quinta-feira, 7 de outubro de 2010

OS SIGNOS ENTRE NÓS.




Les Signes Parmi Nous


André Uerba, performer, por Bruno Simão



Estarei sujeito aos mesmos incidentes de Polónio, capaz de ver nas nuvens o que Hamlet queria? Nenhuma vontade me dominava, sucedia apenas que a minha cabeça se sucedia de imagens de plantas para comparar, e cada vez que eu encontrava uma parecença estava realmente na boa pista. (...) Sei muito bem que os psicólogos inventaram um horrível nome grego para definir essa tendência de em tudo ver analogias, mas não era coisa que me assustasse, pois em todo o lado há parecenças, uma vez que tudo existe em tudo e em todo o lado. (...)
Sabe-se que o sol é um maravilhoso fotógrafo! Veja-se o interior da rosa, que através de espelhos côncavos, projecta na ponta dos estames raios amarelos em forma de cáustica! Observe-se o desenho das folhas de trevo e como é possível construí-lo a partir da elipse. Recorde-se o dorso da cavala, às ondas verdes do mar fotografadas sobre prata. (...) A mugem, que vive à superfície das águas, quase ao ar livre, tem flancos de um branco prateado e só o dorso colorido de azul. O gardão, que procura águas baixas, começa a tingir-se de verde-mar. A perca, que se mantém a profundidades médias, já escureceu e as suas riscas laterais desenham o negro rendilhado das ondas. A carpa e o barbo, exploradores do lodo, apropriaram-se da sua cor verde-azeitona. A cavala, que prospera nas regiões superiores, reproduz no dorso o movimento das ondas como um pintor de marinhas. A cavala de ouro, porém, que desliza entre ondulações oceânicas com uma névoa que corta os raios do sol, tingiu-se através do arco-íris e imprimiu-o em fundo de ouro e prata... Tudo isto o que é senão fotografia? Na placa de prata (seja cloreto, brometo ou iodeto de prata, pois diz-se que a água do mar contém estes três halogéneos), ou na sua placa albuminosa ou, melhor, gelatinosa impregnada de prata, o peixe condensa as cores refractadas pela ágia. Submerso no revelador sulfato de magnésio (ferro), o efeito faz-se tão energético no stata nascendi que a heliografia se reproduz directamente. E o fixador hipossulfito de sódio não deve andar muito longe de um peixe que vive em cloreto de sódio e nos sais sulfatados, e que traz ele próprio consigo, de resto, uma provisão de enxofre.
Será mais do que a metáfora? Com certeza! Admitindo que a prata das escamas do peixe não é prata, a verdade é que a água do mar contém cloretos de prata e o peixe não passa de uma placa de gelatina. Para estas reproduções gráficas da natureza, existem, no entanto, causas que não são químicas. Por isso, o leopardo tem a pele cheia de marcas que lembram pegadas de cão ou gato, com os seus cinco dedos das patas da frente. Alguma vez, em tempos imemoriais, terá acontecido que uma fêmea grávida atacada por cães e gatos transmitisse aos filhos as manchas ou "desejos" que a ciência da embriologia desconhece? Haeckel fala de um touro que perdeu a cauda na porta do estábulo e procriou uma raça bovina sem rabo.
O acaso na origem das espécies... Até ter comprado uma borboleta-caveira a um naturalista, eu nunca tinha visto essa Acherontia Atropos com o crânio humano no corselete. E espantado com a imagem, mais distintamente gravada do que alguma vez supus, deu-me para estudar o insecto. Li que os Bretãos a tomam por um presságio de morte; que dá um grito lamentoso quando a importunam; que a sua lagarta se alimenta de solonáceas, jasmim e barata espinhosa (Datura Stramonium) e se crisalida bem enfiada na terra, num casulo aglutinado. Há nisto muitas relações com a morte: o prenúncio do falecimento; a canção lúgrube; a mortal beberagem do Stramonium; o enterro da lagarta....
Leitor! Não sou de natureza supersticiosa, mas depois de colher esta informação fui cair em Réaumur, o célebre físico perito em insectos, que nos conta como a borboleta-caveira surge periodicamente, sobretudo em época de grandes epidemias, e não pude deixar de meditar sobre os hábitos deste animal e as relações que tem com a libré macabra.
Em primeiro lugar, a lagarta alimenta-se de solanina e daturina, dois alcalóides vegetais aparentados com a morfina mas de igual modo muito próximos dos venenos cadavéricos, como as ptomaínas e as leucomaínas. Entre outros aromas, estes venenos exalam o do jasmim, da rosa e do almíscar. Há plantas ditas de cadáver (o Arum, a Stapelia, a Orchis, etc) que cheiram a mortos e têm cores cadavéricas, atraindo insectos que se alimentam de carne putrefacta.
Não será lógico que a borboleta-caveira visite locais onde epidemias grassam e há corpos em decomposição?
(...) Imaginemos, portanto, uma borboleta caveira perdida pelo seu olfacto enganador em cemitérios, lixeiras, cadafalsos e forcas, locais onde observa caveiras humanas formidavelmente ampliadas. A nós próprios perguntamos se não pode tudo isto actuar sobre os nervos de uma borboleta tão impressionável que emite gritos lamentosos quando a importunam, de uma borboleta em duplo delírio de cio e veneno embriagante da jusquiama; dupla bebedeira que só a grande histeria iguala. (...) Li em Bernardim de Saint-Pierre que há quem chame Ai à borboleta-caveira, devido ao doloroso canto que ela emite. Que som, o deste "ai!", grito de dor de todos os povos da terra; grito do tardígrado que lamenta o amargor da existência; grito da mágoa de Apolo pela morte de Jacinto que ele desenhou no cálice da flor com o nome desse amigo falecido. (...) E admitindo que haja tais caprichos, reconheçamo-los também neste caso; é capricho mas não milagre, isto de um insecto poder adaptar o seu exterior ao meio ambiente quando a borboleta, chamada folha-seca, tomou a forma de uma folha só para se esconder. Não se trata de milagre, mas a transformação da lagarta no casulo é, sim, um verdadeiro milagre equivalente à ressurreição dos mortos. (...) quando crisálida, a lagarta passa por um processo idêntico ao do cadáver no túmulo onde se transforma numa gordura amoniacal. (...) Morte-viva!(...) O que é lá isso! A lagarta morre no casulo, pois transforma-se em massa gorda, informe, e apesar disto vive e ressuscita numa forma mais elevada, mais livre e mais bela? Afinal o que é a vida? E a morte? A mesma coisa! Imagine-se lá isto, os mortos não serem mortos e a indestrutibilidade da energia não passar de imortalidade!

in "Inferno", de AUGUST STRINDBERG



Histoire(s) du cinéma: Les signes parmi nous, JLG 1998


The House is Black ( Khaneh Siyah Ast) Forugh Farrokhzad(1962)



L'Ordre, Jean Daniel Pollet (1973)


Saber que o canto de Orfeu não salva ninguém, que é como o condenado à morte que pede para ser executado antes do amanhecer. Para não macular a linhagem. E para o assassino é a mesma coisa. Que as ninfas recolham os seus ossos depois. Não salva ninguém. O cigarro que o assassino vai acender antes ou depois da madrugada é o mesmo. O canto de Orfeu é um canto fúnebre, da ausência ao cume do seu lirismo.
excerto de "Até que também esta árvore incendeie", Mariana Gonçalves Pereira


Preliminary sketches for Hiding in Plain Sight II,
by Damian Goidich





Há a verdade dos símbolos. Há a verdade mais escondida. Há aquilo que está sob a nossa vida aparente. É muito curioso isto porque não há profundidade, há infinitas superfícies.
ANTÓNIO LOBO ANTUNES






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- FEDERICO ROSSÍN
- MARIANA GONÇALVES PEREIRA
- MATTHEW FLANAGAN
- BRUNO SIMÃO
- MÓNICA CALLE
- MÓNICA GARNEL

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