DIÁRIO DO DOC LISBOA 2010

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A reflexão conjunta do júri universitário do Doc Lisboa 2010, composto pelo Bertolino, pela Inês, pelo Victor Dinis, pelo Tiago Abreu e por mim, trouxe-nos a interessantes ocasiões de debate conjunto acerca dos filmes em competição na categoria de Longas Metragens Internacionais. Agradecendo à APOR.DOC o convite que nos foi dirigido, o balanço a fazer desta experiência não pode ser senão extremamente proveitoso. Estendendo o meu cumprimento aos programadores pela vitalidade da programação desta edição, aproveito a oportunidade para partilhar algumas das breves notas pessoais que, na memória, se salientam desse riquíssimo bloco a que tivemos a oportunidade de assistir :



LA TERRA HABITADA
de Anna Sanmartí (2009)


Confessa-se o arrebatamento sincero deste visionamento. Estamos no terreno da comoção e todos sabemos como , com o fascínio, chega a inevitabilidade de não encontrar a palavra entre os entusiasmos.
A realizadora Anna Sanmartí sonhou com um filme que a perdesse através das paisagens da Mongólia. Acabou por fazê-lo. "La Terra Habitada" é uma dádiva, cumprindo-se como uma promessa de exotismo, como uma viagem para o espectador. Ficamos presos na beleza dessas composições memoráveis, apuradas, que equilibram cada plano e a sucessão destes entre si. É tremenda a inteligência visual de Sanmartí. O poder contemplativo de um olhar que transmite a introspecção calada de quem vê pela primeira vez e o resgate de quem sabe que há-de partir.  Acolhemos a maternidade da terra, numa intensidade hipnótica. Os planos, que lembrando as proporções preferidas de John Ford para revelar a linha do horizonte, dão-nos o choque entre o céu e a terra. e esta permanente perpendicularidade que é amiúde quebrada por pessoas, animais, carroças, condiz com a equivalente atenção a rostos animais e humanos, paisagens intactas e palcos da construção humana. Há ainda uma particular força na água, que podíamos ver quase como personagem ressurgente, e há também os olhos fixos dos animais de cativeiro - que só nos recordam das possibilidades encontradas, entre outros, por Bresson, para traçar nas expressões animais um co-protagonismo justo. Constrói-se um elogio da simbiose humana com a natureza, progressivamente evocando a acalmia de um estado puro, e simples como a habitação e proveito da terra. Um filme como uma meditação, segundo síntese da própria Anna Sanmartí, que esteve presente para mostrar um filme crucial para o cinema de hoje, transversal a terrenos de ficção ou de documentário. Uma revelação, "La Terra Habitada" é, sem dúvida, um dos melhores filme deste ano, e foi então com contentamento que o vi receber o prémio do Júri para Longas Metragens Internacionais do Doc Lisboa 2010.


MAN WITH NO NAME
de Wang Bing (2009)
A sujidade pouco trabalhada do vídeo capta o tom condizente que atravessa a precaridade do cenário desértico, simples e rudimentar, puro. No protagonismo de um frágil cowboy, o velho eremita chinês continua no seu dia-a-dia igual. A sua sombra emparelha-se na câmara-companhia de Wang Bing. Ao realizador, não interessa camuflar a sua presença, ou a do seu gesto de captação. Isso haveria de contrariar a receptividade calada deste rosto só a que há por dedicar atenção. A generosidade quintessencial de Wang Bing filma este homem como o último dos homens. Aqui, esboça a crença de que um só homem, limitado a sobreviver, se constitui como um potencial núcleo em si mesmo, intrincado em possibilidades para lá da sociedade em que calhou nascer. A duração de uma longa metragem que mostra um olhar que se atinge em amplificação pela tela de cinema. Este corpo sem nome constrói uma metáfora para as etapas basilares, universais ao ser humano, como um convite à rememoração das origens. Wang Bing procura a verdade: se os gestos se demoram na realidade da vida, o ecrã demora-los-á tal e qual. Tão minimalista e despojado de artifício, só assim se faria jus à transmissão da força da dignidade deste homem (que Wang Bing filmou desde 2007), isolado no seu combate pela vida, que, numa caverna, assume a sua marginalidade para recusar o sistema do seu país. Sem a necessidade de concretizar uma posição política, basta-nos a sequência introdutória: o esforçado transporte da terra às costas deste homem sem nome, que leva a estender e calcar sobre uma campa, a sugerir, por possibilidade, o desaparecimento de entes queridos. Não poderia haver legitimação mais universal para o seu, para lá de inserção socio-cultural. Este é o ser que somos todos ao ser: antes de mais, dependentes da mais básica busca dos meios que garantem, dia-a-dia, a nossa sobrevivência. Tudo o resto vem depois.


QU’ILS REPOSENT EN RÉVOLTE (DES FIGURES DE GUERRES)
de Sylvain George (2009)


"Le cinéma n’est pas une fin en soi, mais un médium qui permet d’entrer en relation avec le monde." SG


“Before being a conflict of classes or parties, politics is a conflict concerning the configuration of the sensible world in which the actors and the objects of these conflicts may appear. Politics is then this exceptional practice, which makes visible that which cannot be seen, which makes audible that which cannot be heard, which counts that which cannot be counted.”
- Jacques Rancière


Um filme como um grito de denúncia, na plena necessidade de dar voz à importância de causas tão actuais e tão preocupantes. De face para a luta, o passo persistente sobre todos os antagonismos fala sobre o que é a juventude, na sua resistência em corpo e em espírito. Estes são os protagonistas verídicos de uma revolução em marcha, unidos em vontade e guiados pela mesma coragem em abandonar toda uma vida no país de origem para procurar condições fora. Sylvain George encontra-se com estes passageiros das circunstâncias na cidade portuária de Calais, no norte de França, palco regular das agitações civis, onde filma desde Novembro de 2007. Apesar da espontaneidade do que é filmado, vemos memoráveis composições a de preto e branco, demonstrações incríveis da perícia pronta de Sylvain George a cada situação. Mas a história, documentada de perto e pela verdade de uma afeição com o caso, legenda-se com poesia esta ousada experiência militante. Ao gosto rosselliniano, como lembrou o crítico Augusto M. Seabra, a estrutura da narrativa une vários fragmentos, cada um dos quais apto a ser visionado isoladamente enquanto curta-metragem, compondo, ao todo, uma sequência de 150 minutos de duração (Sylvain George admite necessidade de alterações temporais no sentido de aumentar a versão comercial do filme para 180 minutos, formato que, para já, se prevê que tenha exibição em sala em França). Esta dignificação, esta nobreza em conceder justa voz aos excluídos e aos marginalizados é a primeira intenção de Sylvain George que, sobre uma tão realidade contemporânea, arrisca a estilização poética. Arrisca bem e encontra-se beleza para lá de todo o caos. Não há fundamento nas acusações de esteticismo quando Sylvain George tão extensivamente se dedica a distinguir entre rostos individuais as multidões segregadas, reapropriando-os, esboçando em cada uma personalidade, uma dignidade mínima. Não, este não é um filme de exploração da miséria alheia: Sylvain George convive com aqueles rapazes através dos anos, sentindo e experienciando pessoalmente com as situações.
A grande surpresa é a vitalidade improvável da força entre as calamidades - a que agrupa os reduzidos pela exclusão. Refugiados, deslocados, minorias étnicas, emigrantes ilegais, desempregados, jovens de subúrbio, e todos os variáveis protagonistas da exclusão social, persistem juntos num inspirador  combate diário pela sobrevivência apesar de tudo. Pelo direito a ser humano, a ser social. A união popular, nos ecos civis, marcha pela defesa dos que chegam, e contra a xenofobia tirana do mandato de Sarkozy, que os expulsa. França democrática? O poder é das armas e não do povo. Os corpos da multidão são escorraçados pela brutalidade autoritária, são reduzidos a uma nulidade humana pelos gestos sem vida dos autómatos policiais. Confundem-se os jovens, as mulheres, as crianças, os idosos, e a todos se lança a punição de uma descarga automática. Esta é a autoridade da ironia, onde a brutalidade se pratica pela pseudo-legitimidade da segurança mas a realidade não corresponde. E se o poder é das armas, e os que lutam com a voz, e os que lutam com os limites do corpo? O título da curta prévia Ils Nous Tueront Tous, identifica precisamente como a questão se alicerça numa divisão entre eles e entre nós. A situação é de um confronto entre o suposto desejo da nação francesa de se preservar, praticando esse bem-estar comum à custa do atentado contra o bem-estar dos que não pertencem à nação francesa. São impunes os excessos das forças policiais "de choque", esse desprezível rebanho de seres anulados ao livre arbítrio uma vez envergado o negro das fardas. No mais sanguinário gosto pela violência, lançam-se em fúria os agentes (sem gente dentro, les vrais pauvres) contra os jovens pela imobilização das revoltas; como se estes corpos tivessem escolhido nascer entre a pobreza, o conflito e a miséria; como se estes corpos não participassem mais basilar dos direitos humanos: o direito da sobrevivência, à auto-preservação da vida.
Manifesto pela emancipação, o cinema de Sylvain George coloca-se à frente do seu tempo e argumenta por melhor justiça, numa experiência de continuidade, que persiste com o mesmo enunciado que não cessa de multiplicar-se entre projectos. Apesar da delimitação relativa do assunto, não há como fechar-lhe os olhos se a realidade se dá hoje, e evolui em gravidade. E é irredutível a proximidade do povo português à problemática destas expulsões em massa legalizadas em território francês, quando a história do movimento migratório português é tão particularmente ligado a França e, por uma questão de dois pares de décadas, podiam ter-se visto os portugueses pontapeados pela regulação estatal francesa. Por egoísmo, negligência e abuso de poder, a secular bandeira de "Liberté, Égalité, Fraternité" sucessivamente viola as bases mais fundamentais das normas do espaço europeu, que - visivelmente - papagueia sem efectividade a livre circulação de pessoas (mas só para os que já estão dentro). Do filme de George, restam as memórias desses jovens viajantes, desembaraçados pela necessidade quotidiana, ágeis em fisionomia, destros de discurso, instruídos pela precocidade das exigências exteriores e prontos a exemplificar, em potencial, o valor subaproveitado que os actos de deportação massiva e sem critério nunca chegarão a (re)conhecer. "Qui’ils reposent en révolte" ( que em português equivale a qualquer coisa como, Que eles repousem em revolta), um maravilhoso título que vem da obra de Michaux, aqui a servir essas tão válidas necessidades de um apelo público através da intervenção artística. 2010, um ano assinalável para a revitalização do cinema militante francês, marcado por recursos estilísticos que nunca antes tinhamos visto e que, através deste "Qu'ils reposent en révolte", nos lembram que Godard também escolheu este ano para reflectir acerca  do autismo das suas representações prévias, hoje dedicando um novo ênfase às suas possibilidades do digital - para nos trazer esse admirável documento crítico que é "Film Socialisme", uma reinvenção dos traços do seu próprio cinema comprometido e um marco estético do cinema militante.

ARTIGOS RELACIONADOS COM O FILME:
Diagonal Thoughts
L'impossible : rencontre avec Sylvain George (Independencia)
Première sensation de Lussas, l'«anticorps» Sylvain George, à l'écoute des migrants: Mediapart
Fragil.org



Qu’il repose en révolte
Henri Michaux (1949)

Dans le noir, dans le soir sera sa mémoire
dans ce qui souffre, dans ce qui suinte
dans ce qui cherche et ne trouve pas
dans le chaland de débarquement qui crève sur la grève
dans le départ sifflant de la balle traceuse
dans l’île de soufre sera sa mémoire.

Dans celui qui a sa fièvre en soi, à qui n’importent les murs
dans celui qui s’élance et n’a de tête que contre les murs
dans le larron non repentant
dans le faible à jamais récalcitrant
dans le porche éventré sera sa mémoire

Dans la route qui obsède
dans le cœur qui cherche sa plage
dans l’amant que son corps fuit
dans le voyageur que l’espace ronge.

Dans le tunnel
dans le tourment tournant sur lui-même
dans celui qui ose froisser les cimetières

Dans l’orbite enflammé des astres qui se heurtent en éclatant
dans le vaisseau fantôme, dans la fiancée flétrie
dans la chanson crépusculaire sera sa mémoire.

Dans la présence de la mer
dans la distance du juge
dans la cécité
dans la tasse à poison.

Dans le capitaine des sept mers
dans l’âme de celui qui lave la dague
dans l’orgue en roseau qui pleure pour tout un peuple
dans le jour du crachat sur l’offrande.

Dans le fruit de l’hiver
dans le poumon des batailles qui reprennent
dans le fou de la chaloupe.

Dans les bras tordus des désirs à jamais inassouvis
sera sa mémoire.

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