: PETIÇÃO PELO REGRESSO DO CINEMA À RTP2

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Pelo regresso à televisão pública da programação cinematográfica regular que lhe compete.

Uma iniciativa previamente discutida neste espaço, que parte de outros bloggers e estudantes de cinema, críticos e cinéfilos, companheiros e amigos, e que foi publicamente precedida de uma extensiva argumentação em vários espaços, que ouviu todas as vozes. Da frutífera e esclarecedora ponderação que envolveu vários intervenientes, culminou na necessária materialização sob a forma de Petição Pública .
Uma intervenção vital em validade, surgida com o intuito de valorizar a arte cinematográfica em Portugal, e de viabilizar o incremento do espaço dedicado à cultura cinematográfica na plataforma pública de difusão, pela competência das entidades respectivas.

: argumentário
PORQUE É QUE É TÃO IMPORTANTE:
Assumo uma causa que me move particularmente, por consideração comunitária, que julgo de importância verdadeiramente formativa para o público português, e pelas particulares afeições pelo nível de uma RTP2 (hoje tão decrescido em oferta), que o crescer na província - com a deslocação geográfica dos centros culturais e com a impossibilidade de ver cinema de autor em sala - me levavam a acompanhar o canal desde cedo, com atenção, expectativa e afinco.
Porque, felizmente, este alerta tem sido suficientemente disseminado para se prestar à discussão nos espaços mais gerais, tem sido da maior importãncia debater e ouvir argumentações contra e a favor da causa.
Chegaram-me, no entanto, pontos de vista que trazem subjacentes alguns "mitos" e preconceitos que, julgo, se devem dissolver :

- Aos que afirmam que a RTP2, como qualquer outra estação de televisão, não exibe cinema mas sim filmes, uma vez que o cinema é nas salas, com todas as especificidades que aí lhe convêm;
Eu respondo que, devido ao crescente custo dos bilhetes, às conveniências do home cinema e dos downloads, ao encerramento de inúmeras salas nacionais, à dissolução da maior parte dos video-clubes, entre outras razões, cada vez menos gente se desloca ao cinema para ver filmes. Ao mesmo tempo, na maioria das salas de cinema e auditórios nacionais, há uma quase nula aposta no cinema de autor, alternativo ou mais antigo, em detrimento de filmes comerciais, produtos equipados à priori com uma massiva estrutura publicitária que lhes concede maior visibilidade, popularidade e rentabilidade. Assim, está no dever das entidades sociais responsáveis, promover a deslocalização da oferta (extremamente concentrada nos grandes centros urbanos, em grau flagrante de descrepância relativamente ao resto do território), a deselitização da cultura, e a defesa do acesso e do direito à liberdade de escolha - que só acontece quando se conhecem as opções possíveis.

- Aos que afirmam que a RTP2 não tem público para este tipo de programação de cinema :
Por muito que se acerte em nomear crises a níveis de teoria da arte, de estrutura, de agrupamento colectivo, de conhecimento histórico, referentes à experiência das novas gerações em relação ao cinema, tenho a certeza de que nunca como hoje, em Portugal tantos jovens estiveram despertos para um culto da sétima arte. É verdadeiramente um culto acérrimo. Parece-me óbvio que, infelizmente, não embora não haja propriamente uma cultura cinematográfica organizada, um corpo teórico consistente - a modalidade de agrupamento colectivo com bases de uma inspiração comum que marcou os anos 60/70 em Portugal, com resultados visíveis ao nível da produção e profusão cinematográficas, já não se adequa aos dias de hoje. Mas esse é um sintoma que se repercute por todos os campos artísticos onde, devido à dispersão da era e às características particulares dos sistemas de oferta e de consumo, se observa uma dissolução dos centros de discussão gerais, e a falta de comunhão amplificada de instrumentos teóricos particulares, com referências comuns, deslocando os centros de debate para agrupamentos mais particulares, cada vez mais específicos, como se verifica pelo crescente número de blogues e fóruns dedicados ao cinema, e pelas possibilidades de, hoje, rapidamente interagir online com as notícias/artigos/críticas sem o generalizado mutismo por parte do leitor. Por outro lado, é ampla a lista que descreve as distintas ofertas existentes para o estudo secundário e superior do cinema, vídeo, multimédia e outros dispositivos afins. E basta recordar que João Salaviza, primeiro vencedor português da Palma de Ouro, tem apenas 26 anos de idade, e Gabriel Abrantes, que recentemente foi premiado com o Leopardo de Ouro, em Locarno, tem somente 25, para perceber que há uma atenção activa que, hoje, marca a relação dos jovens com o cinema. Visibilidades de uma vontade, que de igual modo se reflecte na amplificação de festivais e mostras de cinema em Portugal, espaços cada vez mais pensados para servir públicos particulares, através de segmentos dedicados e especializados.

- Aos que afirmam que não é só de mais cinema que a RTP2 precisa, mas sim de mais atenção a outras artes :
Fazendo coro aos lúcidos depoimentos de Luís Mendonça, um dos impulsionadores desta petição - na entrevista que se segue -, concordo com a fraqueza geral de programação dedicada pelo canal à exibição artística, que não afecta apenas o cinema. Esta petição trata-se, então, de um ponto de partida, apelando aos responsáveis e interessados pelas restantes áreas, para que dêem a conhecer as necessidades das suas reivindicações.




Saudades da "antiga" RTP2
via RDB Por Renato Duarte

Desde o mês passado existe uma petição (ver link externo) que circula na internet e de boca em boca, pelo regresso de exibição regular de cinema à RTP 2. Canal público, de vocação e obrigação alternativas que, segundo os autores do texto, tem demonstrado um “progressivo desinvestimento na programação cinematográfica”.
Numa conversa de, mais ou menos, uma hora, Luís Mendonça, cinéfilo e um dos motivadores desta petição, explicou ao Rua de Baixo as razões, os objectivos e as alternativas propostas.
Assumindo o interesse pessoal e emocional da causa, Luís recorda que o que sabe sobre cinema foi adquirido, em grande medida, por via da atenção que a RTP 2 outrora dedicou à Sétima Arte - “Era uma espécie de cineclube de todos nós”.


RDB - O que é que pretende esta petição?

Luís Mendonça - O que nós pretendemos é que o cinema regresse à RTP2. E, no fundo ,reclamar aquilo que foi o passado recente da estação em que havia espaços regulares de divulgação da Sétima Arte, normalmente com a exibição de filmes clássicos ou de cinematografias menos conhecidas. Os filmes eram contextualizados por figuras ligadas ao meio ou à volta dele. Recordo-me da rubrica da Inês de Medeiros “O filme da minha vida” ou o “5 noites, 5 filmes”. Existe saudade, da nossa e parte e da parte dos subscritores da petição, de ver uma RTP2 que trate o cinema com alguma dignidade e não que despeje para o Sábado aquela sessão dupla, mais ou menos arbitrária, sem critério.

Têm 1400 subscritores neste momento. Conseguem, com segurança, assegurar que essa vossa intenção é a de todas as pessoas que vêm televisão em Portugal e são espectadores da RTP2?
Pelo menos o público-alvo da RTP2, em princípio, conseguiremos abarcar. Nós já temos representadas na nossa petição, que dura há pouco mais de 20 dias, as principais figuras das várias áreas da cultura em Portugal. Desde o professor José Mattoso, na componente académica, a escritora Alice Vieira, mesmo dentro do domínio do cinema temos variadíssimos realizadores, como o professor José Mário Grilo, a Raquel Freire, o Manuel Mozos, o António Ferreira…

O que é que queres dizer com público-alvo da RTP 2? Quem é para vocês esse público? Partindo do facto de estarmos a falar de uma estação pública e generalista.

Está na lei que a RTP2 deve ser uma alternativa à RTP1 e tem um conjunto de obrigações a que está vinculada através do contrato de concessão de serviço público, que passa por uma programação exigente. O público-alvo da RTP2 é a classe média informada. Sendo uma estação generalista, deve ter uma programação com ambições de captar todos os sectores da sociedade. O Fernando Lopes tinha uma expressão que era “A RTP2 não será nem lixo nem luxo”. E há uns anos atrás havia a discussão de que a RTP2 era um canal de televisão elitista e que só era para alguns e por aí fora…. Eu acho que a RTP2 é elitista hoje. Há pouco tempo passou, numa sessão dupla, o “Amarcord” e o “Almoço de 15 de Agosto”. Quer dizer, passou estes dois filmes sem qualquer tipo de contextualização prévia. Eu parto do pressuposto que o critério era o facto de serem filmes italianos, mas uma pessoa que não tenha algum tipo de formação base ou de informação prévia, não vai fruir desses dois objectos da mesma forma que uma pessoa que tem esse conhecimento, ou seja, o critério é estipulado pelo espectador e não pelo canal, o canal não encaminha o espectador no sentido da aprendizagem, de ganhar instrumentos para descodificar os objectos que são mostrados. Tem sido exactamente o oposto. É o espectador que já tem previamente de saber. A programação não tem critério. Nós não pomos em causa a qualidade dos filmes em si, os filmes são bons.

Então existe critério, não é o vosso, mas existe…

É um critério fraco, como eu digo. Por exemplo, umas vezes passam dois filmes porque são dois filmes italianos… Quer dizer, o que é que o “Almoço de 15 de Agosto” tem a ver com o “Amarcord”? Zero. O “The Red Badge of Courage”, o que é que tem a ver com o “Mackintosh Man”? Bem, é do mesmo realizador [John Huston]… mas e depois?

O que é que a RTP pode, deve, exibir?

Pode exibir estes filmes, não tem de exibir filmes diferentes. Aliás, como dizia um colega meu até, pode exibir os filmes que a RTP Memória tem passado de vez em quando, agora passam muito menos - Cinema Clássico. Podem exibi-los. Agora, a questão é a forma como os programa e a regularidade com que os programa. Não é enxotar para o Sábado para tentar no fundo satisfazer ou calar os ditos cinéfilos, como nós, que andamos aqui a pedir cinema. Quer dizer, nós não temos de pedir nada. Basta ler.

Tal como a obrigação legal respeitante ao cinema, existem deveres equivalentes no que toca a outras áreas, como a inovação, acção social, defesa do consumidor, experimentalismo audiovisual, entre muitas…O que é que seria viável em nome de uma distribuição justa dos conteúdos? Um sistema de quotas? Há espaço para tudo?

Há, porque já houve noutros tempos. Isto acaba por ser um estímulo, e era isso que nós queríamos também no seio sociedade civil, para que depois mais manifestações deste género aconteçam. Porque eu acho que de facto o cinema não é respeitado dentro daquele canal. Nós gostávamos de o ver mais respeitado e poderia até reverter a pergunta: O que é que o “5 para a meia-noite” tem a ver com este conjunto de obrigações legais? O que é que o “5 para a meia-noite” faz neste âmbito, daquilo que é pedido num serviço público de televisão, por exemplo. Eu acho que é um formato que se adequa muito melhor a um canal como a SIC Radical. Como a cláusula 6 do contrato de concessão de serviço público bem diz: “a RTP 2 deve combater a uniformização da oferta televisiva através de programação efectivamente diversificada, alternativa, criativa e não determinada por objectivos comerciais”. A mim parece-me que está a fazer exactamente o oposto. Está a uniformizar, a passar séries que passam noutros canais. E depois passam um talk-show, à noite, que do meu ponto de vista é claramente próprio de um canal especializado e não de um canal generalista. Passa em directo e depois repetido. São mais de duas horas do tal espaço de que falavas que são consumidos.

Até há relativamente pouco tempo era exibido teatro na televisão, às tantas entendeu-se que a plataforma de exibição de uma peça não é a televisão, mas sim um sala de teatro. A televisão é um sítio bom para ver cinema?

Eu acho que sim. Eu devo imenso à televisão. A questão é que nem toda a gente tem acesso a uma cinemateca para ver um Eisenstein. Por acaso eu acho que a carência de diversidade, a tal programação alternativa aos circuitos comerciais, no caso do cinema ainda é mais problemática, parece-me. Um amigo meu dizia há pouco tempo que tem um amigo em Chaves cuja formação cinéfila foi feita graças àquela RTP2 que passava estes filmes de que estou a falar, do Eisenstein,,.entre outros. E mesmo no caso das pessoas que não têm acesso ao teatro…passem teatro! Qual é o problema? Passem teatro… têm tantas horas…O que é a RTP2 passa actualmente, agora faço esta pergunta? O que é que passa actualmente?

A televisão é um media com regras próprias, que se rege por critérios de programação específicos que eventualmente ultrapassam os motivadores desta petição. Concordas?

As normas que regem a programação da RTP 2 estão estipuladas na lei. Quem deve programar é o programador, e no caso de uma televisão pública, um programador que atente ao contrato que tem com o Estado. E aquelas que são as exigências do seu público, que neste caso é o público de cinema. Porque eu também tenho noção de que não basta ter pessoas conhecidas, muitas pessoas conhecidas. Neste momento nós precisamos é de muita gente a assinar, precisamos do público, precisamos de, no fundo, ter a sociedade civil mobilizada para isto e achamos que é a esse público que o programador deve responder. Está estipulado… nós citamos a lei fundamental, porque nós podemos ir até á lei fundamental e discutir a actual programação da RTP2.

Achas que é viável do ponto de vista económico adquirir esses produtos? Existe público que justifique esse investimento, na tua opinião?

Há público para o cinema. O cinema é um produto barato, muito mais barato do que um “5 para a meia-noite”, muito mais barato…e normalmente dá muito mais audiência. Aliás, eu lembro-me perfeitamente, na altura em que a RTP 2 estava a atravessar uma crise até de identidade, o “5 noites 5 filmes”, algumas sessões do Pasolini, estavam no topo das audiências da RTP2, à frente do telejornal e por aí fora. Mas quer dizer, ter muito público também não deve preocupar um programador da RTP2, senão mais vale privatizar. Não deve existir aqui objectivo de lucro. Estávamos mal se tivesse de ser esse o critério.

Estão dispostos a discutir essas questões com a direcção de programas da RTP2? É uma das vossas intenções?

A direcção de programas da RTP2 continua a ser a direcção de programas e não nós. Portanto, é ela que decide. Ou seja, se acharem que estas nossas reivindicações são minimamente razoáveis e justificáveis, têm toda a liberdade para fazer as alterações sem sequer nos consultar, quem dirige são eles. Eles é que têm a obrigação de fazer uma programação que se adeque minimamente ao que estão vinculados por lei. Também podem fazer contextualizações a nível teatral, de óperas e sei lá mais o quê, a questão é que, primeiro, estamos a pedir cinema. Não representamos as pessoas que pedem teatro. Nós somos do cinema e reivindicamos aquilo que sabemos. E nós conhecemos porque seguimos o cinema e a própria RTP2 tem uma história ligada ao cinema, ligada à formação cinéfila, é uma espécie de cineclube de todos nós, e acabou por deixar de desempenhar esse papel.



Para acompanhar esta causa,
está disponível :

Um blogue acerca da Petição (onde saudavelmente se descrevem propostas de programação que têm faltado à RTP2)
Uma página no Facebook
JOÃO LOPES: A televisão e os Horários que não temos

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