terça-feira, 27 de abril de 2010

Pensar o Cinema Português.



Abril foi um mês activo na discussão acerca do Cinema Português. A atenção comungada pelas várias vozes implicadas, mostra uma preocupação urgente com o resgate justo da vitalidade da arte cinematográfica em Portugal. Entre as inúmeras questões levantadas, discutem-se os propósitos inerentes ao ICA e ao FICA; a necessária previsão da exportação dos objectos cinematográficos, enunciado que deve presidir ao esquema de concessão de subsídios pelas entidades institucionais; a necessidade de detalhar a natureza dos objectos audiovisuais produzidos, estipulando nessa especificidade o apoio respectivo; o restabelecimento da ideologia que precedeu à criação do ICA; o apelo ao estado pelo aumento da verba destinada à cultura; a criação de plataformas públicas de difusão e de exibição, ou o alargamento da publicidade às já existentes; o incremento do estímulo e hábitos ligados à cultura visual em Portugal; e um leque vasto de outras problemáticas levantadas pela urgência de revitalização do cinema, alinhando a agenda numa ordem actual de assuntos, sujeitos à necessidade vital de se verem debatidos. Daqui, para um imperativo avanço.



I. Manifesto pelo Cinema Português

assinado pelos realizadores Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos, Jorge Silva Melo, João Botelho, Pedro Costa, João Canijo, Teresa Villaverde, Margarida Cardoso, Bruno de Almeida, Catarina Alves Costa, João Salaviza e pelos produtores Maria João Mayer (Filmes do Tejo) , Abel Ribeiro Chaves (OPTEC), Alexandre Oliveira (Ar de Filmes), Joana Ferreira (C.R.I.M.), João Figueiras (Black Maria), João Matos (Terratreme), João Trabulo (Periferia Filmes), Pedro Borges (Midas Filmes)


Nunca como nos últimos vinte anos teve o cinema português uma tão grande circulação internacional e uma tão grande vitalidade criativa. E nunca como hoje ele esteve tão ameaçado.
No mesmo ano em que um filme português ganhou em Cannes a Palma de Ouro da curta-metragem e tantos e tantos filmes portugueses foram vistos e premiados um pouco por todo o mundo, o cinema português continua a viver sob a ameaça de paralisação e asfixia financeira.
Desde há dez anos que os fundos investidos no cinema não cessaram de diminuir: a produção e a divulgação do cinema português vivem tempos cada vez mais difíceis.
E a criação de um Fundo de Investimento (e a promessa de um grande aumento de financiamentos), revelou-se uma enorme encenação que na generalidade só serviu para legitimar o oportunismo de uns tantos.
O cinema português vive hoje uma situação de catástrofe iminente e necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos e em particular da senhora Ministra da Cultura.
O cinema português - o seu Instituto - ao contrário do que é repetido vezes sem conta, é financiado por uma taxa (3,2%) sobre a publicidade na televisão, e não pelo Orçamento de Estado.
O financiamento do cinema português desceu na última década mais de 30% e a produção de filmes, documentários e curtas-metragens, não tem parado de diminuir.
O Fundo de Investimento no cinema, que era suposto trazer à produção 80 milhões de euros em cinco anos, está paralisado e manietado pelos canais de televisão e a Zon Lusomundo, e não só não investiu quase nada, como muito do pouco que investiu foi-o em coisas sem sentido.

Por isso se torna imperioso e urgente
a) normalizar o funcionamento desse Fundo e multiplicar as verbas disponíveis para investimento na produção de cinema, nomeadamente multiplicando as receitas do Instituto de Cinema, e tornando as suas regras de funcionamento transparentes e indiscutíveis;
b) normalizar a relação da RTP (serviço público de televisão) com o cinema português, fazendo-a respeitar a Lei e o Contrato de Serviço Público, assinado com o Estado Português;
c) aumentar de forma significativa o número de filmes, de primeiras-obras, de documentários, de curtas-metragens, produzidos em Portugal;
d) e actuar de forma decidida em todos os sectores – não apenas na produção, mas também na distribuição, na exibição, nas televisões (e em particular no serviço público), e na difusão internacional do cinema português.

Depois de mais de seis anos de inoperância e desleixo dos sucessivos Ministros da Cultura, que conduziram o cinema português à beira da catástrofe, impõe-se:
1. Normalizar o funcionamento do FICA (Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual) reconduzindo-o à sua natureza original: um fundo de iniciativa pública, tendo como objectivo o aumento dos montantes de financiamento do cinema e da ficção audiovisual original em língua portuguesa e o fortalecimento do tecido produtivo e das pequenas empresas de produção de cinema. E fazer entrar nos seus participantes e contribuintes os novos canais e plataformas de televisão por cabo (meo, Clix, Cabovisão, etc), que inexplicavelmente têm sido deixados fora da lei;
2. Multiplicar as fontes de financiamento do cinema português, nomeadamente junto da actividade cinematográfica, recorrendo às receitas da edição DVD (a taxa cobrada pela IGAC, cuja utilização é desconhecida, e que na última década significou dezenas de milhões de euros); à taxa de distribuição de filmes (que há décadas não é actualizada) e à taxa de exibição. As receitas das taxas que o Estado cobra ao funcionamento da actividade cinematográfica devem ser integralmente reinvestidas na produção e na divulgação do cinema português (produção, distribuição, edição DVD, circulação internacional);
3. Aumentar as fontes de financiamento do Instituto de Cinema, para aumentar o número, a diversidade, a quantidade e a qualidade, dos filmes produzidos. Filmes, primeiras-obras, documentários, curtas-metragens, etc.
4. Apoiar os distribuidores e exibidores independentes, e estimular o aparecimento de novas empresas nesta actividade, de forma a que o cinema português, o cinema europeu e o cinema independente em geral, possam chegar junto do seu público. E apoiar os cineclubes, as associações culturais e autárquicas, os festivais e mostras de cinema, que um pouco por todo o país fazem já esse trabalho;
5. Fazer cumprir o Contrato de Serviço Público de Televisão por parte da RTP, que o assinou com o Estado Português, e que está muito longe de o respeitar e às suas obrigações, na produção e na exibição de cinema português, europeu e independente em geral. E contratualizar com os canais privados e as plataformas de distribuição de televisão por cabo, as suas obrigações para com a difusão de cinema português.

O cinema português, que vale a pena, tem hoje em dia, apesar da paralisia, quando não da hostilidade, dos poderes públicos, um indiscutível prestígio internacional. Os seus realizadores, actores, técnicos, produtores, não deixaram de trabalhar apesar de tudo o que se tem vindo a passar. Está na altura de os poderes públicos assumirem as suas responsabilidades.
É necessária uma nova Lei do Cinema, mas é urgente uma intervenção de emergência no cinema português.



II. Programa Câmara Clara sobre o Cinema Português

Moderado por Paula Moura Pinheiro, com João Salaviza, e Inês de Medeiros, e com depoimentos de Jorge Leitão Ramos, Luís Urbano, Miguel Valverde, Leonel Vieira e a Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.



III. Indie Lisbon Talks - S.Jorge

com Paula Moura Pinheiro, Pedro Costa, Inês de Medeiros, Miguel Valverde, João Salaviza, Pedro Borges, Fernando Vendrell, Luís Urbano.

As Lisbon Talks convocaram um debate provocatório sobre os «Estados gerais do cinema português». E saíram ideias do São Jorge: acabar com o FICA, mudar o ICA, alterar o conceito de «obra criativa» para as televisões e criar uma agência de promoção.
A internacionalização e a diversificação de fontes de financiamento do cinema português aqueceram, esta terça-feira, a sala 2 do São Jorge. A necessidade de mudar os regulamentos do Instituto do Cinema e do Audiovisual gerou algum consenso, mas a tangente sobre o papel da RTP exaltou o debate.
Paula Moura Pinheiro moderou a conversa sobre os «Estados gerais do cinema português», inserido nas Lisbon Talks do IndieLisboa. Pedro Costa interpelou directamente a subdirectora da RTP2 sobre o horário de exibição de um dos seus filmes, Juventude em Marcha, que aconteceu em Junho do ano passado, depois da meia-noite.
Em causa, a premência de a programação do segundo canal da estação pública exibir mais cinema português e em horas nobres. A jornalista defendeu a necessidade de manter um certo share, à volta dos cinco por cento, sem o qual se teme a alienação do canal, como ameaçou por Morais Sarmento no último Governo PSD/CDS-PP.
Inês de Medeiros, deputada do PS à Assembleia da República, estava presente e garantiu que a possibilidade nem sequer está na agenda política. Ainda assim, ficou no ar a questão sobre as razões que levam a crer que, no caso, Juventude em Marcha, que esteve na selecção oficial de Cannes, não tem audiência.
A ideia de que deve haver um «maior nível de exigência», no que respeita à RTP, foi defendida no início do debate, numa carta escrita pela ministra da Cultura, que Miguel Valverde, co-director do IndieLisboa, leu. Gabriela Canavilhas apontou ainda, na missiva, o problema da distorção do mercado de distribuição.
A luta dos conteúdos por plataformas como a Zon e a Meo foi sinalizada como um problema a resolver por Inês de Medeiros, que verbalizou a necessidade de alterar a lei da televisão e a lei geral do cinema, assim como de redefinir o conceito de «obra criativa» – que actualmente abrange demasiada produção mediática – e as suas quotas em televisão. E, paradoxalmente mas por fim, acabar com «este frenesim legislativo».
Pedro Costa argumentou que são os regulamentos do ICA que devem ser mudados, não a lei – o que seria moroso no quadro político presente. A entrada em cena das opções governativas desembocaram, inevitavelmente, no recentemente criado e mal-amado Fundo para o Cinema e Audiovisual, cujo fim foi amplamente defendido.
No entanto, Inês de Medeiros relevou que «seria uma irresponsabilidade» fazê-lo agora, quando o Quadro de Referência Estratégico Nacional já lhe atribuiu 30 milhões de euros. O encerramento compulsivo do FICA, cuja génese a deputada chegou a apoiar, acabaria com esta verba. O dinheiro é um problema recorrente. A forma de o atribuir também.

Qual nova geração?

João Salaviza assegura que «o dinheiro existe, mas é mal distribuído». «Gasta-se muito dinheiro em filmes que não vão além de Badajoz». Pedro Borges foi mais longe: «O cinema novo português é feito contra décadas de trampa». O distribuidor e produtor da Midas Filmes considera que se «vive em guerra civil pelo menos desde a década de 60».
A ausência sucessiva de novas gerações de cineastas é uma consequência. O próprio Salaviza, realizador de Arena, Palma de Ouro de 2009, recusa «ser uma espécie de bandeira de uma geração que não existe». «Somos dois ou três, que tivemos o engenho de conseguir o apoio do Estado.»
Miguel Valverde recordou as declarações de Jean Saint-Geours em 1996. O então director da Cinemateca Francesa vaticinou uma «nova vaga de realizadores» para Portugal, depois de ver Douro, Fauna Fluvial, de Manoel de Oliveira, com banda sonora refeita por Emmanuel Nunes. «Não me parece que a tenhamos.»
A internacionalização é o caminho para o cinema português – embora Pedro Costa, com «essa tanga dos festivais» em mente, a veja como uma «ultra falsa questão». «Não vale a pena o Indie andar a fantasiar [com o número de bilhetes emitidos]. Internacionalizar é estrear comercialmente».
A criação de uma agência de promoção e divulgação do cinema português poderia, junto com o ICA, segundo Inês de Medeiros, facilitar contactos e conseguir apoios para os filmes irem aos festivais internacionais. Miguel Valverde entende que o contrário também é válido: trazer os agentes internacionais a Portugal. É o que o IndieLisboa faz com a Lisbon Screenings e o Curtas Vila do Conde com a Agência da Curta-Metragem.
«Internacionalização não são agências», atirou Pedro Costa, que insistiu na necessidade de mudar os regulamentos do ICA. «Tudo o resto é fantasia». O realizador de Ne Change Rien apresentou, em Maio, junto com vários realizadores e produtores, um manifesto com um conjunto de propostas para evitar a «catástrofe eminente» do cinema português. «Não querem mudar, ninguém nos ouve», lamentou.

fonte : rascunho.net



IV: Top da Década da Cinemascope
(Edição de Março 2010)

Em plano de reflexão acerca do cinema português, parece-me oportuno deitar os olhos sobre a lista de filmes onde a conceituada revista Cinemascope decidiu alinhar os filmes da década, e notar como o nome Pedro Costa é singular em aparecer mencionado duas vezes, não só na lista principal, como nas menções honrosas. Reflicta-se internamente acerca dos valores de um cinema tão menosprezado no próprio país...

1. Platform (Jia Zhangke, 2000)

2. In Vanda’s Room (Pedro Costa, 2001)

3. La libertad (Lisandro Alonso, 2001)

4. Los Angeles Plays Itself (Thom Andersen, 2003)

5. 13 Lakes (James Benning, 2004)

6. Evolution of a Filipino Family (Lav Diaz, 2004)

7. Yi Yi (Edward Yang, 2000)

8. Black Book (Paul Verhoeven, 2006)

9. Memories of Murder (Bong Joon-ho, 2003)

10. Mulholland Drive (David Lynch, 2001)

Honourable mentions:
Colossal Youth (Pedro Costa, 2006);
The Death of Mr. Lazarescu (Cristi Puiu, 2005);
In the City of Sylvia (José Luis Guerín, 2007);
L’intrus (Claire Denis, 2004);
Three Times (Hou Hsiao-hsien, 2005);
Syndromes and a Century (Apichatpong Weerasethakul, 2006).

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