quinta-feira, 29 de abril de 2010

Words.


Jack Spicer morreu aos 40 anos em decorrência de seu alcoolismo. Suas últimas palavras (ditas a Robin Blaser) teriam sido : 

My vocabulary did this to me. 

Reincarnações.


Mariana Castro
www.marianacastro.tk







Vai ser de conversa

e vai ser de festa.



SESSÃO ENCERRAMENTO DO CICLO "DÉCADA DOS ZEROS"


30 de Abril. 18h40 . Auditório 1 . torre B .
FCSH - UNL



SOB O TEMA:
Pensar o Cinema da última década.


17h: EXIBIÇÃO DE "ZIDANE" (DOUGLAS GORDON)

18h40: CONVERSA COM:
João Lopes
Luís Miguel Oliveira
Bruno de Almeida
Fernando Cabral Martins



Parabéns ao Luis Mendonça
e à Marta Fernandes pela belíssima iniciativa.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Pensar o Cinema Português.



Abril foi um mês activo na discussão acerca do Cinema Português. A atenção comungada pelas várias vozes implicadas, mostra uma preocupação urgente com o resgate justo da vitalidade da arte cinematográfica em Portugal. Entre as inúmeras questões levantadas, discutem-se os propósitos inerentes ao ICA e ao FICA; a necessária previsão da exportação dos objectos cinematográficos, enunciado que deve presidir ao esquema de concessão de subsídios pelas entidades institucionais; a necessidade de detalhar a natureza dos objectos audiovisuais produzidos, estipulando nessa especificidade o apoio respectivo; o restabelecimento da ideologia que precedeu à criação do ICA; o apelo ao estado pelo aumento da verba destinada à cultura; a criação de plataformas públicas de difusão e de exibição, ou o alargamento da publicidade às já existentes; o incremento do estímulo e hábitos ligados à cultura visual em Portugal; e um leque vasto de outras problemáticas levantadas pela urgência de revitalização do cinema, alinhando a agenda numa ordem actual de assuntos, sujeitos à necessidade vital de se verem debatidos. Daqui, para um imperativo avanço.



I. Manifesto pelo Cinema Português

assinado pelos realizadores Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos, Jorge Silva Melo, João Botelho, Pedro Costa, João Canijo, Teresa Villaverde, Margarida Cardoso, Bruno de Almeida, Catarina Alves Costa, João Salaviza e pelos produtores Maria João Mayer (Filmes do Tejo) , Abel Ribeiro Chaves (OPTEC), Alexandre Oliveira (Ar de Filmes), Joana Ferreira (C.R.I.M.), João Figueiras (Black Maria), João Matos (Terratreme), João Trabulo (Periferia Filmes), Pedro Borges (Midas Filmes)


Nunca como nos últimos vinte anos teve o cinema português uma tão grande circulação internacional e uma tão grande vitalidade criativa. E nunca como hoje ele esteve tão ameaçado.
No mesmo ano em que um filme português ganhou em Cannes a Palma de Ouro da curta-metragem e tantos e tantos filmes portugueses foram vistos e premiados um pouco por todo o mundo, o cinema português continua a viver sob a ameaça de paralisação e asfixia financeira.
Desde há dez anos que os fundos investidos no cinema não cessaram de diminuir: a produção e a divulgação do cinema português vivem tempos cada vez mais difíceis.
E a criação de um Fundo de Investimento (e a promessa de um grande aumento de financiamentos), revelou-se uma enorme encenação que na generalidade só serviu para legitimar o oportunismo de uns tantos.
O cinema português vive hoje uma situação de catástrofe iminente e necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos e em particular da senhora Ministra da Cultura.
O cinema português - o seu Instituto - ao contrário do que é repetido vezes sem conta, é financiado por uma taxa (3,2%) sobre a publicidade na televisão, e não pelo Orçamento de Estado.
O financiamento do cinema português desceu na última década mais de 30% e a produção de filmes, documentários e curtas-metragens, não tem parado de diminuir.
O Fundo de Investimento no cinema, que era suposto trazer à produção 80 milhões de euros em cinco anos, está paralisado e manietado pelos canais de televisão e a Zon Lusomundo, e não só não investiu quase nada, como muito do pouco que investiu foi-o em coisas sem sentido.

Por isso se torna imperioso e urgente
a) normalizar o funcionamento desse Fundo e multiplicar as verbas disponíveis para investimento na produção de cinema, nomeadamente multiplicando as receitas do Instituto de Cinema, e tornando as suas regras de funcionamento transparentes e indiscutíveis;
b) normalizar a relação da RTP (serviço público de televisão) com o cinema português, fazendo-a respeitar a Lei e o Contrato de Serviço Público, assinado com o Estado Português;
c) aumentar de forma significativa o número de filmes, de primeiras-obras, de documentários, de curtas-metragens, produzidos em Portugal;
d) e actuar de forma decidida em todos os sectores – não apenas na produção, mas também na distribuição, na exibição, nas televisões (e em particular no serviço público), e na difusão internacional do cinema português.

Depois de mais de seis anos de inoperância e desleixo dos sucessivos Ministros da Cultura, que conduziram o cinema português à beira da catástrofe, impõe-se:
1. Normalizar o funcionamento do FICA (Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual) reconduzindo-o à sua natureza original: um fundo de iniciativa pública, tendo como objectivo o aumento dos montantes de financiamento do cinema e da ficção audiovisual original em língua portuguesa e o fortalecimento do tecido produtivo e das pequenas empresas de produção de cinema. E fazer entrar nos seus participantes e contribuintes os novos canais e plataformas de televisão por cabo (meo, Clix, Cabovisão, etc), que inexplicavelmente têm sido deixados fora da lei;
2. Multiplicar as fontes de financiamento do cinema português, nomeadamente junto da actividade cinematográfica, recorrendo às receitas da edição DVD (a taxa cobrada pela IGAC, cuja utilização é desconhecida, e que na última década significou dezenas de milhões de euros); à taxa de distribuição de filmes (que há décadas não é actualizada) e à taxa de exibição. As receitas das taxas que o Estado cobra ao funcionamento da actividade cinematográfica devem ser integralmente reinvestidas na produção e na divulgação do cinema português (produção, distribuição, edição DVD, circulação internacional);
3. Aumentar as fontes de financiamento do Instituto de Cinema, para aumentar o número, a diversidade, a quantidade e a qualidade, dos filmes produzidos. Filmes, primeiras-obras, documentários, curtas-metragens, etc.
4. Apoiar os distribuidores e exibidores independentes, e estimular o aparecimento de novas empresas nesta actividade, de forma a que o cinema português, o cinema europeu e o cinema independente em geral, possam chegar junto do seu público. E apoiar os cineclubes, as associações culturais e autárquicas, os festivais e mostras de cinema, que um pouco por todo o país fazem já esse trabalho;
5. Fazer cumprir o Contrato de Serviço Público de Televisão por parte da RTP, que o assinou com o Estado Português, e que está muito longe de o respeitar e às suas obrigações, na produção e na exibição de cinema português, europeu e independente em geral. E contratualizar com os canais privados e as plataformas de distribuição de televisão por cabo, as suas obrigações para com a difusão de cinema português.

O cinema português, que vale a pena, tem hoje em dia, apesar da paralisia, quando não da hostilidade, dos poderes públicos, um indiscutível prestígio internacional. Os seus realizadores, actores, técnicos, produtores, não deixaram de trabalhar apesar de tudo o que se tem vindo a passar. Está na altura de os poderes públicos assumirem as suas responsabilidades.
É necessária uma nova Lei do Cinema, mas é urgente uma intervenção de emergência no cinema português.



II. Programa Câmara Clara sobre o Cinema Português

Moderado por Paula Moura Pinheiro, com João Salaviza, e Inês de Medeiros, e com depoimentos de Jorge Leitão Ramos, Luís Urbano, Miguel Valverde, Leonel Vieira e a Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.



III. Indie Lisbon Talks - S.Jorge

com Paula Moura Pinheiro, Pedro Costa, Inês de Medeiros, Miguel Valverde, João Salaviza, Pedro Borges, Fernando Vendrell, Luís Urbano.

As Lisbon Talks convocaram um debate provocatório sobre os «Estados gerais do cinema português». E saíram ideias do São Jorge: acabar com o FICA, mudar o ICA, alterar o conceito de «obra criativa» para as televisões e criar uma agência de promoção.
A internacionalização e a diversificação de fontes de financiamento do cinema português aqueceram, esta terça-feira, a sala 2 do São Jorge. A necessidade de mudar os regulamentos do Instituto do Cinema e do Audiovisual gerou algum consenso, mas a tangente sobre o papel da RTP exaltou o debate.
Paula Moura Pinheiro moderou a conversa sobre os «Estados gerais do cinema português», inserido nas Lisbon Talks do IndieLisboa. Pedro Costa interpelou directamente a subdirectora da RTP2 sobre o horário de exibição de um dos seus filmes, Juventude em Marcha, que aconteceu em Junho do ano passado, depois da meia-noite.
Em causa, a premência de a programação do segundo canal da estação pública exibir mais cinema português e em horas nobres. A jornalista defendeu a necessidade de manter um certo share, à volta dos cinco por cento, sem o qual se teme a alienação do canal, como ameaçou por Morais Sarmento no último Governo PSD/CDS-PP.
Inês de Medeiros, deputada do PS à Assembleia da República, estava presente e garantiu que a possibilidade nem sequer está na agenda política. Ainda assim, ficou no ar a questão sobre as razões que levam a crer que, no caso, Juventude em Marcha, que esteve na selecção oficial de Cannes, não tem audiência.
A ideia de que deve haver um «maior nível de exigência», no que respeita à RTP, foi defendida no início do debate, numa carta escrita pela ministra da Cultura, que Miguel Valverde, co-director do IndieLisboa, leu. Gabriela Canavilhas apontou ainda, na missiva, o problema da distorção do mercado de distribuição.
A luta dos conteúdos por plataformas como a Zon e a Meo foi sinalizada como um problema a resolver por Inês de Medeiros, que verbalizou a necessidade de alterar a lei da televisão e a lei geral do cinema, assim como de redefinir o conceito de «obra criativa» – que actualmente abrange demasiada produção mediática – e as suas quotas em televisão. E, paradoxalmente mas por fim, acabar com «este frenesim legislativo».
Pedro Costa argumentou que são os regulamentos do ICA que devem ser mudados, não a lei – o que seria moroso no quadro político presente. A entrada em cena das opções governativas desembocaram, inevitavelmente, no recentemente criado e mal-amado Fundo para o Cinema e Audiovisual, cujo fim foi amplamente defendido.
No entanto, Inês de Medeiros relevou que «seria uma irresponsabilidade» fazê-lo agora, quando o Quadro de Referência Estratégico Nacional já lhe atribuiu 30 milhões de euros. O encerramento compulsivo do FICA, cuja génese a deputada chegou a apoiar, acabaria com esta verba. O dinheiro é um problema recorrente. A forma de o atribuir também.

Qual nova geração?

João Salaviza assegura que «o dinheiro existe, mas é mal distribuído». «Gasta-se muito dinheiro em filmes que não vão além de Badajoz». Pedro Borges foi mais longe: «O cinema novo português é feito contra décadas de trampa». O distribuidor e produtor da Midas Filmes considera que se «vive em guerra civil pelo menos desde a década de 60».
A ausência sucessiva de novas gerações de cineastas é uma consequência. O próprio Salaviza, realizador de Arena, Palma de Ouro de 2009, recusa «ser uma espécie de bandeira de uma geração que não existe». «Somos dois ou três, que tivemos o engenho de conseguir o apoio do Estado.»
Miguel Valverde recordou as declarações de Jean Saint-Geours em 1996. O então director da Cinemateca Francesa vaticinou uma «nova vaga de realizadores» para Portugal, depois de ver Douro, Fauna Fluvial, de Manoel de Oliveira, com banda sonora refeita por Emmanuel Nunes. «Não me parece que a tenhamos.»
A internacionalização é o caminho para o cinema português – embora Pedro Costa, com «essa tanga dos festivais» em mente, a veja como uma «ultra falsa questão». «Não vale a pena o Indie andar a fantasiar [com o número de bilhetes emitidos]. Internacionalizar é estrear comercialmente».
A criação de uma agência de promoção e divulgação do cinema português poderia, junto com o ICA, segundo Inês de Medeiros, facilitar contactos e conseguir apoios para os filmes irem aos festivais internacionais. Miguel Valverde entende que o contrário também é válido: trazer os agentes internacionais a Portugal. É o que o IndieLisboa faz com a Lisbon Screenings e o Curtas Vila do Conde com a Agência da Curta-Metragem.
«Internacionalização não são agências», atirou Pedro Costa, que insistiu na necessidade de mudar os regulamentos do ICA. «Tudo o resto é fantasia». O realizador de Ne Change Rien apresentou, em Maio, junto com vários realizadores e produtores, um manifesto com um conjunto de propostas para evitar a «catástrofe eminente» do cinema português. «Não querem mudar, ninguém nos ouve», lamentou.

fonte : rascunho.net



IV: Top da Década da Cinemascope
(Edição de Março 2010)

Em plano de reflexão acerca do cinema português, parece-me oportuno deitar os olhos sobre a lista de filmes onde a conceituada revista Cinemascope decidiu alinhar os filmes da década, e notar como o nome Pedro Costa é singular em aparecer mencionado duas vezes, não só na lista principal, como nas menções honrosas. Reflicta-se internamente acerca dos valores de um cinema tão menosprezado no próprio país...

1. Platform (Jia Zhangke, 2000)

2. In Vanda’s Room (Pedro Costa, 2001)

3. La libertad (Lisandro Alonso, 2001)

4. Los Angeles Plays Itself (Thom Andersen, 2003)

5. 13 Lakes (James Benning, 2004)

6. Evolution of a Filipino Family (Lav Diaz, 2004)

7. Yi Yi (Edward Yang, 2000)

8. Black Book (Paul Verhoeven, 2006)

9. Memories of Murder (Bong Joon-ho, 2003)

10. Mulholland Drive (David Lynch, 2001)

Honourable mentions:
Colossal Youth (Pedro Costa, 2006);
The Death of Mr. Lazarescu (Cristi Puiu, 2005);
In the City of Sylvia (José Luis Guerín, 2007);
L’intrus (Claire Denis, 2004);
Three Times (Hou Hsiao-hsien, 2005);
Syndromes and a Century (Apichatpong Weerasethakul, 2006).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Tilda Swinton sobre Apichatpong




: CONTÁGIOS DA DOENÇA TROPICAL


"When i saw Tropical Malady in Cannes – the
first of his films i had seen – i thought that the
reels had been switched accidentally. I actually
sat up and looked for an official in the aisle.
A modern, tentatively-poised relationship evolving.
Cut to a mysterious creature glimpsed hunted?
- through the trees of a forest, incessantly,
for the rest of the film. How could this be
so? I felt myself blush, caught out, indecent:
how could it be that falling in love itself could
be purposefully unspooling in its raw, natural
order in front of this civilised audience? For isn’t
this what the first steps towards the fever
of love are exactly – the malady of the title – but
stepping into the haze of the intoxicating jungle?
Going barefoot and without a hat? Heart in
your throat and sweat prickling up everywhere?
Eventually the forest, this film murmurs.
Inevitably, inexorably, the forest.

sábado, 24 de abril de 2010

Cinco braços representando os cinco sentidos

Para Mac

Jack Spicer


Estrela-do-mar morta numa praia
Com seus cinco braços
Representando os cinco sentidos
Representando as piadas que não contamos um ao outro
Chame a terra de chão
Chame as pessoas de humanas
Mas deixe a criatura estirada
No chão dos nossos sentidos
Como um amor
Prefigurado no mar
Que morreu
E foi à água
Todos os oceanos
De emoções. Todos os oceanos de emoções
Estão cheios de tais estrelas
Por que
Esta que está morta teria tamanha importância?

(tradução de Ricardo Domeneck)




Uncle Boonmee who can recall his past lives, Apichatpong Weerasethakul, 2010 



Waves of Love (1896) by Edvard Munch
Waves of Love (1896) by Edvard Munch

RED BUCKET FILMS.




pelos irmãos Safdie e amigos,
o talento da experiência independente
ao bom jeito da geração
acontece em :




www.redbucketfilms.com



The New Handshake
ALEX KALMAN (2006)





Agradeço a dica ao Luís Mendonça.


Griffith inventou o rosto no cinema.


O Lírio Partido (1919) - David Wark Griffith


"A reputação de Griffith nos estudos de cinema é, embora um pouco exagerada, totalmente irrepreensível. Sem dúvida, o cinema americano (e mundial) seria bem diferente sem as suas diversas contribuições. O Nascimento de uma Nação e Intolerância são justificadamente, seus filmes mais célebres, lembrados pelo extraordinário tratamento dado ao roteiro e à montagem. Porém outro de seus filmes, Lírio Partido, de 1919, sempre se destacou como uma de suas melhores obras, sendo, com certeza, a mais bela de todas. Juntamente com Aves sem Ninho, o glorioso veículo de William Beaudine para Mary Pickford, Lírio Partido é um exemplo do que é conhecido em Hollywood como 'estilo singelo'. Este foi o ápice em termos de glamour fotográfico: os fotógrafos usaram todos os recursos disponíveis – pó-de-arroz, aparelhos especiais de iluminação, lentes besuntadas de óleo, até imensas cortinas de gaze transparente presas ao teto do estúdio – para suavizar, realçar e acentuar a beleza de suas estrelas. Em Lírio Partido, a face da imortal Lillian Gish literalmente resplandece com um brilho apaixonante e sobrenatural, ofuscando todos os demais elementos em cena. A beleza deste filme deve ser apreciada, pois ela é verdadeiramente formidável. Gish e seu companheiro de cena, o excelente Richard Barthelmess, flanam atormentados por uma paisagem londrina definida por névoa, travessas iluminadas por luzes soturnas e enigmáticos cenários 'orientalistas'. A simples história de amor proibido do filme é perfeitamente complementada pela cenografia deslumbrante e misteriosa, concebida por Joseph Stringer. Lírio Partido é um filme único. A colaboração entre Gish e Griffith é uma das mais frutíferas do cinema americano: os dois também trabalharam juntos em O Nascimento de uma Nação,Órfãos da Tempestade Inocente Pecadora, além de outras dezenas de curtas. Certamente, essa é uma parceria diretor-ator que se iguala às de Scorsese-De Niro, Kurosawa-Mifune e Leone-Eastwood, para citar algumas; na verdade, ela serve de modelo para julgar todas as outras. Griffith alcança um equilíbrio perfeito entre a banalidade do enredo e a exuberância maltrapilha da produção (a maior parte do filme se passa em casas de ópio e espeluncas do cais do porto). É preciso um diretor talentoso e confiante para manipular uma dicotomia forma/conteúdo como esta, e o que se vê aqui é Griffith no auge das suas habilidades. É a tensão entre o cotidiano e o extraordinário que conduz Lírio Partido, garantindo seu lugar na história do cinema."

THE KOBAL COLLECTION

***

"Griffith inventou o rosto no cinema, na medida em que fez dele uma arte, como fez com a montagem paralela."


Tag Gallagher, Raoul Walsh, Senses of Cinema, julho 2002

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Tanto para ver :






*


CICLO
CINEMA DÉCADA DOS ZEROS
21 a 30 de Abril 2010
na FCSH


21 Abril
18H : GERRY - GUS VAN SANT (2002)
21H: MARY - ABEL FERRARA (2005)

22 Abril
18H : THE INNER LIFE OF MARTIN FROST - PAUL AUSTER (2007)
21H: LA FRONTIÈRE DE L'AUBE - PHILIPPE GARREL (2008)

23 Abril
18H : ZHANTAI / PLATAFORMA - JIA ZHANG-KE (2000)
21H: BRANCA DE NEVE- JOÃO CÉSAR MONTEIRO (2000)

27 Abril
18H : MARIE ANTOINETTE: SOFIA COPPOLA (2006)
21H: TETRO: FRANCIS FORD COPPOLA (2009)

27 Abril
18H : BUG : WILLIAM FRIEDKIN (2006)
21H: NOITE ESCURA : JOÃO CANIJO (2004)

28 Abril
18H : THE BUSINESS OF FANCY DANCING : SHERMAN ALEXIE (2002)
21H: BAMAKO: ABDERRAHMANE SISSAKO (2006)

29 Abril
18H : LADY IN THE WATER: M.NIGHT SHYAMALAN (2006)
21H: GHOSTS OF MARS : JOHN CARPENTER (2006)

30 Abril
18H : ZIDANE : DOUGLAS GORDON E PHILIPPE PARRENO (2006)
18H40: CONFERÊNCIA :
+ JOÃO MÁRIO GRILO
+ JOÃO LOPES
+ LUIS MIGUEL OLIVEIRA
+ FERNANDO CABRAL MARTINS
+ MARTA FERNANDES (moderação)




*


CICLO
CINEMA DO MUNDO
6 a 12 de Maio 2010
no Cinema City Classic de Alvalade


JAPÃO
NINGUÉM SABE : KPRE-EDA HIROKAZU (2004)

ITÁLIA
QUERIDO DIÁRIO : NANNI MORETTI (1993)

ARGENTINA / ESPANHA
O PÂNTANO : LUCRECIA MARTEL (2001)

TURQUIA
NURI BILGE CEYLAN (2002)

IRÃO
O SABOR DA CEREJA : ABBAS KIAROSTAMI (1997)

TAIWAN
GOODBYE DRAGON INN : MING LIAN TSAI (2003)

RÚSSIA
O REGRESSO : ANDREI ZVYAGINTSEV (2003)




*


CICLO
FILMES PROIBIDOS ANTES DO 25 DE ABRIL
de 12 Abril a 28 Junho
na Casa da Achada, Lisboa


segunda 12 Abril
21H30 AS VINHAS DA IRA: JONH FORD (1940)

segunda 19 Abril
21H30 VERIDIANA : BUÑUEL (1961)

segunda 26 Abril
21H30 A RELIGIOSA : JACQUES RIVETTE (1966)

segunda 3 Maio
21H30 OS CARABINEIROS : JEAN-LUC GODARD (1963)

segunda 10 Maio
21H30 OUTUBRO: SERGEI EISENSTEIN (1928)

segunda 17 Maio
21H30LA VIE EST À NOUS: BECKER, BRUNIUS, CARTIER-BRESSON, RENOIR, ETC (1936)

segunda 24 Maio
21H30 A GUERRA ACABOU : ALAIN RESNAIS (1966)

segunda 31 Maio
21H30 TERRA EM TRANSE : GLAUBER ROCHA (1967)

segunda 7 Junho
21H30 IRMA LA DOUCE: BILLY WILDER (1963)

segunda 14 Junho
21H30 DR. STRANGELOVE : STANLEY KUBRICK (1964)

segunda 21 Junho
21H30 JULES ET JIM : FRANÇOIS TRUFFAUT (1962)

segunda 28 Junho
21H30 FLORES DE PAPEL: GURU DUTT (1959)




*


CICLO
NOVO CINEMA ALEMÃO
de 22 Abril a 26 Maio
no cinema King, Lisboa


quinta 22 Abril
19H MALINA: WERNER SCHROETER

sexta 23 Abril
19H O REI DAS ROSAS: WERNER SCHROETER

sábado 24 Abril
19H O FILÓSOFO: RUDOLPH THOME

domingo 25 Abril
19H AMOR À PRIMEIRA VISTA: RUDOLPH THOME

segunda 26 Abril
19H A AUSÊNCIA : PETER HANDKE

terça 27 Abril
19H OS EDUKADORES : HANS WEINGARTNER

quarta 28 Abril
19H MARTHA : RAINER WERNER FASSBINDER

quinta 29 Abril
19H EFFIE BRIEST : RAINER WERNER FASSBINDER

sexta 30 Abril
19H O CASAMENTO DE MARTHA BRAUN : RAINER WERNER FASSBINDER

sábado 1 Maio
19H O DESESPERO DE VERONIKA VOSS : RAINER WERNER FASSBINDER

domingo 2 Maio
19H OLHOS NOS OLHOS : MICHAEL ALTHEN E HELMUT PRINZLER

segunda 3 Maio
19H DESPEDIDA DE ONTEM : ALEXANDER KLUGE

terça 4 Maio
19H ALEMANHA NO OUTONO : FASSBINDER, KLUGE, SCHLONDORFF

quarta 5 Maio
19HO NONO DIA : VOLKER SCHLONDORFF

quinta 6 Maio
19H NOSFERATU - PHANTOM DER NACHT : WERNER HERZOG

sexta 7 Maio
19H O ESTADO DAS COISAS : WIM WENDERS

sábado 8 Maio
19H LISBON STORY : WIM WENDERS

domingo 9 Maio
19H VON EINEM DER AUZOG- WIM WENDER'S FRUHE JAHRE : MARCEL WEHN

segunda 10 Maio
19H LUDWIG REI DA BAVIERA : SYBERG

terça 11 Maio
19H ADEUS LENINE! : WOLFGANG BECKER

quarta 12 Maio
19H SOPHIE SCHOOL / OS ÚLTIMOS DIAS : MARC ROTHEMUND

quinta 13 Maio
19H DO OUTRO LADO : FATIH AKIN

sexta 14 Maio
19HRÁPIDO E INDOLOR : FATIH AKIN

sábado 15 Maio
19H EM JULHO: FATIH AKIN

domingo 16 Maio
19H A ESPOSA TURCA : FATIH AKIN

segunda 17 Maio
19H MADONAS : MARIA SPETH

terça 18 Maio
19H AS VIDAS DOS OUTROS : FLORIAN HENCKEL VON DONNERSMARCK

quarta 19 Maio
19H O GRANDE SILÊNCIO : PHILIP GRONING

quinta 20 Maio
19H YELLA : CHRISTIAN PETZOLD

sexta 21 Maio
19H FANTASMAS : CHRISTIAN PETZOLD

sábado 22 Maio
19H ADORMECIDO : BENJAMIN HEISENBERG

domingo 23 Maio
19H ENTARDECER : ANGELA SCHANELEC

segunda 24 Maio
19H VERÃO EM BERLIM : ANDREAS DRESEN

terça 25 Maio
19H NUNCA É TARDE DEMAIS PARA AMAR : ANDREAS DRESEN

quarta 26 Maio
19H FÉRIAS : THOMAS ARSLAN

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Camera-Eye




Loin du Vietnam (excerto de JLG) 1967


(FONTE DESCONHECIDA:)
Quando interrogado em 2001 sobre como explicaria o Cinema aos extraterrestres, Godard respondeu :

"Eu tentaria explicar que há um instrumento particular, que é a câmara, que é uma metáfora para qualquer coisa velha. Eu haveria de dizer que precisamos desse instrumento para ver a humanidade, como precisamos de um telescópio para ver ao longe, de um microscópio para ver ao perto, ou de uns óculos para ver melhor. Eu haveria de dizer que é um instrumento que foi inventado no início do século XX, e do qual alguns artistas se tornaram os cavaleiros errantes."

Arrieta por Biette



Adolfo Arrieta, Por Jean Claude Biette


Quer ele avance sobre as “échasses” 1 de uma narrativa simulada, regida por roteiros com caráter feérico ( o Castelo de Pointilly, Tam-Tam, Flammes), quer ele persiga com uma intuição segura esta percurso em caracol de uma filmagem às cegas, que só conseguirá ser retomada nas últimas decisões da montagem ( Le Crime de la toupie, este extraordinário Imitação do anjo, Le jouet criminel, As Intrigas de Sylvia Kousky), a arte cinematográfica de Arrieta exprime antes de tudo nas questões humanas aquilo que desliza entre as malhas do real, o que se esfiapa entre os diálogos.
Poder-se-ia crer, vendo apenas um ou dois desses filmes, que Arrieta se empenha nos diálogos, no que se diz e no que se troca. Errado: ele os utiliza apenas como encantamentos que joga ao acaso. Os significados são piões, os diálogos simples lances de paciência ( carpette) 2, e os personagens as peças, com frequência vestidas de anjos, de um grande jogo misterioso que não é conduzido pelo destino, por Deus ou por uma ideologia, mas pelos componentes tangíveis de uma concepção enigmática do cinema de que Arrieta busca há anos, a cada filme, emitir novas provas. Ele flertam com um número incalculável de sombras que nos encantam, mas que escapam a quaisquer que tentam convertê-las em objetos.
Este jogo do cinema, que adquire às vezes em seus filmes a aparência do milagre, traduz uma poética dividida, contraditória, que se burila, não sem dificuldade, para derivar no sentido das duas direções indicadas na repartição feita acima. Esta divisão em duas tendências da obra- cinco longas-metragens e dois curtas são suficientes neste caso preciso para falar em obra- aparece na percepção simultânea da cor dramática, da forma técnica e da tonalidade de conjunto ( o resultado estético) de cada um de seus filmes. Os primeiros, claramente dialogados com seus textos gravados ao mesmo tempo que a ação filmada ( em som direto), submetem um pouco à sua lei os planos de ação que poderíamos, por economia e exigência de mobilidade, tornar mudos e acrescentar o ruído em seguida, “por cima” ( sim, “fazer ruído”, pois Arrieta não hesita, por exemplo, em emprestar sua voz à imagem de um cão que late). Estes filmes dão a impressão de uma maior hierarquia entre seus componentes que os segundos. Estes, pouco dialogados, com seus sons um pouco sufocados de conversações ou de julgamentos sem respostas, propõem uma narração fantasma que não inspira medo mas, de forma muito mais sutil, busca tranqüilizar.3
De que se trata então este jogo e em que ele é cinematográfico? Que são estes “trotes”
( pièges) vãos que no máximo nos enervam ( mas já se trata disso?) Neste dispositivo que imita a negligência (dos raccords, da luminosa continuidade, da percepção auditiva mediana, do jogo coerente e composto dos intérpretes)- e esta negligência exaspera-, ocorre a busca obstinada ( e pouco prestigiosa) por exprimir em estado de filme a grande desordem, raramente explorada, da vida , ou seja, de comunicar um sentimento tão forte quanto possível ( não”mimado” por efeitos formais nem imposto pela vontade ou aprisionado pelo roteiro, , mas ganho no espaço material do filme, em seus componentes os mais prosaicamente técnicos) de liberdade. Os filmes de Arrieta abrigam tesouros de olhares, de gestos e de frases sem sentido ( insensés): estes não exprimem nada, eles estão aí para estarem aí e afirmarem imediatamente a existência, aqui e não em outro lugar, de indivíduos atores ou não, que uma câmera que se diria “chargée à blanc” 4 interrompe alguns segundos, no meio de uma conversação ou no decorrer de um passeio. Nesta aptidão a combinar dispositivo obstinado e desordens, a partir de uma cultura, de um ponto de saber, de uma biografia que diferem, Arrieta não está muito distante de Jean Rouch ou de Jacques Rivette”.
Jean Claude Biette, Cahiers du Cinéma, número 290-291, julho-agosto 1978.

Tradução: Luiz Soares Júnior.

O Dia D.




"As Operações SAAL", de João Dias, 2009



O DIA D .


24 horas de documentários
na RTP2

das 22h30 de sábado 24
até às 22h de domingo 25


PROGRAMAÇÃO :

Das 22h - 1h

Assim na Terra Como no Céu
O Fio da Meada
Esta Rua é Minha
A Lei da Terra
Buenos Aires Hora Zero
Bobby Cassidy
Duas Histórias de Prisão
As Porteiras


Da 1h às 19h:

Kuduro Fogo No Museke
Angola - Histórias da Música Popular
Nome Mulher - O caso Sogantal
O Sabor da Despedida
Cambedo
Baloou
Ilha
A semente do ouro negro
Fado Celeste
As Cordas de Amália
Está lá?
Bimby
Cenas da Vida Real
Dundo
Memória Colonial
Operações Saal

ROSA DE AREIA.

A Poesia da Terra.





Rosa d'Areia
ANTÓNIO REIS E MARGARIDA CORDEIRO (1989)




*


A propósito de "Rosa de Areia" 
para o catálogo
"António Reis e Margarida Cordeiro : A Poesia da Terra"
editado pelo cineclube de Faro,
a 23 de Novembro de 1997.
(in Textos Cinema Portuguesa, Pasta 56-439-440.)por Luís Miguel Oliveira





Rosa de Areia ficou como o último fime realizado por António Reis, que morreria menos de dois anos depois da conclusão deste trabalho. E é um filme que permaneceu, ao longo destes oito anos, inédito nas salas comerciais portuguesas. Ou seja, é um filme que ficou praticamente invisível durante todo este tempo, exceptuando esporádicas exibições em Festivais ou em salas como a da Cinemateca.
Quando preparavam e rodavam Rosa de Areia, António Reis e Margarida Cordeiro não sabiam que este haveria de ficar como o filme definitivo da dupla. Por isso talvez não seja muito útil recorrer ao chavão, sempre tentador quando se trata de "últimos filmes", do "filme-testamento". Pelo contrário, parece evidente em Rosa de Areia uma vontade de apontar para novos caminhos, de experimentar coisas novas, que não se compadece com o registo de súmula que normalmente caracteriza os "testamentos". Se em Rosa de Areia está uma série de temas e de ideias desenvolvidas nas obras anteriores, o filme aponta decisivamente para o futuro, para um percurso no qual António Reis não terá tido tempo senão de dar os primeiros passos. De Jaime a Ana não há nenhum outro filme onde o radicalismos estético de Reis e Cordeiro tenha aparecido assim, de maneira tão exuberante e tão abertamente "experimental". Rosa de Areia é assim uma espécie de "filme incompleto", como um esboço, capaz de gerar uma descendência (tivesse Reis tido tempo para isso) porventura ainda mais fascinante do que ele próprio. Rosa de Areia é um filme que está muito longe de se fechar a si próprio, o seu movimento é para fora, não é para dentro: há poucos filmes capazes de criar, como este cria, hipóteses para a sua descendência.
É curioso que, numa entrevista concedida aos Cahiers por ocasião da estreia de Ana, tenha sido perguntado a António Reis e Margarida Cordeiro se não encaravam a hipótese de, um dia, fazerem um filme a partir de uma adaptação literária. Apesar da série de renitências apresentadas pelos realizadores, não havia um não definitivo e Reis acabava mesmo por dizer que, provavelmente, um dia acabaria por conceber um filme assim. O que é interessante nisto é que se Rosa de Areia (o filme que se seguiu a Ana) não é propriamente uma adaptação literária, é o filme que, na obra de Reis e Cordeiro, vem trazer a questão da relação do cinema com a literatura. Questão que não se põe aqui, evidentemente, com os termos com que costuma pôr-se: não há adaptação nem mesmo uma qualquer narrativa pedida "emprestada". O que há é uma selecção de textos (que vão de Montaigne a Kafka, de relatos jurídicos da Idade Média a Carl Sagan), lidos ou declamados pelos actores do filme, e organizados segundo um trabalho que tem sobretudo a ver com a ideia de "colagem". Se os filmes de Reis e Cordeiro sempre se afastaram do naturalismo, Rosa de Areia é que vai mais longe na procura do artifício - e esta opção marca um dos percursos que aqui se inauguravam. O estilo de "colagem" que marca a organização (tanto a "literária" como a montagem) já diz um pouco sobre isso, mas o artifício está ainda presente na convocação do teatro, aparentemente ausente da obra de Reis e Cordeiro (embora haja alguns momentos de Trás-os-Montes e de Ana em que certos rituais familiares e sociais são filmados como se se estivesse a filmar teatro), e no modo como quase todos os planos do filme são compostos a partir de um jogo de pura sensibilidade estética, decidido muitas vezes a partir de equilíbrios ou confrontos cromáticos.
Daqui resulta um filme que é um desafio: um desafio, primeiro, aos cânones e normas estabelecidas (a dificuldade para encontrar quem o quisesse estrear é um sintoma da violência deste desafio); um desafio, depois, ao espectador: para entrar nesta espécie de palco cósmico onde se encenam os mais variados tempos e lugares (Rosa de Areia é um filme de lugar nenhum, num tempo sem data, mas é em simultâneo um filme de todos os lugares e de todos os tempos) é preciso merecê-lo e avançar de espírito tão despojado quanto possível. Afinal de contas, o que está aqui em causa, mais do que a poesia da terra, é a poesia da Terra.






*

 "Rosa de Areia"
na sessão de 18 de Abril de 2010
Mostra Panorama : Cinema S.Jorge



"- A própria mulher que era feita de hábitos mais velhos do que ela."

"- Gostaria de ser verdadeiramente múltipla. Gostava de ser mãe, infinitamente.
- Eu sou ainda viva mas sou já uma morta. Não existo."


"Para onde se vão as luas em união com os anos?
Porque não descansa nunca o vento, porque não descansa nunca o espírito?"



"devido ao dito porco ser uma besta bruta."

terça-feira, 20 de abril de 2010

Organizamos mistérios.

«Todo se me confunde cuando creo que 
recuerdo, es otra cosa la que pienso; 
si veo, ignoro, y cuando me 
distraigo, claramente veo.» 
(Fernando Pessoa). 

«Puesto que estos misterios 
me sobrepasan, 
fingimos ser sus organizadores.» 
(Jean Cocteau) 


Leonora Carrington

Erica Schreiner, Blue 2011


segunda-feira, 19 de abril de 2010

PANORAMA 2010.




Com toda a causa e importância se fez foco das honras da mais recente mostra Panorama (9 - 18 de Abril), o casal português de cineastas António Reis e Margarida Cordeiro. Se a criação do evento assume privilégios de reflexão geral sobre o cinema documental, à vida e obra de António Reis coube este ano a função de elo unificador entre os vários trabalhos em exibição e propostas de debate. A partida para o mote da 4ª edição do Panorama, fez-se sob a questão "como se ensina o documentário português?", e com circunstância se submergiu o olhar sobre alguns dos trabalhos documentais que, em Portugal, saem das variadas escolas dedicadas ao ensino da modalidade documental.
Entre os 59 documentários exibidos, foi possível, graças à colaboração da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, assistir a 4 quatro importantes títulos da obra de Reis e de Cordeiro: «Jaime»; «Trás-os-Montes»; «Ana» e «Rosa de Areia», singularidades imprescindíveis à aprendizagem, qualificação e reflexão acerca do cinema português. Esperando continuidade na propagação regular desta influente revisão, há por enquanto que agradecer o gesto recente à organização do Panorama.



Convidei Inês Sapeta Dias, documentarista e programadora da mostra, a fazer um balanço da edição deste ano.
a ler no número de Maio da revista RUA DE BAIXO

sábado, 17 de abril de 2010

Say goodbye to classical reality.


Definições de cinema moderno, por John Carpenter.

"Let's talk about our beliefs, and what we can learn about them. We believe nature is solid, and time a constant. Matter has substance, and time a direction. There is truth in flesh, hmmm, and the solid ground. The wind may be invisible, but it's real. Smoke, fire, water, light - they're different! Not as to stone or steel, but they're tangible. And we assume time is narrow, because... it is as a clock! One second is one second for everyone. Cause precedes effect; fruit rots, water flows downstream; we're born, we age, we die; the reverse, never happens... NONE OF THIS IS TRUE! Say goodbye to classical reality, because our logic collapses on the subatomic level into ghosts... and shadows."

"From Job's friends insisting that the good are rewarded and the wicked punished, to the scientists of the 1930's proving to their horror the theorem that not everything can be proved, we've sought to impose order on the universe. But we've discovered something very surprising... While order DOES exist in the universe, it is not at all... what we had in mind."

Tenho dito.






O José Oliveira é quem, actualmente,
melhor escreve sobre cinema, em Portugal.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

RoGoPaG


A Incoerência do Fogo.


Graham Sutherland




O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?

O corpo e essa onda, essa pedra - é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto - o mar.

O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras

Onde o corpo onde o desejo
perante o ventoa frágil força do corpo (aranha inerme?)?

Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar

Eu continuo com estas pedras no deserto - no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento - e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página ou terra?

Mas se não fosse o deserto - se fosse a praia a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?

Mas tu esperas três palavras
três pedras- e sem o fogo sem a folhagem sem o mar

Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?

Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa no externo
com a proa no externo
com as sílabas deserto

Mas se o silêncio da praia - onde o mar? -o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro - e a respiração do mar?

Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?

Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?

Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto

Mas isto é, isto é, com se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?

Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco - em frente ao mar?

Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?

Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?

A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.

A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.

As pedras nem são pedras mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.

Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chamada garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?

Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areiaeu subscrevo o branco
um novo corpo.

Ainda que nada veja senão as pedras que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.

*

Que diz a forma da pedra - o corpo?
Que diz este silêncio de erva?
Este punhal de feno no meu peito,
esta sílaba trémula, esta sombra fria,
que diz a cor do muro?

A terra tem aos ombros a folhagem
o mar ainda na distância
mas o clamor destes sinais proclama o animaldo fogo
os passos caminham entre as chamas e o apelo das ondas.

A terra é alta como o corpo e baixa
As casas cintiliam mas num contacto sólido
Em todas as estradas o sol caminha com os meus passos.
A folha é escrita como um paisagem
Ainda é o deserto e a noite é próxima!
Mas os sinais despertaram o lugar
onde o silêncio é a congregação da terra.

Escolho a clareira do corpo silencioso.
É um corpo que envolve o corpo.
Posso assinar o rosto deste corpo?
Os sinais sangram enfim e dizem terra.

Escrever é finalmente subscrever o ar das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.

Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.



António Ramos Rosa
As Marcas no Deserto






Livro de Bordo.




O cinema, num Portugal puritano era a nossa escola. O cinema transforma-se numa grande escola de civilização e de política, com os cine-clubes.
JOSÉ CARDOSO PIRES

em "Livro de Bordo",
filme de Manuel Mozos (1998)

terça-feira, 13 de abril de 2010

I don't know myself.


neither.



by Noé Sendas, 2005

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Single Man.





A Single Man
TOM FORD (2009)

: Pensamento Godard


(...)
Sea o no filosofía –Godard carece de sistema–, es pensamiento fuerte, bajo una forma sensible. JLG: "Un socialismo consistiría en que las personas llegasen a entenderse a partir de lo que han visto. Debe haber momentos de socialismo en el amor, cuando dos cuerpos entre sí no necesitan las palabras". El montaje es la posibilidad del Film Socialisme: reparar la injusticia de la separación de imágenes o separar las que estaban unidas injustamente, depreciar la jerarquía entre alta y baja cultura, no distinguir entre alta o baja definición. Es nuestra música, el elogio del amor: el cine es pensar sí, me daré la vuelta y nos iremos juntos. Es un territorio liberado.
Una imagen se puede cambiar: basta con rimarla a otra, a nuestra vida. Una imagen sólo existe cuando es percibida. Por eso, cuando JLG se apropia de un plano de Hitchcock o de un noticiario, es un plano hecho de nuevo por él. Es un reparto igualitario, una estética revolucionaria, la política del cine. El propietario de una imagen no es el que la hace, sino todo aquel que la mira.
(...)
in "Pensamento Godard", por Gonzalo de Lucas, Lavanguardia.es



As cores da espera.


O Recado
JOSÉ FONSECA E COSTA (1972)










“Speak—but keep yes and no unsplit.
And give your say this meaning: give it the shade.”

PAUL CELAN

quinta-feira, 1 de abril de 2010

a razão que fez nascer uma Malala Yousafzai