Fragmentos de um Diário, flanerie nas ruas japonesa.

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Traces of a Diary
Marco Martins e André Príncipe (2009)

Sessão de antestreia, Culturgest,
selecção do IndieLisboa 2010.
(artigo publicado na revista RDB Abril 2010)



“Traces of a Diary” constrói-se como um diário de viagens, assumido processo orientado para documentar, ao passo solto dos realizadores, o Japão actual e seis dos fotógrafos cruciais da sua contemporaneidade.
Para além do foco na revelação do trabalho dos artistas, o documentário denuncia do próprio dispositivo filmico, revelando o processo de captação em que assenta : técnicos, instrumentos e realizadores envolvidos tomam são parte integrante do processo documental que constroem e os estilos fluem espontaneamente de acordo com a liberdade com que os artistas em retrato : focos e desfoques alternam-se, planos subjectivos e objectivos sucedem-se de forma a documentar o vulto que fotografa como se simulando o olhar deste através da máquina.
Fica a sensação de uma tentativa vital de captar esse instante que se encontra entre o olhar colado do fotógrafo ao aparelho fotográfico,de decifrar o click que decidirá a composição final da fotografia. Sem quaisquer planificações ou encenação prévia, a descoberta flui com o mesmo grau de improviso artístico presente nos processos em retrato constante. Um olhar que segue os outros olhares, aspirando a materializar-se deles o mais fielmente possível.  Oportunamente se justifica a qualidade diarística do relato, correspondente a um mês de filmagens no Japão, onde Marco Martins e André Príncipe deram matéria ao projecto de um ano e meio.
A redução dos meios envolvidos, ditou a captação com duas câmaras Krasnogork 3, que utilizam película Super 16mm e cuja corda dura apenas 40 segundos de filmagem. Devido à sobreposição do ruído da própria câmara, foi impossível captação sonora si multânea à filmagem, justificando a opção de gravar as entrevistas à parte, apresentando-as, deste modo, em off.
Em tempos obstinados com a qualidade perfeitamente mimética das exibições, na proliferação obcecada da alta-definição, do blu ray, do 3D, do Dolby-surround, é com particular aplauso que se assiste a “Traces of a Diary”, filmado num preto e branco granulado, alheio a controlos precisos de foco, quadro ou exposição:
Segundo as palavras de Marco Martins, é como um “improviso programado” que assim surge “Fragmentos de um Diário”, por entre as ruas japonesas que dão cenário à deambulação habitual de fotógrafos tão centrais quanto Daido Moriyama ou Nobuyoshi Araki. 

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