Numa era dominada por discursos de ''empreendedorismo'' e ''especialização'', parece não haver espaço para pessoas multifacetadas. É a lógica do mercado aplicada às relações humanas: as pessoas são, umas pelas outras, agrupadas numa gaveta consoante a sua profissão e desconfia-se dos que fazem várias coisas diferentes ao mesmo tempo, carimbando sobre eles o selo da desconcentração ou da impreparação específica. Cientificamente, isto contradiz toda a lógica: neurologicamente, se uma pessoa é particularmente boa a fazer uma dada coisa, é natural que seja igualmente boa a fazer várias coisas relacionadas. Tem, sucintamente, a ver com padrões de utilização das zonas do cérebro. Eis Brian May, guitarrista dos Queen e astrofísico da Nasa.


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« No começo, pensei que era possível a um diretor, imbuído de uma sinceridade juvenil, transmitir isso diretamente. Minhas buscas eram antes de tudo de ordem plástica. O cenário, as oposições dos valores, a harmonia dos movimentos dos atores, achava que isso permitiria a criação de um pequeno universo suficientemente interessante. Logo percebi que dessa maneira só poderia produzir obras bastante frias. As grandes artes, como a filosofia, pintura, música, arquitetura ou poesia, permitem ao autor uma comunicação direta com o público. O autor de filmes dramáticos, como o romancista, deve utilizar a intermediação dos personagens. Só se concedendo a esses personagens uma personalidade autêntica é que se pode fazer com que esses filmes se tornem uma forma de expressão de nossa pobre humanidade; só assim o autor pode tentar, através da descrição sincera dessas almas, deixar transparecer um pouco de seu próprio sentimento. »


Jean Renoir, Como Animo Meus Personagens, Pour Vous, n° 242, 6.7.1933. Republicado em Escritos Sobre Cinema, Pierre Belfond, 1974



via Bruno Andrade
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My dear Gloria, 

My trip for the festival was worthwhile, just to see you again. My quip I made at the luncheon about you finding the fountain of youth is all too true. 

Your lips, your eyes, your hair have been with me for these many years. To me, I can see my lovely Gloria. I will always remember her as a new phenomenon like some April evening, the downy breast of spring. She was like a rippling brook, singing among willows where kingfishers skim. 

But now, the sun is going to rest. I can hear the wild ducks flying overhead, and the mountains were drawing themselves off to sleep, and at night fall would be the singing of the crickets. Somewhere, a Mexican is playing a guitar, and somewhere else a dog barked into the stillness of the night. A queer, eerie sound. 

Goodnight, my dear one.
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Na obra de Raoul Walsh o filme Me and My Gal não parece ocupar um lugar proeminente. Diga-se desde já que não estamos face a um dos grandes «Walshs», nem sequer diante de uma das «redescobertas» da «misteriosa» década de 30 (ao contrário de um Sailor’s Luck ou um Under Pressure, para falarmos dos inéditos, para os quais chamamos já a atenção dos cinéfilos, sem esquecer o fabuloso Going Hollywood, e isto só para nos ficarmos pela primeira metade dessa década). E, contudo, o filme não deixa de ter muitos dos ingredientes de uma boa história de Walsh, em particular na relação dos dois pares (Tracy-Bennett e George Walsh-Marion Burns) e no personagem do velho paralítico (um Henry B. Walthall, bem conhecido de Walsh desde os seus tempos com D.W. Griffith) que nos faz pensar no Bill Travers de High Sierra ou no Henry Hull de Colorado Territory. Inclusivé numa certa forma mais chã de romantismo (que lembra, por momentos, um The Man I Love, com o acontecia, mas um nível muito diferente, com o belíssimo The Man Who Came Back). Mas há também alguns momentos dramáticos onde a mão de Walsh se faz sentir em grande: as sequências do assalto e do confronto Danny Dolan (Spencer Tracy) com Duke Casteneda (George Walsh) no final.

Se o filme nos parece um pouco aquém de outras obras de Walsh é porque se trata de um trabalho de encomenda. Na verdade Me and My Gal, cujo argumento se inspira em parte num episódio de um velho filme mudo da Fox, While New York Sleeps, teve vários realizadores apontados antes do início da rodagem, e que foram William K. Howard, Alfred Werker e Marcel Varnel. Walsh entrou praticamente no começo das filmagens que «despachou» em 19 dias (a fama de «movie doctor» que o levaria a ser solicitado frequentemente pelo estúdio em que trabalhava para «tratar» de rodagens em dificuldades, consolidava-se com este e outros trabalhos da década de 30). Mas apesar de se tratar de um realizador de «recurso», Walsh deixou bem a sua marca (como deixou em todos os que fez e os que «ajudou», mesmo os menos conseguidos), em particular na forma como explora o humor truculento e «brigão» que o caracteriza, e situações cujo excesso e (ou) exagero expõem a sua faceta grotesca. Neste último caso aspecto destaca-se o personagem do bêbedo, interpretado por Will Stanton que serve de «intermédio» burlesco na sequência do cais, e que se tornou muito popular (a imprensa da época destacou, particularmente a sua composição, mesmo que hoje nos aparece algo cabotina na excessiva movimentação do personagem) e Walsh iria usar de novo no seu filme seguinte, o irresistível Sailor’s Luck, em papel semelhante, mas com  características diferentes a que nos referiremos na folha deste filme que veremos amanhã. O «ballet» grotesco de Stanton é a nota humorística habitual dos filmes de «duplas» de Walsh com que então se identificava o realizador. 

Outra característica do realizador é a referência mais ou menos paródica ao seu tempo e com o próprio cinema. Se ele não foi um «inovador» formal no mesmo sentido em que o foram, no começo do sonoro, um Mamoulian ou um Cukor, ele acompanhou essas transformações, ora adoptando-as, ora ironizando com elas. É este o caso de Me and My Gal onde uma inteira cena é dedicada a parodiar uma forma de «linguagem» recentemente introduzida no cinema, particularmente por Rouben Mamoulian (em City Streets/Ruas da Cidade, feito no ano anterior a Me and My Gal): a voz off que «exprime» ou a consciência ou os pensamentos dos personagens. Danny, num encontro com Helen, refere um filme que viu recentemente, e a que chama, «Strange Inner Tube or something». A fita em questão é Strange Interlude, de Robert Z. Leonard, com Norma Shearer e Clark Gable, que a MGM produzira nesse ano e onde aplica o referido processo. Logo a seguir, em tom de paródia, Walsh põe em consonância o diálogo ao vivo e os «pensamentos» da dupla. Esta atenção à actualidade não se faz apenas com a paródia, vai, inclusivé marcar a parte dramática, pois o assalto, tal como é exposto parece ter-se inspirado num assalto que tivera lugar pouco antes
e que um jornal do tempo, destacou para criticar o filme. Note-se que estamos (em 1932) na fase pré-código e só a partir de 1934 ficará proibida em Hollywood a exposição de métodos de assaltos. Aliás talvez tenha sido isto que impediu a sua exibição entre nós, onde a censura já estava bem activa velando pela «moral» e «bons costumes». Mas o método (assalto à dependência bancária a partir do andar superior) voltaria ao cinema no fabuloso Du Rififi Chez les Hommes, de Jules Dassin, de 1955, que por cá se estreou com bastante atraso e, logo para dar razão à censura (!), serviu de inspiração a um assalto a uma ourivesaria lisboeta! 

Se esta sequência, pela forma rápida de execução e a montagem que expurga tudo o que não interessa concentrando-se no essencial, é eminentemente walshiana, o mesmo acontece com o final, e inclusivé pela forma como lá se chega. Sarge (Walthall) sabe que Casteneda está escondido no sotão da sua casa, ali colocado pela sua filha, irmã de Helen, com quem Casteneda tivera uma ligação. Completamente paralisado nada pode dizer, pois comunica com os outros através de piscadelas dos olhos. É deste modo que ele vai «denunciar» o esconderijo usando os sinais de morse. Não podemos deixar de pensar na passado de Walsh e no seu trabalho com Griffith. Recorde-se um dos mais famosos «two reels» de Griffith, The Lonedale Operator, que usa o morse para alertar do perigo. Fazer o actor griffithiano usar aquele sistema (estando «mudo» como os filmes daquele tempo) não deixa de ser uma singela e curiosa homenagem ao mestre). Se este filme não é dos mais importantes de Walsh, reserva, apesar disso, um bom número de surpresas e de grandes momentos, que justificam a atenção do cinéfilo.

Me and My Gal foi uma produção da Fox para impor as suas novas vedetas que ainda não tinham conquistado os favores do público. Apesar de Tracy ter gostado muito do argumento e insistido em fazer o filme, este não fez muito por ele. Só no ano seguinte Tracy alcançaria o estrelato com 20.000 Years in Sing Sing/20.000 Anos em Sing Sing de Michael Curtiz. Quanto a Joan Bennet, mais anos iriam passar e foi preciso tornar-se morena para finalmente se impor como vedeta.


Manuel Cintra Ferreira
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: we used to wait




O novo vídeo dos Arcade Fire, para o tema "The Wilderness Downtown", foi necessariamente, um dos mais impressionantes objectos multimédia que me chegaram nos últimos tempos. O videoclip interactivo, que tira partido das possibilidades do HTML5, é um prodigioso fruto da inventividade do realizador Chris Milk.

para perceber o projecto,
não há como experiência-lo em

http://thewildernessdowntown.com/

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- Sometimes, I think that nothing is ever gonna make sense again.
- Maybe life is not supposed to make sense.
- Doesn't that scare you?
- Yes, it does.


Man in the Moon (1991), Robert Mulligan
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ENTREVISTA COM
Apichatpong Weerasethakul & Wallapa Mongkolprasert


em Independencia.fr

parte 1 + parte 2
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Trash Humpers, Harmony Korine, 2009

 Trash Humpers de Korine é o mais radical dos manifestos sobre o filho esquecido do progresso: o lixo. O lixo é a matéria da ideologia, como lembra Zizek. Existe, concreta e palpavelmente, mas não há vontade mais acerrimamente partilhada do que ignorá-lo. Nada há de mais mundano, mais real e mais incómodo. Apesar da sua existência puramente material, é o alvo colectivo do maior desprezo possível.
Estes ''Trash Humpers'', humanóides violadores, não só não o ignoram como o objectificam a um extremo erótico. Nunca o lixo existiu tão concretamente como aqui.  
De facto, talvez não haja nada de mais contemporâneo do que reflectir sobre o lixo, a mais factual das consequências da experiência humana. Um dos mais contemporâneos deveres é o de conceder ao lixo o direito à plena existência. Há aí urgência, para uma responsabilização plena do humano pelo seu próprio existir.

* é claro que aproveito para particularizar esta postura em defesa de uma causa muito minha - o direito do cinema trash à plena existênciahttp://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/news/enjoyment-of-trash-films-linked-to-high-intelligence-study-finds-a7171436.html


* e recomendo um pequeno texto indispensável do Carlos Natálio sobre ''A Política das Tripas'', a partir de Rabid (de Cronenberg) :
Imagem poderosa esta do fim de "Rabid" (1977) de David Cronenberg. Marilyn Chambers, actriz porno a quem lhe cresce uma pila na axila (sim, rima), jogada ao lixo. Corpo descartado, fim possível de uma epidemia que vive do sangue e da contaminação. Os primeiros filmes do canadiano, que têm premissas com maior longevidade do que as personagens que as carregam (cinema abstracto sobre tripas, sobre a política das tripas), têm em comum esta transformação do papel da sexualidade. Mentes que varrem corpos, corpos que produzem carne ao ritmo da sua ira, contaminações e experiências que alteram o papel da penetração, da maternidade, do solitário pensamento obsceno. O corpo da antiga sexualidade, uma sexualidade que se vendia, desejava, despojada e sem pudor é recolhida às terças. O domingo talvez seja o dia do papelão, mas a reciclagem começava aqui.
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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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