''É essa espécie de respeito total pelas pessoas e pelos traços : uma árvore, uma paisagem, um castanheiro, uma maneira de dispor flores, uma maneira de arranjar uma casa, um modo de por uma mesa, um objecto ... É essa busca de um Portugal mítico que ele vai tentar agarrar e que tentará depois, através dos filmes e do seu magistério na Escola Superior de Teatro e Cinema, transmitir (...)"
JOÃO BÉNARD DA COSTA sobre António Reis (em ''Cinema Português?'' de Manuel Mozos, 1996)
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de uma nação de cinema.



Na paisagem de Monument Valley, não revejo o cinema de Spielberg nem de Scorsese. Penso sim, pasme-se, no cinema de António Reis e Margarida Cordeiro, em Trás-os-Montes e Ana, na Caça e n'O Acto da Primavera de Oliveira, no bairro das Fontainhas filmado por Pedro Costa, nesses grandes mundos originários indiferentes à indústria e ao comércio (mas questão pura e dura da arte: a da intervenção e da descoberta... em solidão.(...) No país de Ford, o cinema define-se."


JOÃO MÁRIO GRILO in "No País de John Ford"

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Histoire(s) du cinéma 2B: Fatale beauté - JLG, 1998


Party Girl
NICHOLAS RAY (1958)
dancing scene
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13 Novembro 2010.
S. Luiz, Discussão da Plataforma das Artes


Todos ao S. Luiz no próximo sábado! Todos os que acreditam que a criação artística é a actividade nuclear da afirmação cultural de um país e um direito inalienável dos seus cidadãos! Todos os que recusam políticas cegas e acreditam que também em crise tem de prevalecer o estado de direito! Todos os que acreditam neste país! A PLATAFORMA DAS ARTES convoca criadores, trabalhadores e agentes das áreas artísticas e culturais, cidadãos todos ao TEATRO S. LUIZ, sábado, dia 13 de Novembro, às 15h.

Discussão que resultou nesta importante Petição Pública em defesa dos direitos da cultura, dirigida à Sra. Ministra da Cultura e ao Sr. Primeiro Ministro.


24 Novembro 2010.
Greve Geral.







Ilustração Portugueza, No. 697, June 30 1919 - 16, via revista antiga portuguesa



GREVE GERAL


24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral. Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança internacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências económico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, contribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Geral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principalmente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Sebastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económicas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiritual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nossa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravizam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Geral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos torturados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laboratórios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook, a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nossos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido, religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar, desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral, total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentrismo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e consumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria, o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria profundas e duradouras.

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos contaminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também na economia e na política. Desta Greve Geral sai um Homem e um Mundo Novo.

Paulo Borges
23.11.2010

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INFERNO
a partir de Strindberg



"Chegou a primavera. Sinto uma tristeza de morte mas o riso alegre das raparigas que brincam, invisíveis, debaixo das árvores, toca-me o coração e desperta-me para a vida. E a vida corre, e a velhice aproxima-se; mulher, filhos, lar, tudo foi devastado. Outono por dentro, Primavera por fora. O livro de Job e as Lamentações de Jeremias consolam-me porque ao menos existe uma analogia entre o meu destino e o de Job. Não sofro, também eu, de uma úlcera incurável? Não sucumbi à pobreza, não fui abandonado pelos amigos? “Vou caminhando, queimado, mas não do sol; transformei-me num irmão dos dragões e companheiro das corujas. A pele do meu corpo fez-se negra e tenho os ossos ressequidos pelo ardor que me consome. Por isso o meu canto degenerou em lamentos e os meus órgãos emitem sons lúgubres.” Isto é Job. A Jeremias bastam duas palavras para exprimir o abismo da minha tristeza: “Quase que esqueci o que é a felicidade!”



de QUI 4 A SEG 8
DE NOVEMBRO

CULTURGEST

Grande Auditório
21h30 (dias 4, 5, 6, 8) 17h00 (dia 7) Duração prevista 2h30 · M12
12 Euros · Jovens até aos 30 anos: 5 Euros

Encenação: Mónica Calle Com: Ana Ribeiro, Mónica Calle e Mónica Garnel, André Casaca, Hélder Miguel, Luís Afonso, Luís Graça, Mário Boss, Mauro Santos, Nelson, Reinaldo Duarte, Renê Vidal, Rocha e Simão Fortes, Alexandra Viveiros, Ana Água, Ana Eliseu, Ana Gil, Ana Isabel Augusto, Ana Santos, Ana Teresa Santos, Andreya Silva, Cárina Andrónico, Carla Sofia, Catarina Félix, Cátia Terrinca, Celeste Baptista, Célia Jorge, Constança Carvalho Homem, Dadá, Diana Alves, Francisca Faleiro Calle, Goreti Mourão, Inês Vaz, Iolanda Laranjeiro, Joana de Matos Estrela, Joana de Verona, Joana G Saraiva, Joana Sapinho, Laura Frederico, Lydie Bárbara, Mariana Queiroz, Marina Pascoal, Marta Branquinho, Mónica Carrusca, Mónica Samões, Myriam Santos, Paula Coelho, Rafaela Trigo, Raquel Castro, Renata Portas, Rita Miranda, Rute Miranda, Sabrina Marques, Sandra Hung, Sara de Amorim, Sara Duarte, Sofia Dinger, Sofia Faleiro, Sofia Seno, Sofia Vitória, Stéphanie Fonseca, Susana Oliveira, Tânia Alves e Vânia Rodrigues Tradução: Aníbal Fernandes Luz e espaço cénico: Mónica Calle Vídeo: Patrícia Saramago Fotografia: Bruno Simão Assistência de encenação: Rute Cardoso Direcção de produção: Alexandra Gaspar Agradecimentos: à mãe e ao pai, Amândio Pinheiro, Aníbal Fernandes, António Duarte, August Strindberg, Carla Faria, Christian Carlsson, Eglantina Monteiro, Francisco Palma Dias (pelas beldroegas, a receita do confitado e as histórias e o alerta), Francisco Rocha, José Miguel Vitorino, Manuel Rosa, Natália Gonçalves, Yvonne Metello e Francisca, Luís, Laura, Beatriz, Vera, Ana e Maria e toda a equipa técnica da Culturgest Co-produção: Casa Conveniente / Culturgest Apoios:Assírio & Alvim, Companhia das Culturas, Divisão de Limpeza Urbana da CML, Embaixada da Suécia, Instituto Superior de Agronomia da UTL

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Teenmovies dos bons.


Sixteen Candles, John Hughes, 1984

Ferris Bueller's Day Off, John Hughes, 1986

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As cores da máquina ideológica.








por Oliver Axer e Susanne Benze (2003)

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"Parece que em princípio ninguém se lembra do acto de nascimento. Cientificamente, não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida e que através dessa luz figuras mal definidas se debruçam sobre mim e a minha mãe... tenho uma ideia disso. Há muitos anos que tenho essa impressão."
Para José Afonso, que assim revelou o seu próprio nascimento a Luis Filipe Rocha, "tudo parte de uma luz branca, uma luz láctea (...) uma luz imanente, uma luz muito vital, como se fosse uma película, como se fosse um banho de leite (...), que me mergulhasse a mim ou que mergulhasse o universo."


in "José Afonso, o rosto da utopia", de José A. Salvador

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NOVEMBRO / DEZEMBRO / JANEIRO
010'011

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Dalla nube alla resistenza - Straub-Huillet, 1979, 35mm


Une morale de la perception
(De la nuée à la résistance de Straub-Huilet)
SERGE DANEY


Il y a des trucages que les Straub n’utilisent jamais - et qui semblent la négation même de leur cinéma - comme la surimpression ou le fondu-enchaîné. Toutes les fois qu’une image en recouvre une autre (à moins qu’elle ne la contienne), qu’elle la préfigure (à moins qu’elle en soit déjà le souvenir). Le temps de la surimpression est celui du travail actif de l’oubli : une voix nous dit : « tu oublieras, tu as déjà oublié. » Cet empiétement d’une image sur une autre est une des deux limites du plan straubien. L’autre est l’écran noir (ou vide).
Dans Moïse et Aaron, il y avait l’éblouissement d’un plan vide, d’une non-image. Dans Dalla nube, il s’agit d’autre chose, il s’agit d’une mise en garde : quoi que vous regardiez, un champ cultivé, une colline, une bête, n’oubliez pas que c’est toujours de l’humain que vous voyez. Si voir un film, dans la version Godard-Miéville, c’est assimiler papa à l’usine et maman à un paysage, dans la version Straub-Huillet, c’est assimiler l’usine et - de plus en plus - le paysage à papa et maman. Humanisme donc, au sens d’une prévalence, d’une prégnance de l’image humaine en toutes choses. C’est en ce sens que ces films « nous regardent » : un homme nous regarde au fond de chaque image, dans une impossible surimpression. Le cinéma, ce serait ce qui permet de rompre l’enchantement par lequel nous pensons voir autour de nous autre chose que de l’humain, alors que ce ne sont que champs cultivés, arbres taillés, cimetières ignorés, animaux-qui-sont-peut-être-des-hommes (d’où l’interdit de les tuer).
Humanisme vieux-marxiste aussi, au sens où Brecht disait qu’une photo des usines Krupp ne nous apprenait rien sur les usines Krupp. Qu’y manque-t-il ? Le travail des hommes et les hommes au travail. Et qu’y a-t-il à apprendre ? Toujours la même chose : les hommes créent les dieux (ou les ouvriers les patrons, les acteurs les spectateurs) et en retour ces dieux les dépossèdent de leur monde, le leur rendent étranger, le leur aliènent. Car il s’agit bien d’aliénation et de réappropriation, d’expérience et de mauvaise conscience, de toute une problématique existentialiste à laquelle se rattache le cinéma des Straub. On comprend du coup leur horreur pour les catégories esthétiques toutes faites : trouver « beau » un plan de paysage est, à la limite, blasphématoire, parce qu’un plan, un paysage, au bout du compte, c’est quelqu’un. Il n’y a de beauté que morale. Il ne s’agit pas d’anthropomorphisme. Il y a prégnance de la figure humaine en toutes choses, mais pas le contraire. Si l’on considère qu’un cinéaste n’est important que dans la mesure où il étudie, de film en film, un certain état du corps humain, les films de Straub resteront comme des documentaires sur deux ou trois positions du corps : être assis, se pencher pour lire, marcher. C’est déjà beaucoup.

Serge Daney, « Une morale de la perception (De la nuée à la résistance de Straub-Huillet) » dans La rampe. Cahier critique 1970-1982. Cahiers du cinéma. Gallimard.
VIA Dérives.tv
VIA Matthew Flanagan

DOWNLOAD AQUI O ARTIGO SOLIDARITY NOT IDENTIFICATION: STRAUB–HUILLET’S RADICAL CINEMA, DE MARK FISHER

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A reflexão conjunta do júri universitário do Doc Lisboa 2010, composto pelo Bertolino, pela Inês, pelo Victor Dinis, pelo Tiago Abreu e por mim, trouxe-nos a interessantes ocasiões de debate conjunto acerca dos filmes em competição na categoria de Longas Metragens Internacionais. Agradecendo à APOR.DOC o convite que nos foi dirigido, o balanço a fazer desta experiência não pode ser senão extremamente proveitoso. Estendendo o meu cumprimento aos programadores pela vitalidade da programação desta edição, aproveito a oportunidade para partilhar algumas das breves notas pessoais que, na memória, se salientam desse riquíssimo bloco a que tivemos a oportunidade de assistir :



LA TERRA HABITADA
de Anna Sanmartí (2009)


Confessa-se o arrebatamento sincero deste visionamento. Estamos no terreno da comoção e todos sabemos como , com o fascínio, chega a inevitabilidade de não encontrar a palavra entre os entusiasmos.
A realizadora Anna Sanmartí sonhou com um filme que a perdesse através das paisagens da Mongólia. Acabou por fazê-lo. "La Terra Habitada" é uma dádiva, cumprindo-se como uma promessa de exotismo, como uma viagem para o espectador. Ficamos presos na beleza dessas composições memoráveis, apuradas, que equilibram cada plano e a sucessão destes entre si. É tremenda a inteligência visual de Sanmartí. O poder contemplativo de um olhar que transmite a introspecção calada de quem vê pela primeira vez e o resgate de quem sabe que há-de partir.  Acolhemos a maternidade da terra, numa intensidade hipnótica. Os planos, que lembrando as proporções preferidas de John Ford para revelar a linha do horizonte, dão-nos o choque entre o céu e a terra. e esta permanente perpendicularidade que é amiúde quebrada por pessoas, animais, carroças, condiz com a equivalente atenção a rostos animais e humanos, paisagens intactas e palcos da construção humana. Há ainda uma particular força na água, que podíamos ver quase como personagem ressurgente, e há também os olhos fixos dos animais de cativeiro - que só nos recordam das possibilidades encontradas, entre outros, por Bresson, para traçar nas expressões animais um co-protagonismo justo. Constrói-se um elogio da simbiose humana com a natureza, progressivamente evocando a acalmia de um estado puro, e simples como a habitação e proveito da terra. Um filme como uma meditação, segundo síntese da própria Anna Sanmartí, que esteve presente para mostrar um filme crucial para o cinema de hoje, transversal a terrenos de ficção ou de documentário. Uma revelação, "La Terra Habitada" é, sem dúvida, um dos melhores filme deste ano, e foi então com contentamento que o vi receber o prémio do Júri para Longas Metragens Internacionais do Doc Lisboa 2010.


MAN WITH NO NAME
de Wang Bing (2009)
A sujidade pouco trabalhada do vídeo capta o tom condizente que atravessa a precaridade do cenário desértico, simples e rudimentar, puro. No protagonismo de um frágil cowboy, o velho eremita chinês continua no seu dia-a-dia igual. A sua sombra emparelha-se na câmara-companhia de Wang Bing. Ao realizador, não interessa camuflar a sua presença, ou a do seu gesto de captação. Isso haveria de contrariar a receptividade calada deste rosto só a que há por dedicar atenção. A generosidade quintessencial de Wang Bing filma este homem como o último dos homens. Aqui, esboça a crença de que um só homem, limitado a sobreviver, se constitui como um potencial núcleo em si mesmo, intrincado em possibilidades para lá da sociedade em que calhou nascer. A duração de uma longa metragem que mostra um olhar que se atinge em amplificação pela tela de cinema. Este corpo sem nome constrói uma metáfora para as etapas basilares, universais ao ser humano, como um convite à rememoração das origens. Wang Bing procura a verdade: se os gestos se demoram na realidade da vida, o ecrã demora-los-á tal e qual. Tão minimalista e despojado de artifício, só assim se faria jus à transmissão da força da dignidade deste homem (que Wang Bing filmou desde 2007), isolado no seu combate pela vida, que, numa caverna, assume a sua marginalidade para recusar o sistema do seu país. Sem a necessidade de concretizar uma posição política, basta-nos a sequência introdutória: o esforçado transporte da terra às costas deste homem sem nome, que leva a estender e calcar sobre uma campa, a sugerir, por possibilidade, o desaparecimento de entes queridos. Não poderia haver legitimação mais universal para o seu, para lá de inserção socio-cultural. Este é o ser que somos todos ao ser: antes de mais, dependentes da mais básica busca dos meios que garantem, dia-a-dia, a nossa sobrevivência. Tudo o resto vem depois.


QU’ILS REPOSENT EN RÉVOLTE (DES FIGURES DE GUERRES)
de Sylvain George (2009)


"Le cinéma n’est pas une fin en soi, mais un médium qui permet d’entrer en relation avec le monde." SG


“Before being a conflict of classes or parties, politics is a conflict concerning the configuration of the sensible world in which the actors and the objects of these conflicts may appear. Politics is then this exceptional practice, which makes visible that which cannot be seen, which makes audible that which cannot be heard, which counts that which cannot be counted.”
- Jacques Rancière


Um filme como um grito de denúncia, na plena necessidade de dar voz à importância de causas tão actuais e tão preocupantes. De face para a luta, o passo persistente sobre todos os antagonismos fala sobre o que é a juventude, na sua resistência em corpo e em espírito. Estes são os protagonistas verídicos de uma revolução em marcha, unidos em vontade e guiados pela mesma coragem em abandonar toda uma vida no país de origem para procurar condições fora. Sylvain George encontra-se com estes passageiros das circunstâncias na cidade portuária de Calais, no norte de França, palco regular das agitações civis, onde filma desde Novembro de 2007. Apesar da espontaneidade do que é filmado, vemos memoráveis composições a de preto e branco, demonstrações incríveis da perícia pronta de Sylvain George a cada situação. Mas a história, documentada de perto e pela verdade de uma afeição com o caso, legenda-se com poesia esta ousada experiência militante. Ao gosto rosselliniano, como lembrou o crítico Augusto M. Seabra, a estrutura da narrativa une vários fragmentos, cada um dos quais apto a ser visionado isoladamente enquanto curta-metragem, compondo, ao todo, uma sequência de 150 minutos de duração (Sylvain George admite necessidade de alterações temporais no sentido de aumentar a versão comercial do filme para 180 minutos, formato que, para já, se prevê que tenha exibição em sala em França). Esta dignificação, esta nobreza em conceder justa voz aos excluídos e aos marginalizados é a primeira intenção de Sylvain George que, sobre uma tão realidade contemporânea, arrisca a estilização poética. Arrisca bem e encontra-se beleza para lá de todo o caos. Não há fundamento nas acusações de esteticismo quando Sylvain George tão extensivamente se dedica a distinguir entre rostos individuais as multidões segregadas, reapropriando-os, esboçando em cada uma personalidade, uma dignidade mínima. Não, este não é um filme de exploração da miséria alheia: Sylvain George convive com aqueles rapazes através dos anos, sentindo e experienciando pessoalmente com as situações.
A grande surpresa é a vitalidade improvável da força entre as calamidades - a que agrupa os reduzidos pela exclusão. Refugiados, deslocados, minorias étnicas, emigrantes ilegais, desempregados, jovens de subúrbio, e todos os variáveis protagonistas da exclusão social, persistem juntos num inspirador  combate diário pela sobrevivência apesar de tudo. Pelo direito a ser humano, a ser social. A união popular, nos ecos civis, marcha pela defesa dos que chegam, e contra a xenofobia tirana do mandato de Sarkozy, que os expulsa. França democrática? O poder é das armas e não do povo. Os corpos da multidão são escorraçados pela brutalidade autoritária, são reduzidos a uma nulidade humana pelos gestos sem vida dos autómatos policiais. Confundem-se os jovens, as mulheres, as crianças, os idosos, e a todos se lança a punição de uma descarga automática. Esta é a autoridade da ironia, onde a brutalidade se pratica pela pseudo-legitimidade da segurança mas a realidade não corresponde. E se o poder é das armas, e os que lutam com a voz, e os que lutam com os limites do corpo? O título da curta prévia Ils Nous Tueront Tous, identifica precisamente como a questão se alicerça numa divisão entre eles e entre nós. A situação é de um confronto entre o suposto desejo da nação francesa de se preservar, praticando esse bem-estar comum à custa do atentado contra o bem-estar dos que não pertencem à nação francesa. São impunes os excessos das forças policiais "de choque", esse desprezível rebanho de seres anulados ao livre arbítrio uma vez envergado o negro das fardas. No mais sanguinário gosto pela violência, lançam-se em fúria os agentes (sem gente dentro, les vrais pauvres) contra os jovens pela imobilização das revoltas; como se estes corpos tivessem escolhido nascer entre a pobreza, o conflito e a miséria; como se estes corpos não participassem mais basilar dos direitos humanos: o direito da sobrevivência, à auto-preservação da vida.
Manifesto pela emancipação, o cinema de Sylvain George coloca-se à frente do seu tempo e argumenta por melhor justiça, numa experiência de continuidade, que persiste com o mesmo enunciado que não cessa de multiplicar-se entre projectos. Apesar da delimitação relativa do assunto, não há como fechar-lhe os olhos se a realidade se dá hoje, e evolui em gravidade. E é irredutível a proximidade do povo português à problemática destas expulsões em massa legalizadas em território francês, quando a história do movimento migratório português é tão particularmente ligado a França e, por uma questão de dois pares de décadas, podiam ter-se visto os portugueses pontapeados pela regulação estatal francesa. Por egoísmo, negligência e abuso de poder, a secular bandeira de "Liberté, Égalité, Fraternité" sucessivamente viola as bases mais fundamentais das normas do espaço europeu, que - visivelmente - papagueia sem efectividade a livre circulação de pessoas (mas só para os que já estão dentro). Do filme de George, restam as memórias desses jovens viajantes, desembaraçados pela necessidade quotidiana, ágeis em fisionomia, destros de discurso, instruídos pela precocidade das exigências exteriores e prontos a exemplificar, em potencial, o valor subaproveitado que os actos de deportação massiva e sem critério nunca chegarão a (re)conhecer. "Qui’ils reposent en révolte" ( que em português equivale a qualquer coisa como, Que eles repousem em revolta), um maravilhoso título que vem da obra de Michaux, aqui a servir essas tão válidas necessidades de um apelo público através da intervenção artística. 2010, um ano assinalável para a revitalização do cinema militante francês, marcado por recursos estilísticos que nunca antes tinhamos visto e que, através deste "Qu'ils reposent en révolte", nos lembram que Godard também escolheu este ano para reflectir acerca  do autismo das suas representações prévias, hoje dedicando um novo ênfase às suas possibilidades do digital - para nos trazer esse admirável documento crítico que é "Film Socialisme", uma reinvenção dos traços do seu próprio cinema comprometido e um marco estético do cinema militante.

ARTIGOS RELACIONADOS COM O FILME:
Diagonal Thoughts
L'impossible : rencontre avec Sylvain George (Independencia)
Première sensation de Lussas, l'«anticorps» Sylvain George, à l'écoute des migrants: Mediapart
Fragil.org



Qu’il repose en révolte
Henri Michaux (1949)

Dans le noir, dans le soir sera sa mémoire
dans ce qui souffre, dans ce qui suinte
dans ce qui cherche et ne trouve pas
dans le chaland de débarquement qui crève sur la grève
dans le départ sifflant de la balle traceuse
dans l’île de soufre sera sa mémoire.

Dans celui qui a sa fièvre en soi, à qui n’importent les murs
dans celui qui s’élance et n’a de tête que contre les murs
dans le larron non repentant
dans le faible à jamais récalcitrant
dans le porche éventré sera sa mémoire

Dans la route qui obsède
dans le cœur qui cherche sa plage
dans l’amant que son corps fuit
dans le voyageur que l’espace ronge.

Dans le tunnel
dans le tourment tournant sur lui-même
dans celui qui ose froisser les cimetières

Dans l’orbite enflammé des astres qui se heurtent en éclatant
dans le vaisseau fantôme, dans la fiancée flétrie
dans la chanson crépusculaire sera sa mémoire.

Dans la présence de la mer
dans la distance du juge
dans la cécité
dans la tasse à poison.

Dans le capitaine des sept mers
dans l’âme de celui qui lave la dague
dans l’orgue en roseau qui pleure pour tout un peuple
dans le jour du crachat sur l’offrande.

Dans le fruit de l’hiver
dans le poumon des batailles qui reprennent
dans le fou de la chaloupe.

Dans les bras tordus des désirs à jamais inassouvis
sera sa mémoire.
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et nous brûlerons une à une les villes endormies

" "Et nous brûlerons une à une les villes endormies" (titre provisoire), est un journal de bord, un carnet de route que le cinéaste Sylvain George tient parallèlement à la réalisation de ses films.
Sous forme de notes ou de textes, de tailles et de registres variables, il s'agit d'essayer d'établir une distanciation critique avec certaines réalités appréhendées ou filmées, et de prendre position.
Independencia se propose de faire connaître quelques-uns de ces textes en les publiant régulièrement, à raison d'un ou deux par semaine."




1 septembre 2009

Aux victimes des violences policières et de la violence d’Etat.

C'est un poème noir,
Comme une nausée de la même couleur,
Qui vient te frapper en pleine face,
Qui vient te frapper en plein cœur,
Toi qui portes le fer, le feu, le sang,
Toi qui portes la guerre,
Et que nous signons,
Nous, les fils de chiens,
Nous, les frères de colère,
Nous, les déjà morts et pourtant,
Riant toujours plus que les vivants.
On ne lâche rien.
Aux vents se dresse la carte de tes infamies.
Voici, des mots de feu, des notes de feu, des images de feu,
Ici gît, ci-gît la colère la plus noire,
Et c’est un oriflamme,
Qui gronde, tonne et résonne,
Il s'agit de prendre les armes.

Nous sommes des corps de feu,
Qui se consument, comme charbon, jusqu'au noir profond,
Sans que les vents ne se lèvent, ni que les souffles ne s'éteignent.
Car il est des jours inconnus,
Que ne retiennent les calendriers,
Et qui font des brasiers les refuges premiers,
Des parias, des déclassés, des exilés.
- Aboie -
Nous sommes les chiens aux dents jaunes, aux lèvres violettes,
De la bave aux écumes, écrémant les mers, du sud et du nord,
Pissant fort sur les jours de fêtes, et le jugement dernier.
- Aboie -

Tesfay, Tesfay, que disais-tu ce soir ? Que disais-tu?
Tesfay que disais-tu ce soir?
Tu disais, tu disais, c'est six femmes que tu avais vu mourir, au cœur de la nuit, au cœur du désert de Libye, après qu'elles aient été chacune violées par dix hommes, passeurs.
Tu disais, tu disais, c'est vingt hommes que tu avais vu mourir, au cœur de la nuit, au cœur du désert de Libye, parce que l'eau venait à manquer, et qu'ils ne voulaient en donner, passeurs.
Tu disais, tu disais, c'est trente hommes qui coulèrent en méditerranée, parce que ne sachant pas nager, tandis que cargos et chalutiers passaient au loin, ne voulaient pas s'arrêter, témoins qui ne voulaient témoigner, pêcheurs.
Tu disais : Amanuel. Amanuel surpris dans son sommeil à Calais, et de ces mercenaires, allant à leur affaires, en vagues tristes, tabassant ici, crevant là, d'une arme familière, une lame rouillée, l’œil d'un homme venu d'Erythrée.
Tu disais : Louam. Louam et ses cheveux noirs battant le bitume après qu'une voiture l'ait renversée. Et ce sont des flammes de sang noir qui partent à l'assaut de la nuit. Et c'est d'une bouche ouverte, laissant apercevoir des diamants noirs, que saigne une mémoire perdue.

Tesfay, Tesfay, que disais-tu ce soir ?
Tesfay, que disais-tu?
Tu disais, tu disais, l'air de l'enfer balaie l'Europe et que les forêts rouges et jaunes en souffrent.
Tu disais, tu disais, les mers du Nord ou du Sud, supplient, vagues après vagues, de ne plus nourrir les côtes.
Tu disais, tu disais, la lumière ici est blanche, et chaude, tandis que ces corps dont le sang ne coule plus, sont noirs et froids.
Tu disais, tu disais, mon corps est une cathédrale, mes os en sont les arcades, mes yeux les vitraux.
Tu disais, tu disais que tu préférais la dictature de l'Erythrée à celle de l'Europe.

Ici,
Ici le crime, ici le sang, ici la guerre,
On étrangle, on frappe, on gaze, on rafle, on chasse, on crève,
Ici, les corps titubent, chancellent, s'affaissent, disparaissent,
Dans l'oubli et la misère, la poussière.
Ici les corps n'ont plus de nom,
Car il ne suffit pas d'être fille et fils de père ou de mère,
Il ne suffit pas de porter un nom,
Il faut que celui-ci résonne à travers les chimères,
Il faut qu’il soit en grâce –jeux de Cour, mains-autels des prêtres et prêtresses –
Pour que l’on puisse, mythe, s’intéresser à lui,
Pour que l’on puisse, liesses, parler de lui,
Sur les esplanades et dans l’espace, public.
Le nom est le signe de la guerre des classes,
Et la solidarité ne connaît pas le partage.
Crasse. Elle est de classe.

Oui, tu portes la guerre, le feu, le fer,
Tu portes le sang, tu portes la maladie,
Mais il suffit, petit roi, tu ne seras plus !
Vois se lever ces corps, hier disparus,
Des mers anciennes et perdues,
Des contrées incertaines, ensevelies,
Des cratères de la colère.
De cette nuit qui ne fuit plus, du jour qui ne se lève plus,
Le temps pour toi n'est plus,
Il est notre, il est à nous,
Et déjà, déjà, tu n'en peux plus,
De gémir à la terre entière,
De japper à l'espoir comme s'il n'était trop tard,
De mendier un regard désolé,
D'implorer un regard qui ne peux t'être accordé.
Tu ne te souviens donc pas ?
Arracher les yeux de tes ennemis afin de t'en faire un collier était ton passe-temps préféré.
Mais pour aimer il faut être aveugle,
Toi qui n'as jamais rien su,
Toi qui n'a jamais rien vu.
Oui, il est trop tard,
Et les étoiles, de lumière encore, déplacent leurs trajectoires.
Ce soir, seules les pierres seront tes compagnes.
Regarde-les blanches et altières,
Sur les cendres dressées vers le ciel si puissant,
Tandis que ton corps, grisâtre, sur le sol, se traîne agonisant.
- Aboie. Aboie -

Oui, tu portes la guerre, le feu, le fer, et le sang,
Mais d'arme et de colère,
- ne le sais-tu ?- nous sommes là, toujours, comme hier,
Et te ferons répéter,
Un à un,
Un à un,
Un à un,
Le nom des morts.
Oui, des survivants.

Armes, Armes, Armes,
On te fait la grâce d'écouter un instant
Ce chant de la plèbe,
Le chant des ténèbres,
Qui déchiquète nos poitrines,
Fait exploser nos os,
Tambours et mains de fer, doigts tordus,
Et fait que nous sommes là, en lice,
Dans des terriers, cavités, orbites creuses,
Mais debout pourtant,
Toujours, à en crever.
A en crever.
En crever pour la justice.
Jusqu'à crever la justice.

Armes, Armes, Armes,
Voici le temps venu,
Des guerres ouvertes,
De l'œil combattant,
Car il ne peut y avoir d'amour qu'aveugle,
Toi qui ne sait rien,
Toi qui n'est déjà plus.
Toi qui a déjà rendu l'âme,
Et que nous allons,
Les yeux en cartouchières,
Les astres dans nos poches,
Brûler les villes et les châteaux.
Oui, rage, enrage,
Les chiens sont lâchés,
Et d’hier, d’aujourd'hui, comme de demain,
Tu ne pourras plus jamais t’échapper,
Il te sera fait ce que tu as fait aux autres.

Armes, Armes, Armes.

© Sylvain George – 2009
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agora
é sair do virtual para a rua.























Manifesto da geração à rasca

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.

Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.

Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.

Caso contrário:

a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.

b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.

c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.

Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.

Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.




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O ADULTO QUE NÃO QUERES SER.

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Para António Campos, a câmara não é um olho mecânico, é sinónimo de olho humano. Dito de um modo mais radical, a câmara pura e simplesmente desaparece, está “literalmente” colada ao olho do operador, um e outro são um só. Manuseada pelo homem que explora o ambiente que o rodeia, a câmara é absolutamente cúmplice do olhar do cineasta.
Manuela Penafria


- Antes de pegar numa câmara de filmar, qual era o seu género de filmes preferido?
- Principalmente aquele em que me era mostrado o homem, no seu dia a dia, há uns séculos atrás.

Desde quando se dedica ao cinema e o que o levou a escolher esse meio de expressão artística?
- Em mim, o cinema e a minha barba devem ter a mesma idade. Depois de procurar em outras artes, materialmente mais acessíveis, o escoamento da minha necessidade de dizer algo, o cinema foi, segundo creio, o que mais probabilidades me dá de realizar o que desejaria.

Alfredo A. Faustino, “O Arauto entrevista o cineasta amador António Campos”, O Arauto (Escola Industrial e Comercial de Leiria), no 13, Junho de 1963, p. capa e p. 5.


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Jauja, Lisandro Alonso, 2015



deixemos para cada um o seu provisório, para nós todos a vida eterna.


Maria Gabriela Llansol
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"O cinema de ficção e o cinema documental alimentam-se um do outro."
Marceline Loridan-Ivens






The Spanish Earth, Joris Ivens (1937)



"Afinal, o que é formidável no cinema é que o podemos fazer todos."
Marceline Loridan-Ivens






José Manuel Costa e Marceline Loridan-Ivens
Cinemateca Portuguesa, Doc Lisboa 2010







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http://www.doclisboa.org/




Já toda a gente viu, em qualquer publicação, muro ou outdoor, o belíssimo cartaz que anuncia a chegada do DOC LISBOA 2010, o maior festival de Cinema Documental em Portugal. "É a maior edição de sempre", garante o programador Augusto M. Seabra, referindo-se ao alargamento da exibição deste ano a novas salas, City Alvalade e Cinemateca Portuguesa.
Os bilhetes já se encontram à venda, e é certo que a programação deste ano fala por si :


: destaques

- Retrospectiva de JORIS IVENS (com a presença de Marceline Loridan-Ivens, viúva do realizador) ;

- Retrospectiva de MARCEL OPHULS ;

- Retrospectiva e Masterclass com JORGEN LETH ;

- Exposição Fotográfica de MALICK SIDIBÉ (no Palácio das Galveias) ;

- Selecção programática "A Cidade e o Campo", com "Douro Fauna Fluvial" (Manoel de Oliveira) e curtas de Antonioni, Pasolini, etc;

- Antestreia de "José & Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes ;

- Antestreia de "Punk is Deaddy", de Edgar Pêra;

- Antestreia de "Combate às Escuras", de Miguel Clara Vasconcelos ("sequela" de "Documento : Boxe", prémio nacional no Festival de Vila do Conde 2010)


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CZARADOX de volta à acção.









Tôkyô sonata, Kiyoshi Kurosawa (2008)




Chegada com o verão, a dignidade autorizada das férias dá-se entre horas de distensão ociosa. Do bocejo a que o tédio se autoriza até à consideração de avaliação mais sisuda, muitos nos recambiamos, simultâneos, para longe das janelas deste virtualismo conversador.
A ocasião tem vigores de celebração, reabertas as portas ansiadas do Raging B, onde este maravilhoso post acerta em ressalvar o espírito conveniente de que se alimentam os fôlegos destas lides. Hiperbolizada pela nova energia, regresso para medir a nova dedicação apetecida a estas paredes. Sempre em coro, a caiar esta parede com os rumos incertos do meu tempo:


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TERÇA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 2010
PUBLICADA POR JOSÉ OLIVEIRA
RAGING-B.BLOGSPOT.COM

"Da boca de Jean Eustache saiu certa vez a mais bela descrição de um filme que eu me lembro de ler, foi assim:

“Lembro-me de caminhar em Paris, de Montparnasse ao bairro XVIII, de caminhar a pensar, como numa caminhada que trouxesse o tempo de volta. Quando cheguei a casa, a minha avó falou-me durante muito tempo. Tive a impressão de que me falava de coisas importantes. Quando lhe disse: "Mas, escuta, temos de registar tudo isso", ela respondeu: "Mas enfim, são coisas que não são bonitas". "Isso não me interessa", respondi, "é preciso registar as coisas, bonitas ou não, elas são importantes, elas são grandes." Arranjei algum dinheiro para comprar película a preto e branco 16, aluguei duas câmaras, pedia Théaudière que cuidasse delas e a Jean-Pierre Ruh que fizesse o som. E o tempo do filme, foi o tempo da película, as duas câmaras a funcionar alternadas, de seguida, sem corte. O filme era assim a história da película, do início até ao fim. Ao mesmo tempo, como era cineasta de profissão, era um filme de um cineasta profissional e um filme de família, um filme amador em 8mm rodado na praia.”

Ou seja, Eustache pensou, ou sonhou, mas concretizou, teve essa tremenda ousadia, esse espantoso gesto de humildade, refazer algo que o cinema sério prometeu servir: um grande (incomensurável) arquivo de pessoas e de memórias. Para sempre. Apontar uma câmara a alguém com muitas coisas para dizer – e todos tem coisas para dizer, a sua narrativa – filmar até a fita acabar e gravar o som, a palavra e o que a envolve. Com todo o saber e com toda a simplicidade. Está feito. Assim mesmo. Fê-lo, não ficou pelo sonho ou pelas promessas.

2007. Wang Bing. “He Fengming”. Ou no título internacional: “Fengming: A Chinese Memoir”. Ou ainda, mais delicadamente: “Chronicle of a Chinese Woman”.
Como Eustache, é o filme que todos poderiam idealizar. O filme que todos poderiam fazer. Cinema sempre foi coisa de amadores. Amadores que tudo lhe retribuem. “Não sabemos mais das imagens do que o resto das pessoas”, penso que afirmou Godard um dia. Trinta e tal anos depois as fitas rareiam e o digital possibilitou tais dádivas ainda mais possíveis. Wang Bing também apontou a sua câmara a uma pessoa querida e deu-lhe o mundo todo. O tempo todo. Ela, senhora também de idade avançada, caminha até casa, abre a porta, senta-se e desvela infinitas histórias, e, tirando mais três ou quatro planos dela a movimentar-se pela casa, é o que vamos ter durante umas três horas e tais. A violência de um interminável plano fixo ao serviço de uma abundância desmedida de factos e de ficções – porque jamais a memória poderá reter só o “verdadeiro” – de amores, desamores, tragédias e festas, choro e riso.E a presença e o peso que ela exerce sobre a cena, como acontecia com Odette Robert, é verdadeiramente vulcânica, arrasadora. É o plano que estremece tantas vezes com os ditos e com as expressões, o olhar, as rugas e o falar dessa imponente e bela senhora. Questão de paciência e curiosidade. Através de tudo isso, das confissões de soslaio às grandes epopeias, toda a história de uma nação (a chinesa, a dela) e de um arco temporal fugidio que poderiam ser as histórias e os tempos de toda uma humanidade. Todos nós estamos lá num cantinho e ao mesmo tempo tudo é dela, só dela. Tocantemente intimista e singular e surpreendentemente universal.
“Griffith filmou a biografia de todos os homens e mulheres à face da terra”, escreveu João Mário Grilo. Bing ofereceu a Fengming uma via de catarse e ofereceu-nos a todos nós uma espécie de espelho e de previlégio que em algum dos lados nos podemos ou haveremos de nos poder vislumbrar. Sem a profissionalidade das equipas do “grande cinema” ou das pressões. Uma peça familiar, uma peça manual trabalhada em porcelana, com o máximo do saber. E o filme é o milagre do presente em que o vemos, como testemunhas e ecos, a evidência do olhar que abre infinitas brechas de sentimentos e de emoções. Histórias e mais histórias, sensibilidades, sensações, "déjà vu´s", recordações, alegrias e medos. Não há que filosofar, “o que é, é” e nessa experiência de tempo pode-se chegar ao absoluto. Não há filme mais verdadeiro, não há filme mais fantástico e aventureiro. Resistência e liberdade, é o que ele nos diz. É o que Bing e Fengming nos dizem. Mesmo que a solidão seja terrível.
Não há génio, nem em Eustache nem em Bing, e quem os quiser seguir, e mesmo que só daqui a dezenas de anos um ser qualquer descubra no nada uma velha cassete qualquer e a veja e sinta alguma coisa, valerá a pena."
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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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