quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Seu Nome de Veneza.



Son nom de Venise
dans Calcutta Désert


MARGUERITE DURAS (1976)


“ As Philippe Lacoue-Labarte has pointed out, the (speculative) philosophy of tragedy, of representation, has remained, since the beginning, a theory of tragedy’s effect, of the catharsis of the “menace which the contradiction illustrated by the tragic conflict represented. Repetition has this effect – of heterotautology. Of interiorizing difference, contradiction, distance, making them self-same. Of converting contradictions into “metaphysical pytch and toss”, hurly by burly, fort by da, death by life, body by soul and so on and so forth. That is to say, into no movement at all, into similarity, the “at home” status of homeostasis. One may find this argument heimlich, and pleasurable for that, for it’s familiarity. There is certainly no disputing this effect - the “subject effect” , the “cathartic effect”, the “performative effect”: these eventual effects. And one may appreciate the advance of this argument which speaks in terms of forces, of knowledge in terms of relations of power rather than in terms of “true” or “false”; the foundation in psychoanalysis which also tells us that repetition is the reexperiencing of something identical, is a source of pleasure; the advance in considering language, rather than the body, as “the house of being”, language rather than biology as destiny. “

Joan Copjec, India Song / Son Nom ... - The Compulsion to Repeat


"... o que assusta e comove mais em Son nom de Venise, é o confronto entre a matéria (aquelas ruínas) e a imatéria trazida pelo som e pela memória. Dito de outra maneira, a memória está no som, não está na imagem. (...) É um filme duma "mise en scéne" da banda sonora, trabalhada como uma textura imensa, densa, hipnótica, voltada para dentro, feita de diálogos ou pedaços de diálogos, ruídos, e a espantosa música (a espantosa "canção da Índia") de Carlos d'Alessio: há um "terceiro filme" neste díptico Índia Song / Son Nom, que é essa construção sonora, que se diria possuir mesmo uma concepção de espaço, travellings e movimentos de câmara, elementos visuais. Só que esses elementos visuais - como a memória - surgem por alusão, "flashes" fantasmagóricos que o espectador sobrepõe aos planos das ruínas do palácio Rothschild."

Luís Miguel Oliveira
Só Marguerite foi assim capaz fazer nascer poesia. Acompanha-nos sempre Anne Marie Stretter, musa inspiradora, tão real quanto imaginada.

Esta adaptação é enigmática - sucedida entre as esculturas de feminino, construídas e destruídas em simultâneo entre aquelas ruínas do palácio Rothschild. 
Aposentos belos do abandono : ali, a memória de um tempo incerto, pela vida presente nas vozes que dialogam. Restituem-se aos países, aos lugares e aos objectos, os corpos respectivos que os entregaram à vida. Na gritante força de "Son Nom de Venise", pode ouvir-se a voz calada da defesa de Duras a lembrar que não há validade maior do que a pronunciação de um nome próprio, o símbolo último da presença humana, chave de desejo, marca de memória, recordação de amante. 
O Amor, ou o imparável elogio da presença. Ascender para lá de tudo o que é mundano. Há simplicidade nestas rotas geracionais que pairam :  em que o espelho pertencerá à juventude, o vestido à mulher, o salão ao baile, a boca à palavra, o romance ao corpo, o amor ao amado, a felicidade ao humano...
Silogismos quebrados um a um. Resta uma ideia de ontem,  este desamparo : brutal evocatória do que vai e não volta. Decomposição da beleza e da vida, pertubador chamamento de morte.

Sem comentários: