sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um Portugal Mítico.

''É essa espécie de respeito total pelas pessoas e pelos traços : uma árvore, uma paisagem, um castanheiro, uma maneira de dispor flores, uma maneira de arranjar uma casa, um modo de por uma mesa, um objecto ... É essa busca de um Portugal mítico que ele vai tentar agarrar e que tentará depois, através dos filmes e do seu magistério na Escola Superior de Teatro e Cinema, transmitir (...)"
JOÃO BÉNARD DA COSTA sobre António Reis (em ''Cinema Português?'' de Manuel Mozos, 1996)

latitudes-berço

de uma nação de cinema.



Na paisagem de Monument Valley, não revejo o cinema de Spielberg nem de Scorsese. Penso sim, pasme-se, no cinema de António Reis e Margarida Cordeiro, em Trás-os-Montes e Ana, na Caça e n'O Acto da Primavera de Oliveira, no bairro das Fontainhas filmado por Pedro Costa, nesses grandes mundos originários indiferentes à indústria e ao comércio (mas questão pura e dura da arte: a da intervenção e da descoberta... em solidão.(...) No país de Ford, o cinema define-se."


JOÃO MÁRIO GRILO in "No País de John Ford"

PARTY GIRL!!



Histoire(s) du cinéma 2B: Fatale beauté - JLG, 1998


Party Girl
NICHOLAS RAY (1958)
dancing scene

Chamadas para Novembro


13 Novembro 2010.
S. Luiz, Discussão da Plataforma das Artes


Todos ao S. Luiz no próximo sábado! Todos os que acreditam que a criação artística é a actividade nuclear da afirmação cultural de um país e um direito inalienável dos seus cidadãos! Todos os que recusam políticas cegas e acreditam que também em crise tem de prevalecer o estado de direito! Todos os que acreditam neste país! A PLATAFORMA DAS ARTES convoca criadores, trabalhadores e agentes das áreas artísticas e culturais, cidadãos todos ao TEATRO S. LUIZ, sábado, dia 13 de Novembro, às 15h.

Discussão que resultou nesta importante Petição Pública em defesa dos direitos da cultura, dirigida à Sra. Ministra da Cultura e ao Sr. Primeiro Ministro.


24 Novembro 2010.
Greve Geral.







Ilustração Portugueza, No. 697, June 30 1919 - 16, via revista antiga portuguesa



GREVE GERAL


24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral. Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança internacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências económico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, contribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Geral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principalmente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Sebastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económicas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiritual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nossa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravizam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Geral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos torturados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laboratórios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook, a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nossos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido, religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar, desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral, total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentrismo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e consumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria, o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria profundas e duradouras.

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos contaminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também na economia e na política. Desta Greve Geral sai um Homem e um Mundo Novo.

Paulo Borges
23.11.2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

( fui parar ao )


INFERNO
a partir de Strindberg



"Chegou a primavera. Sinto uma tristeza de morte mas o riso alegre das raparigas que brincam, invisíveis, debaixo das árvores, toca-me o coração e desperta-me para a vida. E a vida corre, e a velhice aproxima-se; mulher, filhos, lar, tudo foi devastado. Outono por dentro, Primavera por fora. O livro de Job e as Lamentações de Jeremias consolam-me porque ao menos existe uma analogia entre o meu destino e o de Job. Não sofro, também eu, de uma úlcera incurável? Não sucumbi à pobreza, não fui abandonado pelos amigos? “Vou caminhando, queimado, mas não do sol; transformei-me num irmão dos dragões e companheiro das corujas. A pele do meu corpo fez-se negra e tenho os ossos ressequidos pelo ardor que me consome. Por isso o meu canto degenerou em lamentos e os meus órgãos emitem sons lúgubres.” Isto é Job. A Jeremias bastam duas palavras para exprimir o abismo da minha tristeza: “Quase que esqueci o que é a felicidade!”



de QUI 4 A SEG 8
DE NOVEMBRO

CULTURGEST

Grande Auditório
21h30 (dias 4, 5, 6, 8) 17h00 (dia 7) Duração prevista 2h30 · M12
12 Euros · Jovens até aos 30 anos: 5 Euros

Encenação: Mónica Calle Com: Ana Ribeiro, Mónica Calle e Mónica Garnel, André Casaca, Hélder Miguel, Luís Afonso, Luís Graça, Mário Boss, Mauro Santos, Nelson, Reinaldo Duarte, Renê Vidal, Rocha e Simão Fortes, Alexandra Viveiros, Ana Água, Ana Eliseu, Ana Gil, Ana Isabel Augusto, Ana Santos, Ana Teresa Santos, Andreya Silva, Cárina Andrónico, Carla Sofia, Catarina Félix, Cátia Terrinca, Celeste Baptista, Célia Jorge, Constança Carvalho Homem, Dadá, Diana Alves, Francisca Faleiro Calle, Goreti Mourão, Inês Vaz, Iolanda Laranjeiro, Joana de Matos Estrela, Joana de Verona, Joana G Saraiva, Joana Sapinho, Laura Frederico, Lydie Bárbara, Mariana Queiroz, Marina Pascoal, Marta Branquinho, Mónica Carrusca, Mónica Samões, Myriam Santos, Paula Coelho, Rafaela Trigo, Raquel Castro, Renata Portas, Rita Miranda, Rute Miranda, Sabrina Marques, Sandra Hung, Sara de Amorim, Sara Duarte, Sofia Dinger, Sofia Faleiro, Sofia Seno, Sofia Vitória, Stéphanie Fonseca, Susana Oliveira, Tânia Alves e Vânia Rodrigues Tradução: Aníbal Fernandes Luz e espaço cénico: Mónica Calle Vídeo: Patrícia Saramago Fotografia: Bruno Simão Assistência de encenação: Rute Cardoso Direcção de produção: Alexandra Gaspar Agradecimentos: à mãe e ao pai, Amândio Pinheiro, Aníbal Fernandes, António Duarte, August Strindberg, Carla Faria, Christian Carlsson, Eglantina Monteiro, Francisco Palma Dias (pelas beldroegas, a receita do confitado e as histórias e o alerta), Francisco Rocha, José Miguel Vitorino, Manuel Rosa, Natália Gonçalves, Yvonne Metello e Francisca, Luís, Laura, Beatriz, Vera, Ana e Maria e toda a equipa técnica da Culturgest Co-produção: Casa Conveniente / Culturgest Apoios:Assírio & Alvim, Companhia das Culturas, Divisão de Limpeza Urbana da CML, Embaixada da Suécia, Instituto Superior de Agronomia da UTL

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

John Hughes (1950-2009)

Teenmovies dos bons.


Sixteen Candles, John Hughes, 1984

Ferris Bueller's Day Off, John Hughes, 1986

HITLER'S HITPARADE.

As cores da máquina ideológica.








por Oliver Axer e Susanne Benze (2003)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

LUZ.


"Parece que em princípio ninguém se lembra do acto de nascimento. Cientificamente, não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida e que através dessa luz figuras mal definidas se debruçam sobre mim e a minha mãe... tenho uma ideia disso. Há muitos anos que tenho essa impressão."
Para José Afonso, que assim revelou o seu próprio nascimento a Luis Filipe Rocha, "tudo parte de uma luz branca, uma luz láctea (...) uma luz imanente, uma luz muito vital, como se fosse uma película, como se fosse um banho de leite (...), que me mergulhasse a mim ou que mergulhasse o universo."


in "José Afonso, o rosto da utopia", de José A. Salvador

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MASTERCLASSES NA ESTC

NOVEMBRO / DEZEMBRO / JANEIRO
010'011

Das Nuvens à Resistência.



Dalla nube alla resistenza - Straub-Huillet, 1979, 35mm


Une morale de la perception
(De la nuée à la résistance de Straub-Huilet)
SERGE DANEY


Il y a des trucages que les Straub n’utilisent jamais - et qui semblent la négation même de leur cinéma - comme la surimpression ou le fondu-enchaîné. Toutes les fois qu’une image en recouvre une autre (à moins qu’elle ne la contienne), qu’elle la préfigure (à moins qu’elle en soit déjà le souvenir). Le temps de la surimpression est celui du travail actif de l’oubli : une voix nous dit : « tu oublieras, tu as déjà oublié. » Cet empiétement d’une image sur une autre est une des deux limites du plan straubien. L’autre est l’écran noir (ou vide).
Dans Moïse et Aaron, il y avait l’éblouissement d’un plan vide, d’une non-image. Dans Dalla nube, il s’agit d’autre chose, il s’agit d’une mise en garde : quoi que vous regardiez, un champ cultivé, une colline, une bête, n’oubliez pas que c’est toujours de l’humain que vous voyez. Si voir un film, dans la version Godard-Miéville, c’est assimiler papa à l’usine et maman à un paysage, dans la version Straub-Huillet, c’est assimiler l’usine et - de plus en plus - le paysage à papa et maman. Humanisme donc, au sens d’une prévalence, d’une prégnance de l’image humaine en toutes choses. C’est en ce sens que ces films « nous regardent » : un homme nous regarde au fond de chaque image, dans une impossible surimpression. Le cinéma, ce serait ce qui permet de rompre l’enchantement par lequel nous pensons voir autour de nous autre chose que de l’humain, alors que ce ne sont que champs cultivés, arbres taillés, cimetières ignorés, animaux-qui-sont-peut-être-des-hommes (d’où l’interdit de les tuer).
Humanisme vieux-marxiste aussi, au sens où Brecht disait qu’une photo des usines Krupp ne nous apprenait rien sur les usines Krupp. Qu’y manque-t-il ? Le travail des hommes et les hommes au travail. Et qu’y a-t-il à apprendre ? Toujours la même chose : les hommes créent les dieux (ou les ouvriers les patrons, les acteurs les spectateurs) et en retour ces dieux les dépossèdent de leur monde, le leur rendent étranger, le leur aliènent. Car il s’agit bien d’aliénation et de réappropriation, d’expérience et de mauvaise conscience, de toute une problématique existentialiste à laquelle se rattache le cinéma des Straub. On comprend du coup leur horreur pour les catégories esthétiques toutes faites : trouver « beau » un plan de paysage est, à la limite, blasphématoire, parce qu’un plan, un paysage, au bout du compte, c’est quelqu’un. Il n’y a de beauté que morale. Il ne s’agit pas d’anthropomorphisme. Il y a prégnance de la figure humaine en toutes choses, mais pas le contraire. Si l’on considère qu’un cinéaste n’est important que dans la mesure où il étudie, de film en film, un certain état du corps humain, les films de Straub resteront comme des documentaires sur deux ou trois positions du corps : être assis, se pencher pour lire, marcher. C’est déjà beaucoup.

Serge Daney, « Une morale de la perception (De la nuée à la résistance de Straub-Huillet) » dans La rampe. Cahier critique 1970-1982. Cahiers du cinéma. Gallimard.
VIA Dérives.tv
VIA Matthew Flanagan

DOWNLOAD AQUI O ARTIGO SOLIDARITY NOT IDENTIFICATION: STRAUB–HUILLET’S RADICAL CINEMA, DE MARK FISHER

sábado, 16 de outubro de 2010

: SYLVAIN GEORGE


et nous brûlerons une à une les villes endormies

" "Et nous brûlerons une à une les villes endormies" (titre provisoire), est un journal de bord, un carnet de route que le cinéaste Sylvain George tient parallèlement à la réalisation de ses films.
Sous forme de notes ou de textes, de tailles et de registres variables, il s'agit d'essayer d'établir une distanciation critique avec certaines réalités appréhendées ou filmées, et de prendre position.
Independencia se propose de faire connaître quelques-uns de ces textes en les publiant régulièrement, à raison d'un ou deux par semaine."




1 septembre 2009

Aux victimes des violences policières et de la violence d’Etat.

C'est un poème noir,
Comme une nausée de la même couleur,
Qui vient te frapper en pleine face,
Qui vient te frapper en plein cœur,
Toi qui portes le fer, le feu, le sang,
Toi qui portes la guerre,
Et que nous signons,
Nous, les fils de chiens,
Nous, les frères de colère,
Nous, les déjà morts et pourtant,
Riant toujours plus que les vivants.
On ne lâche rien.
Aux vents se dresse la carte de tes infamies.
Voici, des mots de feu, des notes de feu, des images de feu,
Ici gît, ci-gît la colère la plus noire,
Et c’est un oriflamme,
Qui gronde, tonne et résonne,
Il s'agit de prendre les armes.

Nous sommes des corps de feu,
Qui se consument, comme charbon, jusqu'au noir profond,
Sans que les vents ne se lèvent, ni que les souffles ne s'éteignent.
Car il est des jours inconnus,
Que ne retiennent les calendriers,
Et qui font des brasiers les refuges premiers,
Des parias, des déclassés, des exilés.
- Aboie -
Nous sommes les chiens aux dents jaunes, aux lèvres violettes,
De la bave aux écumes, écrémant les mers, du sud et du nord,
Pissant fort sur les jours de fêtes, et le jugement dernier.
- Aboie -

Tesfay, Tesfay, que disais-tu ce soir ? Que disais-tu?
Tesfay que disais-tu ce soir?
Tu disais, tu disais, c'est six femmes que tu avais vu mourir, au cœur de la nuit, au cœur du désert de Libye, après qu'elles aient été chacune violées par dix hommes, passeurs.
Tu disais, tu disais, c'est vingt hommes que tu avais vu mourir, au cœur de la nuit, au cœur du désert de Libye, parce que l'eau venait à manquer, et qu'ils ne voulaient en donner, passeurs.
Tu disais, tu disais, c'est trente hommes qui coulèrent en méditerranée, parce que ne sachant pas nager, tandis que cargos et chalutiers passaient au loin, ne voulaient pas s'arrêter, témoins qui ne voulaient témoigner, pêcheurs.
Tu disais : Amanuel. Amanuel surpris dans son sommeil à Calais, et de ces mercenaires, allant à leur affaires, en vagues tristes, tabassant ici, crevant là, d'une arme familière, une lame rouillée, l’œil d'un homme venu d'Erythrée.
Tu disais : Louam. Louam et ses cheveux noirs battant le bitume après qu'une voiture l'ait renversée. Et ce sont des flammes de sang noir qui partent à l'assaut de la nuit. Et c'est d'une bouche ouverte, laissant apercevoir des diamants noirs, que saigne une mémoire perdue.

Tesfay, Tesfay, que disais-tu ce soir ?
Tesfay, que disais-tu?
Tu disais, tu disais, l'air de l'enfer balaie l'Europe et que les forêts rouges et jaunes en souffrent.
Tu disais, tu disais, les mers du Nord ou du Sud, supplient, vagues après vagues, de ne plus nourrir les côtes.
Tu disais, tu disais, la lumière ici est blanche, et chaude, tandis que ces corps dont le sang ne coule plus, sont noirs et froids.
Tu disais, tu disais, mon corps est une cathédrale, mes os en sont les arcades, mes yeux les vitraux.
Tu disais, tu disais que tu préférais la dictature de l'Erythrée à celle de l'Europe.

Ici,
Ici le crime, ici le sang, ici la guerre,
On étrangle, on frappe, on gaze, on rafle, on chasse, on crève,
Ici, les corps titubent, chancellent, s'affaissent, disparaissent,
Dans l'oubli et la misère, la poussière.
Ici les corps n'ont plus de nom,
Car il ne suffit pas d'être fille et fils de père ou de mère,
Il ne suffit pas de porter un nom,
Il faut que celui-ci résonne à travers les chimères,
Il faut qu’il soit en grâce –jeux de Cour, mains-autels des prêtres et prêtresses –
Pour que l’on puisse, mythe, s’intéresser à lui,
Pour que l’on puisse, liesses, parler de lui,
Sur les esplanades et dans l’espace, public.
Le nom est le signe de la guerre des classes,
Et la solidarité ne connaît pas le partage.
Crasse. Elle est de classe.

Oui, tu portes la guerre, le feu, le fer,
Tu portes le sang, tu portes la maladie,
Mais il suffit, petit roi, tu ne seras plus !
Vois se lever ces corps, hier disparus,
Des mers anciennes et perdues,
Des contrées incertaines, ensevelies,
Des cratères de la colère.
De cette nuit qui ne fuit plus, du jour qui ne se lève plus,
Le temps pour toi n'est plus,
Il est notre, il est à nous,
Et déjà, déjà, tu n'en peux plus,
De gémir à la terre entière,
De japper à l'espoir comme s'il n'était trop tard,
De mendier un regard désolé,
D'implorer un regard qui ne peux t'être accordé.
Tu ne te souviens donc pas ?
Arracher les yeux de tes ennemis afin de t'en faire un collier était ton passe-temps préféré.
Mais pour aimer il faut être aveugle,
Toi qui n'as jamais rien su,
Toi qui n'a jamais rien vu.
Oui, il est trop tard,
Et les étoiles, de lumière encore, déplacent leurs trajectoires.
Ce soir, seules les pierres seront tes compagnes.
Regarde-les blanches et altières,
Sur les cendres dressées vers le ciel si puissant,
Tandis que ton corps, grisâtre, sur le sol, se traîne agonisant.
- Aboie. Aboie -

Oui, tu portes la guerre, le feu, le fer, et le sang,
Mais d'arme et de colère,
- ne le sais-tu ?- nous sommes là, toujours, comme hier,
Et te ferons répéter,
Un à un,
Un à un,
Un à un,
Le nom des morts.
Oui, des survivants.

Armes, Armes, Armes,
On te fait la grâce d'écouter un instant
Ce chant de la plèbe,
Le chant des ténèbres,
Qui déchiquète nos poitrines,
Fait exploser nos os,
Tambours et mains de fer, doigts tordus,
Et fait que nous sommes là, en lice,
Dans des terriers, cavités, orbites creuses,
Mais debout pourtant,
Toujours, à en crever.
A en crever.
En crever pour la justice.
Jusqu'à crever la justice.

Armes, Armes, Armes,
Voici le temps venu,
Des guerres ouvertes,
De l'œil combattant,
Car il ne peut y avoir d'amour qu'aveugle,
Toi qui ne sait rien,
Toi qui n'est déjà plus.
Toi qui a déjà rendu l'âme,
Et que nous allons,
Les yeux en cartouchières,
Les astres dans nos poches,
Brûler les villes et les châteaux.
Oui, rage, enrage,
Les chiens sont lâchés,
Et d’hier, d’aujourd'hui, comme de demain,
Tu ne pourras plus jamais t’échapper,
Il te sera fait ce que tu as fait aux autres.

Armes, Armes, Armes.

© Sylvain George – 2009

: Bring us the heads

agora
é sair do virtual para a rua.























Manifesto da geração à rasca

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal.

Nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país. Estamos aqui, hoje, porque não podemos continuar a aceitar a situação precária para a qual fomos arrastados. Estamos aqui, hoje, porque nos esforçamos diariamente para merecer um futuro digno, com estabilidade e segurança em todas as áreas da nossa vida.

Protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.

Caso contrário:

a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.

b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.

c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.

Somos a geração com o maior nível de formação na história do país. Por isso, não nos deixamos abater pelo cansaço, nem pela frustração, nem pela falta de perspectivas. Acreditamos que temos os recursos e as ferramentas para dar um futuro melhor a nós mesmos e a Portugal.

Não protestamos contra as outras gerações. Apenas não estamos, nem queremos estar à espera que os problemas se resolvam. Protestamos por uma solução e queremos ser parte dela.




juventude ?

O ADULTO QUE NÃO QUERES SER.

sobre ANTÓNIO CAMPOS



Para António Campos, a câmara não é um olho mecânico, é sinónimo de olho humano. Dito de um modo mais radical, a câmara pura e simplesmente desaparece, está “literalmente” colada ao olho do operador, um e outro são um só. Manuseada pelo homem que explora o ambiente que o rodeia, a câmara é absolutamente cúmplice do olhar do cineasta.
Manuela Penafria


- Antes de pegar numa câmara de filmar, qual era o seu género de filmes preferido?
- Principalmente aquele em que me era mostrado o homem, no seu dia a dia, há uns séculos atrás.

Desde quando se dedica ao cinema e o que o levou a escolher esse meio de expressão artística?
- Em mim, o cinema e a minha barba devem ter a mesma idade. Depois de procurar em outras artes, materialmente mais acessíveis, o escoamento da minha necessidade de dizer algo, o cinema foi, segundo creio, o que mais probabilidades me dá de realizar o que desejaria.

Alfredo A. Faustino, “O Arauto entrevista o cineasta amador António Campos”, O Arauto (Escola Industrial e Comercial de Leiria), no 13, Junho de 1963, p. capa e p. 5.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

What makes life move forward.

Jauja, Lisandro Alonso, 2015



deixemos para cada um o seu provisório, para nós todos a vida eterna.


Maria Gabriela Llansol

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ivens.



"O cinema de ficção e o cinema documental alimentam-se um do outro."
Marceline Loridan-Ivens






The Spanish Earth, Joris Ivens (1937)



"Afinal, o que é formidável no cinema é que o podemos fazer todos."
Marceline Loridan-Ivens






José Manuel Costa e Marceline Loridan-Ivens
Cinemateca Portuguesa, Doc Lisboa 2010







segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"O Mundo inteiro passa por Lisboa."

http://www.doclisboa.org/




Já toda a gente viu, em qualquer publicação, muro ou outdoor, o belíssimo cartaz que anuncia a chegada do DOC LISBOA 2010, o maior festival de Cinema Documental em Portugal. "É a maior edição de sempre", garante o programador Augusto M. Seabra, referindo-se ao alargamento da exibição deste ano a novas salas, City Alvalade e Cinemateca Portuguesa.
Os bilhetes já se encontram à venda, e é certo que a programação deste ano fala por si :


: destaques

- Retrospectiva de JORIS IVENS (com a presença de Marceline Loridan-Ivens, viúva do realizador) ;

- Retrospectiva de MARCEL OPHULS ;

- Retrospectiva e Masterclass com JORGEN LETH ;

- Exposição Fotográfica de MALICK SIDIBÉ (no Palácio das Galveias) ;

- Selecção programática "A Cidade e o Campo", com "Douro Fauna Fluvial" (Manoel de Oliveira) e curtas de Antonioni, Pasolini, etc;

- Antestreia de "José & Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes ;

- Antestreia de "Punk is Deaddy", de Edgar Pêra;

- Antestreia de "Combate às Escuras", de Miguel Clara Vasconcelos ("sequela" de "Documento : Boxe", prémio nacional no Festival de Vila do Conde 2010)


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Starting Again.

CZARADOX de volta à acção.









Tôkyô sonata, Kiyoshi Kurosawa (2008)




Chegada com o verão, a dignidade autorizada das férias dá-se entre horas de distensão ociosa. Do bocejo a que o tédio se autoriza até à consideração de avaliação mais sisuda, muitos nos recambiamos, simultâneos, para longe das janelas deste virtualismo conversador.
A ocasião tem vigores de celebração, reabertas as portas ansiadas do Raging B, onde este maravilhoso post acerta em ressalvar o espírito conveniente de que se alimentam os fôlegos destas lides. Hiperbolizada pela nova energia, regresso para medir a nova dedicação apetecida a estas paredes. Sempre em coro, a caiar esta parede com os rumos incertos do meu tempo:


:
TERÇA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 2010
PUBLICADA POR JOSÉ OLIVEIRA
RAGING-B.BLOGSPOT.COM

"Da boca de Jean Eustache saiu certa vez a mais bela descrição de um filme que eu me lembro de ler, foi assim:

“Lembro-me de caminhar em Paris, de Montparnasse ao bairro XVIII, de caminhar a pensar, como numa caminhada que trouxesse o tempo de volta. Quando cheguei a casa, a minha avó falou-me durante muito tempo. Tive a impressão de que me falava de coisas importantes. Quando lhe disse: "Mas, escuta, temos de registar tudo isso", ela respondeu: "Mas enfim, são coisas que não são bonitas". "Isso não me interessa", respondi, "é preciso registar as coisas, bonitas ou não, elas são importantes, elas são grandes." Arranjei algum dinheiro para comprar película a preto e branco 16, aluguei duas câmaras, pedia Théaudière que cuidasse delas e a Jean-Pierre Ruh que fizesse o som. E o tempo do filme, foi o tempo da película, as duas câmaras a funcionar alternadas, de seguida, sem corte. O filme era assim a história da película, do início até ao fim. Ao mesmo tempo, como era cineasta de profissão, era um filme de um cineasta profissional e um filme de família, um filme amador em 8mm rodado na praia.”

Ou seja, Eustache pensou, ou sonhou, mas concretizou, teve essa tremenda ousadia, esse espantoso gesto de humildade, refazer algo que o cinema sério prometeu servir: um grande (incomensurável) arquivo de pessoas e de memórias. Para sempre. Apontar uma câmara a alguém com muitas coisas para dizer – e todos tem coisas para dizer, a sua narrativa – filmar até a fita acabar e gravar o som, a palavra e o que a envolve. Com todo o saber e com toda a simplicidade. Está feito. Assim mesmo. Fê-lo, não ficou pelo sonho ou pelas promessas.

2007. Wang Bing. “He Fengming”. Ou no título internacional: “Fengming: A Chinese Memoir”. Ou ainda, mais delicadamente: “Chronicle of a Chinese Woman”.
Como Eustache, é o filme que todos poderiam idealizar. O filme que todos poderiam fazer. Cinema sempre foi coisa de amadores. Amadores que tudo lhe retribuem. “Não sabemos mais das imagens do que o resto das pessoas”, penso que afirmou Godard um dia. Trinta e tal anos depois as fitas rareiam e o digital possibilitou tais dádivas ainda mais possíveis. Wang Bing também apontou a sua câmara a uma pessoa querida e deu-lhe o mundo todo. O tempo todo. Ela, senhora também de idade avançada, caminha até casa, abre a porta, senta-se e desvela infinitas histórias, e, tirando mais três ou quatro planos dela a movimentar-se pela casa, é o que vamos ter durante umas três horas e tais. A violência de um interminável plano fixo ao serviço de uma abundância desmedida de factos e de ficções – porque jamais a memória poderá reter só o “verdadeiro” – de amores, desamores, tragédias e festas, choro e riso.E a presença e o peso que ela exerce sobre a cena, como acontecia com Odette Robert, é verdadeiramente vulcânica, arrasadora. É o plano que estremece tantas vezes com os ditos e com as expressões, o olhar, as rugas e o falar dessa imponente e bela senhora. Questão de paciência e curiosidade. Através de tudo isso, das confissões de soslaio às grandes epopeias, toda a história de uma nação (a chinesa, a dela) e de um arco temporal fugidio que poderiam ser as histórias e os tempos de toda uma humanidade. Todos nós estamos lá num cantinho e ao mesmo tempo tudo é dela, só dela. Tocantemente intimista e singular e surpreendentemente universal.
“Griffith filmou a biografia de todos os homens e mulheres à face da terra”, escreveu João Mário Grilo. Bing ofereceu a Fengming uma via de catarse e ofereceu-nos a todos nós uma espécie de espelho e de previlégio que em algum dos lados nos podemos ou haveremos de nos poder vislumbrar. Sem a profissionalidade das equipas do “grande cinema” ou das pressões. Uma peça familiar, uma peça manual trabalhada em porcelana, com o máximo do saber. E o filme é o milagre do presente em que o vemos, como testemunhas e ecos, a evidência do olhar que abre infinitas brechas de sentimentos e de emoções. Histórias e mais histórias, sensibilidades, sensações, "déjà vu´s", recordações, alegrias e medos. Não há que filosofar, “o que é, é” e nessa experiência de tempo pode-se chegar ao absoluto. Não há filme mais verdadeiro, não há filme mais fantástico e aventureiro. Resistência e liberdade, é o que ele nos diz. É o que Bing e Fengming nos dizem. Mesmo que a solidão seja terrível.
Não há génio, nem em Eustache nem em Bing, e quem os quiser seguir, e mesmo que só daqui a dezenas de anos um ser qualquer descubra no nada uma velha cassete qualquer e a veja e sinta alguma coisa, valerá a pena."