domingo, 17 de janeiro de 2010

LOLA / Avózinha



Sessão Dupla:

Programação

Vamos começar por descobrir esta estranha proporção que atravessa o mercado: Se há tantas curtas a serem feitas por essas escolas afora, e tantas longas a serem exibidas por esses cinemas afora, porque é que não há mais sessões duplas,  com curtas a abrir as longas nos cinemas comerciais?

Esta opção é rara e é, por isso, de assinalar quando acontece. Há muito tempo que não sentia tal acerto numa sessão dupla. A possibilidade vencedora está em cartaz nos Cinemas Monumental, desde 23 de Setembro. Aconselho pressa a quem tem vontade de assistir a uma programaçãobem pensada, articulando duas obras inteiras, cada qual prova da vitalidade actual do cinema. Refiro-me à conjugação da curta portuguesa de ficção A History of Mutual Respect (de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, 2010) com a longa de ficção Lola (do filipino Brillante Mendoza, 2010).
Alarga-se o aplauso, em coro com a crítica, à mais recente estreia de Mendoza, recentemente homenageado em Portugal com um ciclo retrospectivo decorrido entre 20 e 23 de Janeiro deste ano, na Culturgest. Sobre a obra de Abrantes e Schmidt, recentemente galardoada com o Leopardo de Ouro da secção de novos talentos do Festival de Locarno e com o Prémio Media Recording para Melhor Curta Metragem Portuguesa no IndieLisboa’10, escrevemos noutro lugar. 




LOLA
A força humana.






A 23 de Setembro, simultânea à estreia no circuito comercial de exibição, "Lola" foi ainda lançado em DVD, assim como "Kinatay", filme prévio da autoria de Mendoza, juntando-se no mercado do realizador disponível em Portugal a "Serbis"/"Serviços" de 2008. "Lola" integrou a selecção oficial do Festival de Veneza em 2009 e "Kinatay" ganhou o prémio para Melhor Realizador no Festival de Cannes.
Em "Lola", um acto supremo da ternura e uma prova de força de Brillante Mendoza, no seu melhor filme até aqui e uma das mais interessantes estreias do ano. "Lola" ( a palavra para avó em filipino) é uma experiência íntima, relatando o percurso de duas avós filipas que sofrem as consequências do mesmo crime: Lola Sepa perdeu o neto, que foi morto por um assaltante, Lola Puring é avó do suspeito, entretanto detido pela polícia. Não há como ficar indiferente a esta nova construção emotiva de Mendoza, que analisa sentimentos.


A LEI É DOS HOMENS
Afinal, essa Manila chuvosa segue um dia-a-dia difícil - aqui, luta-se pela sobrevivência. Em "Lola" como em "Kinatay", apesar da partipação cruel - e crucial, em cada qual dos enredos - dos organismos de jurisdição e controlo, elogia-se a força vinda do anonimato das ruas, nas travessias destinadas da gente anónima que se resolve nos seus rumos individuais, é vital.
Os percursos são acompanhados por uma câmara fluída que os documenta, e esta proximidade valoriza a intenção de Mendoza. Estamos  suficientemente próximos daquelas pessoas para as percebermos.

A VIDA PURAMENTE HUMANA
Mas se Lola Puring e Lola Sepa se assemelham nos rituais de fé ritual, a força constante que as guia  é real e testa os seus limites em provas concretas de resistência diária. Recordando os ditos agostinianos em "Cidade de Deus", a fé manifesta-se na força inteligível, descrita pela actividade na "Cidade dos Homens" onde os sábios levam uma vida puramente humana. Afinal, a procissão é a vida. 


RUAS SEM DEUS

Apesar de estarmos entre as paisagens naturais das suas Filipinas, não podemos evitar rememorar a cidade de Deus, terra onde Deus não habita. Lembramos o grafismo de Meirelles, o estado nem regra, onde a cada dia se desafia a preservação mais básica da existência pela lei da arma. 
Na cidade de Manila, as ruas assemelham-se. A criminalidade é permanente e uma constante clandestinidade civil não cessa em confundir os corruptos e os justos. É este o imperativo das circunstâncias. 

DUAS FIGURAS DE PERSISTÊNCIA
A força está no contraste: a persistência em cada uma contrapõe-se à debilidade física visível própria à idade. Perante esta condição, a superação improvável dos obstáculos torn-se tarefa de ainda maior admiração. São sábias pela idade - a experiência fez-se no nunca descansar da luta. A jornada é sustentada sempre por objectivos concretos, atrapalhando entre tarefas simultâneas que jamais sossegam estas matriarcas. Enquanto isso, a garra invisível do estado suspende-se e, indirectamente está sempre presente: há indícios de uma eventual intenção de amansar a revolta que as dificuldades convocam, através da propaganda política afixada nas ruas e dos programas dourados para dinheiro fácil que entopem a televisão e fixam quem não tem dinheiro em esperanças vãs.


ÁGUAS, DILÚVIOS, MILAGRES



Sermão de Santo António aos Peixes, Padre António Vieira, 1654


PREDESPOSIÇÃO PARA A LUTA
Entre a oscilação das águas e dos ventos, as constantes chuvas torrenciais e os restantes desastres naturais relatados, a natureza é protagonista. Os hábitos dos residentes adaptados a este permanente estado de alerta, criam uma predisposição herdada para a luta. Inundados pela estação das chuvas, os bairros de Manila cruzam-se pelas travessias dos barcos nas zonas mais pobres da cidade. As câmaras imparáveis de Mendoza têm a turbulência e a instabilidade destas águas, deste clima. 




A EMINÊNCIA DA MORTE
Por falta de recursos financeiros para pagar a advogados a quem confiar a resolução do caso comum, a entrecompreensão destas duas avózinhas - emotivas interpretações por duas divas do cinema filipino, Anita Lindo e Rustica Carpio - chega à verbalização de um acordo. A justiça faz-se dentro do entendimento das duas, cientes do grau cada um dos seus esforços se espelham nos da outra. São as duas avós, com pouco tempo de vida e, por isso, com pressa de resolver a questão - ao contrário do desesperante novelo burocrático. A competência oficial não serve as necessidades do real - Mendoza estabelece as bases anárquicas de uma auto-regulação civil.

QUANDO A SOCIEDADE É IMPEDITIVA
O impedimento da sociedade é a sua estratificação classicista e desnivelada. Como sempre, é o dinheiro o valor que rege fundamentalmente tudo. O que é dos que não o têm? Daí decorre o impedimento à participação plena na organização (injusta). As limitações são muros erguidos, altamente castradores para os que são postos à margem.

A MORAL INDIVIDUAL ULTRAPASSA A LEI JURÍDICA
Estes impedimentos da lei jurídica, do Estado, são a legitimação da lei moral, do Homem. A moral é intransmissível a a justiça acontece anonimamente, no interior de uma comunidade com características comuns.




A VIA DO MELODRAMA
A forma de Lola é a do melodrama. Assim nos chega, com a importância de uma parábola, digna de Dickens ou de Ford proximidade às rua e com indícios de uma realidade identificável, principalmente pelo público filipinos. Aí se estabelece um balanço ético entre as variações da necessidade humana de justiça e a desajustada burocratização dessa justiça entre organizações estatais que agem segundo a regra geral, descurando sempre as especificidades particulares de cada caso. A ironia máxima deste desajuste kafkiano revela-se na cena em que, perante um tribunal e após um epopeico enfrentar de toda a burocracia que não dominava, a avó não percebe o inglês usado para que o organismo jurídico comunique consigo.

"É um erro. Como é que um ser humano pode ser culpado. Nós aqui somos todos seres humanos, tanto uns como os outros." Kafka, in O Processo

LABIRÍNTICO
Na força divinizante destes vultos femininos, a burocracia combate-se pelo força universal de um chamamento insuperável, legitimado pela natureza geracional da maternidade. Uma ostensão do matriarcado, de conexão do feminino aos valores da paz e de preservação dos laços familiares, onde a razão das mulheres cuida, desculpa, salva e persuade os homens, independentemente dos seus erros. 

UMA AVÓ É UMA AVÓ
Uma avó é uma avó, aqui ou nas Filipinas. Com esta verdade universal por pano de fundo, acompanhamos mais de perto as intenções de avó. Somos a sua torcida. 

LABIRINTOS ONDE OS DIAS NÃO DESCANSAM
Somos essa espiral labiríntica, onde as ruas de Manila são o palco de um imparável ciclo de caminhadas, quantas vezes vãs ou redundantes. Relembro as jornadas de Sísifo de certas figuras femininas de Dardenne, determinadas apesar da fraqueza das possibilidades oferecidas pelo seu mundo: penso em Rosetta (1999), ou na figura que protagoniza Le Fils (2002); Lembro o peso dos dias de Wendy and Lucy (Kelly Reichardt, 2008), e ainda a inesquecível luta que faz ressoar as palavras de Gorky em A Mãe (Pudovkin, 1926), até hoje. A força primordial de uma mãe  - contra estados, partidos e ideologia. Se é uma ficção, LOLA sabe a verdade. O relato é interno, próximo, as situações onde são ainda reconhecíveis influências do estilo neo-realista italiano, a exemplo lembrando a interpretação eterna de Ana Magnani em Mamma Roma, fiel em ilustrar poderosamente a cultura cristã da maternidade. Duas mães em sacrifício, que abdicam de si e não desistem. Sobre esta relação imediata, Mendoza admite que "Já era realizador quando vi os filmes do neo-realismo italiano. Como espectador, antes de ser cineasta, não eram estes os filmes a que eu dava valor. Foi quando comecei a fazer filmes que percebi o que é que ali estava. E isso é algo que cresce connosco. Aquilo que é hoje o meu cinema é uma descoberta minha. Eu adorava ver os 'blockbusters' de Hollywood. Mas depois tive a sorte de ser verdadeiro em relação a mim próprio, de seguir os meus instintos, e assim desenvolvi a minha estética. Afastei-me do que gostava antes. É uma descoberta. De mim próprio".


The Mother, Pudovkin, 1926

Mamma Roma, Pasolini, 1962

Sem comentários: