terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cada macaco no seu galho? Porquê?

Numa era dominada por discursos de ''empreendedorismo'' e ''especialização'', parece não haver espaço para pessoas multifacetadas. É a lógica do mercado aplicada às relações humanas: as pessoas são, umas pelas outras, agrupadas numa gaveta consoante a sua profissão e desconfia-se dos que fazem várias coisas diferentes ao mesmo tempo, carimbando sobre eles o selo da desconcentração ou da impreparação específica. Cientificamente, isto contradiz toda a lógica: neurologicamente, se uma pessoa é particularmente boa a fazer uma dada coisa, é natural que seja igualmente boa a fazer várias coisas relacionadas. Tem, sucintamente, a ver com padrões de utilização das zonas do cérebro. Eis Brian May, guitarrista dos Queen e astrofísico da Nasa.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

autor - amor


« No começo, pensei que era possível a um diretor, imbuído de uma sinceridade juvenil, transmitir isso diretamente. Minhas buscas eram antes de tudo de ordem plástica. O cenário, as oposições dos valores, a harmonia dos movimentos dos atores, achava que isso permitiria a criação de um pequeno universo suficientemente interessante. Logo percebi que dessa maneira só poderia produzir obras bastante frias. As grandes artes, como a filosofia, pintura, música, arquitetura ou poesia, permitem ao autor uma comunicação direta com o público. O autor de filmes dramáticos, como o romancista, deve utilizar a intermediação dos personagens. Só se concedendo a esses personagens uma personalidade autêntica é que se pode fazer com que esses filmes se tornem uma forma de expressão de nossa pobre humanidade; só assim o autor pode tentar, através da descrição sincera dessas almas, deixar transparecer um pouco de seu próprio sentimento. »


Jean Renoir, Como Animo Meus Personagens, Pour Vous, n° 242, 6.7.1933. Republicado em Escritos Sobre Cinema, Pierre Belfond, 1974



via Bruno Andrade

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Carta de Raoul Walsh a Gloria Swanson:


My dear Gloria, 

My trip for the festival was worthwhile, just to see you again. My quip I made at the luncheon about you finding the fountain of youth is all too true. 

Your lips, your eyes, your hair have been with me for these many years. To me, I can see my lovely Gloria. I will always remember her as a new phenomenon like some April evening, the downy breast of spring. She was like a rippling brook, singing among willows where kingfishers skim. 

But now, the sun is going to rest. I can hear the wild ducks flying overhead, and the mountains were drawing themselves off to sleep, and at night fall would be the singing of the crickets. Somewhere, a Mexican is playing a guitar, and somewhere else a dog barked into the stillness of the night. A queer, eerie sound. 

Goodnight, my dear one.

ME AND MY GAL / Raoul Walsh


Na obra de Raoul Walsh o filme Me and My Gal não parece ocupar um lugar proeminente. Diga-se desde já que não estamos face a um dos grandes «Walshs», nem sequer diante de uma das «redescobertas» da «misteriosa» década de 30 (ao contrário de um Sailor’s Luck ou um Under Pressure, para falarmos dos inéditos, para os quais chamamos já a atenção dos cinéfilos, sem esquecer o fabuloso Going Hollywood, e isto só para nos ficarmos pela primeira metade dessa década). E, contudo, o filme não deixa de ter muitos dos ingredientes de uma boa história de Walsh, em particular na relação dos dois pares (Tracy-Bennett e George Walsh-Marion Burns) e no personagem do velho paralítico (um Henry B. Walthall, bem conhecido de Walsh desde os seus tempos com D.W. Griffith) que nos faz pensar no Bill Travers de High Sierra ou no Henry Hull de Colorado Territory. Inclusivé numa certa forma mais chã de romantismo (que lembra, por momentos, um The Man I Love, com o acontecia, mas um nível muito diferente, com o belíssimo The Man Who Came Back). Mas há também alguns momentos dramáticos onde a mão de Walsh se faz sentir em grande: as sequências do assalto e do confronto Danny Dolan (Spencer Tracy) com Duke Casteneda (George Walsh) no final.

Se o filme nos parece um pouco aquém de outras obras de Walsh é porque se trata de um trabalho de encomenda. Na verdade Me and My Gal, cujo argumento se inspira em parte num episódio de um velho filme mudo da Fox, While New York Sleeps, teve vários realizadores apontados antes do início da rodagem, e que foram William K. Howard, Alfred Werker e Marcel Varnel. Walsh entrou praticamente no começo das filmagens que «despachou» em 19 dias (a fama de «movie doctor» que o levaria a ser solicitado frequentemente pelo estúdio em que trabalhava para «tratar» de rodagens em dificuldades, consolidava-se com este e outros trabalhos da década de 30). Mas apesar de se tratar de um realizador de «recurso», Walsh deixou bem a sua marca (como deixou em todos os que fez e os que «ajudou», mesmo os menos conseguidos), em particular na forma como explora o humor truculento e «brigão» que o caracteriza, e situações cujo excesso e (ou) exagero expõem a sua faceta grotesca. Neste último caso aspecto destaca-se o personagem do bêbedo, interpretado por Will Stanton que serve de «intermédio» burlesco na sequência do cais, e que se tornou muito popular (a imprensa da época destacou, particularmente a sua composição, mesmo que hoje nos aparece algo cabotina na excessiva movimentação do personagem) e Walsh iria usar de novo no seu filme seguinte, o irresistível Sailor’s Luck, em papel semelhante, mas com  características diferentes a que nos referiremos na folha deste filme que veremos amanhã. O «ballet» grotesco de Stanton é a nota humorística habitual dos filmes de «duplas» de Walsh com que então se identificava o realizador. 

Outra característica do realizador é a referência mais ou menos paródica ao seu tempo e com o próprio cinema. Se ele não foi um «inovador» formal no mesmo sentido em que o foram, no começo do sonoro, um Mamoulian ou um Cukor, ele acompanhou essas transformações, ora adoptando-as, ora ironizando com elas. É este o caso de Me and My Gal onde uma inteira cena é dedicada a parodiar uma forma de «linguagem» recentemente introduzida no cinema, particularmente por Rouben Mamoulian (em City Streets/Ruas da Cidade, feito no ano anterior a Me and My Gal): a voz off que «exprime» ou a consciência ou os pensamentos dos personagens. Danny, num encontro com Helen, refere um filme que viu recentemente, e a que chama, «Strange Inner Tube or something». A fita em questão é Strange Interlude, de Robert Z. Leonard, com Norma Shearer e Clark Gable, que a MGM produzira nesse ano e onde aplica o referido processo. Logo a seguir, em tom de paródia, Walsh põe em consonância o diálogo ao vivo e os «pensamentos» da dupla. Esta atenção à actualidade não se faz apenas com a paródia, vai, inclusivé marcar a parte dramática, pois o assalto, tal como é exposto parece ter-se inspirado num assalto que tivera lugar pouco antes
e que um jornal do tempo, destacou para criticar o filme. Note-se que estamos (em 1932) na fase pré-código e só a partir de 1934 ficará proibida em Hollywood a exposição de métodos de assaltos. Aliás talvez tenha sido isto que impediu a sua exibição entre nós, onde a censura já estava bem activa velando pela «moral» e «bons costumes». Mas o método (assalto à dependência bancária a partir do andar superior) voltaria ao cinema no fabuloso Du Rififi Chez les Hommes, de Jules Dassin, de 1955, que por cá se estreou com bastante atraso e, logo para dar razão à censura (!), serviu de inspiração a um assalto a uma ourivesaria lisboeta! 

Se esta sequência, pela forma rápida de execução e a montagem que expurga tudo o que não interessa concentrando-se no essencial, é eminentemente walshiana, o mesmo acontece com o final, e inclusivé pela forma como lá se chega. Sarge (Walthall) sabe que Casteneda está escondido no sotão da sua casa, ali colocado pela sua filha, irmã de Helen, com quem Casteneda tivera uma ligação. Completamente paralisado nada pode dizer, pois comunica com os outros através de piscadelas dos olhos. É deste modo que ele vai «denunciar» o esconderijo usando os sinais de morse. Não podemos deixar de pensar na passado de Walsh e no seu trabalho com Griffith. Recorde-se um dos mais famosos «two reels» de Griffith, The Lonedale Operator, que usa o morse para alertar do perigo. Fazer o actor griffithiano usar aquele sistema (estando «mudo» como os filmes daquele tempo) não deixa de ser uma singela e curiosa homenagem ao mestre). Se este filme não é dos mais importantes de Walsh, reserva, apesar disso, um bom número de surpresas e de grandes momentos, que justificam a atenção do cinéfilo.

Me and My Gal foi uma produção da Fox para impor as suas novas vedetas que ainda não tinham conquistado os favores do público. Apesar de Tracy ter gostado muito do argumento e insistido em fazer o filme, este não fez muito por ele. Só no ano seguinte Tracy alcançaria o estrelato com 20.000 Years in Sing Sing/20.000 Anos em Sing Sing de Michael Curtiz. Quanto a Joan Bennet, mais anos iriam passar e foi preciso tornar-se morena para finalmente se impor como vedeta.


Manuel Cintra Ferreira

sábado, 14 de agosto de 2010

(IN)FORMAÇÃO Superar o tempo :


: ESGOTAMENTO.






: O DIREITO E A VONTADE DE SABER.
FOOD.INC, de Robert KannerOBSOLESCENCIA PROGRAMADA, de Cosima Dannoritzer.The power to connect the world, de Hector RuizINSIDE JOB, de Charles Ferguson (2010)Do Schools Kill Creativity? de Sir Fergus RobinsonTempo de antena PAN, de Paulo Borges



: CRISE NA CULTURA!

"Numa altura em que os países todos compreendem que as culturas são as janelas fundamentais da sua apresentação ao mundo, a perda do ministério da Cultura parece-me francamente grave"
Lídia Jorge


"...Quando, como na Europa actual, toda a actividade humana parece estar reduzida a debates contabilísticos e os dogmas da economia ameaçam reger todas as políticas de todos os países, é fulcral que a cultura apareça no seu mais elevado grau de importância e de representação. (...) Objectivamente, a "marca" Portugal hoje "vende" pouco e mal. As razões são sobejamente conhecidas. Há contudo uma área em que a criação feita em Portugal "vende" de uma forma particularmente positiva. Não tendo grandes monumentos nacionais que compitam com muitas maravilhas monumentais europeias, Portugal tem porém obras singulares na arquitectura e na escultura que constituem uma herança de que é preciso cuidar. Por outro lado, na criação contemporânea há áreas com impacto, reconhecimento internacional e prestígio que constituem receita para o país. Isso é um facto na arquitectura, no cinema, na música popular e no fado, no "software", na literatura, no pensamento. Sabemos desta singularidade da criação portuguesa e do seu impacto à escala mundial: dos filmes de Pedro Costa apresentados numa tournée nos EUA, de "O meu querido mês de Agosto" de Miguel Gomes, que fez programadores e críticos deslocarem-se a Lisboa para verem o filme, da coreógrafa Vera Mantero que é hoje uma autora de culto e muitos, muitos mais. Ora, a difusão destas actividades precisa de ser facilitada, estimulada, dignificada; e isto só é possível se houver um Ministério com esta missão..."

ANTÓNIO PINTO RIBEIRO, in "O Ministério dos Assuntos Culturais", in Ípsilon, 28.5.11



"Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas 
privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação

do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a
todos."
José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148



: + CULTURA + UNIVERSALIDADE + DESENVOLVIMENTO:

Por um patriotismo trans-patriótico e universalista. Oito considerações para um Outro Portugal
por PAULO BORGES in blog Um Outro Portugal


1. A milenar tradição contemplativa e meditativa (transversal às diferentes religiões e espiritualidades, também laicas) e os progressos contemporâneos da microfísica e das neurociências (que hoje se aproximam numa convergência histórica, como nas experiências realizadas no MIT, em Massachusetts, e nos encontros anuais Mind and Life) parecem indicar não ser possível encontrar, quer na constituição da chamada matéria, quer na da chamada mente, ou seja, nisso cujo conjunto designamos por realidade, uma mínima entidade que exista em si e por si e que permaneça idêntica a si mesma, ou seja, que tenha características próprias. Todas as dimensões da chamada realidade parecem obedecer assim a duas leis fundamentais, a de interdependência e a de impermanência, que se resumem na sua ausência de características ou qualidades intrínsecas. Como se pode constatar na mínima experiência perceptiva e como a observação científica confirma, sujeito e objecto constituem-se mutuamente e interagem num dinamismo e numa metamorfose constantes, como meros fenómenos recíprocos, sem essência própria. O conceito de identidade parece ser assim uma abstracção desadequada para expressar o real, sem outro fundamento senão o de ser uma ficção convencional e funcional, que serve o reproduzir de uma tradição fortemente entranhada nos hábitos culturais, psicológicos e sociais do senso comum humano.

2. O conceito de identidade nasce, como o seu correlato, o de alteridade, de uma experiência ingénua e irreflectida, na qual, devido a tendências e hábitos inconscientes, o sujeito se crê distinto do objecto, o eu do não-eu, o mesmo do outro, o idêntico do diferente, ao mesmo tempo que esses termos da experiência se crêem reais e existentes em si e por si, com características e qualidades próprias, positivas, negativas ou neutras, que nunca são mais do que projecção da percepção inconscientemente condicionada. Este estado, que se pode chamar de ignorância dualista, origina três tendências da experiência mental-emocional na relação sujeito-objecto: 1 – o fascínio e o desejo-apego, caso o objecto seja percepcionado como atraente e positivo; 2 – o medo e a aversão, caso o objecto seja percepcionado como repulsivo e negativo; 3 – a indiferença, caso o objecto seja percepcionado como neutro. Qualquer destas experiências resulta em conflito e sofrimento, primeiro interno e depois externo, indissociável de uma extrema vulnerabilidade perante todas as vicissitudes da vida, pois a mente dominada pelo apego e pela aversão não pode assegurar de modo algum a posse do que deseja nem a exclusão do que rejeita, devido à lei da impermanência e metamorfose constantes de tudo, sujeitando-se assim constantemente à carência do que deseja ou ao medo de o perder, bem como à ameaça do que rejeita ou ao medo de o não evitar. Por outro lado, a indiferença é uma falsa alternativa, que apenas gera a experiência de solidão, de entorpecimento mental e despotenciamento vital.
Da ignorância dualista e da combinação das três tendências referidas resultam as pulsões emocionais inerentes a todos os actos e omissões, mentais, verbais e físicos, que as tradições ético-espirituais, teístas ou não-teístas, religiosas ou laicas, designam como actos negativos, faltas, pecados ou toxinas mentais, como hoje alguns preferem: desejo possessivo, ódio e cólera, inveja e ciúme, orgulho e arrogância, avidez e avareza, torpor mental e tristeza, entre muitas outras. Em qualquer dos casos, antes de lesarem os outros, estas pulsões lesam a mente do próprio sujeito a partir do primeiro instante em que nela surgem, distorcendo a percepção da realidade, gerando ignorância, insensibilidade e tormento interior e desarmonizando a circulação da energia vital, o que tem também efeitos somáticos e predispõe o organismo para todo o tipo de doenças. Por isso são objectivamente negativas, independentemente de qualquer doutrina moral ou revelação religiosa.

3. Um olhar desapaixonado e realista sobre o processo e a história da civilização humana, desde os seus primórdios até hoje, não pode deixar de constatar que tudo – a organização social, a ciência, a técnica, a política, a economia, a cultura, a educação e a religião - tem sido predominantemente movido pela ignorância dualista, o apego, a aversão e a indiferença, bem como por todas as suas combinações possíveis, com o resultado evidente, em termos gerais, de a humanidade até hoje sempre ter obtido precisamente o que mais rejeita, o sofrimento, e sempre haver falhado aquilo a que mais aspira, a felicidade: prova evidente de que o desejo-apego e a aversão resultam precisamente no contrário do que buscam. As únicas excepções a esta monumental ilusão e a este grandioso fracasso histórico colectivo, habitualmente camuflado com os nomes de “progresso”, “evolução”, “desenvolvimento”, etc., são os seres que despertam e se libertam da ignorância dualista e das suas consequências mentais e emocionais: aqueles que as várias tradições designam como sábios, santos, etc., e que são considerados mestres espirituais quando à libertação individual acrescentam o amor e a compaixão de continuarem a agir, interior e exteriormente, para o bem e a libertação dos outros.

4. Aplicada à questão das sociedades, das culturas, das nações e das pátrias, esta visão constata que nenhuma delas existe em si e por si, com uma identidade e características permanentes e irredutivelmente próprias. Todas, pelo contrário, apesar de apresentarem complexas singularidades em devir, nascem, vivem e morrem ou metamorfoseiam-se de acordo com as leis fundamentais de interdependência e impermanência que abrangem todas as dimensões do real. Com efeito, quem pode, por exemplo, pensar o que é Portugal separando a sua história e cultura das de todos (ou quase) os povos europeus, africanos, sul-americanos e orientais, sem rejeitar que no plano da língua e da mesma história e cultura existem afinidades mais imediatas com as nações lusófonas? O conceito de identidade nacional é pois, tal como o de identidade pessoal - sobretudo se pensado de forma essencialista ou substancialista, como algo que em si e por si pré-exista ou exista fora de um devir interdependente com todas as formas de alteridade - , uma mera abstracção que em última instância apenas funciona na lógica da ignorância dualista que predomina na mente humana.

5. Tal como acontece quando se extrema a bipolarização eu-outro, o extremar da suposta identidade cultural ou nacional como uma essência única, permanente e independente das demais, conduz as mentes ao nacionalismo ou ao patriotismo ensimesmado que potenciam essa ignorância dualista e esses complexos de apego ao que parece ser próprio e de indiferença ou aversão ao que parece ser alheio, o que já vimos serem as causas fundamentais de insensibilidade, sofrimento e conflito para quem por elas se deixa dominar e para quem lhe sofre as acções daí decorrentes. O nacionalismo ou patriotismo comum, levando a amar a sua cultura, nação ou pátria acima das demais, é pois injustificável e condenável em termos espirituais, sapienciais e éticos, sendo incompatível com qualquer projecto de emancipação da consciência e de serviço do bem comum a todos os homens e a todos os seres.

6. Há todavia a possibilidade de se conceber e praticar uma outra forma, não de nacionalismo, mas de patriotismo, o patriotismo trans-patriótico e universalista, que, sem se desenraizar da realidade mais concreta e imediata num transnacionalismo ou universalismo vazio e abstracto, apenas preze, cultive e promova, numa determinada tradição histórico-cultural e numa determinada nação ou pátria, aquilo que na sua singularidade houver de melhor, ou seja, a sua aspiração ao e contributo para o bem comum universal, não só dos homens, mas de todos os seres. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que em última instância aspira a orientar as energias ético-espirituais, culturais e sócio-político-económicas de uma dada nação ou pátria para que se superem tanto quanto possível as fronteiras e barreiras, primeiro mentais e afectivas, e depois institucionais e territoriais, entre todos os povos e culturas, de modo a que a comunidade humana possa expressar o mais possível, sem prejuízo das diferenças inerentes à sua constituição plural e complexa, a natureza e as leis fundamentais da própria realidade: ausência de id-entidades substanciais com características intrínsecas, interdependência, impermanência. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que aspira a converter muros em pontes e a romper o círculo vicioso e infernal em que tem decorrido e decorre a história da civilização humana, devolvendo a humanidade e o mundo ao Paraíso – ou seja, à paz, sabedoria e liberdade primordial - que no seu íntimo encobrem. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o único que está de acordo com a milenar tradição sapiencial da humanidade e com a ciência contemporânea, convergindo para a verdadeira evolução que é a da consciência e para o verdadeiro progresso e des-envolvimento que é o ético-espiritual, entendendo por tal o despertar da dualidade que permita ver e sentir o outro como a si mesmo e assim contribuir para a emancipação mental, cultural, social, política e económica de todos os homens, bem como para o respeito da harmonia ecológica e do direito à vida e ao bem-estar de todos os seres sencientes.

7. Este patriotismo trans-patriótico e universalista é o que encontro no melhor da ideia de Portugal e da comunidade lusófona que – depurada do lastro de muitos condicionantes - interpreto em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para apenas referir os mais destacados. Foi ele, embora ainda informulado e sem a fundamentação aqui apresentada, que inspirou o Manifesto da Nova Águia e a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL – Movimento Internacional Lusófono. Foi o desvio desta amplitude de desígnios e a sua redução ao que interpreto como um mero neonacionalismo lusófono que me levou a demitir-me de presidente deste último movimento e a redigir o Manifesto “Refundar Portugal” (umoutroportugal.blogspot.com). É apenas à luz do patriotismo trans-patriótico e universalista, como projecto fundamentalmente ético-espiritual e só a partir daí cultural, cívico, social, político e económico, que considero possível uma mudança fundamental nos rumos sombrios do actual fim de ciclo civilizacional. Não parece haver possibilidade de real transformação do mundo que não se enraíze primeiro numa profunda transformação da mente que o percepciona. A grande Revolução presente e futura, cada vez mais emergente em todo o planeta, é a união inseparável dessa transformação mental – a que alguns chamam “meditação” - e de todas as esferas da actividade humana, incluindo a económica e a política. Quando digo “transformação mental” refiro-me ao simples treino da mente para ver as coisas como são, transcendendo a dualidade, os conceitos e os juízos, o apego e a aversão, o medo e a expectativa, o passado, o presente e o futuro, na experiência do aqui e agora de cada instante, iluminada pelo amor e pela compaixão. Nada de necessariamente religioso, místico, esotérico ou exótico e que não vem do Oriente porque a mais profunda cultura ocidental, clássica ou cristã, sempre o conheceu. É a redescoberta disso, mais do que qualquer ideologia laica ou religiosa, a grande novidade que cresce hoje como bola de neve em todo o mundo.

8. Exorto a que divulguem, discutam e enviem sugestões para aperfeiçoar o Manifesto “Refundar Portugal”, de modo a que possamos praticar estas ideias e trazer desde já para a nossa vida quotidiana essa diferença que consideramos essencial para o mundo: abertura, clareza e paz da mente e do coração, capacidade de diálogo e compreensão, amor aos homens e aos seres vivos - para além das diferenças de nação, língua, etnia, cultura, religião, ideologia e espécie - , promoção e pedagogia dos valores mais benignos e universais das culturas lusófonas em diálogo com os de todas as culturas planetárias, intervenção cívica, cultural e social que afirme estes valores na esfera pública, política e económica.



: ELEIÇÕES 5 DE JUNHO - PAN .



Partido pelos Animais e pela Natureza



" Pretende-se que a cultura, fundada na compreensão das leis que regem os fenómenos e a vida no seu dinamismo e metamorfose cíclicos, seja a actividade pela qual se potencia toda a fecundidade da terra, da natureza e da mente, respeitando-as, cuidando-as e recolhendo os seus frutos, no reconhecimento do seu valor intrínseco (por vezes sagrado), sem a violência de as reduzir a um mero instrumento. A afinidade original entre cultura e agricultura sugere que numa e noutra se colhe o que se semeia, o que na cultura se aplica não só à relação dos humanos com a terra, mas também com a natureza em geral, com os seres vivos, humanos e não-humanos, e consigo mesmo. Em função da cultura que praticar, com ou sem cuidado e respeito pela terra, pela natureza, pela vida e pela mente, assim os humanos colherão (de colere) frutos sãos ou doentes, assim a espécie humana terá uma terra, uma natureza, uma vida e uma mente sãs ou doentes. Não é uma cultura do cuidado e do respeito que tem predominado no presente (fim de) ciclo civilizacional, ao longo do qual a cultura humana, esquecendo as suas origens cósmicas e naturais e a sua radicação no comportamento dos próprios animais, cada vez mais valorizou a sua concepção como processo de separação entre a humani- dade, a natureza e os seres vivos. A mente humana e os poderes dominantes objectivam a natureza e os seres vivos, humanos e não-humanos, como exteriores a si e conside- ramnos como recursos a explorar, dominando-os, domesticando-os e instrumentalizando-os para fins antropocêntricos, especistas e egoístas, que lhes negam qualquer valor intrínseco e os privam de consideração ética.
Isto aconteceu sobretudo a partir da revolução mecanicista do século XVII e da primeira e segunda Revolução Industrial, crendo-se estar em curso o progresso histórico e linear da humanidade em direcção ao paraíso terrestre da abundância económica e do domínio científico-tecnológico sobre a natureza e a vida. A ilusão e as consequências desta perspectiva, agravadas pela explosão demográfica, pelo aumento do potencial tec- nológico e por um paradigma de crescimento económico, produtivista, consumista, libe- ral ou (dito) socialista, são hoje tragicamente visíveis em todo o planeta: na poluição e esgotamento dos recursos naturais, nas alterações climáticas, na destruição da biodiver- sidade, na exploração e massacre dos seres vivos, humanos e não-humanos, e na degradação da qualidade de vida social, física e mental da humanidade. Esquecendo, na sua arrogância, ser inseparável da terra, da natureza e dos seres vivos – relaciona-se o latino homo (homem) com humus (solo, terra), de onde deriva “humildade” –, pervertendo o sentido originário da cultura – cultura de integração harmoniosa no mundo e não de de- sintegração violenta –, o humano recolhe (colere) não os frutos salutares do cultivo amoroso da terra e da mente, mas os efeitos destrutivos da sua própria violência, que hoje e a curto prazo põe em perigo a própria vida de largas camadas da população humana."

Excertos do Programa do PAN




"O novo paradigma reside em ver a realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da realidade e da vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se presumir dono tirânico do mundo, assume-se responsável pelo equilíbrio ecológico, por respeitar o valor intrínseco da natureza e por preservar o direito de todos os seres sencientes à vida e ao bem-estar. A humanidade deve reaprender a viver de acordo com as leis fundamentais da natureza e da vida, nos domínios da saúde, da alimentação, da habitação, da educação e da vida espiritual, social, económica e política."

"1) A Cultura e a Educação devem ser áreas privilegiadas pelo Orçamento do Estado, como decisivas para o presente e futuro da Nação, em detrimento de gastos sobre- dimensionados e desnecessários com as Forças Armadas e com obras públicas que visem não o bem comum, mas apenas interesses particulares e a ostentação e pro- paganda dos governos.
2) Promoção da Cultura como um dos factores fundamentais da formação dos cidadãos e em todos os seus aspectos: não só tecnológica, mas também filosófica, científica, literária e artística. As desvantagens da especialização excessiva devem ser compensadas com a promoção da interdisciplinaridade.
3) Investimento na promoção de uma cultura de valores fundamentais da humanidade, como a paz, a não-violência e o respeito pelo outro, extensivos não só aos homens, mas também aos animais e à natureza. Disso depende um aumento da consciência cívica e uma melhoria da sociedade humana."

Excerto do Programa do PAN


Intervenções no debate televisivo da RTP1 com os partidos sem assento parlamentar, durante a campanha eleitoral das legislativas de 2011 - 2ª parte.




: VOX POPULI

"Todas as pessoas que votam no Sócrates por medo da alternativa desistiram de sonhar, de viver e ilibaram-se de ser pessoas portuguesas. Na minha arrogante opinião."
Carlos Martins (vocalista d' A Caruma)

"Para o povo estar ciente de uma boa escolha é preciso estar bem-informado. Para estar bem informado é preciso que haja uma cultura de informação isenta, e de reforço das novas políticas e ideias, de novos partidos e filosofias de vida. As informações são para todos os partidos e não só para alguns."
Rui Rodrigues (porta-voz do PAN)

"Não querer é poder."
Filipe Homem Fonseca

"A minha pátria é a língua portuguesa. Eu diria antes, a língua portuguesa é a minha pátria."
Ondjaki

"Creio profundamente que os seres humanos são fundamentalmente amáveis por natureza e sinto que devemos não apenas manter relações gentis e pacíficas com os nossos companheiros seres humanos, mas ser também muito importante estender o mesmo tipo de atitude ao meio ambiente e aos animais que vivem naturalmente em harmonia com ele. "
SS Dalai Lama

"Since we have so little time left for survival, it is strange that we have not understood that there is a limit to which we can kill every other species without killing ourselves. This has been evident for centuries: the increase in meat eating, the artificial increase in animals grown for eating, the destruction of the oceans and their inhabitants, the dreadful use of animals to create jobs for “scientists” resulting in false medical data which actually blocks true medical solutions , the destruction of green cover for “ development” - which is another way of inventing projects to keep contractors happy and the killing of animals in the wild as sport , the use of animal parts for “ fashion” ... Can one say that the human has achieved anything after all this suffering except the increase of cancers and other diseases , the increase in unhappiness, the increase in violence towards each other and the rapid hurtling towards the end of the world for all."
Maneka Anand Gandhi


"...Um tribunal que decide que as televisões devem, para garantir a igualdade, organizar 136 debates ou está a brincar ou pensa que a melhor forma de defender a democracia é acabar com debates políticos na televisão. Com esta decisão, é isso que acontecerá daqui para frente. Todos igualmente invisíveis. Ficaremos com as arruadas e os tempos de antena.
Dir-me-ão: mas é assim mesmo que as coisas são. A justiça tem de ser cega e, já agora, idiota..."
o discurso anti-representativo de Daniel Oliveira (Ex-BE)








sábado, 7 de agosto de 2010

ARCADE FIRE

: we used to wait




O novo vídeo dos Arcade Fire, para o tema "The Wilderness Downtown", foi necessariamente, um dos mais impressionantes objectos multimédia que me chegaram nos últimos tempos. O videoclip interactivo, que tira partido das possibilidades do HTML5, é um prodigioso fruto da inventividade do realizador Chris Milk.

para perceber o projecto,
não há como experiência-lo em

http://thewildernessdowntown.com/

Sense.




- Sometimes, I think that nothing is ever gonna make sense again.
- Maybe life is not supposed to make sense.
- Doesn't that scare you?
- Yes, it does.


Man in the Moon (1991), Robert Mulligan

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

: Sobre "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives"




ENTREVISTA COM
Apichatpong Weerasethakul & Wallapa Mongkolprasert


em Independencia.fr

parte 1 + parte 2

domingo, 1 de agosto de 2010

Contemporâneo é o dever de conceder ao lixo o direito à plena existência.


Trash Humpers, Harmony Korine, 2009

 Trash Humpers de Korine é o mais radical dos manifestos sobre o filho esquecido do progresso: o lixo. O lixo é a matéria da ideologia, como lembra Zizek. Existe, concreta e palpavelmente, mas não há vontade mais acerrimamente partilhada do que ignorá-lo. Nada há de mais mundano, mais real e mais incómodo. Apesar da sua existência puramente material, é o alvo colectivo do maior desprezo possível.
Estes ''Trash Humpers'', humanóides violadores, não só não o ignoram como o objectificam a um extremo erótico. Nunca o lixo existiu tão concretamente como aqui.  
De facto, talvez não haja nada de mais contemporâneo do que reflectir sobre o lixo, a mais factual das consequências da experiência humana. Um dos mais contemporâneos deveres é o de conceder ao lixo o direito à plena existência. Como escrevia Zizek a propósito da sanita de Psycho (Psico, 1960): “a merda continua a ser um excesso que não se encaixa na nossa realidade, e Lacan tinha razão quando afirmou que passamos de animal a humano a partir do momento em que o animal fica sem saber o que fazer com os seus excrementos, quando estes se tornam um excesso que o incomoda”. Há aí urgência, para uma responsabilização plena do humano pelo seu próprio existir.

* é claro que aproveito para particularizar esta postura em defesa de uma causa muito minha - o direito do cinema trash à plena existênciahttp://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/news/enjoyment-of-trash-films-linked-to-high-intelligence-study-finds-a7171436.html


* e recomendo um pequeno texto indispensável do Carlos Natálio sobre ''A Política das Tripas'', a partir de Rabid (de Cronenberg) :
Imagem poderosa esta do fim de "Rabid" (1977) de David Cronenberg. Marilyn Chambers, actriz porno a quem lhe cresce uma pila na axila (sim, rima), jogada ao lixo. Corpo descartado, fim possível de uma epidemia que vive do sangue e da contaminação. Os primeiros filmes do canadiano, que têm premissas com maior longevidade do que as personagens que as carregam (cinema abstracto sobre tripas, sobre a política das tripas), têm em comum esta transformação do papel da sexualidade. Mentes que varrem corpos, corpos que produzem carne ao ritmo da sua ira, contaminações e experiências que alteram o papel da penetração, da maternidade, do solitário pensamento obsceno. O corpo da antiga sexualidade, uma sexualidade que se vendia, desejava, despojada e sem pudor é recolhida às terças. O domingo talvez seja o dia do papelão, mas a reciclagem começava aqui.