sexta-feira, 11 de junho de 2010

Solidão Industrial.




Linha de montagem, Ford, 1908-1915



Modern Times, Chaplin, 1936




Playtime, Tati, 1967





"Agora penso que não há nada por que esperar, então, fico no meu quarto, sentado numa cadeira. não faço nada.
Penso que existe uma vida lá fora, mas nessa vida nada se passa. Pelo menos para mim.
Quanto aos outros, talvez se passe alguma coisa, isso é possível, isso já não me interessa mais.
Eu estou lá sentado, numa cadeira, em minha casa. Sonho um pouco, na realidade não, não verdadeiramente. Com o que poderia eu sonhar? Estou lá sentado e mais nada. Não posso dizer que esteja bem, não é pelo meu bem estar que lá fico, pelo contrário..."

Agota Kristof in Ontem (1995)







Il Deserto Rosso
MICHELANGELO ANTONIONI (1964)


Quando o fumo nas chaminés das fábricas deixa de dizer progresso para dizer doença.
A toxicidade é o alicerce. Há aqui existência que está prestes a deixar de existir. O impacto asfixiante da rápida industrialização atinge os ambientes e, nas pessoas, deixa perguntas. A discussão abre-se, mais para dentro do que para fora. O se faz em nome desse tal de progresso? Porque se afasta a humanidade da natureza? Que juízo fazer deste tão modificar, deste tão estragar, deste tão destruir? Quando bastarão as modelações sobre o redor? Porque é que se insiste nesta megalomania? Que desenvolvimento humano é este que parece fugir à escala humana?  
Em suma, de tudo se duvida a fundo. As cores desmaiadas dominam o cromatismo. Tudo seca, como quem grita que já não há geração possível. A paisagem infértil é encerrada pelas mostrengas chaminés ao fundo, que acentuam o inferno daqueles horizontes industriais. O ruído intensifica-se sobre a imagem. Às vezes, chega o surrealismo que nos faz pôr em causa a realidade. Adoecemos com eles, enredados em existencialismos - eis-nos largados entre as infinitas questões do costume, entre as infinitas faltas do costume. O que fazer com toda esta insatisfação face ao mundo? Como explicar os tremores que se passam na invisibilidade? Como articular o corpo com o ambiente e com os outros corpos?  ...






24 City*
ZHANG KE JIA (2008)

“We that have done and thought,
That have thought and done,
Must ramble, and thin out
Like milk spilt on a stone.”


Spilt Milk, W.B. Yeats

*isto é a UTOPIA pela voz de quem lhe sobreviveu
*isto são os SONHOS HUMANOS 
com que a juventude de ontem fende a geração de hoje

A História está em confronto. São as experiências próprias às várias idades que se debatem pela legenda de uma mesma cidade. É a sua evolução que vamos ver narrada. "24 City" constrói-se enquanto essencial documento sobre a progressiva transição da moral colectivista da vida económica chinesa, através das mudanças decorrentes da Revolução Cultural, até às consequências que a abertura do mercado trouxe até hoje.
A figuração do percurso chinês é exemplificada pela fábrica de armamento na cidade de Chengdu, erguida com esplendor na horas das necessidades bélicas do Vietname e, aquando dos seus dias áureos, imperando sobre a urbe à qual oferecia desejáveis condições de habitação e emprego. Foram gerações fixas de trabalhadores e respectivas famílias que a conheceram. Este é um olhar sobre que resta em utilidade à Fábrica 420, até nada restar. Este é o retrato comovente  do seu desmantelamento, documentado entre memoráveis sequências.
Em paralelo à captação real dos ambientes, Jia Ke Zhang ficciona entrevistas a supostos trabalhadores fabris (deixando apenas cinco relatos autênticos), e baseando cada uma das prestações interpretadas pelos actores, em depoimentos previamente recolhidos entre 130 entrevistas verídicas a ex-trabalhadores. O resultado  é o mais minucioso trabalho de direcção de actores, traduzido em cada enquadramento.Ao escombro do emblema de ontem nada sobra. Hoje, "24 City", deu lugar a um projecto para luxuoso bairro habitacional, mais convergente com as necessidades da China contemporânea. Contam-se vítimas ao desenvolvimento capitalista (?) mas é, em geral, a mudança o que, em "24 City", nos afunda nesse tom melancólico. 







Härlig är jorden
ROY ANDERSSON (1991)
Impressiona-nos de imediato o plano de abertura: os corpos nus são misteriosamente levados para longe dos vestidos. Este filme (de uma eloquência sem palavras) evoca, através de estereotipias, os problemas reconhecíveis do ser contemporâneo: o exílio da vontade, a castração autoritária, as formas ordenadoras da repressão, da regulação e da tipificação. O passo robotizado do hábito do homem-tipo pouco progride, entre a fraqueza doentia do rosto e modos, submissos às letargias convenientes da ordem. A obrigação dobra-se às contracções infinitas. Todas as leis são para todos. O ser estabelece-se humano. O ser estabelece-se em sociedade. MAS COMO? Aqui revemos The Perfect Human (de Jørgen Leth,1967): a catástrofe é derradeira: em asfixia, em tormento, em loucura não se vive. Sobrevivendo, entretanto.



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