WARHOL TV

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: visitando a exposição no CCB.


It's Andy Warhol TV
Artigo para a edição de Setembro 2010 da Revista Rua de Baixo.



Pela curadoria de Judith Benhamou, o acervo desta mostra reúne arquivos do Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, e depoimentos de colaboradores contemporâneos ao artista. De excentricidade afamada, ascendido do anonimato à projecção global, Andy Warhol mitificou-se enquanto um dos culminantes protagonistas do sonho americano, alinhando a valorização comercial do seu trabalho ao consistente reconhecimento do seu contributo artístico. De distintiva expressão entre variados suportes materiais, é o resultado do seu percurso pela nuclear “caixa mágica” do século XX, que esta mostra acompanha, vital em rememorar as carências actuais de uma equivalente promoção da sua incursão pela sétima arte.


Defronte dos sofás coloridos, a multiplicidade de ecrãs convida a atenção a demorar-se. O agrupamento temático que alinha as divisórias do espaço, reflecte as obsessões públicas que caracterizam Andy Warhol. O culto à celebridade e os recorrentes fascínios dedicados a outros célebres, a beleza e a fetichização, o sexo e o transformismo, os processos de criação e as elevações do talento, a vida social e os episódios relacionais, são figurações presentes nos documentos em vídeo que rememoram a Nova Iorque das décadas de 70 e 80.

A inexpressividade característica do rosto maquilhado, sempre enfatizado pela mesma peruca branca desalinhada, identifica de imediato o vulto em destaque, propagado entre as projecções e as salas. Para lá da assumpção de uma aparência exuberante, constantemente dirigida por si e sobre si, Warhol popularizar-se-ia pelas suas permanentes declarações lacónicas e dúbias, numa partilha pública de detalhes biográficos ficcionados, tão pouco reveladores quanto intensamente publicitários. Um intermitente cruzamento entre a realidade e a ficção que marcará decisivamente o seu comportamento face à expressão em vídeo.

A própria realidade que se gera pela simulação televisiva, em calendário de difusão ininterrupta, constitui-se enquanto amplo patamar de possibilidades para a inventividade de Warhol. Em 1964, imagina “Soap Opera”, um programa de televisão falso que se intercala de anúncios televisivos reais, valorizados em propósito pelas suas mensagens pragmáticas, destinadas a participar utilmente na vida do espectador televisivo do outro lado do ecrã.

Na fervilhante ambiência da Factory, o prodigioso atelier colectivo de produção artística fundado por Andy, era frequente haver câmaras ligadas, prontas a documentar as mais singelas acções dos presentes. A mesma posição não interventiva dominou os preceitos estilísticos da sua realização cinematográfica. “Sleep” (1963, 321 minutos), “Haircut” (1963, 35 minutos), “Empire” (1964, 485 minutos), são relativamente extensas gravações de pessoas em acções triviais ou captações fixas de espaços determinados, obras reveladoras da atenção voyeur que dedicava à realidade envolvente, e da indução dos envolvidos à consideração de actores. A prolongada duração temporal das obras - por vezes, exibidas em slow motion - revela-se sintoma de uma procura por vestígios de veracidade através da constituição da obra de arte, mediando-se pela tentativa de simulação extensiva dos ritmos da vida real através das características do dispositivo cinematográfico, procurando assim ensaiar um sentido em que as presenças da arte e da vida encontrassem uma mutualidade simultânea.

Uma apuração do efeito de realismo sobre as situações mundanas, acentuada pela introdução de som sincronizado, como acontece em “Chelsea Girls” (1966), o filme experimental rodado em Nova Iorque, que acompanha várias mulheres que habitam o hotel Chelsea. O elenco inclui Nico, Brigid Berlin, Gerard Malang, Ingrid Superstar, International Velvet e Eric Emerson, alguns dos habituais colaboradores de Warhol, cujos papéis se resumem à interpretação de si próprios, sob o pano de fundo de situações artificiosamente provocadas. Experiências que desenvolvem um essencial legado para as construções minimalistas e contemplativas do cinema moderno e contemporâneo. No âmbito deste interesse incansável pelas variações humanas de exteriorização em sociedade e de projecção de personalidade (trabalhadas veridicamente pela postura do próprio Andy), o cineasta português Pedro Costa afirma que foi Warhol o realizador mais consistente a mostrar a dualidade presente à “organização entre o secretismo e o que é mostrado, no filme”. Uma purificada visão do mundo pela câmara de Warhol que parece respeitar uma ordem pré-existente através da quase completa carência de guião, e que, em simultâneo, assume a encenação inerente ao sujeito social, e a respectiva participação no ambiente em que se situa e filma.

Nascido a 6 de Agosto de 1928, somente dois anos após a invenção do primeiro televisor pelo escocês John Logie Bird, Andy Warhol foi filho da geração televisiva. “Deixava a televisão ligada o tempo todo, sobretudo quando havia pessoas a falar comigo sobre os seus problemas, e apercebi-me de que a televisão desviava a minha atenção o suficiente para que os problemas que as pessoas me estavam a contar já não me afectassem. Era como uma coisa mágica.” , revelou Warhol. Ao contrário de outros artistas do seu tempo, a expressão artística de Andy Warhol não demarcou uma posição crítica militante face aos meios de comunicação para massas. A utilização do seu próprio mediatismo pessoal coadunou-se com as qualidades formais aparentes e ostensivas dos mass media, onde se encontram as fundamentações basilares por si desenvolvidas desde a sua liderança da face americana do movimento Pop Art do início de 60.


A particularidade do seu debruçar crítico incentivou-se pelo apelo formal dos elementos plásticos que envolvem as várias etapas do consumo de massas, descritas pela especificidade de um vocabulário simbólico, estereotipado, e pela percepção imediata dos elementos triviais que compõem a concepção visual dos produtos populares. Sobre a criação de formatos televisivos por Andy Warhol, o mesmo pode ser dito no que respeita à utilização da simplicidade dos formatos pré-existentes.

Os exemplos não faltam, nesta exposição centrada na criação televisiva pelo artista norte-americano. Depois das famosas impressões em série das identificativas garrafas de Coca-Cola nos anos 60, o apático rosto de Warhol aparece agora no anúncio a beber Coca-Cola Light.

Rodeada por cortinas de veludo vermelho escuro, a sala ao lado exibe um episódio da famosa série “Barco do Amor”, em que Andy Warhol aparece como actor convidado. Na exibição pode inclusivamente assistir-se a excertos do seu último trabalho televisivo, “Andy Warhol’s 15 Minutes”, um programa para a MTV criado e apresentado por si, adoptando adequadamente por título a famosa crença de Warhol dos anos 60, de que, no futuro, toda a gente será famosa por quinze minutos.

O último episódio do programa exibido é integralmente dedicado a Warhol, assinalando a ocasião do seu funeral, e documentando depoimentos diversos dos que, então, o rememoraram. Mas é com o extravagante video-clip para o tema “Hello Again” (1984) dos norte-americanos The Cars, que por conveniente graça se dá por terminada a selecção desta exposição “Warhol TV”.

“Sou extraordinariamente passivo. Aceito as coisas como elas são. Limito-me a olhar; eu observo o mundo.”, disse, certa vez, Andy Warhol. É pelo seu olhar, sempre do seu tempo, que aqui visitamos estes produtos, raridades cuja exibição se permite a equitativa justeza, se feita pela difusão efémera em broadcast televisivo que precede à sua génese, tanto quanto pela exposição museológica em loop que permanentemente a revitaliza e a descomprime em ciclos sucedidos de espaço temporal. Warhol, um verdadeiro artista profissional, desdobrou o seu impulso expressivo na necessidade de registar na consciência colectiva os contextos que acompanhou, reagindo aos desafios da sua era com a trivialidade de uma postura cool que, estratégica, sincera e frutífera, vincou de forma crucial os conceitos dominantes de arte.

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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