Solidão Industrial.

Leave a Comment



Linha de montagem, Ford, 1908-1915



Modern Times, Chaplin, 1936




Playtime, Tati, 1967





"Agora penso que não há nada por que esperar, então, fico no meu quarto, sentado numa cadeira. não faço nada.
Penso que existe uma vida lá fora, mas nessa vida nada se passa. Pelo menos para mim.
Quanto aos outros, talvez se passe alguma coisa, isso é possível, isso já não me interessa mais.
Eu estou lá sentado, numa cadeira, em minha casa. Sonho um pouco, na realidade não, não verdadeiramente. Com o que poderia eu sonhar? Estou lá sentado e mais nada. Não posso dizer que esteja bem, não é pelo meu bem estar que lá fico, pelo contrário..."

Agota Kristof in Ontem (1995)







Il Deserto Rosso
MICHELANGELO ANTONIONI (1964)



Quando o fumo nas chaminés das fábricas deixa de dizer progresso para dizer doença.

A toxicidade da existência é o alicerce do drama que entrecruza o impacto asfixiante da rápida industrialização sobre os ambientes, num convite à discussão acerca do caminho com que o lema do progresso afasta a humanidade da natureza, modificando-a, danificando-a, e erigindo em tal grau as modelações sobre o seu redor, que a megalomania utilitária parece fugir à escala humana - tudo se duvida a fundo. As cores desmaiadas dominam os cromatismo, hábeis em descrevendo a hibridez da paisagem, acentuando o incómodo da situação industrial. O ruído intensifica-se sobre toda a descrição, às vezes inserido surrealmente, pondo em questão a realidade. 
Filma-se o existencialismo com as infinitas questões. E a eternidade fugirá para sempre à resposta: o que fazer com a insatisfação acerca do Mundo? Como explicar os tremores que se passam em invisibilidade? Como articular o corpo com o ambiente e com os outros corpos? Como actualizar os conhecimentos face à imparabilidade com que o tempo insatisfaz? ...






24 City
ZHANG KE JIA (2008)


“We that have done and thought,
That have thought and done,
Must ramble, and thin out
Like milk spilt on a stone.”


Spilt Milk, W.B. Yeats


Sonhos humanos que o fôlego da juventude abre na linha da geração. Os confrontos da história entre as idades próprias às várias experiências, com a base de uma mesma cidade, descrita no retrato da sua evolução. "24 City" constrói-se enquanto essencial documento sobre a progressiva transição da moral colectivista da vida económica chinesa, através das mudanças decorrentes da Revolução Cultural, até às consequências que a abertura do mercado touxe até hoje.
A figuração metonímica do percurso chinês é a fábrica de armamento na cidade de Chengdu, erguida com esplendor na horas das necessidades bélicas do Vietname, e imperando sobre a própria vida urbana aquando dos seus dias áureos, em que oferecia desejáveis condições de habitação e emprego a gerações fixas de trabalhadores e respectivas famílias. Num olhar sobre o que sobra em utilidade à Fábrica 420, o comovente documento do seu desmantelamento, descrição conduzida entre memoráveis sequências.
Em paralelo à captação real dos ambientes, Jia Ke Zhang ficciona entrevistas a supostos trabalhadores fabris (deixando apenas cinco relatos autênticos), e baseando cada uma das prestações interpretadas pelos actores, em depoimentos previamente recolhidos entre 130 entrevistas verídicas a ex-trabalhadores. O resultado  é o mais minucioso trabalho de direcção de actores, traduzido no estudo visível de cada enquadramento.
Ao escombro do emblema de ontem nada sobra e hoje deu lugar a "24 City", o projecto de um luxuoso bairro habitacional, mais convergente com as necessidades da China moderna.
Contam-se as vítimas ao desenvolvimento capitalista, mas são as consequências gerais da mudança, que transportam "24 City" num tom melancólico. Um sopro vital, do particular para o universal, o que faz fluir o cinema de Jia. 







Härlig är jorden
ROY ANDERSSON (1991)
A força essencial impressiona ao plano de abertura, onde os corpos nus são misteriosamente levados para longe dos vestidos. Este filme de eloquência calada evoca o exílio da vontade, a castração autoritária, as formas ordenadoras da repressão, da regulação e da tipificação convergentes em ordem social. O passo robotizado do hábito de um homem-tipo pouco progride, entre a fraqueza doentia do rosto e modos, submissos às letargias convenientes de todas as leis gerais. A obrigação dobrada às contracções infinitas que advêm do estabelecimento humano em sociedade, rememora a obra de Jørgen Leth, The Perfect Human (1967). A catástrofe é derradeira, porque jamais se viverá em asfixia, em tormento, em loucura.



0 comentários:

Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

Archives