My river runs to thee:
Blue sea, wilt welcome me?
  
My river waits reply.
Oh sea, look graciously!
  
I ’ll fetch thee brooks        
From spotted nooks,—
  
Say, sea,
Take me!
Emily Dickinson
THE OUTLET
1924



“Going up that river was like travelling back to the earliest beginnings of the world, when vegetation rioted on the earth and the big trees were kings. An empty stream, a great silence, an impenetrable forest. The air was warm, thick, heavy, sluggish. There was no joy in the brilliance of sunshine. The long stretches of the waterway ran on, deserted, into the gloom of overshadowed distances. On silvery sandbanks hippos and alligators sunned themselves side by side. The broadening waters flowed through a mob of wooded islands; you lost your way on that river as you would in a desert, and butted all day long against shoals, trying to find the channel, till you thought yourself bewitched and cut off forever from everything you had known once -somewhere- far away in another existence perhaps. There were moments when one's past came back to one, as it will sometimes when you have not a moment to spare to yourself; but it came in the shape of an unrestful and noisy dream, remembered with wonder amongst the overwhelming realities of this strange world of plants, and water, and silence. And this stillness of life did not in the least resemble a peace. It was the stillness of an implacable force brooding over an inscrutable intention. It looked at you with a vengeful aspect.” 
― Joseph ConradHeart of Darkness


 The Love Nest, Buster Keaton, 1923


“the mind of man is capable of anything - because everything is in it, all the past as well as the future” 
― Joseph ConradHeart of Darkness



The Boat, Buster Keaton, 1921

“...for there is nothing mysterious to a seaman unless it be the sea itself, which is the mistress of his existence...” 
― Joseph ConradHeart of Darkness

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Memórias
de um espaço invisível.








Onibaba, Kaneto Shindô (1964)





Dong, Tsai Ming-Liang (1998)


"- De agora em diante serei eu a descrever as cidades - disse o Kan - Tu nas tuas viagens verificarás se existem.
Mas as cidades visitadas por Marco Polo eram sempre diferentes das pensadas pelo imperador.
- Contudo eu tinha construído na minha mente um modelo de cidade de que deveria deduzir-se todos os modelos de cidade possíveis - disse Kublai. - Contém tudo o que corresponde à norma. Como as cidades que existem se afastam em grau diverso da norma, basta-me prever as excepções à norma e calcular as combinações mais prováveis.
- Também pensei num modelo de cidade de que deduzo todas as outras - respondeu Marco. - É uma cidade feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contrasensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número de elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade. Portanto, basta que eu subtraia excepções ao meu modelo, e proceda com que ordem proceder, chegarei a encontra-me perante uma das cidades que existem, embora sempre com excepção. Mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras."

in AS CIDADES INVISÍVEIS, Italo Calvino




Notre Siècle, Artavazd Peleshian (1983)

"(...)No entanto, a maioria dos ensinamentos de Cristo é muito mais contrária aos costumes do mundo de hoje do que são as minhas palavras."

in UTOPIA, Thomas More



"O espaço da sobremodernidade, esse, é trabalhado pela seguinte contradição : só conhece indivíduos ( clientes, passageiros, utentes, ouvintes), mas estes não são identificados, socializados e localizados (nome, profissão, local de nascimento, local de residência), excepto à entrada e à saída. Se os não-lugares são o espaço da sobre-modernidade, é necessário explicar este paradoxo : o jogo social parece jogar-se alhures que não nos postos avançados da contemporaneidade."

NÃO LUGARES, Marc Augé




A Zona, Sandro Aguilar (2008)

Horas, cor-de-Maio, frescas.
A não mais nomeável, quente,
audível na boca.

Voz de ninguém, outra vez.

Dolorosa profundidade do globo ocular:
a pálpebra
não barra o caminho, a pestana
não conta aquilo que entra.

A lágrima, a meio,
a lente mais nítida, ágil,
traz-te as imagens.


- "Um Olho Aberto", Paul Celan
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ainda a Crítica
: breves notas pessoais sobre
Histoire(s) du Cinéma
arte + crítica + historiografia


Toute la mémoire du monde, Alain Resnais,1956


‘‘TODAS AS MEMÓRIAS
TODAS AS HISTÓRIAS / ESTÓRIAS’’

- Em francês - como em português - a palavra história tem um duplo sentido: o de História e o de Estória. Em Histoire(s) du Cinéma, Godard toma literalmente o cinema nas mãos e constrói um objecto que é, em simultâneo, um objecto artístico  e que propõe uma leitura e uma compreensão particular do mundo, um objecto crítico que situa o próprio suporte no interior de um contexto maior, uma genealogia do cinema por si mapeada, e um objecto historiográfico que explica a pluralidade de narrativas possíveis ao gesto político que é o fazer História.


JLG/JLG - autoportrait de décembre  (1994)

Le Gai Savoir, JLG (1969)


- Godard avança a questão até ao fundo, pensando de raiz em todas as possibilidades; materializa esta pregnância do gesto criador/ artístico no negro (onde faz surgir imagens de letras à máquina) e no branco (onde faz surgir imagens de letras à mão). A folha em branco fala da ausência, da inêxistencia da forma, que deve ser endereçada. 

- O artista combate o nada. O crítico combate o excesso. 

- Tanto artista como crítico criam balizas para a realidade concreta. Mas se o artista combate o nada, fazendo de todas as possibilidades matéria prima para criar sobre esse nada - o crítico, ao avaliar o objecto artístico em concreto, discursa sobre o discurso. 

- Se a arte é a medida do homem, o crítico artístico é aquele que procura aceder a um conhecimento sobre o seu semelhante humano através do seu semelhante humano. O Outro é a porta de entrada da crítica. 
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Wassup Rockers, Larry Clark, 2005
ON FILM.

a post on Cynthia Lugo's blog
THE CYNEPHILE
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: video - arte


CALÇADA SALVADOR CORREIA DE SÁ, 42 2º FRENTE
entrada pelo Noobai - Miradouro de Santa Catarina



ASSOCIAÇÃO CULTURAL | ESTÚDIO | SCREENING-ROOM
http://oportolisboa.blogspot.com/

"Oporto is a studio and a non-profit screening room located in Lisboa. Occupying the former Merchant Sailors Union headquarters, Oporto projects from time to time a single unique experimental video or film. The programme is exquisite and extremely slow.The selection of the pieces screened is made, not only on the basis of the work itself, but also on an overall idea of an exquisite corpse . The space is directed by artist Alexandre Estrela, in cooperation with designers and associate program managers Antonio Gomes and Claudia Castelo a.k.a. Barbara Says and artist Miguel Soares. Sponsored by GAU- Gestão de Audiovisuais"

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: visitando a exposição no CCB.


It's Andy Warhol TV
Artigo para a edição de Setembro 2010 da Revista Rua de Baixo.



Pela curadoria de Judith Benhamou, o acervo desta mostra reúne arquivos do Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, e depoimentos de colaboradores contemporâneos ao artista. De excentricidade afamada, ascendido do anonimato à projecção global, Andy Warhol mitificou-se enquanto um dos culminantes protagonistas do sonho americano, alinhando a valorização comercial do seu trabalho ao consistente reconhecimento do seu contributo artístico. De distintiva expressão entre variados suportes materiais, é o resultado do seu percurso pela nuclear “caixa mágica” do século XX, que esta mostra acompanha, vital em rememorar as carências actuais de uma equivalente promoção da sua incursão pela sétima arte.


Defronte dos sofás coloridos, a multiplicidade de ecrãs convida a atenção a demorar-se. O agrupamento temático que alinha as divisórias do espaço, reflecte as obsessões públicas que caracterizam Andy Warhol. O culto à celebridade e os recorrentes fascínios dedicados a outros célebres, a beleza e a fetichização, o sexo e o transformismo, os processos de criação e as elevações do talento, a vida social e os episódios relacionais, são figurações presentes nos documentos em vídeo que rememoram a Nova Iorque das décadas de 70 e 80.

A inexpressividade característica do rosto maquilhado, sempre enfatizado pela mesma peruca branca desalinhada, identifica de imediato o vulto em destaque, propagado entre as projecções e as salas. Para lá da assumpção de uma aparência exuberante, constantemente dirigida por si e sobre si, Warhol popularizar-se-ia pelas suas permanentes declarações lacónicas e dúbias, numa partilha pública de detalhes biográficos ficcionados, tão pouco reveladores quanto intensamente publicitários. Um intermitente cruzamento entre a realidade e a ficção que marcará decisivamente o seu comportamento face à expressão em vídeo.

A própria realidade que se gera pela simulação televisiva, em calendário de difusão ininterrupta, constitui-se enquanto amplo patamar de possibilidades para a inventividade de Warhol. Em 1964, imagina “Soap Opera”, um programa de televisão falso que se intercala de anúncios televisivos reais, valorizados em propósito pelas suas mensagens pragmáticas, destinadas a participar utilmente na vida do espectador televisivo do outro lado do ecrã.

Na fervilhante ambiência da Factory, o prodigioso atelier colectivo de produção artística fundado por Andy, era frequente haver câmaras ligadas, prontas a documentar as mais singelas acções dos presentes. A mesma posição não interventiva dominou os preceitos estilísticos da sua realização cinematográfica. “Sleep” (1963, 321 minutos), “Haircut” (1963, 35 minutos), “Empire” (1964, 485 minutos), são relativamente extensas gravações de pessoas em acções triviais ou captações fixas de espaços determinados, obras reveladoras da atenção voyeur que dedicava à realidade envolvente, e da indução dos envolvidos à consideração de actores. A prolongada duração temporal das obras - por vezes, exibidas em slow motion - revela-se sintoma de uma procura por vestígios de veracidade através da constituição da obra de arte, mediando-se pela tentativa de simulação extensiva dos ritmos da vida real através das características do dispositivo cinematográfico, procurando assim ensaiar um sentido em que as presenças da arte e da vida encontrassem uma mutualidade simultânea.

Uma apuração do efeito de realismo sobre as situações mundanas, acentuada pela introdução de som sincronizado, como acontece em “Chelsea Girls” (1966), o filme experimental rodado em Nova Iorque, que acompanha várias mulheres que habitam o hotel Chelsea. O elenco inclui Nico, Brigid Berlin, Gerard Malang, Ingrid Superstar, International Velvet e Eric Emerson, alguns dos habituais colaboradores de Warhol, cujos papéis se resumem à interpretação de si próprios, sob o pano de fundo de situações artificiosamente provocadas. Experiências que desenvolvem um essencial legado para as construções minimalistas e contemplativas do cinema moderno e contemporâneo. No âmbito deste interesse incansável pelas variações humanas de exteriorização em sociedade e de projecção de personalidade (trabalhadas veridicamente pela postura do próprio Andy), o cineasta português Pedro Costa afirma que foi Warhol o realizador mais consistente a mostrar a dualidade presente à “organização entre o secretismo e o que é mostrado, no filme”. Uma purificada visão do mundo pela câmara de Warhol que parece respeitar uma ordem pré-existente através da quase completa carência de guião, e que, em simultâneo, assume a encenação inerente ao sujeito social, e a respectiva participação no ambiente em que se situa e filma.

Nascido a 6 de Agosto de 1928, somente dois anos após a invenção do primeiro televisor pelo escocês John Logie Bird, Andy Warhol foi filho da geração televisiva. “Deixava a televisão ligada o tempo todo, sobretudo quando havia pessoas a falar comigo sobre os seus problemas, e apercebi-me de que a televisão desviava a minha atenção o suficiente para que os problemas que as pessoas me estavam a contar já não me afectassem. Era como uma coisa mágica.” , revelou Warhol. Ao contrário de outros artistas do seu tempo, a expressão artística de Andy Warhol não demarcou uma posição crítica militante face aos meios de comunicação para massas. A utilização do seu próprio mediatismo pessoal coadunou-se com as qualidades formais aparentes e ostensivas dos mass media, onde se encontram as fundamentações basilares por si desenvolvidas desde a sua liderança da face americana do movimento Pop Art do início de 60.


A particularidade do seu debruçar crítico incentivou-se pelo apelo formal dos elementos plásticos que envolvem as várias etapas do consumo de massas, descritas pela especificidade de um vocabulário simbólico, estereotipado, e pela percepção imediata dos elementos triviais que compõem a concepção visual dos produtos populares. Sobre a criação de formatos televisivos por Andy Warhol, o mesmo pode ser dito no que respeita à utilização da simplicidade dos formatos pré-existentes.

Os exemplos não faltam, nesta exposição centrada na criação televisiva pelo artista norte-americano. Depois das famosas impressões em série das identificativas garrafas de Coca-Cola nos anos 60, o apático rosto de Warhol aparece agora no anúncio a beber Coca-Cola Light.

Rodeada por cortinas de veludo vermelho escuro, a sala ao lado exibe um episódio da famosa série “Barco do Amor”, em que Andy Warhol aparece como actor convidado. Na exibição pode inclusivamente assistir-se a excertos do seu último trabalho televisivo, “Andy Warhol’s 15 Minutes”, um programa para a MTV criado e apresentado por si, adoptando adequadamente por título a famosa crença de Warhol dos anos 60, de que, no futuro, toda a gente será famosa por quinze minutos.

O último episódio do programa exibido é integralmente dedicado a Warhol, assinalando a ocasião do seu funeral, e documentando depoimentos diversos dos que, então, o rememoraram. Mas é com o extravagante video-clip para o tema “Hello Again” (1984) dos norte-americanos The Cars, que por conveniente graça se dá por terminada a selecção desta exposição “Warhol TV”.

“Sou extraordinariamente passivo. Aceito as coisas como elas são. Limito-me a olhar; eu observo o mundo.”, disse, certa vez, Andy Warhol. É pelo seu olhar, sempre do seu tempo, que aqui visitamos estes produtos, raridades cuja exibição se permite a equitativa justeza, se feita pela difusão efémera em broadcast televisivo que precede à sua génese, tanto quanto pela exposição museológica em loop que permanentemente a revitaliza e a descomprime em ciclos sucedidos de espaço temporal. Warhol, um verdadeiro artista profissional, desdobrou o seu impulso expressivo na necessidade de registar na consciência colectiva os contextos que acompanhou, reagindo aos desafios da sua era com a trivialidade de uma postura cool que, estratégica, sincera e frutífera, vincou de forma crucial os conceitos dominantes de arte.

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Pelo regresso à televisão pública da programação cinematográfica regular que lhe compete.

Uma iniciativa previamente discutida neste espaço, que parte de outros bloggers e estudantes de cinema, críticos e cinéfilos, companheiros e amigos, e que foi publicamente precedida de uma extensiva argumentação em vários espaços, que ouviu todas as vozes. Da frutífera e esclarecedora ponderação que envolveu vários intervenientes, culminou na necessária materialização sob a forma de Petição Pública .
Uma intervenção vital em validade, surgida com o intuito de valorizar a arte cinematográfica em Portugal, e de viabilizar o incremento do espaço dedicado à cultura cinematográfica na plataforma pública de difusão, pela competência das entidades respectivas.

: argumentário
PORQUE É QUE É TÃO IMPORTANTE:
Assumo uma causa que me move particularmente, por consideração comunitária, que julgo de importância verdadeiramente formativa para o público português, e pelas particulares afeições pelo nível de uma RTP2 (hoje tão decrescido em oferta), que o crescer na província - com a deslocação geográfica dos centros culturais e com a impossibilidade de ver cinema de autor em sala - me levavam a acompanhar o canal desde cedo, com atenção, expectativa e afinco.
Porque, felizmente, este alerta tem sido suficientemente disseminado para se prestar à discussão nos espaços mais gerais, tem sido da maior importãncia debater e ouvir argumentações contra e a favor da causa.
Chegaram-me, no entanto, pontos de vista que trazem subjacentes alguns "mitos" e preconceitos que, julgo, se devem dissolver :

- Aos que afirmam que a RTP2, como qualquer outra estação de televisão, não exibe cinema mas sim filmes, uma vez que o cinema é nas salas, com todas as especificidades que aí lhe convêm;
Eu respondo que, devido ao crescente custo dos bilhetes, às conveniências do home cinema e dos downloads, ao encerramento de inúmeras salas nacionais, à dissolução da maior parte dos video-clubes, entre outras razões, cada vez menos gente se desloca ao cinema para ver filmes. Ao mesmo tempo, na maioria das salas de cinema e auditórios nacionais, há uma quase nula aposta no cinema de autor, alternativo ou mais antigo, em detrimento de filmes comerciais, produtos equipados à priori com uma massiva estrutura publicitária que lhes concede maior visibilidade, popularidade e rentabilidade. Assim, está no dever das entidades sociais responsáveis, promover a deslocalização da oferta (extremamente concentrada nos grandes centros urbanos, em grau flagrante de descrepância relativamente ao resto do território), a deselitização da cultura, e a defesa do acesso e do direito à liberdade de escolha - que só acontece quando se conhecem as opções possíveis.

- Aos que afirmam que a RTP2 não tem público para este tipo de programação de cinema :
Por muito que se acerte em nomear crises a níveis de teoria da arte, de estrutura, de agrupamento colectivo, de conhecimento histórico, referentes à experiência das novas gerações em relação ao cinema, tenho a certeza de que nunca como hoje, em Portugal tantos jovens estiveram despertos para um culto da sétima arte. É verdadeiramente um culto acérrimo. Parece-me óbvio que, infelizmente, não embora não haja propriamente uma cultura cinematográfica organizada, um corpo teórico consistente - a modalidade de agrupamento colectivo com bases de uma inspiração comum que marcou os anos 60/70 em Portugal, com resultados visíveis ao nível da produção e profusão cinematográficas, já não se adequa aos dias de hoje. Mas esse é um sintoma que se repercute por todos os campos artísticos onde, devido à dispersão da era e às características particulares dos sistemas de oferta e de consumo, se observa uma dissolução dos centros de discussão gerais, e a falta de comunhão amplificada de instrumentos teóricos particulares, com referências comuns, deslocando os centros de debate para agrupamentos mais particulares, cada vez mais específicos, como se verifica pelo crescente número de blogues e fóruns dedicados ao cinema, e pelas possibilidades de, hoje, rapidamente interagir online com as notícias/artigos/críticas sem o generalizado mutismo por parte do leitor. Por outro lado, é ampla a lista que descreve as distintas ofertas existentes para o estudo secundário e superior do cinema, vídeo, multimédia e outros dispositivos afins. E basta recordar que João Salaviza, primeiro vencedor português da Palma de Ouro, tem apenas 26 anos de idade, e Gabriel Abrantes, que recentemente foi premiado com o Leopardo de Ouro, em Locarno, tem somente 25, para perceber que há uma atenção activa que, hoje, marca a relação dos jovens com o cinema. Visibilidades de uma vontade, que de igual modo se reflecte na amplificação de festivais e mostras de cinema em Portugal, espaços cada vez mais pensados para servir públicos particulares, através de segmentos dedicados e especializados.

- Aos que afirmam que não é só de mais cinema que a RTP2 precisa, mas sim de mais atenção a outras artes :
Fazendo coro aos lúcidos depoimentos de Luís Mendonça, um dos impulsionadores desta petição - na entrevista que se segue -, concordo com a fraqueza geral de programação dedicada pelo canal à exibição artística, que não afecta apenas o cinema. Esta petição trata-se, então, de um ponto de partida, apelando aos responsáveis e interessados pelas restantes áreas, para que dêem a conhecer as necessidades das suas reivindicações.




Saudades da "antiga" RTP2
via RDB Por Renato Duarte

Desde o mês passado existe uma petição (ver link externo) que circula na internet e de boca em boca, pelo regresso de exibição regular de cinema à RTP 2. Canal público, de vocação e obrigação alternativas que, segundo os autores do texto, tem demonstrado um “progressivo desinvestimento na programação cinematográfica”.
Numa conversa de, mais ou menos, uma hora, Luís Mendonça, cinéfilo e um dos motivadores desta petição, explicou ao Rua de Baixo as razões, os objectivos e as alternativas propostas.
Assumindo o interesse pessoal e emocional da causa, Luís recorda que o que sabe sobre cinema foi adquirido, em grande medida, por via da atenção que a RTP 2 outrora dedicou à Sétima Arte - “Era uma espécie de cineclube de todos nós”.


RDB - O que é que pretende esta petição?

Luís Mendonça - O que nós pretendemos é que o cinema regresse à RTP2. E, no fundo ,reclamar aquilo que foi o passado recente da estação em que havia espaços regulares de divulgação da Sétima Arte, normalmente com a exibição de filmes clássicos ou de cinematografias menos conhecidas. Os filmes eram contextualizados por figuras ligadas ao meio ou à volta dele. Recordo-me da rubrica da Inês de Medeiros “O filme da minha vida” ou o “5 noites, 5 filmes”. Existe saudade, da nossa e parte e da parte dos subscritores da petição, de ver uma RTP2 que trate o cinema com alguma dignidade e não que despeje para o Sábado aquela sessão dupla, mais ou menos arbitrária, sem critério.

Têm 1400 subscritores neste momento. Conseguem, com segurança, assegurar que essa vossa intenção é a de todas as pessoas que vêm televisão em Portugal e são espectadores da RTP2?
Pelo menos o público-alvo da RTP2, em princípio, conseguiremos abarcar. Nós já temos representadas na nossa petição, que dura há pouco mais de 20 dias, as principais figuras das várias áreas da cultura em Portugal. Desde o professor José Mattoso, na componente académica, a escritora Alice Vieira, mesmo dentro do domínio do cinema temos variadíssimos realizadores, como o professor José Mário Grilo, a Raquel Freire, o Manuel Mozos, o António Ferreira…

O que é que queres dizer com público-alvo da RTP 2? Quem é para vocês esse público? Partindo do facto de estarmos a falar de uma estação pública e generalista.

Está na lei que a RTP2 deve ser uma alternativa à RTP1 e tem um conjunto de obrigações a que está vinculada através do contrato de concessão de serviço público, que passa por uma programação exigente. O público-alvo da RTP2 é a classe média informada. Sendo uma estação generalista, deve ter uma programação com ambições de captar todos os sectores da sociedade. O Fernando Lopes tinha uma expressão que era “A RTP2 não será nem lixo nem luxo”. E há uns anos atrás havia a discussão de que a RTP2 era um canal de televisão elitista e que só era para alguns e por aí fora…. Eu acho que a RTP2 é elitista hoje. Há pouco tempo passou, numa sessão dupla, o “Amarcord” e o “Almoço de 15 de Agosto”. Quer dizer, passou estes dois filmes sem qualquer tipo de contextualização prévia. Eu parto do pressuposto que o critério era o facto de serem filmes italianos, mas uma pessoa que não tenha algum tipo de formação base ou de informação prévia, não vai fruir desses dois objectos da mesma forma que uma pessoa que tem esse conhecimento, ou seja, o critério é estipulado pelo espectador e não pelo canal, o canal não encaminha o espectador no sentido da aprendizagem, de ganhar instrumentos para descodificar os objectos que são mostrados. Tem sido exactamente o oposto. É o espectador que já tem previamente de saber. A programação não tem critério. Nós não pomos em causa a qualidade dos filmes em si, os filmes são bons.

Então existe critério, não é o vosso, mas existe…

É um critério fraco, como eu digo. Por exemplo, umas vezes passam dois filmes porque são dois filmes italianos… Quer dizer, o que é que o “Almoço de 15 de Agosto” tem a ver com o “Amarcord”? Zero. O “The Red Badge of Courage”, o que é que tem a ver com o “Mackintosh Man”? Bem, é do mesmo realizador [John Huston]… mas e depois?

O que é que a RTP pode, deve, exibir?

Pode exibir estes filmes, não tem de exibir filmes diferentes. Aliás, como dizia um colega meu até, pode exibir os filmes que a RTP Memória tem passado de vez em quando, agora passam muito menos - Cinema Clássico. Podem exibi-los. Agora, a questão é a forma como os programa e a regularidade com que os programa. Não é enxotar para o Sábado para tentar no fundo satisfazer ou calar os ditos cinéfilos, como nós, que andamos aqui a pedir cinema. Quer dizer, nós não temos de pedir nada. Basta ler.

Tal como a obrigação legal respeitante ao cinema, existem deveres equivalentes no que toca a outras áreas, como a inovação, acção social, defesa do consumidor, experimentalismo audiovisual, entre muitas…O que é que seria viável em nome de uma distribuição justa dos conteúdos? Um sistema de quotas? Há espaço para tudo?

Há, porque já houve noutros tempos. Isto acaba por ser um estímulo, e era isso que nós queríamos também no seio sociedade civil, para que depois mais manifestações deste género aconteçam. Porque eu acho que de facto o cinema não é respeitado dentro daquele canal. Nós gostávamos de o ver mais respeitado e poderia até reverter a pergunta: O que é que o “5 para a meia-noite” tem a ver com este conjunto de obrigações legais? O que é que o “5 para a meia-noite” faz neste âmbito, daquilo que é pedido num serviço público de televisão, por exemplo. Eu acho que é um formato que se adequa muito melhor a um canal como a SIC Radical. Como a cláusula 6 do contrato de concessão de serviço público bem diz: “a RTP 2 deve combater a uniformização da oferta televisiva através de programação efectivamente diversificada, alternativa, criativa e não determinada por objectivos comerciais”. A mim parece-me que está a fazer exactamente o oposto. Está a uniformizar, a passar séries que passam noutros canais. E depois passam um talk-show, à noite, que do meu ponto de vista é claramente próprio de um canal especializado e não de um canal generalista. Passa em directo e depois repetido. São mais de duas horas do tal espaço de que falavas que são consumidos.

Até há relativamente pouco tempo era exibido teatro na televisão, às tantas entendeu-se que a plataforma de exibição de uma peça não é a televisão, mas sim um sala de teatro. A televisão é um sítio bom para ver cinema?

Eu acho que sim. Eu devo imenso à televisão. A questão é que nem toda a gente tem acesso a uma cinemateca para ver um Eisenstein. Por acaso eu acho que a carência de diversidade, a tal programação alternativa aos circuitos comerciais, no caso do cinema ainda é mais problemática, parece-me. Um amigo meu dizia há pouco tempo que tem um amigo em Chaves cuja formação cinéfila foi feita graças àquela RTP2 que passava estes filmes de que estou a falar, do Eisenstein,,.entre outros. E mesmo no caso das pessoas que não têm acesso ao teatro…passem teatro! Qual é o problema? Passem teatro… têm tantas horas…O que é a RTP2 passa actualmente, agora faço esta pergunta? O que é que passa actualmente?

A televisão é um media com regras próprias, que se rege por critérios de programação específicos que eventualmente ultrapassam os motivadores desta petição. Concordas?

As normas que regem a programação da RTP 2 estão estipuladas na lei. Quem deve programar é o programador, e no caso de uma televisão pública, um programador que atente ao contrato que tem com o Estado. E aquelas que são as exigências do seu público, que neste caso é o público de cinema. Porque eu também tenho noção de que não basta ter pessoas conhecidas, muitas pessoas conhecidas. Neste momento nós precisamos é de muita gente a assinar, precisamos do público, precisamos de, no fundo, ter a sociedade civil mobilizada para isto e achamos que é a esse público que o programador deve responder. Está estipulado… nós citamos a lei fundamental, porque nós podemos ir até á lei fundamental e discutir a actual programação da RTP2.

Achas que é viável do ponto de vista económico adquirir esses produtos? Existe público que justifique esse investimento, na tua opinião?

Há público para o cinema. O cinema é um produto barato, muito mais barato do que um “5 para a meia-noite”, muito mais barato…e normalmente dá muito mais audiência. Aliás, eu lembro-me perfeitamente, na altura em que a RTP 2 estava a atravessar uma crise até de identidade, o “5 noites 5 filmes”, algumas sessões do Pasolini, estavam no topo das audiências da RTP2, à frente do telejornal e por aí fora. Mas quer dizer, ter muito público também não deve preocupar um programador da RTP2, senão mais vale privatizar. Não deve existir aqui objectivo de lucro. Estávamos mal se tivesse de ser esse o critério.

Estão dispostos a discutir essas questões com a direcção de programas da RTP2? É uma das vossas intenções?

A direcção de programas da RTP2 continua a ser a direcção de programas e não nós. Portanto, é ela que decide. Ou seja, se acharem que estas nossas reivindicações são minimamente razoáveis e justificáveis, têm toda a liberdade para fazer as alterações sem sequer nos consultar, quem dirige são eles. Eles é que têm a obrigação de fazer uma programação que se adeque minimamente ao que estão vinculados por lei. Também podem fazer contextualizações a nível teatral, de óperas e sei lá mais o quê, a questão é que, primeiro, estamos a pedir cinema. Não representamos as pessoas que pedem teatro. Nós somos do cinema e reivindicamos aquilo que sabemos. E nós conhecemos porque seguimos o cinema e a própria RTP2 tem uma história ligada ao cinema, ligada à formação cinéfila, é uma espécie de cineclube de todos nós, e acabou por deixar de desempenhar esse papel.



Para acompanhar esta causa,
está disponível :

Um blogue acerca da Petição (onde saudavelmente se descrevem propostas de programação que têm faltado à RTP2)
Uma página no Facebook
JOÃO LOPES: A televisão e os Horários que não temos
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Chelsea Girls, 1966


The Searchers, 1956




PEDRO COSTA: It's a shame that young people, don't see the films. It would be amazing to see Chelsea Girls and then John Ford's The Searchers. They're about the same thing.


Pedro Costa on the Secrets of Warhol
By Eugene Kotlyarenko 03/30/2010, Interview Magazine


Obrigada ao José Oliveira!
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Chorok mulkogi
CHANG-DONG LEE (1997)










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JLG / JLG (autoportrait de décembre) (1994)






Citizen Kane (Orson Welles, 1941)






Young Mister Lincoln (John Ford, 1939)





Fotografias de Robert Walser em "Branca de Neve" (João César Monteiro, 2000)






What is he building in there?
Tom Waits
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