ZOO-SADISMO e cinema

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Le Sang Des Bêtes, Franju, 1949


"Auschwitz começa sempre que alguém olha para um matadouro e pensa: eles são apenas animais."
Theodor Adorno


Zoosadismo. Este é o termo técnico para o acto de infligir sofrimento sobre animais sem motivo justificável. Quantos filmes já vimos em que os animais são tratados de uma forma absolutamente vergonhosa?
Não continuariam todos estes filmes bons sem esta barbárie gravada?
Construímos os últimos milénios a saber que somos os predadores do topo da cadeia. Andar tudo isso até ao século XXI vale o deixarmo-nos destas sobrancerias de vez. Não somos nem assim tanto, nem assim tão diferentes. E andamos cá na vida tão pouco como a maioria dos animais. Não há qualquer legalidade moral em destruir vidas por espectáculo.

Foram principalmente alguns autores do género western a retratar uma violência  sobre os animais, legitimada como documento de uma prática ''à época'' - de forma tão explicitamente cruel que nenhum ''argumento de ancestralidade/ tradição'' o defenderia. Vimos o búfalo que esperneia em direcção à morte em The Man In the Wilderness; Vimos a chacina das galinhas nos filmes de Peckinpah, quinze atadas com explosivos para rebentarem em simultâneo - sendo a violência animal uma prática em vários dos seus filmes. Vimos os atentados vários de Cimino em Heaven's Gate, que alegadamente matou galinhas e sangrou cavalos para recolher sangue para caracterizar os actores e explodiu um cavalo com dinamite para uma cena de batalha que nem chegou a incluir no filme. Pelas mãos do mesmo realizador, vimos veados cadavéricos em The Deer Hunter, a morrer em close-up. Peckinpah e Cimino veiculam ideias de virilidade por via da violência contra os animais e, por melhores realizadores que sejam, não posso conceder que um grande filme realmente justifique qualquer uma dessas cenas, antes pelo contrário. Nunca será moral aquele que maltrata os animais. 
Adoro westerns, podia passar horas a tentar explicar porquê mas há, no género, para mim, uma fundação quintessencial da natureza: os recursos naturais são indispensáveis e no combate diário corpo-ambiente pela sobrevivência, a sua existência, é por isso, ostensiva (e é também pelo seu domínio que os homens se batem entre si). Existem da mesma forma para todos : o sol e o rio são os mesmos para o cowboy e para o índio, e um bom western como que deixa enunciar esta condição humana una no subtexto, para lá das especificidades do plot. Em simultâneo, uma imagem-chave : o cavaleiro ondula no grande horizonte em Cinemascope em direcção a um sol que cai. Esta pequena figura prossegue sempre, montada no cansaço de um cavalo que também resiste à travessia da aridez infértil do redor. Corpo humano e corpo animal em simbiose pela sobrevivência - um não continuará sem o outro, a água será indispensável a cada um, ou seja, existem perante leis materiais que os aproximam. Mas a deambulação deste homem afinal fala de consciência, fala de identidade : cumes e vales revolvem-se incessantemente por via de uma inquietude que é exclusivamente humana - há um ''eu'' sempre por encontrar. E se este emblema do western é eloquente em demonstrar essa superação do homem da sua condição animal, será sempre por isso que o western é sobre a constituição moral. E para o homem moral, a violência só é justificada por um princípio de justiça. 
E há um passado de injustiça para com os animais, praticadas no cinema. Fora do western, uma panóplia de cenas empesta o cinema com documentos de matanças e queimas de animais para consumo : um javali dependurado em Aquele Querido Mês de Agosto. Matanças e queimas do porco em Nana (Valerie Massadian), em Nós Por Cá Todos Bem (Fernando Lopes), A Caça (Manoel de Oliveira), Le Sang des Bêtes (Franju), etc etc 

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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