quarta-feira, 2 de junho de 2010

Anti-Poesia e Wittgenstein.


Eugene Atget
Hotel d'Epernon, Paris
Albumen print, 1901.



O autor não se responsabiliza pelos danos que os seus escritos
[possam causar:
Ainda que lhe custe,
O leitor terá de dar-se sempre por satisfeito.
Sabelius, que além de teólogo foi humorista bem sucedido,
Por acaso respondeu pela sua heresia
Depois de ter reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade?
E se chegou a responder, como o fez,
De que forma disparatada!
Baseando-se num cúmulo de contradições!

Segundo os doutores da lei este livro não deveria ser publicado:
Em nenhuma parte aparece nele a palavra arco-íris,
Ainda menos a palavra dor,
A palavra torquato.
Cadeiras e mesas figuram a granel,
Algo que me enche de orgulho
Porque, a meu ver, o céu está a cair aos bocados.

Os mortais que tiverem lido o Tractatus de Wittgenstein
Podem dar-se com uma pedra no peito
Porque é uma obra difícil de alcançar:
Mas o Círculo de Viena dissolveu-se há anos,
Os seus membros dispersaram-se sem deixar rasto
E eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.

A minha poesia pode perfeitamente não levar a lado algum:
«Os risos deste livro são falsos!», argumentam os meus
[detractores,
«Suas lágrimas, artificiais!»
«Em vez de suspirar, nestas páginas boceja-se»
«Esperneia-se como um bebé de mama»
«O autor dá-se a entender aos espirros».
Assim sendo: convido-vos a queimar os vossos navios,
Como os fenícios pretendo criar o meu próprio alfabeto.

«Há que cansar o público, então?», perguntar-se-ão os amigos
[leitores:
«Se o próprio autor começa por desprestigiar os seus escritos,
Que poderá esperar-se deles!».
Cuidado, eu não desprestigio nada
Ou, melhor dizendo, eu exalto o meu ponto de vista,
Vanglorio-me das minhas limitações,
Levo aos píncaros as minhas criações.

As aves de Aristófanes
Enterravam nas suas próprias cabeças
Os cadáveres dos seus pais
(Cada pássaro era um verdadeiro cemitério volante).
A meu ver
Chegou a hora de actualizar esta cerimónia
E eu enterro as minhas penas na cabeça dos senhores leitores!



Nicanor Parra, de Poemas y Antipoemas (1954).
Versão de HMBF.

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