sexta-feira, 24 de setembro de 2010

1. Memórias de um espaço invisível

Memórias
de um espaço invisível.








Onibaba, Kaneto Shindô (1964)





Dong, Tsai Ming-Liang (1998)


"- De agora em diante serei eu a descrever as cidades - disse o Kan - Tu nas tuas viagens verificarás se existem.
Mas as cidades visitadas por Marco Polo eram sempre diferentes das pensadas pelo imperador.
- Contudo eu tinha construído na minha mente um modelo de cidade de que deveria deduzir-se todos os modelos de cidade possíveis - disse Kublai. - Contém tudo o que corresponde à norma. Como as cidades que existem se afastam em grau diverso da norma, basta-me prever as excepções à norma e calcular as combinações mais prováveis.
- Também pensei num modelo de cidade de que deduzo todas as outras - respondeu Marco. - É uma cidade feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contrasensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número de elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade. Portanto, basta que eu subtraia excepções ao meu modelo, e proceda com que ordem proceder, chegarei a encontra-me perante uma das cidades que existem, embora sempre com excepção. Mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras."

in AS CIDADES INVISÍVEIS, Italo Calvino




Notre Siècle, Artavazd Peleshian (1983)

"(...)No entanto, a maioria dos ensinamentos de Cristo é muito mais contrária aos costumes do mundo de hoje do que são as minhas palavras."

in UTOPIA, Thomas More



"O espaço da sobremodernidade, esse, é trabalhado pela seguinte contradição : só conhece indivíduos ( clientes, passageiros, utentes, ouvintes), mas estes não são identificados, socializados e localizados (nome, profissão, local de nascimento, local de residência), excepto à entrada e à saída. Se os não-lugares são o espaço da sobre-modernidade, é necessário explicar este paradoxo : o jogo social parece jogar-se alhures que não nos postos avançados da contemporaneidade."

NÃO LUGARES, Marc Augé




A Zona, Sandro Aguilar (2008)

Horas, cor-de-Maio, frescas.
A não mais nomeável, quente,
audível na boca.

Voz de ninguém, outra vez.

Dolorosa profundidade do globo ocular:
a pálpebra
não barra o caminho, a pestana
não conta aquilo que entra.

A lágrima, a meio,
a lente mais nítida, ágil,
traz-te as imagens.


- "Um Olho Aberto", Paul Celan

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