Veraneios.

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"Phritee my dear", por Leo Tage




The Tiger
WILLIAM BLAKE


Tiger! Tiger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tiger! Tiger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?








série Purgatory, de Michael J. Demeo






Casa branca

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flocos marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Poesia I (1944)






Magritte





A consanguinidade das casas
BEATRIZ HIERRO LOPES
11 de Novembro, 2010


Lembrava-se de pouco, de entrar pela porta dos fundos que tinha degraus em granito, largos como tudo o que aquela casa, só de velhos, um casal muito velho que demorara talvez demasiado a morrer, deixara. À entrada, a sala de jantar com janelas de losangos, contrariando a horizontalidade quadricular, que fora assim com todas as janelas de todas as casas que tiveram, a caixilharia só branco, ali losangos como setas, que houvera muitas, penas coloridas levantando-se de um saco de serapilheira, onde se encostavam os arcos que as décadas não lassaram; no fim das janelas, estantes baixas tocando-lhes, apoiando-lhes a verticalidade do vidro, dando alimento, como terra às setas que, lembrava-se disso: do soltar da seta, o impulso libertando-se no ombro que quase tombava, mas não, pequena, na mata, massajando o ombro enquanto a seta falhava, que nunca teve pontaria, lá longe, mesmo por detrás do alvo, o som: toda a curvatura perfeita da falha e, as estantes que eram baixas como terra alimento das setas que nela se enterravam sem mãos que as agarrassem, toda a quadratura da perda. Sobre elas, objectos de função incerta, matéria rosada: anjos esqueléticos de fome, sustendo flores como rosas, achara estranho, porque não se comem rosas e eles, guardando toda a fome do mundo, suportando o peso das pétalas, que no céu não se come; ao lado, uma caravela de velas, um dia brancas cruzadas a Cristo vermelho, agora negras, que mal se viam como que queimadas, e talvez fosse por isso que se chamavam velas às velas das caravelas, negras como a madeira suja pelo tempo, explicara-lhe a mãe, parada, a caravela, era uma sem função de outros tempos, gostara, ficara com ela. Junto à fome dos anjos, quase batendo contra as velhas velas da caravela, retratos a preto e branco de rostos cansados, parecendo cansados por serem pequenos, manchas de homens e mulheres a alturas diferentes, perdendo-se na paisagem, e era tudo paisagem, mesmo as ruas, as cidades em que retratados eram menos que simples apontamentos, notas domésticas, listas de supermercado. Imaginara-os, listados os nomes por detrás das molduras, o acaso numérico das setas fermentando no gosto amargo da terra, adubo metálico de árvores, nutrindo a familiaridade das folhas, geração após geração, rostos, lâminas a que o tempo despira as penas, sustendo a verticalidade do nome, veio de ramo, pertença de passado. E os nomes surgindo, repetindo-se como as horas em que se esgotara aquela casa, por já não ser daquele tempo, o tempo da escadaria que da sala dava acesso ao piso dos quartos, que levavam muito tempo, os degraus subindo o complexo montanhoso dos quadros, que iam desde o silêncio sequioso da ruralidade das cores até à negritude que mastigava uma celestialidade de rostos bíblicos; sob o olhar, não, não o olhar, a boca a língua vazia do jarrão de metal, que do alto da escadaria, general coordenando um exército de degraus, resgatava a solidez a cada subida a cada descida dos passos. Que já não eram de velhos, os velhos enterrados e as crianças correndo pelos degraus, cortando a respiração ao jarrão que estremecia, sabia-se, da luta travada apenas o futuro continuaria. E o jarrão que não gostava, olhando-a, vendo-a, criança pequena a entrar no quarto principal, a cama de dossel calando-se de almofadas, sem almofadas, só colcha; por detrás da cama uma pintura em madeira, a Virgem sorrindo, sem fome de anjos e talvez os anjos fossem magros porque era do alimento aquela imagem de céu, só para ela, a terra que nutre as raízes, dando-lhe cor ao rosto, lareira calor de inverno, que lhe parecia digna das velas, das caravelas, e a caravela, parecendo-lhe pertença leito de Virgem, como aquelas que aparecem nas igrejas, atrás do vidro, dormindo em barcas eternas. Pedira à mãe que lha desse. A mãe que lhe dera o barco tirando da parede o quadro pequeno, dissera-lhe, para que te guarde.
Na casa em que agora vivia, o jarrão general guardando a porta de entrada, o relógio, outrora daquelas escadas, guardando o jarrão, que se perderam os quadros, os quadros sem saberem em que casa, e aquela juntando tudo o que a casa que se esgotara lhe dera. Lembrava-se de pouco, só a caravela e a Virgem, recordando-lhe toda a largura de uma casa que, sem o ser, antepassada de casa, como as famílias, ascendendo na memória de outras casas.




Memory House : Lately






A Letter to Uncle Boonmee, Apichatpong Weerasethakul, 2009


Música de "Memory House"
via blog My Mind is Not Right. Obrigada ao Gabriel!

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