quarta-feira, 30 de junho de 2010

Doc's Kingdom 2010.


Doc’s Kingdom 2010
Para a edição de Julho da revista RDB


Entre a brancura tradicional da cidade alentejana de Serpa, cresce há dez anos o seminário “Doc’s Kingdom”, um projecto de edição anual dedicado ao cinema documental contemporâneo, que há muito se tornou referência no panorama internacional.


A edição de 2010 do “Doc’s Kingdom” conheceu, pela primeira vez, a antecipação da sua mostra em Lisboa. Em parceria com a Cinemateca Portuguesa, entre os dias 1 e 9 de Junho, foi possível ao longo de seis sessões, adiantar o alinhamento temático que baseou a programação do ciclo, convergente em torno da reflexão acerca da imagem-arquivo.
Os títulos exibidos reuniram autores que têm vindo a trabalhar imagens pré-existentes, obras que testemunham entre si a revitalização de efectivas imagens de arquivo, tanto quanto a criação de novas imagens consubstanciadas pelo princípio de uma releitura da História, enquanto acto fílmico de génese “associado às prática da série, do inventário, da colecção ou do catálogo”, como relembra o crítico Nuno Lisboa.
O fundador e responsável pelo seminário, José Manuel Costa, acrescenta que “o que acontece é que, a par do recurso aos arquivos para revisitar a História – ou as histórias, cruzando memórias individuais e familiares, com dimensões comunitárias, nacionais ou outras – foram surgindo autores para quem a ideia de arquivo já tinha outra natureza, muito menos memorialística do que seminal.”
A sugestão do alinhamento, decorrida ao longo de catorze sessões entre 16 e 20 de Junho, agrupou segmentos retrospectivos dos realizadores Hartmut Bitomsky (Alemanha), Yervant Gianikian, Angela Ricci Lucchi (Itália), Edgardo Cozarinsky (Argentina) e uma exibição pontual de Susana de Sousa Dias (Portugal). A presença dos realizadores, entre um colectivo de críticos, programadores, estudantes de cinema e público geral, incita à criação de um dispositivo de debate directo entre a audiência presente, que escala as exibições entre momentos de análise conjunta acerca das obras visionadas.
Sem o cunho competitivo particular ao formato identificador do festival de cinema, o Doc’s Kingdom assume-se como uma “câmara de reflexão sobre o cinema documental contemporâneo”, segundo as palavras de José Manuel Costa.
Os percursos do diálogo articulado entre a variação das obras expostas, encadeiam-se no sentido de pensar os modos em que “as imagens não advêm apenas das coisas que representam, mas também são originadas noutras imagens”, como assinala Hartmut Bitomsky. Do realizador e crítico alemão, em destaque na edição de 2010, pela disponibilização parcial de um importante legado que se complementa entre sim num movimento articulado de resgate e revisão de documentos prévios, reflecte-se acerca das possibilidades de exercitar a consciência essencial da presença do espectador, e as modelações exercidas pela passagem do tempo nas reacções que contextualizam essas imagens. Neste sentido, Deustchlandbilder (1983) compõe-se por mais de 30 fragmentos de documentários realizados e exibidos na Alemanha, entre 1933 e 1945, os anos da vigência nazi, e a sua utilização evidencia-se enquanto denúncia da máscara real que procurava sistematicamente sustentar pela argumentação imagética a credibilidade no regime. Das Kino und der Tod (1988), Flachen, Kino, Bunker (1991) e Das Kino und der Wind und die Photographie (1991), são episódios de uma essencial série que percorre e sequencia, sob a instrução do olhar atencioso da cinefilia deste realizador e professor, um pedagógico convite à construção de uma orientação pormenorizada, cuja base rima a redescoberta de célebres e esquecidos filmes da história do cinema. Staub (2007), o mais recente filme de Bitomsky entre os exibidos, distingue-se enquanto impressionante documento sobre as oscilações ínfimas de uma presença primordial, o pó, inesperada atenção temática que responde ao seu confessado “sonho de fazer um filme sem assunto”, materializado no alinhamento das dimensões diarística, filosófica e física da vivência humana neste eterno contacto.
À reunião de autores, somou-se a descoberta da obra assinada pela dupla italiana Ricci Luchi e Yervant Gianekin, essencialmente construída sobre a radical e ideologicamente interventiva reutilização do vasto espólio arquivista de Luca Comerio, realizador pioneiro do cinema italiano, intimamente comprometido com o ideal fascista. Explicitamente, na sequência dos princípios vocacionados para o intensivo trabalho de cumulação e aquisição coleccionista da dupla, é apresentado o filme Ghiro Ghiro Tondo (2007), constituído no molde de apelativo catálogo de brinquedos que, através dos objectos apresentados, migra entre eras e localizações. A fotogénica exploração do foco sobre as miniaturas, brincadas pelo manuseamento conveniente à intenção do próprio Gianikian de as revelar com eficácia, organiza uma comovente reflexão sobre as etapas universais da memória e, em particular importância, sobre a concentração ideológica presente nos brinquedos produzidos no período que atravessou as duas grandes guerras, oriundos da Itália, da Alemanha, da Rússia ou do Japão. “Relações que podem resultar desta microfísica dos gestos”, assim comenta Nuno Lisboa, reveladas na eloquente atenção que rememora as capacidades forçosas e intrínsecas ao dispositivo fílmico, de ampliar o que de relevante poderá tender a escapar ao aparelho humano de visão.
Aproximação convergente com os processos que solidificam a assinatura de Edgardo Cozarinsky, explicitados na prática de intrincados sistemas de manipulação montagística e revalidação de imagens pré-existentes, relações proporcionadas pela intenção de encontrar novas percepções perante determinadas imagens de arquivo, à luz da sua inserção cronológica e da sua consequente constituição documental. Elementos presentes na génese de La Guerre d’un Seul Homme (1982), filme que cruza a ficção com a recolha de imagens de filmes de actualidades e de leituras de diários parisienses, com o objectivo de reflectir criticamente acerca da ocupação nazi em França.
Assinalou-se com relevância a exibição de 48 (2009), de Susana de Sousa Dias, obra que lança o mote para o valoroso e complexo projecto - que flagrantemente tem faltado à sua necessidade vital - de inserir o país na discussão histórica dos 48 anos da ditadura salazarista. Através da disposição de um núcleo de fotografias de cadastro de ex-prisioneiros políticos, os depoimentos sobrepostos nas vozes de hoje dos próprios resistentes, rememoram os traumas pessoais em que as confissões detalham as descrições reais do sistema autoritário.
À relevante exposição de autores pouco exibidos em Portugal, assinala-se a conjugação em que a genealogia do Doc’s Kingdom encontrou a sua personalidade, proporcionando-se num ambiente de intensivo consumo cinéfilo e familiaridade que não faltam à conjugação harmoniosa com a tradição da cidade alentejana de Serpa, celebrada ao longo dos quatro dias do encontro.

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