A History of Mutual Respect

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"Trabalho em diversas plataformas porque acredito que o conceito ou ideia é a parte mais importante ou valiosa de qualquer trabalho e é transferível entre plataformas. Assim, gostaria de dizer que a área artística em que me sinto mais confortável é a narrativa, que pode ir desde a escultura até ao cinema, bem como à vida. A criação de objectos úteis, sejam filmes, pinturas ou concertos, é a principal intenção. "
GABRIEL ABRANTES



A HISTORY OF MUTUAL RESPECT
Um grito do Ipiranga para a geração?


A HISTORY OF MUTUAL RESPECT, Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt (2010)
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Qual o encanto de "A History of Mutual Respect"? Qual o seu extremo apelo? O que reinventa? Como enriquece?
Rodada no Brasil, Argentina e Portugal, esta curta metragem contou com um escasso orçamento e com uma equipa fixa de três elementos, os realizadores Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, e o colaborador Natxo Checa. Os dois intérpretes principais são os realizadores, e o restante elenco inclui vários actores não profissionais provenientes dos locais de filmagem. Como explica Abrantes (na entrevista em anexo), é na liberdade possível a uma reduzida equipa, que a produção faseada avança em inventividade e mobilidade, reinterpretando-se constantemente.
Distinguem-se com visibilidade várias referências que rememoram a participação de Abrantes nesta experiência de assinatura conjunta, notoriamente através de um fôlego que flui o discurso, sempre leve, gracejado, capaz de descrever a necessidade de abordar - visual e verbalmente - a importância recorrente de certos temas, em gritos necessários, irredutíveis à condição humana em foco, argumentando a sua própria existência pela fusão entre os contextos natural e cultural. A atenção que observa ritos, reflexos, reacções e costumes em detrimento de uma narratividade. Não há justificações comportamentais, não há índoles psicológicas das personagens brevemente descritas, 
Abrantes insufla a humanidadade de espectros, com uma distancia capaz de simular a experiência museológica do espectador-contemplador. Está assumida à priori a estilização: a autenticidade de Abrantes reconhece-se nesta mescla, tão construída como descontraída, aventurando-se com liberdade, onde árduas se tornariam as tentativas de rotular, assumir em género ou destacar particulares influências. Longe dos paralisantes assombros pelas expectativas do público, pelo apreço da crítica, pela inserção da valorização contemporânea ou pela comunhão estilística com os seus pares, este filme não resiste ainda assim ao rememorar da originalidade embrionária que destacou Miguel Gomes à sua geração, desde a sua realização da sua primeira curtas-metragem "Entretanto" (1999) ( seguida dos títulos "Inventário de Natal", "31" e "Kalkitos", prévios às longas-metragens).
A aparente validade a todas as abordagens possíveis é recorrente em Abrantes: O constante vaivém de um percurso que vive da proximidade crítica aos temas retratados - como os problemas da ocupação, do colonialismo e da miscigenação, entre outras, despudorosamente em "A History of Mutual Respect" - coaduna-se com um tratamento teatral, um por em cena bressioniano, que reune a interpretação dos actores em todos os seus filmes na mesma apatia. Neste seguimento, é interessante observar as particularidades da direcção de actores de Abrantes, também pintor, materializadas na fixidez das expressões, fracas, desanimadas, latentes pelo tédio - e que, em "A History of Mutual Respect" encontram nesta encenação o ponto ideal para uma revitalização das escassas mas vitais linhas de texto, que pontuam a deambulação filosófica que dá o mote à construção do filme.
Um filme como um caleidoscópio de sentidos, onde, em redor dos temas reconhecidos, estamos primeiramente no plano da interpelação sensorial. 
Em "A History of Mutual Respect", as noções de estrutura adquirem o valor de uma linguagem transversal: Problematizam a imposição da arquitectura como sintoma da evolução cultural - esse imaculado artificialismo com que o pós-modernismo sumptuoso da capital burocrática brasileira, Brasília, eficazmente se recorta à paisagem natural envolvente - ou caricaturam a residência num palacete burguês de uma família portuguesa, onde a solidez marmórea de colunas e estátuas se atravessa de um cão doméstico, numa repentina aparição capaz de rememorar um passado de soberania, austera e aprisionante, enumerando as consequências da história de um povo dominador. Figurações eloquentes que, simultaneamente, endereçam os vários níveis das estruturas sociais, discursando reflexivamente a dominação do homem sobre a natureza, o encontro de raças, as aspirações invasivas da posse do masculino sobre o feminino, as explorações maculadas de um poder exterior sobre a organização de um sistema fechado, a adopção progredida de mecanismos de máscara social que distanciam a humanidade da sua essência primordial.
A prova da própria humanidade é o desafio encarado por dois amigos brancos, cosmopolitas desencantados unidos pela demanda do "amor puro" na natureza, entre o vigor da floresta virgem e a força das pujantes cataratas de Iguaçu, na Amazónia. Relembrando os rumos guerreiros da conquista de Aguirre (der Zorn Gottes, Werner Herzog, 1972), é pelo encanto de uma jovem indígena que o corpo mais cede ao imperativo da posse. A história do respeito mútuo é a história da falência do respeito mútuo - falta-se à amizade, ao compromisso, e à interacção ideal entre duas culturas distintas. É pela escravidão, ditada pelo mais forte, que se dobra a natureza selvagem de uma rapariga, reduzida a troféu de conquista. Em 2008, a propósito de uma entrevista, Abrantes deixou ditas palavras donde se pode lançar um mote: "Não basta reescrever a história, tem de se ir escrevendo o futuro."



TOO MANY DADDIES, MOMMIES AND BABIES, Gabriel Abrantes


ARABIC HARE, Gabriel Abrantes


VISIONARY IRAQ, Gabriel Abrantes

OLYMPIA, Gabriel Abrantes


GUGG'N'TATE, Gabriel Abrantes



Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas de digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri,um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. – Se eu morasse aqui, deixaria meus cabelos crescerem até o chão. – Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos, que não eram americanos nem suecos, e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos; eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. – Esperei pela noite, noite veio, percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse, eu seria vista. O que me apavora é: é vista por quem? – Foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construções com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete nos jornais. – Aqui eu tenho medo. – Este grande silêncio visual que eu amo. Também a minha insônia teria criado esta paz do nunca. Também eu, como eles dois que são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Mamãe, está bonito ver você de pé com esse capote branco voando (É que morri, meu filho). – Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria pra onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. – Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. – Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon... – Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. – Cadê as girafas de Brasília? – Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. – É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la.
Brasília, Clarice Lispector(via sub-real)


FAZER DE SINTRA, AMAZÓNIA :
Entrevista a Gabriel Abrantes



NOTA : Mostra dos filmes "A History of Mutual Respect", "Visionary Iraq", "Liberdade" e "Olympia", até 26 de Dezembro, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães.


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