteriores. O que mais se pareceu com uma banda já foi há uns anos. Fazíamos covers de músicas de post-punk. Vou tendo outros projectos com o Robim e com o Tiago Rodrigues mas não bem dentro do mesmo género.

MR : Skater Police ou Como Se Vai Viver No Futuro.

SM : E esses projectos estão cá fora?
¬¬
MR : Estar estão, mas não têm tanto trabalho como este tem tido. Eles nasceram todos mais ou menos ao mesmo tempo, foram seguindo em paralelo e uns andaram mais depressa do que outros.

DC : O tipo de aproximação que temos aos outros projectos é diferente. Por exemplo, Skater Police é mais adequado para um ambiente de galeria, tem mais a ver com uma relação entre o visual e o aural, enquanto CFT&CM é mais uma banda, no sentido típico da palavra.

SM: Nos outros projectos vocês exploram outras áreas artísticas que não só a música. A vossa formação académica colabora nesse aspecto?

DC : Em CFT&CM é onde utilizamos mais o que aprendemos. Em Skater Police quem faz a maior parte do visual é o Tiago (Rodrigues). Em CFT&CM sentimo-nos um bocado mais obrigados a tratar da parte gráfica da banda.

SM : Agora têm as vossas músicas disponíveis na internet para download gratuito. Vão ficar só pelo virtual, por agora, ou já há uma editora?

DC : Eu tinha uma demo com cerca de catorze músicas e ideia era o Robim cantar em cima dos instrumentais e o albúm ia ser isso. O que aconteceu foi que, ao gravar, percebemos mais ou menos qual era o estilo em que nos sentíamos mais à vontade a trabalhar e decidimos que íamos regravar algumas dessas e íamos gravar umas novas. Entretanto estive a preparar uns intrumentais novos, que se viriam a tornar a Harvest, a Tardigrade, a Rovers e a Eagre, que se calhar são mais uma evolução do que estava antes, não desfazendo as músicas anteriores. Disponibizámos estas músicas gratuitamente, o EP “A Race of Sevens”. Não achamos que aquilo tenha qualidade suficiente de audio, para ser um produto profissionalmente editado. Mas se alguém nos quiser editar, aceitamos de bom grado. Para já, a ideia é divulgar ao máximo o projecto e dar concertos.


SM: Têm concertos em agenda?

MR : Temos concertos por marcar. Estamos à espera de datas, para tocar com o Luís Gravito, O Cão da Morte, e para tocar nas Caldas da Rainha com um amigo nosso, o Dreams (João Chaves). E fomos contactados para a possibilidade de uns concertos em Valência.

DC : Procuramos abranger um mercado mais internacional, apesar de não achar que estejamos a fazer uma sonoridade pouco convencional, complicada ou difícil de ouvir. São, na sua essência, músicas pop.

MR : Exactamente. Ao vivo, sou eu a cantar e o Diogo nos sintetizadores. Achamos que ainda existe um certo preconceito que não se percebe muito bem. Por exemplo, fomos assistir a um concerto de Dreams, e ele faz tudo: larga os samples, toca os instrumentais e canta ao mesmo tempo. E a seguir tocou uma banda convencional, com instrumentos “normais”. E parece que têm mais mérito quatro indíviduos que sabem tocar os seus instrumentos em que cada qual faz a sua parte, mesmo que a música de lá sai nem sequer seja fantástica. Se for preciso, diria que há mais mérito em pessoas como o Diogo ou o Dreams que, sozinhos com um computador, fazem a parte de todos.

SM : Há um objectivo de desmistificar isso com o vosso projecto?

MR: Não é o nosso objectivo, mas era engraçado se isso acontecesse.

DC : Fica sempre aquela ideia de que uma pessoa que faz música no computador passa som, e eu não sei passar som, eu não sou dj.

SM : Falaste numa label pop. Na vossa biografia diz que fazem música para ouvir na auto-estrada. Onde julgam que se insere a vossa música, em influências e em estilo?

DC : Tem a ver com o pós-punk, mas também tem influências new-wave, electrónica, e influências populares contemporâneas, no chill-wave, na Ed Banger. De momento encontramo-nos a trabalhar numa música nova, para lançar dentro em pouco tempo. Isto pode soar estranhíssimo mas, por exemplo, algumas das influências sugeridas para trabalhar esta música foram, entre outras coisas, 30 Seconds To Mars, Cocteau Twins e Crystal Fighters. Imagina, para a parte de voz, vamos buscar a ideia de uns coros que as novas músicas de Thirty Seconds to Mars têm e com isto não quero dizer que sejamos uns grandes apreciadores da banda.

MR : E se tudo correr bem, nenhuma das músicas vai ficar com o estilo de Thirty Seconds to Mars, porque não é esse o nosso objectivo. O que fazemos é agarrar numa ideia e adaptá-la.

DC : Vemos o que é que funciona no resto e acabámos por perceber que vale a pena processar as coisas ao nosso estilo. Gostamos de adaptar certas ambiências ao nosso contexto, o que não quer dizer que elas vão ficar iguais.

SM : Há que perguntar : porquê o nome CFT & CM?

DC : É um nome perfeitamente irónico. Houve aí uma altura em que surgiram uma data de bandas : os MSTRKRFT, os MGMT, cujo o nome era uma série de consoantes maiúsculas que se liam de uma certa maneira.

MR : Não sei se reparaste na foto da capa do EP, que é bastante enganosa. Pegámos um pouco na simplicidade do Simon & Garfunkel, que aparentemente são só dois rapazes a cantar e a tocar.

SM : O que nos podes dizer mais sobre isso?

DC : Há uma banda de rock industrial, os Throbbing Ghristle, que tem um albúm pouco convencional, o “20 Jazz Funk Greats”, de música industrial, pesadíssima. Mas olha-se para a capa e é completamente amigável, são eles os quatro numa praia, sorridentes. A capa do nosso EP é uma homenagem a essa atitude.

SM : Há que perguntar se, num contexto nacional em que tanto se fala da crise das artes, acham que é possível viver da música?

MR: Se não achasse que era possível, dedicava-me a coisas completamente diferentes.

DC : Por um lado pode-se dizer que há uma crise hoje em dia, é muito difícil ter sucesso. Vender milhões de discos, fazer o que se quer, ficar a fazer tours até ao quadragésimo aniversário, ganhar imenso dinheiro com direitos de autor, etc. Nós já não somos produtos dessa era. No outro dia falávamos de que não nos identificamos, enquanto artistas, com nomes como o David Fonseca. A nossa geração, tem acesso a tudo, à música, à escrita… Basta ter um browser e pode-se fazer download de tudo o que se quiser, as coisas mais inconcebíveis. As pessoas vão continuar a fazer downloads ilegais e o que se pode aproveitar é chegar às pessoas mais facilmente.

MR : Também lhes chegam muitas coisas à frente e as pessoas sentem-se perdidas, e não sabem o que é que hão-de ouvir.

DC : Alguém dizia isto: hoje em dia, um miúdo faz o download da discografia inteira dos Led Zepellin, ouve uma música qualquer, não gosta da música, apaga a discografia inteira. Leva-se o trabalho de um artista muito levianamente. Mas se calhar temos é de pensar que nós também somos assim com as outras pessoas. Há que continuar a fazer, a trabalhar. Julgo que as nossas músicas valem a pena, queremos chegar às pessoas. Hoje em dia há mais cultura aural. É a história da progressão das artes: há coisas que surpreendem as pessoas, mas cada vez menos. Como disse o Pedro Sousa, a primeira vez que passou a “Waters of Nazareth” esvaziou uma sala e passado um ano já toda a gente gostava da música. Com a disseminação fácil das coisas, as sonoridades tornam-se menos estranhas. Eu acho que é positivo.

MR : Cada vez há mais pessoas a fazer coisas. O que pode acontecer é que no futuro ninguém receba nada por fazer música.

SM : Vem aí um albúm?

MR : Para já, o objectivo é trabalhar no EP, e, se nos for dada a oportunidade, melhorá-lo.

DC: E também transportá-lo para um contexto ao vivo.

MR: É algo que ainda estamos a estudar, e falamos muito acerca de como transferir dos “phones” para uma versão ao vivo. Demos dois concertos. O primeiro foi desastroso, aprendemos muito e deu para experimentarmos como funcionava.

DC: Mas depois quando demos o segundo concerto, num contexto muito intimista, “guests only”, estávamos entre amigos e muito mais à vontade. Adicionámos-lhe um lado performativo, juntamos o “live” de CFT&CM com o de Skater Police, o que acabou por funcionar bastante bem, em conjunto com os visuais do Tiago. Foi de um grande improviso, eu nos sintetizadores, o Robim nas cantorias, ainda por cima sem microfone...

MR: Exactamente! Tive de contar com o eco da sala.

DC: Acerca de passar para “live”, tivemos consciência de um determinado conjunto de coisas e decidimos tomar um pouco uma atitude de Brian Eno: quando tens montes de coisas e as músicas cheias de tralha, começas a cortar camadas. Ultimamente decidimos que o que está só por adorno, sai. Já nos foi aconselhado, por várias vezes, ter um baterista e um baixista ao vivo e não somos apologistas disso.

MR: Ter outro elemento iria mudar a cara do projecto, o corpo, a essência, os objectivos... Nós temos uma grande sintonia, porque somos amigos e é graças a isso que este projecto anda para a frente.

SM: Acham que os espectáculos ao vivo são fundamentais para provar uma banda?

DC: Não diria que provam... Nunca seremos os Beatles, que se poderam dar ao luxo de um dia dizerem que não queriam tocar mais ao vivo. Não nos agradaria essa perspectiva porque tocar ao vivo é algo que nos satisfaz imensamente. Termos o contacto com as pessoas, há outra vida, outra energia.

MR: E as músicas ao vivo são músicas distintas. O feedback é instantâneo.

DC: Por mais rápidos que sejamos, o processo de construção é por blocos.

MR: Ouvimos a música desde que temos um instrumental manhoso, até que temos um instrumental melhor, até à parte em que eu escrevo a letra, até depois alterarmos o instrumental por causa da letra ou a letra por causa do instrumental...

DC: Torna-se satisfatório transpor estas camadas para um único momento. Conhecemo-nos num concerto de sunnO))) e aí tivemos contacto com uma apresentação ao vivo assombrosa. É música, é espectáculo, tem força.

MR: Uma performance excelente em todos os pontos.

SM: Com que surpresas vamos poder contar nos próximos espectáculos ao vivo de CFT&CM?

DC : Acima de tudo o que procuramos é independência sonora. Com isto não quero dizer que queremos fazer uma coisa completamente diferente, mas queremos fazer uma coisa que se distinga. Consideramos o nosso som extremamente pessoal.

MR: A começar pelo que falamos nas letras, que são o reflexo do que fazemos, vivemos, gostamos de fazer e nos influencia.

DC: Essencialmente, a nossa intenção é transmitir o nosso imaginário.

Ligações:
SOUNDCLOUD : http://soundcloud.com/cftandcm/sets/a-race-of-sevens
MYSPACE : http://www.myspace.com/cftandcm


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