48.

1 comment
: sobre
48 DE SUSANA DE SOUSA DIAS (2009)


48 anos de ditadura em Portugal e a discussão colectiva da história vê-se à distância de um Portugal encerrado no próprio exílio que já diz passado. A necessidade de resposta ao silêncio é a primeira convocatória de "48", o filme de Susana Sousa Dias, que se compromete com uma tarefa reveladora. A base é a sua relação com as imagens de arquivo, a que se afeiçoa e que ciclicamente adapta, numa particular proximidade da realizadora aos documentos que remanescem da época do Estado Novo. A este processo de recolha documental, a realizadora adicionou em "48" o testemunho oral de ex-presos políticos, confrontando um conjunto de fotografias de cadastro com a voz das memórias que hoje ainda guardam a verdade do trauma. Os ecos segmentados da rememoração  situam-se numa inquietante fronteira intimista- e o espectador entra na árdua tarefa de  reviver uníssono com as vítimas do sofrimento, tais são as garantias da veracidade e tal é vocalização descritiva da realidade dos detalhes e das convulsões em que se desabam sinceras as vozes.
A estilização formal em que se trata o material de base, esclarece a preparação manipulada dos testemunhos recolhidos. Assim,  facilmente surgem sensações de uma invasão com cada passado narrado em voz própria. Como estipular princípios morais e éticos como guias reguladoras da exposição? Como ser válido quando se caminha entre as delicadezas da revisitação traumática?
Para lá de formalismos, o surgimento de "48" não está sabotado pelos seus maneirismos estéticos. Antes pelo contrário. É um filme alicerce do próprio tempo que o vê surgir, e serve as necessidades gritantes da reflexão histórica, dando o testemunho à memória viva das vítimas do fascismo em Portugal. As palavras de Amarante Abramovici são propositadas em situar a importância de "48" na força de evitar que "se pense que, por comparação com os fascismos europeus, tivemos uma ditadura branda e que foi por isso que ela durou 48 anos." 















O que faz falta
por Regina Guimarães
10 de Junho de 2010


Falando curto e grosso : 48 é um filme que fazia falta. Fazia falta num país onde, como indignada e amargamente uma das resistentes entrevistadas por Susana de Sousa Dias sublinha, os agentes da PIDE-DGS tiveram direito à protecção zelosa de um aparelho de justiça apostado em branquear o cadastro dos criminosos, nem que isso implicasse denegrir as pessoas das vítimas vivas e injuriar a memória dos mártires mortos.
Pois claro, 48 fazia falta num país em que os contornos de um passado recente, marcado pela prática quotidiana da violência e pela insidiosa instalação do medo, tendem a esbater-se, a ponto de ter sido possível um concurso - para o qual grandes meios mediáticos foram mobilizados - atribuir ao criminoso-mor o estatuto de "melhor português de sempre". Contudo, a falta que este 48 surgido por "entre as brumas da memória" nos fazia, ecoa tanto mais poderosamente quanto, de facto, é "falta" que sentimos, uma vez volvida hora e meia de confrontação com fragmentos de testemunhos, com farrapos de vozes testemunhando, com o cilício dos muitos silêncios, com o difícil reconhecimento dos rostos congelados pelos próprios "protagonistas", de várias e perversas maneiras desapossados das suas caras, corpos e crenças.
Foi talvez preciso hiper-estetizar o cortejo de imagens para diferir do contexto de desumanidade em que aquelas fotografias foram tiradas, obviamente contra a vontade dos retratados, mas ainda assim convocando todas as fileiras da vontade de resistir, como a dada altura confidencia um dos entrevistados. Foi talvez necessário extrair do caos emocional, mental e moral das memórias de cada um, a quintessência das palavras que se reportam ao capítulo da humilhação e da ofensa: tortura física, maus tratos psicológicos, manipulação afectiva, aniquilamento moral, etc. Foi porventura útil enfatizar a heroicidade de uma galeria de cidadãos que preferiram suportar, até ao limiar da alucinação e da loucura, até às portas que separam da morte e a fazem desejar, os piores horrores e terrores em vez de ceder às ameaças e aos actos dos torcionários. Foi decerto uma opção estilística plenamente consciente das suas consequências entrecortar os pedaços de depoimento com silêncios densos de ruído e gritantes de vazio, fazer entrar as vozes em solene derrapagem ou na rasura da incerteza, a fim de que o fora de campo se tornasse mais avassaladoramente habitado de pressentimentos. Porém, tudo isso - tudo isso acrescido do que se imagina ser a penosa abertura das comportas perante os clichés de má memória - apenas contribui para que a tal falta se torne sensorialmente espessa e eticamente dolorosa.
Porque - e a ordem das razões aponta para o pau de dois bicos deste exercício no fio da navalha - as pessoas cujo testemunho foi sabiamente retalhado, reduzido ao paroxismo de um dizer que não pode ser ousado por comparação à tortura da lembrança e à lembrança da tortura, todas essas pessoas que afirmam terem resistido possuíam motivos de grande envergadura para o fazerem. E se, desafiando os limites do humano, resistiram lá dentro é porque cá fora, desafiando as condições de possibilidade impostas pelo regime, também se atreveram, activamente, a resistir. Da expressão desses motivos que mantiveram vivos os recursos de resistência de um punhado de vítimas da opressão salazarista e pidesca, o espectador não pode deixar de sentir falta. Em última análise, o silenciamento dos motivos que é parte constitutiva do dispositivo de "48" pode soar como uma, mais uma, operação de censura, inflingida a pretexto de valores estéticos que mais alto se alevantaram.
Frente à dilaceração das palavras que "48" encena e encerra, por entre negros e negros, qualquer espectador se sente abalado, comovido, imensamente desconfortável com a perspectiva de que os gestos e actos relatados aconteceram mesmo, num passado não longínquo, aos donos daquelas vozes. O carácter insuportável e intolerável do que ali se conta, configura uma verdade transpessoal. Absoluta, digamos. No entanto, a fraquíssima sinalização do contexto historico-político e a ausência quase total de referência aos motivos que moviam os resistentes, coloca o espectador na estranhíssima situação de pactuar com um dispositivo que prefere não correr o risco da dispersão dos afectos e da deflagração das ideias. Mais do que abrir o leque daqueles sentimentos que ninguém suporta em vão, Susana de Sousa Dias fecha-os na caixa de ressonância das confissões. E quem se "vê" na situação de "ver" o que apenas se ouve, algures por detrás, fotografias que são fruto do roubo de imagem e violação de pessoa, só pode sentir-se duplamente excluído de um entendimento mínimo das dores e pavores em questão : porque não pode, evidentemente, ter deles vivência, e porque as pessoas que os viveram não têm a ocasião de exprimir ali quais os modos de resistência mental que lhes permitiram, contra tudo o que é expectável, manter a sua dignidade, através da árdua prática do silêncio atirado à cara do carrasco. Ora, esse entendimento mínimo deveria ser-nos pão para a boca.
Em tempos de ditadura, era eu uma catraia, havia lá por casa um poster - os posters eram coisa bastente em voga nas famílias anti-regime e faziam as vezes de cartazes contra a repressão dentro do espaço pribado, já que na rua não podia ser... - com um poema do Livro Sexto de Sophia de Mello Breyner. Os três últimos versos desse texto causavam-me grande inquietação, embora na altura eu não conseguisse compreender porquê.

PRANTO PELO DIA DE HOJE
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas.


Se fizesse algum sentido resumir a primeira impressão que colhi do primeiro visionamento de "48", ela giraria em volta de palavras para falar de uma inquietação, essa inquietação, a inquietação de saber que as maneiras sábias, subtis e peritas da opressão - na verdade, grosseiras, brutais e perversas - não podem, ao contrário do que parece pensar Susana de Sousa Dias, ser bem descritas.
Posto isto, e para que não se depreenda de todos os meus senãos uma rejeição liminar e injusta da presenta obra de Susana de Sousa Dias, é-me imperativo acrescentar duas notas finais altamente positivas. A primeira tem a ver com o lugar concedido às vozes femininas em "48", um lugar preponderante que não somente lança alguma luz sobre a forma como os carrascos defensores da (sagrada) família utilizam os laços de afecto familiar no âmbito da sua actividade criminosa, como também contribui para esclarecer que a resistência antifascista não encaixa no molde da virilidade, não coincide com o boneco da masculinidade, barba rija e companhia. A segunda prende-se com a preciosa inclusão de depoimentos que nos revelam a que ponto a actividade da PIDE-DGS nas chamadas "províncias ultramarinas" era redobradamente violenta e assassina, sendo que pouco tem sido dado a conhecer acerca desta faceta da intervenção da polícia política do salazarismo-marcelismo. Embora eu não capte o propósito das imagens concretas utilizadas para colmatar a ausência de fotografias nesse trecho do filme, há que reconhecer a forma inaudita do antepenúltimo e penúltimo depoimentos. Uma força, também no entido estrito, que recentra pertinentemente a questão dos interesses subjacentes a um regime apodrecido cujo derrube contudo tardou.
O "desfecho" de "48" é uma oportuna chamada de atenção para uma potencial prossecução dos trabalhos de memória relativos à história negra da PIDE-DGS, tão imprescindível e urgente quanto os que directamente podem testemunhar o farão à custa da dolorosa convocação de lembranças impossíveis de apagar nas suas cabeças. Sob o ângulo de uma retórica assente no pathos, esta é uma escolha de abrupta quebra de um contínuo crescendo. Todavia, Susana de Sousa Dias faz aí, creio eu, uma opção ajuízada. "48" é o filme que fazia falta porque fazia falta a falta que o fissura.

1 comentários:

Sabrina Marques. disse...

O que faz falta (Zeca Afonso) : http://www.youtube.com/watch?v=L29-aZXqZyk&feature=related

Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

Archives