quarta-feira, 27 de julho de 2005

Algumas pessoas vendem o seu sangue. Tu vendes o teu coração.

Algumas pessoas vendem o seu sangue. Tu vendes o teu coração.
Era isso ou a alma.
A parte difícil é tirar a maldita coisa para fora.
Uma espécie de torção. Como abrir uma ostra, 
a tua espinha, um pulso, 
e depois, upa! Está na tua boca.
Viras-te parcialmente do avesso
como uma anémona do mar a cuspir um seixo.
Há um “plop”quebrado, o som 
de vísceras de peixe a cair num balde.
E ali está, um enorme coágulo vermelho escuro 
do passado ainda-vivo, a cintilar inteiro no prato.
Vai passando de mão em mão. É escorregadio.É deixado cair. 
Mas também degustado. Muito grosseiro, diz um. Muito salgado.
Muito amargo, diz outro, fazendo uma cara.
Cada um é um gourmet instantâneo, 
e tu ficas a ouvir isto tudo
a um canto, como um empregado de mesa recém-contratado, 
a tua mão tímida e habilidosa na ferida escondida
no fundo da camisa e peito, 
timidamente, sem coração.

Margaret Atwood



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